sábado, 24 de setembro de 2016

Mulheres pregadoras - Andréa Nogueira dos Santos

Andréa Nogueira nasceu em Anápolis, porém foi criada na cidade de Goianápolis. Filha de lavradores, cresceu cooperando nas congregações rurais da Assembleia de Deus ligada ao ministério de Anápolis.

Na infância, nos cultos infantis, gostava de ser a pregadora da garotada. Tempos depois, começou a cantar na igreja fazendo dueto com a irmã Adriana. Conheceu o futuro esposo Osmair ainda adolescente. Casaram-se quando ela tinha 16 anos e logo veio o filho John Cristian para alegrar a casa.

A vida da jovem mãe poderia ter transcorrido normalmente como tantas outras mulheres da região. Na igreja, cantava com o marido e cooperava nos cultos e festividades. Em casa estudava a Bíblia e procurava bons livros para saciar a sede de conhecimento.

Andréa pregando: carisma e presença no púlpito

Talvez, percebendo o esforço e a chamada da jovem, o pastor da igreja José Pires Borges começou a dar-lhe as primeiras oportunidades para pregar. Chance que não desperdiçava e aproveitava ao máximo.

No ano de 2002, o casal gravou seu primeiro CD e em 2004, veio a transferência para Joinville, Santa Catarina. A mudança seria essencial para os rumos do ministério do casal e da pregadora.

Na cidade catarinense, começou a fazer o curso de bacharel em teologia pela manhã na Faculdade Refidim, onde era uma das únicas mulheres da turma. No período da tarde, voltava à instituição para estudar. Tamanho empenho atraiu a atenção dos líderes do seminário.

Contratada pela Refidim, Andréa desenvolveu alguns trabalhos até chegar a função de secretária. Concluiu o bacharelado em teologia, cursou secretariado-executivo e fez pós-graduação em aconselhamento cristão. Atualmente leciona na própria faculdade e é coordenadora de cursos na instituição. Está concluindo o mestrado em teologia pela Escola Superior de Teologia (EST), no Rio Grande do Sul.

Paralelamente, além de desenvolver ainda mais o ministério de louvor com a família, os convites para pregar se multiplicaram. Excelente oradora e de forte presença no púlpito, a goiana vence resistências históricas e culturais ao pregar em festividades, congressos e cultos dos mais variados departamentos das ADs.

Sabe que, como mulher, é um desafio constante a conquista por um espaço, onde há algum tempo só homens transitavam. Têm consciência, de que para uma mulher se destacar num ministério dominado por homens, ela precisa provar que possui muito mais conhecimento, carisma e presença de espírito nas preleções. Mas não se intimida com isso.

Percebe-se, que a família Nogueira trabalha sempre unida como uma equipe. Cada um tem o seu papel no ministério e o desempenha da melhor forma possível. Mas Andréa se destaca nas preleções. A cultura matriarcal dos goianos pesa muito na postura. No sul e nordeste, ao contrário do centro-oeste, a liderança feminina parece ser muito mais contestada.

Atualmente, dedica-se ao projeto Bíblia Mais. O objetivo dos vídeos postados regularmente com mensagens curtas e objetivas, é tratar temas teológicos de forma acessível ao grande público. Paulatinamente, Andréa ganha visibilidade e conquista seu espaço na seara evangélica.

Confessa ela, que a grande inspiração para o ministério veio dos avós maternos. O avô, pastor João Gomes de Lima e esposa lideraram várias igrejas no interior de Goiás. Experiências espirituais em Goianápolis, também previam o caminho hoje seguido pela família Nogueira.

Em uma denominação tão condicionada pela cultura da sociedade patriarcal, trajetórias como a da jovem goiana são exemplos de que as mulheres podem e devem lutar por seu espaço na denominação.

sábado, 17 de setembro de 2016

Minhas memórias - 1988, eleições e ressentimentos

O ano de 1988, foi um ano marcante politicamente para o Brasil. Promulgada no dia 5 de outubro, a nova constituição consolidou a transição política no país após 20 anos de ditadura militar. Chamada de "Constituição Cidadã", a nova carta magna ampliava direitos dos cidadãos brasileiros.

