sexta-feira, 16 de junho de 2017

AD em Cordovil (RJ) - controvérsias e divisão em sua autonomia

No ano de 1959, o pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos em sua administração a frente da AD do campo de São Cristóvão, emancipou suas principais filiais no Rio de Janeiro. Receberam autonomia as congregações do Leblon, Lapa, Rio Comprido, Vila Isabel, Tijuca, Todos os Santos, Bonsucesso, Caetés, Olaria, Ilha do Governador, Penha e Cordovil.

"Tudo decorreu num ambiente da maior cordialidade, espiritualidade e compreensão" – informou o pastor Antônio Gilberto ao Mensageiro da Paz. Vasconcelos, porém, narra em sua biografia as razões concretas das emancipações: a instabilidade reinante entre o ministério da AD em São Cristóvão. Os dirigentes das congregações não prestavam contas e as cisões seriam inevitáveis. Para contornar a situação, organizou-se autonomias controladas no Rio.

Contudo, mais um fato iria contradizer às palavras de Gilberto. Durante o processo de emancipações, o líder da AD carioca não conseguiu conter uma grande divisão. No site da igreja em Cordovil há informações, que o então dirigente da congregação, presbítero Alexandre Ferreira "desejoso de ser independente" pediu sua autonomia. Mas a igreja sede não considerou "viável e entendendo que o momento não era oportuno, negou a pretensão" do obreiro.

Manifesto publicado no Diário de Notícias (RJ)

Negado o pedido veio o rompimento com São Cristóvão. Ferreira abriu outra congregação levando oitenta por cento dos membros consigo e fundou a AD Parada de Lucas. Só permaneceram ligados à matriz a maioria dos crentes dos pontos de pregação de Cordovil.

Outra fonte para se entender melhor o caso, é o manisfesto da congregação de Cordovil publicado no Diário de Notícias (RJ), no dia 24 de fevereiro de 1959. No documento, consta que o desejo de emancipação dirigido à sede foi feito no dia 25 de janeiro. Em reposta ao pedido de autonomia, Alcebiades aconselhou os membros a esperar "por mais algum tempo", pois seriam atendidos. Mas havia uma exigência dos crentes: a permanência de Ferreira na liderança da igreja.

Segundo o manifesto, o então pastor da AD em São Cristóvão prometeu no púlpito, perante toda a congregação a permanência do antigo dirigente. Mas Vasconcelos descumpriu a promessa e enviou outro obreiro para assumir à igreja. Com a visível discordância dos membros em aceitar à imposição do novo líder, houve ameaças de fechamento da igreja.

Pressionados, os membros apelam publicamente pelo jornal, apoio e intervenção de outras congregações para que a autonomia fosse concedida e que o presbítero Alexandre permanecesse na liderança. Afirmam ainda, não se tratar de um movimento rebelde ou indisciplinar, mas de "uma justa aspiração".

A publicação no Diário da Noite é bem anterior a Assembleia Geral Extraordinária em São Cristóvão realizada em 05 de maio de 1959, onde se decidiu pelas emancipações. Percebendo que a solicitação não seria atendida, obreiros e muitos crentes oficializaram a cisão nesse meio tempo.

Pode-se refletir sobre as causas das divergências. Alcebiades conta, que alguns presbíteros agiam com total independência. Pode ter sido o caso de Alexandre Ferreira. As autonomias seriam controladas e talvez o pastor-presidente sentisse que estava perdendo o controle da próspera congregação. Pode ter ocorrido mais algum fato que está submerso nas narrativas, o que não é incomum nas histórias assembleianas. Somente os crentes mais antigos sabem de todos os detalhes.

O certo, é que o clima de instabilidade era enorme nas ADs cariocas ligadas à Missão. Paralelamente, Macalão amarrava suas congregações com o famoso estatuto padrão. São Cristóvão com uma política de fragmentação, Madureira seguindo caminho contrário. Diferenças marcantes e estratégicas nos dois ramos assembleianos.

Fontes:

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de novembro de 1959.

http://www.admc.com.br/2014/nossa_historia.html

http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/ - Diário de Notícias, 24 de fevereiro de 1959, p.8.

sábado, 10 de junho de 2017

Assembleias de Deus – televisão e o reality culto

Implantada no Brasil em 1950, por obra do polêmico empresário e jornalista Assis Chateaubriand, a televisão foi anunciada como "o mais subversivo de todos os veículos de comunicação do século" – detalhou o escritor Fernando Morais, biógrafo do antigo dono dos Diários Associados.

Assim como o rádio, a televisão sofreu rejeição por muito tempo dentro das ADs no Brasil. No Dicionário do Movimento Pentecostal, há o registro sobre os primeiros debates sobre à nova mídia na CGADB de 1957. É possível que muitas das argumentações para o uso da TV na evangelização, assim como no caso do rádio e dos institutos bíblicos, estivessem a cargo dos missionários norte-americanos.

A entrevista do missionário Nels Lawrence Olson, na revista A Seara (edição maio/junho de 1957), meses antes da Convenção Geral realizada em Belo Horizonte é indicativo disso. "Devemos estar com as vistas voltadas para a televisão que rapidamente vem substituindo o rádio como meio de difusão"  – declarou o pioneiro dos programas radiofônicos nas ADs.

Silas: Imagem e espetáculo na TV

Mas, não era essa a visão da maioria dos líderes. Durante décadas a TV foi denunciada, rejeitada e condenada como instrumento do mal. O Mensageiro da Paz publicava na década de 1960, uma paródia do Salmo 23. Era o Canal 23, com a seguinte mensagem: "O Televisor é meu pastor meu crescimento espiritual faltará". O pastor Francisco de Assis Gomes criou até o termo "televisiolatria" para alertar sobre os (des) encantos do aparelho e suas programações.

Gradualmente, porém, as ADs absorveram a tão criticada mídia. Não de maneira uniforme é claro. Silas Malafaia, em 1981, no Rio de Janeiro iniciava o programa "Renascer". Em 1982, a AD em Belém (PA) transmitia o "Boas Novas no Lar". Contudo, a resistência à TV ainda era severa nas igrejas. Disciplinas e exclusões eram rotineiras por causa dela. E assim permaneceu durante muito tempo.

Mas a inserção dos assembleianos na TV gerou paralelamente adaptações, principalmente à linguagem televisiva. Segundo Ciro Marcondes Filho, o "espetáculo é a linguagem da televisão
– a única lógica possível à TV". Seguindo esse raciocínio, nomes de programas como o "Show da Fé", "Vitória em Cristo" ou "Impacto" são utilizados estrategicamente para dar sentido de grandiosidade as programações.

Dentro da mesma lógica, a estética também começou a ser importante para os televangelistas. Afinal, beleza e boa aparência é (quase) tudo na TV. Silas Malafaia é um exemplo claro: tirou o bigode e fez implante capilar para rejuvenescimento da imagem. Claudio Duarte seguiu o mesmo caminho. Samuel Ferreira fez cirurgia bariátrica e também ficou mais palatável aos telespectadores (não esquecendo possíveis questões de saúde no procedimento).

Nessa linha, os cultos transformaram-se em celebrações midiáticas da fé. As câmeras buscam as emoções do fiéis o tempo todo. Lágrimas, exclamações de louvor e gesticulações devem ser explorados ao máximo. Não é somente um culto, é uma transmissão televisiva e como tal é necessário ter estética e linguagem apropriadas. Atrair ao público que está em casa é fundamental.

Fica a pergunta: o que é espontâneo ou superficial nos cânticos, pregações e orações quando as câmeras estão focadas no público? Muitas vezes ele se vê no enorme telão e sabe que tudo irá para a telinha. Quem não gosta de ficar bem na imagem reproduzida no espelho ou tela? Estariam os crentes sentido-se num verdadeiro reality culto?

Outro ponto importante: os altos custos com os programas de televisão atualmente justificam as mais esdrúxulas formas de arrecadações de fundos. Pode-se afirmar, que o uso da mídia televisiva abriu as portas para a teologia da prosperidade nas ADs. Realmente a TV foi subversiva...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

FILHO, Ciro Marcondes. Televisão, a vida pelo vídeo. São Paulo: Moderna, 1988.

MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. A vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

http://piaui.folha.uol.com.br/materia/vitoria-em-cristo/

http://istoe.com.br/138157_UM+PASTOR+MODERNO+ENTRE+OS+RADICAIS/

sexta-feira, 2 de junho de 2017

AD em Santos - arrebatamentos e desentendimentos

As posições e práticas do pastor da AD em Santos, Paulo Alves Corrêa foram muito mal recebidas pelos líderes assembleianos em 1997. A entrevista publicada pela revista A Seara, além de causar muitos debates, provou desgaste ao líder santista.