Naquele ano, ainda havia certa euforia pelo sucesso das eleições de 1986, quando as ADs conseguiram eleger vários representantes para a Assembleia Nacional Constituinte (ANC). Eleger em 1988, um representante para o legislativo municipal, seria apenas um passo natural e consequente do processo de despertar político da igreja.

Kennedy: candidato polêmico

Satyro Loureiro, na época pastor da igreja, lançou como candidato um dos seus principais auxiliares: o presbítero Adelor Francisco Vieira. Na verdade, o evangelista Francisco de Assis Meirinho também foi lembrado para a empreitada. Meirinho era um excelente pregador e ensinador, porém por questões familiares abriu mão da indicação em favor do amigo Adelor.

Nome conhecido na denominação e com formação universitária, Vieira atuou como professor e securitário na cidade. Na igreja, havia assumido as funções de superintendente geral do departamento da Escola Bíblica Dominical e diretor da Sociedade de Assistência Social e Educativa Deus Proverá (SASEDEP).

Mas, o "despertar" político na igreja, fez com que outros membros também almejassem o cargo de vereador. Satyro, matreiro como era, não quis correr riscos. Usou todo o seu apoio e influência para garantir a vitória do candidato oficial.

Por essa razão, os ressentimentos dos demais candidatos foi considerável. Para eles era uma disputa desigual. Afinal, Vieira tinha a máquina da igreja ao seu favor. Não dinheiro em si, mas visibilidade institucional e apoio pastoral explícito.

Um dos mais inconformados com a situação era um candidato de apenas 18 anos. Polêmico, o moço faria declarações no rádio com críticas severas ao pastor Satyro. Não seria a primeira eleição e muito menos as primeiras divergências do rapaz com a cúpula da igreja. O jovem, com nome de presidente e de família conhecida dentro das ADs, ainda persistiria na busca dos seus ideais políticos. Seu nome: Kennedy Nunes.

Adelor venceu com folga. Bem votado na cidade, o assembleiano atuou ainda na Secretaria de Desenvolvimento Social no mandato do prefeito Luís Gomes (1989-1993). Sabiamente pavimentou seu caminho para outras disputas. Chegou à Assembleia Legislativa de Santa Catarina e em 2002 elegeu-se deputado federal pelo PMDB.

Naqueles idos de 1988, a decepção com os candidatos oficiais ainda não havia começado. Encarava-se o processo de participação eleitoral como um total "benefício" para a igreja. Ledo engano...

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A rebelião feminina em Piedade (RJ)

Existem as mais variadas histórias na centenária Assembleia de Deus (AD). Algumas heroicas, outras dramáticas. Há memórias tristes de divisões, disputas de poder e jogo de interesses. Mas, também existem narrativas de pioneirismo, sacrifícios e amor à obra de Deus.

Entre tantas histórias, algumas são celebradas e outras esquecidas. Isso faz parte da construção da escrita memorialística: a seleção, edição, interpretação e o uso político dos fatos. É assim na história política e na eclesiástica também.

Nesta postagem, relembraremos um caso inusitado dentro da histórias das ADs. Um episódio que, obviamente jamais ficaria registrado na história "oficial" da denominação, a qual, diga-se de passagem, deve sempre estar voltada para a edificação do santos.

No mês de outubro de 1958, a congregação da AD em Piedade no Rio de Janeiro virou notícia no jornal Correio da Manhã (RJ). Sim, por meio de um periódico secular, os habitantes da cidade do Rio ficaram sabendo de uma inusitada "rebelião" das irmãs da igreja no bairro da zona norte carioca.

Correio da Manhã: notícia inusitada

Segundo a reportagem, os fieis da igreja reuniam-se no templo e o "culto desenvolvia-se sem novidades" com os hinos e orações costumeiras. A pregação da noite ficou sob a responsabilidade do pastor local Antônio de Oliveira.

Ao que tudo indica, o culto teria terminado dentro da normalidade, até que ao fim da mensagem, pastor Oliveira abordou o tema "O uso de adornos e a vaidade feminina". Usando tom "agressivo", exortava o obreiro às irmãs a "deixarem de usar jóias".

Conforme desenvolvia sua prédica, a irritação do público feminino aumentava. No auge da pregação, as assembleianas resolveram atender aos insistentes apelos do pastor. Mas não exatamente da forma como ele desejava: "não mais resistindo aos ataques, começaram a retirar os adornos, e em seguida à atirá-lo no seu guia espiritual".

Surpreendido pela fúria das irmãs, o corajoso obreiro "defendia-se de qualquer maneira, até que, esgotado o estoque de jóias, foi executado novo ataque, agora por intermédio de bíblias e outros objetos ao alcance de suas agressoras" - relatou o Correio. A revolta só terminou com a intervenção policial e de populares.

Geralmente, um jornal só registra o fato, mas não dá o seu contexto. É provável, que em outras oportunidades o nobre pastor tenha exortado daquela forma. Pode ter ocorrido (como acontece muito ainda nas ADs), que o distanciamento cultural e teológico do líder e dos fieis sobre o tema (e outros) ser muito grande.

A igreja, gradativamente tornou-se uma "panela de pressão". Explodiu! E as consequências foram as piores possíveis para a imagem da denominação. Foi um escândalo na visão dos assembleianos mais antigos. Mas quebra o mito da passividade das mulheres crentes diante da rígida imposição dos usos e costumes de santidade.

Mas é interessante notar a postura da igreja. Em 1958, pelo que se sabe, as ADs ainda eram marcadas pela rigidez da "doutrina". Estaria a AD em Piedade fora dos padrões assembleianos da época? Seria uma precursora das ADs atuais?

Quantas situações como essa ocorreram dentro da denominação? Quantas ainda acontecem? Quantos obreiros ainda conservam suas mensagens, administração e interesses totalmente divorciados das igreja que lideram?

Fonte:

Acervo digital da Biblioteca Nacional - Correio da Manhã, quinta-feira, 16 de outubro de 1958.

sábado, 3 de setembro de 2016

A ameaça dos comics nas Assembleias de Deus

Quando se fala das antigas proibições impostas pelas Assembleias de Deus (ADs) aos seus membros, logo vem à mente de muitos, as questões da estética feminina, trajes, uso do rádio e televisão.

Mas, principalmente nos anos de 1950, uma das preocupações crescentes da liderança assembleiana, era com à leitura por parte dos adolescentes e jovens dos comics*, as famosas Histórias em Quadrinhos (HQ) ou gibis.

Criada em fins do século XIX nos EUA, as HQs popularizaram-se na década de 1930, considerada a Era de Ouro do gênero na América do Norte. Segundo o historiador inglês Eric Hobsbawm, os comics com sua linguagem colorida, apelativa, direta, e de fácil compreensão popular, influenciou muito à escrita da época. Seus heróis fizeram sucesso durante a 2ª Guerra Mundial. Nos anos 50, surgiram os gibis de terror e crime gerando polêmicas sobre os valores propagados nas publicações.

Comics: perigo mundano para os crentes

Em 1954, o psiquiatra Frederic Wertham lançou o livro Seduction of the Innocent, onde observou persevões sádicas e homossexualismo nas HQs. Wertham, liderou então, uma verdadeira cruzada moralista nos EUA e culpou as revistas por incentivar a delinquência juvenil nas classes mais baixas da população, o uso de drogas e a prática de crimes. 