Tempos depois, os comentários negativos sobre as manifestações da "nova unção" forçaram a diretoria da Convenção dos Ministros das Assembleias de Deus no Estado de São Paulo e Outros (COMADESP), a agendar uma reunião no templo sede da AD santista no dia 20 de fevereiro de 2004.

O então vice-presidente da Convenção, José Ezequiel da Silva, ao abrir o encontro, expressou seu respeito ao líder da igreja, mas reconhecia que as controvérsias em torno dos estranhos acontecimentos estavam fora do controle. Prejuízos ao ministério e a COMADESP eram inevitáveis.

Pastor Corrêa: reunião tensa com a COMADESP

Pastor Ezequiel ressaltou, que mesmo sendo um assunto interno e de exclusiva competência da AD local, o tema estava sendo tratado devido a má repercussão à imagem da COMADESP e a suposta ligação da AD santista com o pastor Ouriel de Jesus. Desligado da CGADB por questões doutrinárias, Ouriel provocou intensos debates dentro das ADs, devido as exóticas manifestações místicas em sua igreja em Boston (EUA).

Em sua defesa, o pastor Corrêa salientou que orava por um avivamento com salvação de almas, curas e batismo no Espírito Santo. Rechaçou sua ligação com a AD em Boston, mas admitiu ser amigo pessoal do pastor Ouriel. Inclusive lhe franqueou o púlpito em Santos, não observando heresias em sua pregação. Contou ainda, que ao visitar a AD em Boston não percebeu nenhuma anormalidade na liturgia.

Sobre as visões de anjos na igreja, o líder santista afirmou não censurar tais visões , mas simplesmente ouvia as experiências. Questionado sobre as afirmações de que alguns membros da igreja eram arrebatados e falavam com mortos, Paulo deu a mesma resposta. Era de uma passividade total.

Um dos casos mencionados, foi a de um pastor, que ao ser arrebatado pediu ao anjo para ver seu falecido filho. Imediatamente, o mensageiro celestial trouxe o menino para ser abraçado pelo pai. Os relatos, no entendimento dos obreiros beirava a necromancia.

Nesse ponto, o pastor Paulo recebeu a solidariedade de outro conhecido líder assembleiano: Walter Brunelli. Brunelli socorreu o colega ao contar que sua própria esposa ao ser arrebatada aos céus havia abraçado o apóstolo Paulo, Abraão, Moisés e Daniel. Saindo em defesa dos arrebatamentos, o pastor de Vila Mariana (SP), declarou que a influência dos teólogos tradicionais afastou os pentecostais das experiências sobrenaturais.

Paulo Corrêa, em sua defesa, citou o livro Diário do Pioneiro. Na obra, Gunnar Vingren narra experiências sobrenaturais (levitação), mas nem por isso era considerado herege. Contrariado, não acatou sugestões de publicar uma nota no Mensageiro da Paz esclarecendo os fatos controversos na igreja em Santos. Descartou tal hipótese, pois para ele seria alimentar mais especulações.

Sentindo-se pressionado pelo ministério e desgastado com as controvérsias que se arrastavam há anos, Paulo Corrêa deixou abruptamente a reunião alegando indisposição. Era o auge das controvérsias iniciadas com a entrevista dada por ele à revista A Seara em 1997.

Assim, mais uma igreja histórica das ADs caminhava para a ruptura com a CGADB por conta de fatores doutrinários e políticos. Um brusco desentendimento do líder santista, filho de um pastor que presidiu a CGADB por três vezes, com a cúpula estadual e nacional da denominação.

Pioneira no estado de São Paulo, a AD em Santos logo sofreria cisões e outros ministérios receberiam milhares de seus membros.

sábado, 27 de maio de 2017

Rio 40 graus – Alcebiades no Distrito Federal

"Rio 40 graus/Cidade maravilha/Purgatório da beleza e do caos" – A música é de 1992, e faz referência, não só à temperatura média da cidade, mas também aos seus encantos naturais e, infelizmente, a constante situação de violência e abandono da sua população.

No final da década de 1950, o pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos sentiu ministerialmente a elevada temperatura das ADs no antigo Distrito Federal. Internamente, sérias questões com o presbitério de São Cristóvão; externamente, desentendimentos com o líder da AD em Madureira, Paulo Leivas Macalão.

Convidado oficialmente por telegrama pela igreja de São Cristóvão, Vasconcelos conta que foi surpreendido com sua indicação à presidência da igreja pelo presbitério em 21 dezembro de 1957. Percebeu à força do ministério carioca naquele mesmo dia.

Segundo conta em sua biografia, o missionário sueco Nels Nelson, então pastor da igreja, implorou: "Irmão Alcebiades, por favor aceite, porque caso contrário vai ser muito pior". Ao assumir, o experiente obreiro já havia feito à leitura da situação. Tinha diante de si um presbitério "todo-poderoso, que decidia pela igreja" e do qual ele deveria ser "100% dependente".

Conforme foi visto na última postagem, instabilidades ministeriais e administrativas e a inevitável fragmentação, levou o pastor da AD no Rio a propor autonomias controladas das congregações de São Cristóvão. Mas algumas cisões aconteceram e fortes acusações de Vasconcelos possuir "sentimento divisionista" foram feitas por um obreiro. 

É interessante notar, que o veterano pastor nas narrativas sobre sua passagem pela "Cidade Maravilhosa", enfatize mais os problemas e tensões, do que possíveis realizações do seu pastorado. A temperatura eclesiástica era alta no Rio.

Foto rara: casal Macalão e Alcebiades em viagem ao exterior

Paralelamente, Alcebiades teve sérias divergências com o líder de Madureira, Paulo Leivas Macalão. Em estudos no Mensageiro da Paz, escritos pelo pastor de São Cristóvão, há criticas ao líder de Madureira com sua concentração de poder ao ser nomeado "pastor geral" do campo.  Quase um "papado pentecostal brasileiro"– alfinetou. 

Obviamente, Macalão não deve ter gostado das observações. Dizem os mais antigos, que instalou-se um clima de animosidade entre os ministérios. Não havia mais cooperação entre as igrejas. A CGADB de 1959, realizada do Rio foi o auge das divergências. Alcebiades nessa convenção, teria exigido, por motivos não esclarecidos, à exclusão do pastor Paulo. Tentando contornar o mal-estar, o missionário Nels Nelson trabalhou nos bastidores para apaziguar os ânimos e propor mudanças.

Conta Vasconcelos, que durante os tumultos no Rio de Janeiro, nas constantes lutas com o presbitério, sentiu desejo de trabalhar na obra missionária. Evangelizar e abrir novas igrejas era menos desgastante do que lidar com os obreiros do seu ministério. Porém, tudo leva a crer, que o embate com Macalão, também contribuiu para sua transferência.

Ironicamente, depois de ir para terras bolivianas, passar por outras igrejas e pela própria CPAD, o experiente obreiro tenha, três décadas depois, sido eleito à presidência da CGADB, justamente contra uma chapa de Madureira. Não só isso: sua gestão foi marcada por sérias desavenças com o líder de Madureira, Manuel Ferreira.

A passagem de Alcebiades foi curta e intensa no antigo Distrito Federal. Realmente, o Rio 40 graus com toda a sua beleza, foi um "purgatório" para o antigo líder.

Fonte:

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de novembro de 1959.

Crédito da foto: Alcebiades Sobrinho - Manaus (AM).

domingo, 21 de maio de 2017

Bastidores das autonomias das ADs no RJ

Em julho de 1959, os leitores do Mensageiro da Paz, foram informados sobre uma considerável reformulação administrativa na Assembleia de Deus em São Cristóvão (RJ), promovida na gestão do pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos.

Segundo o responsável pelas novas divulgadas no jornal, o pastor Antônio Gilberto, à cúpula da AD carioca, com o objetivo de "promover maior incremento na difusão do Evangelho e, progresso geral da obra de Deus", realizou sua Assembleia Geral Ordinária, onde "deliberou outorgar autonomia a doze de suas principais congregações, transformando-as em igrejas". Ainda, conforme Gilberto, "Tudo decorreu num ambiente da maior cordialidade, espiritualidade e compreensão".