O caso foi parar no Senado, e como resultado da polêmica, num extremo gesto de repulsa, escolas e grupos de pais queimaram gibis publicamente. Algumas cidades criaram leis banindo os comics. O resultado foi a queda vertiginosa das publicações no país.

Talvez, não por acaso, a revista A Seara (edição maio/junho de 1957) dedicou uma interessante matéria intitulada Mães - Não Permitam Que Seus Filhos Se Envenenem com ISSO! Os "Comics São Nocivos -, na qual alertava sobre à leitura dos comics por conduzir jovens e adolescentes à delinquência, envenenando o intelecto e degenerando o caráter. 

Citando "personalidades credenciadas" sobre o assunto, a matéria destacava que "quase na sua totalidade", crianças envolvidas em crimes nos EUA eram leitoras vorazes dos temíveis gibis. Comparado por um estudioso ao "mau cinema" e com o contato "direto de jovens e crianças com grupos criminosos", os comics representavam uma séria ameaça à família cristã. 

Então, não era somente o rádio, e mais tarde a televisão que causava temor na formação moral e espiritual dos crentes. Os gibis também eram vistos como adversários de uma vida cristã pura. Na verdade, tudo o que fosse da cultura secular, era praticamente rejeitado. A vida em sua totalidade (sentimentos, pensamentos, leituras etc.) deveriam ser dedicados a Deus. Qualquer ameaça "mundana" seria rechaçada. 

É possível perceber essa postura sectária nas memórias dos antigos assembleianos e nas velhas recomendações pastorais. Na AD em Joinville (SC), um dos vários conselhos dados a juventude no ano de 1955, era a proibição à leitura de gibis "e outras literaturas semelhantes" consideradas prejudiciais à vida cristã. 

Como outros temas, hoje o assunto sobre a leitura dos comics foi superado. Não causa mais pavor e temeridade. Nossos jovens tem muitas mídias à disposição, e os gibis nem de longe representam um perigo. 

Atualmente, as ameaças dentro das ADs são outras... 

* Significado de Comics

1. Por definição, qualquer história em quadrinhos.
2. Histórias em quadrinhos produzidas nos Estados Unidos.
3. Histórias em quadrinhos no estilo de desenho característico dos estadunidenses.

Fontes:


HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

A Seara, edição maio/junho de 1957. 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Comics

sábado, 27 de agosto de 2016

Minhas memórias

O ano de 1986, foi um ano inesquecível e agitado: Plano Cruzado, Copa do Mundo no México e eleições para a Assembleia Nacional Constituinte. Hegemonia do PMDB na política nacional. Também era, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o Ano Internacional da Paz.

Neste ano, no dia 31 de agosto, tomei minha decisão de servir a Cristo na Assembleia de Deus (AD). Minha conversão se deu na pequena congregação do bairro Espinheiros em Itajaí. Visitava meus tios e avós, que há anos congregavam na AD e sempre evangelizavam à família. Contava com apenas 14 anos. Era um adolescente despertando para a vida.

Voltando a minha cidade natal, Joinville, comecei a frequentar a AD no bairro Costa e Silva. A congregação se reunia em um diminuto templo de madeira situado em cima de um pequeno morro, muito próxima à Igreja Católica.

Congregação do Costa e Silva na década de 1980

A igreja, na época, era liderada pelo pastor Satyro Loureiro. Satyro, aos 64 anos presidia a AD joinvilense pela segunda vez (a primeira entre 1953-57). Baixo, roliço, voz rouca, o veterano obreiro era um dos principais pastores da AD no Brasil. Suas mensagens, carregavam o peso das suas incontáveis experiências ministeriais. 

A AD ainda era muito conservadora em usos e costumes. Mas já estava vivenciando transformações. Nas congregações a doutrina era rígida, mas na sede havia uma elite social e teológica aspirando mudanças. Não demorou muito e as tensões cresceram, até que um grupo saiu da denominação para abrir seu próprio trabalho. Não precisa dizer que foram tachados de "rebeldes" e "mundanos".

Nacionalmente, as ADs mergulhavam de corpo e alma na política partidária. A justificativa: defender a liberdade de culto e a pregação do evangelho. Havia ainda o temor do perigo comunista a rondar a nação. Eleger irmãos escolhidos por Deus e pela igreja, era necessário para garantir nossos direitos na nova constituição.

Minha formação básica como assembleiano foi na Escola Bíblica Dominical (EBD). Ainda lembro da primeira lição que falava sobre o livro de Gênesis, escrita pelo pastor Geziel Gomes. Lia o Mensageiro da Paz com avidez, pois queria aprender. Nomes como Antônio Gilberto, Geremias do Couto, Elienai Cabral, Miguel Vaz, Claudionor de Andrade, Nemuel Kessler, Abraão de Almeida entre outros, logo se tornariam familiares.

Acompanhei alguns estudos bíblicos na sede. Obreiros e irmãos participantes anotavam as referências bíblicas em cadernos e apostilas. Os congressos de jovens eram antecedidos por grandes expectativas de avivamento.

O espaço do púlpito tinha uma espécie de cerca isolando os obreiros da congregação. Usava-se a sineta para administrar os cultos, e o presbitério ainda possuía força sendo consultado para questões administrativas.

Uma das lembranças mais marcantes, eram as visitas ao templo sede aos sábados para o culto de doutrina. Membros disciplinados ou excluídos tinham seus nomes lidos com o motivo do desligamento exposto publicamente.

Já se passaram três décadas. Muita coisa mudou, e nem poderia ser diferente. Não penso que os dias passados eram melhores, e nem que dias atuais são esplêndidos. Mas uma coisa é certa: as ADs absorveram muito dos valores seculares e dos modismos de outras denominações chamadas de neopentecostais. O pragmatismo religioso impera em muitos ministérios.

A visão de ministério, ao meu ver, também mudou. O nepotismo, que era exceção virou regra. Uma nova geração de obreiros, que vê a denominação como simples meio de vida e status social se apoderou dos cargos e das igrejas, trazendo incontáveis desvios morais e espirituais.

Lembro-me, que certa vez li no Mensageiro da Paz de 1989, um texto do saudoso pastor Estevam Ângelo de Souza do Maranhão. No artigo, ele previa como seria a AD no futuro. Pesava ele na balança os prós e contras do crescimento e como a igreja estaria caso se mantivesse fiel ou absorvesse a cultura secular. 

Quem sabe será tema de uma futura postagem...

sábado, 20 de agosto de 2016

Os crentes de Goiânia - duplo pioneirismo

Em outubro de 1933 começava à construção de Goiânia, futura capital de Goiás. Era o início da Marcha para o Oeste, plano do governo Vargas (1930-1945) para a colonização e povoamento da região Centro-Oeste do país. Segundo o jornalista Hélio Rocha, no jornal O Popular, esses acontecimentos fizeram parte de uma verdadeira "saga" iniciada em uma manhã "molhada de chuva e lavada de sol".

De todas as partes do Brasil vieram trabalhadores para erguer a cidade; edificando novas avenidas e palácios governamentais. Entre eles, estava um operário carioca, negro, de família numerosa e crente em Cristo, de nome Antônio Moreira.

Moreira, convertido na Assembleia de Deus em Madureira (RJ), era diácono da igreja e nas atividades laborais iniciou o trabalho de evangelização na futura capital de Goiás. Reunido com outros crentes do Rio, Antônio alugou uma casa na localidade do bairro de Botafogo para realizar os cultos da AD em Goiânia. Com o crescimento da igreja, Macalão designou o próprio Moreira para liderar a nova congregação. 

Crentes da AD em Goiás na década de 1930

Se, espiritualmente a obra desenvolvia-se, no plano material as coisas andavam mal na região. Entre os anos de 1934 a 1936, várias greves e paralisações ocorreram devido a falta de pagamento aos operários. Registros da época, contam que mais de 4 mil trabalhadores sofriam com a falta de recursos.