"A história oficial, seja religiosa, seja política" escreveu o saudoso poeta, jornalista e pastor Joanyr de Oliveira, é em parte "uma grande farsa". Quatro décadas depois, Alcebiades contaria em sua autobiografia o contexto das autonomias dadas as congregações de São Cristóvão. E pelo relato, não teve nada de "cordialidade" ou "espiritualidade" nas decisões.

Alcebiades e família: passagem difícil pelo RJ

Vasconcelos assumiu a AD no Rio de Janeiro em janeiro de 1958. Foi o primeiro pastor brasileiro da AD carioca em mais de três décadas da existência da igreja. Logo percebeu, já em sua nomeação à presidência, que conviveria com um presbitério forte. Experiente, sabia que em tais circunstâncias, suas ações seriam limitadas e controladas pelo ministério local.

Constatou com desagrado a total independência administrativa dos dirigentes das principais congregações da AD da Missão. Eles compravam, vendiam, compravam, assinavam documentos e tudo mais, sem pedir consentimento à sede. Paralelamente, disciplinavam, reconciliavam e batizavam sem comunicar ao pastor-presidente da igreja.

Para seu desespero, ao final do mês, os obreiros das congregações não prestavam contas na tesouraria central. Com pagamentos obrigatórios vencendo, Alcebiades pedia aos pastores Nels Nelson, Marcelino Margarida e José Pimentel de Carvalho que percorressem às congregações em busca de recursos para quitação das dívidas.

Ao tentar controlar os mandos e desmandos dos presbíteros, Vasconcelos teve que enfrentar à saída de dois obreiros objetivando dividir suas congregações. Criou-se um clima de instabilidade e os acontecimentos foram o alerta que faltava para o experiente pastor. Dedicou-se então a estudar um plano de autonomia das filiais. A emancipação seria seguida da organização de uma convenção para dar suporte as obras sociais da igreja.

Ao apresentar o plano de autonomia o ministério de dividiu: Nelson e José Pimentel foram contrários. Marcelino Margarida, Moisés Malafaia, Álvaro Cardoso e Joaquim Ferreira apoiaram o projeto. Nels Nelson consulta o sueco Samuel Nyström, e este por sua vez apoiou a proposta. Formou-se um certo consenso entre os principais pastores.

Para "surpresa" de Vasconcelos, reunido o presbitério, houve o consentimento do plano. Conta o reverendo, que nessa reunião ele "foi considerado" um "enviado de Deus" para estabelecer o projeto. Mas a alegria durou pouco. Em outra reunião de presbíteros, Alcebiades foi acusado (sem ninguém contradizer o acusador) de possuir "sentimento divisionista" e que encaminhava a igreja para a "desagregação".

Desgastado com as oposições, na última reunião de presbitério, Vasconcelos renuncia ao cargo. José Pimentel de Carvalho é eleito o novo pastor da igreja. Porém, no culto administrativo houve um grande tumulto e novas votações. Alcebiades é reconduzido ao posto e consegue aprovar as autonomias. Ao fim da confusão, quatro presbíteros saíram da reunião dispostos a dividir as congregações que lideravam.

Ao ler o Mensageiro da Paz, mal sabiam os crentes das discórdias escondidas debaixo do discurso produzido pelas fontes oficiais. Até hoje isso continua assim. Mas a internet e as redes sociais modificaram esse quadro. 

Outras polêmicas ocorreram no processo das autonomias. Fica, porém, para as próximas postagens...

Fonte:

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de julho de 1959, p. 8.

sábado, 6 de maio de 2017

José Wellington – "não contavam com a minha astúcia"

"Como é que nós perdemos o Belém para aquele menino? Onde é que nós estávamos?". Teria sido esse o comentário dos principais líderes das Assembleias de Deus no Brasil, ao perceber que o comando do Ministério do Belém em 1980, foi para o "menino" José Wellington Bezerra da Costa, na época com 45 anos idade.

Talvez, o vice-presidente do Belenzinho tenha sido subestimado, ou quem sabe, simplesmente encarado como um concorrente secundário na disputa. Mas a história mostra, que José Wellington não possui perfil para ser coadjuvante.

Radicado na cidade de São Paulo desde 1954, Costa iniciou uma bem sucedida carreira de comerciante. Quase ao mesmo tempo ingressou no ministério. Dirigiu congregações, setores, secretariou a AD no Belém por uma década e em 1973, foi escolhido para ser vice-presidente do campo.