Da parte do governo de Goiás, os recursos financeiros eram parcos e a arrecadação insuficiente. Sem dinheiro para o salário dos trabalhadores, a administração estadual concedia autorizações para compra no comércio local. Mas, muitos comerciantes cobravam ágio para não perderem seus lucros devido a demora de ressarcimento do estado. 

Dificuldades de transporte dos materiais de construção e de abastecimento agravavam as dificuldades na heroica edificação da nova capital. Aliás, Goiás era nessa época, o antepenúltimo estado no ranking brasileiro de competição. Assim, o governo Vargas teve que intervir financeiramente para que o projeto não se inviabilizasse por falta de recursos.

Não por acaso, Costa ao falar dos pioneiros de Goiânia afirmou que eles "se dedicaram a uma missão de extraordinários sacrifícios". Entre eles, os primeiros pentecostais, em si, já imbuídos do sentido de urgência, sacrífico e amor pela evangelização.

Talvez por isso, com todo esse contexto em mente, Zélia Brito Macalão escreveu ao Mensageiro da Paz, informando que Antônio Moreira no princípio da obra pentecostal "lutou com bastante tribulações", mas em todas as provas ele compreendeu a importância de "obedecer aos Espírito Santo e tomar o rumo ao oeste".

Realmente, o modesto Moreira e os primeiros crentes de Goiânia, lançaram os fundamentos de uma igreja que conta atualmente com mais de 600 mil membros, ou seja, mais de 50% dos pentecostais em Goiás. Foram duplamente pioneiros em uma épica saga de desbravamento.

Fontes:

Hélio Rocha - O penoso desafio de 24 de outubro - O Popular - ano 77, nº 22.574 - Goiânia, sexta-feira, 23 de outubro de 2015, p.7.

Mensageiro da Paz, ano X, nº19, 1ª quinzena de outubro de 1940. Rio de Janeiro: CPAD.

http://www.oestegoiano.com.br/noticias/religiao/historia-quando-a-igreja-assembleia-de-deus-chega-a-goias

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Irmão Tavares - pioneiro da AD na Lapa (SP)

* Por Izadil Tavares de Castro


José Tavares de Castro gostava de ser conhecido como “irmão Tavares”. Nasceu no Estado de Alagoas, numa localidade chamada Barra do Canhoto, Alagoas, em 1910. De família católica tradicional, criou-se nos ditames daquela religião, mantendo-a até à idade adulta, quando já não se importava, de modo efetivo, com a vida espiritual. Era um católico por tradição familiar. Mudando-se de sua cidade natal, para Maceió; no ano de 1934, veio a conhecer o evangelho na Assembleia de Deus, onde decidiu tornar-se um discípulo de Jesus Cristo. 

O irmão Tavares manteve em toda a sua vida cristã um amor indescritível pela Palavra de Deus, e pela oração; não dispensava os Estudos Bíblicos, nem a Escola Dominical em sua igreja. Tornou-se um evangelista, levando a mensagem do evangelho por onde andasse. Costumava ter sempre consigo uma edição do Novo Testamento e Salmos, hoje relíquia com um dos seus netos. Ficou viúvo e pai de uma filhinha. 

Entre 1938 e 1940, mudou-se para a capital paulistana, indo residir no bairro da Lapa. Ali, casou-se em segundas núpcias com a irmã Zilda Sepúlveda de Castro, uma crente presbiteriana que estava a meio caminho do pentecostalismo. 

Naquele bairro, juntamente com outros irmãos como o pastor Constantino de Presbiteres, a irmã Isaltina Leite Banks, Antônio Lara e outros, o evangelista Tavares dedicou-se à abertura de um salão de cultos, na Rua John Harrisson, 45. 

O trabalho foi dirigido pelo casal de missionários americanos, Stalter e Luiza, os quais, retornando para os Estados Unidos, confiaram os trabalhos da nova igreja a Constantino e a José Tavares. Mais tarde, a igreja na Lapa passou às mãos do Ministério do Belém, um vasto campo em São Paulo, com sede na Rua Alcântara Machado 616, no Belenzinho. Aquela sede hoje está na Rua Conselheiro Cotegipe, 273. 

Assim, entre os anos 1945 e 1950, estava plantada a semente do grande trabalho assembleiano nas regiões oeste e norte, como em Vila Míriam, Vila Palmeiras e outros locais. 

Naquele salão, da Rua John Harrison, a igreja se reunia em cultos de oração e era grandemente perseguida pelos incrédulos, que jogavam pedras na porta de aço baixada. Havia próximo ao Largo da Lapa um ponto de carroceiros. 

Num dos cultos realizados ao ar livre, um carroceiro jogou o seu animal sobre a roda de crentes, mas o cavalo estancou no lugar em que estava, embora o homem o espancasse, até que um policial apareceu e o prendeu. Muitas almas foram resgatadas naqueles trabalhos! A igreja era extremamente simples, mas atuante. 

Alguns anos mais tarde, o pastor Daniel Tavares Beltrão, que à época pastoreava a igreja, iniciou a construção de um belo templo, inaugurado em agosto de 1954, na Rua Felix Guilhen, 227, vindo pastoreá-la o pastor João Alves Correa. Nesse local, a igreja lapeana funcionou por muitas décadas. A igreja, que está hoje em outro endereço, num enorme e moderno templo, é sede do setor. 

O irmão Tavares (gostava de ser chamado assim, porque nunca se apegou a títulos ou posições) deu início a um trabalho em Vila Carolina, na residência do casal Salomão e Rosinha. Aquele trabalho foi dirigido pelo pastor José Miguel (Zuza). Daquela pequena sala nasceu a grande igreja hoje instalada naquela região. Da casa de Salomão, a igreja crescente passou a se reunir num salão em Vila Palmeiras, próximo ao Largo do Jacó. 

José Tavares, que era funcionário público federal, pôde dedicar tempo ao evangelismo que tanto amava. Levou a mensagem salvadora às favelas da Barra Funda, onde ganhou grande número de almas para Cristo. Era homem de fé; mas não abandonava a oração e as boas obras; sempre atendendo aos crentes carentes de muitas coisas, principalmente de alimentos. Ele e a esposa levavam pessoalmente o socorro aos necessitados, quando não havia a facilidade de veículo próprio. Muita coisa era feita a pé! 

O irmão Tavares permaneceu firme em sua trajetória, vendo a obra de Deus expandir-se velozmente. Viu a grande igreja - que ajudara a implantar – com bandas de música, orquestras, corais, eficazmente dirigidos por maestros competentes como o pastor Arnaldo dos Reis Coelho, Eufrásio Nunes da Silva, entre outros, também de saudosa memória. 

O irmão Tavares criou os oito filhos nos caminhos do Senhor, sem descuidar da oração e estudo da Bíblia, com sua esposa e toda a família ao redor da mesa, no café da manhã. Partiu para a eternidade em maio de 1982, deixando um inesquecível e nome honrado de servo do Senhor.

* Izadil Tavares de Castro é pai de Carlos Alberto, Luís Roberto, Eneida Cristina e Camila. Mora em São Paulo. Consagrado ao Santo Ministério da Palavra, na Igreja Assembleia de Deus Bereana, em São Paulo. Foi membro atuante em "Os Gideões Internacionais" e na ADHONEP - Associação dos Homens de Negócio do Evangelho Pleno.É, pela graça de Deus, pregador do Evangelho de Cristo. É professor, autor e coordenador de material didático para a área de vestibulares e de concursos públicos; atua na área de aulas particulares para acompanhamento de vestibulandos e concursandos aos cargos públicos e escritor com livros publicados.