JW: não contavam com a minha astúcia 

Uma leitura atenta na biografia de José Wellington, escrita pelo jornalista Isael de Araújo, é suficiente para notar que na condição de vice-presidente, o jovem pastor soube construir apoios e alianças dentro do ministério, possibilitando sua ascensão à presidência do Belém.

Exemplo disso, é um caso relatado sobre uma possível desvinculação das igrejas do Mato Grosso do Belém. Wellington viaja até a região e convence seus pastores a desistir do intento. Posteriormente, já como presidente do Ministério, ele dá autonomia aos campos eclesiásticos. Percebe-se as possíveis negociações de bastidores e a conquista de simpatias estratégicas do futuro sucessor de Cícero.

Paralelamente, conforme a saúde de Cícero deteriorava-se, alguns líderes de destaque das ADs frequentavam o Belém de olho na sucessão. Companheiros de Wellington "o aconselhavam para tomar cuidado". Contudo, o maior obstáculo as pretensões do vice subir mais um degrau na hierarquia da igreja, seria à família do próprio Cícero.

Por motivos desconhecidos, familiares do veterano pastor eram contra o vice-presidente. Desejavam que o pastor João Alves Corrêa assumisse à igreja. Desde 1962 na liderança da AD em Santos, Corrêa articulava nos bastidores para assegurar o Belém para si. Via inclusive em José Wellington um aliado para seus intentos. Mas o cearense tinha outros planos e alianças para superar os concorrentes.

Nos relatos da sucessão há versões conflitantes e contradições. Na biografia, evidentemente Wellington se esforça para amenizar os fatos. Conta, para se legitimar, que Cícero ao ser questionado sobre o sucessor afirmava: "Deus já me deu o homem" e ele "está trabalhando comigo". Mas na hora decisiva, Canuto entrou com o pastor João Alves Corrêa na igreja para fazê-lo presidente do Ministério.

Só não conseguiu o intento, porque o seu vice já havia lhe esvaziado o poder. Ao apresentar o pastor João Alves para ser o novo líder, Cícero obteve simplesmente, o silêncio da congregação e dos seus obreiros. Um constrangimento para o velho "timoneiro". Experiente, percebeu a situação e declarou: "não estou mandando em mais nada".

Por esse motivo, em sua histórica entrevista à Folha de São Paulo em 1982, Cícero declarou que Costa "teria assumido a presidência da Assembleia de Deus sem seu consentimento, sendo aclamado pela assembleia de pastores". Constatação correta, pois o poder já havia lhe escapado das mãos.

Mas, a transição não seria de forma alguma pacífica. Logo após a posse de Wellington em janeiro de 1980, um documento registrado em cartório, circulou convidando os "Irmãos Pastores das Assembleias de Deus no Brasil" para uma reunião na sede do Belém. O texto, assinado por Cícero, trás à acusação de que o vice-presidente teria passado por cima de "preceitos estatutários" na eleição da diretoria no 1º dia do ano.

Ainda, segundo a circular, Costa teria no dia 06, transformado o culto de ceia em assembleia geral, "constituindo-se presidente da igreja" destituindo Cícero "indevidamente do Pastorado" e das "funções de Presidente Vitalício". Interessante, que alguns anos antes, em determinado momento de tensão com Wellington, Cícero o acusou de fazer a mesma coisa na congregação de Indianópolis. Era uma postura que o ancião realmente não tolerava.

Mas, o pioneiro estava com a saúde fragilizada. Há desconfianças, de que os familiares de Cícero estivessem articulando a reunião para enfrentar o ministério. Porém, na já citada biografia, está a declaração de que a escolha de José Wellington pela igreja "desagradou os principais líderes veteranos das Assembleias de Deus em São Paulo". A família do pioneiro não estava sozinha no intento.

Um desses líderes inclusive, teria enviado, ao que tudo indica, a tal carta para a CGADB contestando a escolha do vice-presidente. Informações de bastidores apontam João Alves Corrêa, pretendente ao trono e diretamente prejudicado com à sucessão como o autor da missiva. Corrêa na verdade, foi atropelado pela astúcia do futuro presidente da CGADB.

O perigo de uma reviravolta, parece só ter sido debelada com a morte do velhinho em 1982, quando os pastores do Belém divulgaram um documento "manifestando total apoio" e "reafirmando o reconhecimento" de que José W. Bezerra da Costa era verdadeiramente o legítimo sucessor de Cícero Canuto de Lima.

Firmado como presidente do Belém, o cearense logo disputaria em 1983 à presidência da CGADB. Perdeu para o líder de Madureira, Manuel Ferreira. Seria eleito vice-presidente em 1987, na chapa encabeçada por Alcebiades Vasconcelos. Mas, Alcebiades faleceu no ano seguinte. A história em seguida é bem conhecida: José Wellington não têm vocação e nem perfil para ser coadjuvante.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Ministério do Belém – candidatos à sucessão

A década de 1970, seria decisiva para a Assembleia de Deus - Ministério do Belém (SP). Em 1973, o "timoneiro" Cícero Canuto de Lima faria 80 anos de idade e um clima de expectativa se formava em torno da sucessão.

José Wellington, comenta em sua biografia, que o pastor Joaquim Marcelino da Silva, na época influente líder das ADs em São Paulo, manifestou preocupações com à sucessão ao próprio Cícero. Mas o veterano desconversava, não alimentava polêmicas e negava-se a apontar diretamente um herdeiro ministerial.

Comenta-se nos bastidores, que um dos grandes favoritos para suceder o pioneiro, seria o pastor Eliseu Feitosa de Alencar. Amazonense de Lábrea, Alencar destacou-se na década de 1960 na evangelização dos povos indígenas em Roraima. Em 1964, divulgou esse trabalho na CGADB em Curitiba (PR), e "ganhou a simpatia, confiança e apoio do pastor Cícero de Lima" – segundo o próprio José Wellington.


Cícero e alguns candidatos à sucessão (JW sentado à direita)



Em 1965, convidado por Cícero, Alencar transfere-se para o Belém. Nesse tempo, um grupo de pastores do ministério, desconfiados das histórias de evangelização dos indígenas, prepararam um dossiê denunciando a suposta farsa. Demonstrando apreço ao obreiro, Cícero de Lima não aceitou as acusações, causando uma crise no ministério.

Porém, não seria o objetivo do dossiê, mais do que o desejo de transparência, a obstrução do nome de Eliseu à sucessão ministerial? Intenções à parte, o plano não deu certo. Todos os pastores envolvidos na preparação do documento foram transferidos para o interior. José Wellington, na época não era obreiro sustentado pela igreja, mas ficou sem atividades durante um ano no ministério.

Pressões e hostilidades foram contantes contra Eliseu de Alencar. Havia, conforme os mais antigos membros, uma bem articulada rede de difamações contra ele. Talvez por isso, sentindo-se impossibilitado para se efetivar como sucessor de Cícero, ele aceita voltar a Campo Grande (MS) em 1970, deixando o caminho livre para outros pretendentes. Em 1972, rompeu com o Belém. Fato que causou um profundo desgosto e decepção no antigo protetor.

O ministério tinha mais alguns candidatos. Pastores mais antigos como Odilon Issa Karam, Manoel Bezerra e Antonieto Grangeiro Sobrinho, poderiam estar no páreo. Grangeiro inclusive, havia exercido à presidência da Junta Executiva da CGADB na década de 1960. Contudo, os "cardeais" do Belém apoiaram José Wellington na hora decisiva.

Também eram potenciais candidatos os dois últimos vices de Cícero: João Alves Corrêa e João Pereira de Andrade Silva. Corrêa estava em Santos desde 1962, mas distante da capital foi atropelado pelos acontecimentos. João Pereira em 1973, convencido por seus pares, ou por problemas internos, trocou à vice-presidência do Belém pela direção da CPAD no Rio de Janeiro. Era um a menos na disputa...

Com tudo isso, abriu-se o caminho para o então secretário da igreja, o pastor José Wellington Bezerra da Costa. Alçado em 1973 a condição de vice, Wellington sabia muito bem que o poder se conquista. Experiente e bem sucedido comerciante, o cearense precisaria de muita paciência, ousadia e jogo de cintura para chegar ao topo.

Por fim, muitos estavam de olho nos derradeiros anos do "timoneiro". Queriam herdar o leme da grande embarcação chamada Ministério do Belém. Os próximos lances da sucessão seriam decisivos. Sairia do controle até do próprio Cícero.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

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