sábado, 22 de julho de 2017

Madureira - o bairro sede do Ministério

"Em termos de importância, Madureira está para o subúrbio assim como Copacabana está para a zona sul. Guardadas algumas diferenças, é nesses bairros que tudo acontece e de tudo se vê." 
(Leda Costa - professora e pesquisadora dos subúrbios cariocas)

"Censurado" e "incompreendido" na AD em São Cristóvão, Paulo Leivas Macalão no auge da sua juventude partiu a evangelizar os subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, em 1926. Logo toda a região de Realengo, Bangu, Campo Grande, Santa Cruz e Marechal Hermes seria alcançada com a mensagem pentecostal.

Em 15 de novembro de 1929, Macalão iniciou oficialmente a AD no bairro de Madureira, na Zona Norte do Rio. O trabalho começou na residência de um crente e depois foi transferido para pequenos salões comerciais conforme a congregação se desenvolvia, até que veio a mudança para um prédio próprio. Em 1941, a igreja de Madureira obteve personalidade jurídica e passou a ser a sede do Ministério, anteriormente localizado em Bangu.

A transferência do Ministério foi acertada. Madureira crescia velozmente impulsionado pela localização estratégica, sendo passagem através dos ramais ferroviários as diversas regiões dos subúrbios. Não por acaso, o bairro é conhecido como "Coração da Zona Norte" do Rio.

Bairro de Madureira década de 1950: "Capital do Subúrbio"

O bairro já era nesse tempo muito movimentado devido ao funcionamento desde 1914, do Mercadão de Madureira. Ampliado em 1929, o estabelecimento impulsionava o crescimento da região. Outro fator de grande importância era a presença das Escolas de Samba Portela (1923), e Império Serrano (1947), as quais trouxeram ao local o título de "Berço do Samba".

Os subúrbios contavam com uma população em sua maioria composta por "negros, ex-escravos, operários, imigrantes (na maioria nordestinos)". Uma gente excluída do centro da cidade pelo famoso “Bota Abaixo” e das reformas modernistas do prefeito Pereira Passos. Nesse contexto social, a congregação de Madureira expandia-se conforme o ritmo do bairro. 

Macalão sempre foi visionário e ao mudar a sede de Bangu para Madureira, o filho do general deu maior visibilidade ao Ministério por ele liderado. Estratégia e aposta numa igreja promissora e de grande potencial, agora instalada na "Capital do Subúrbio", onde "tudo acontece e de tudo se vê".

A importância da igreja aparece nas páginas do Mensageiro da Paz, na 1ª quinzena de agosto de 1935, quando Zélia Brito Macalão envia notícias na seção Na Seara do Senhor – espaço no periódico para informar sobre as atividades pentecostais pelo Brasil – onde Madureira é citada juntamente com Bangu no título da matéria. Ou seja, a congregação já era de grande visibilidade.

Em 1937, o escritor Diomedes de Figueiredo Morais, na Revista Rio Ilustrado, ao observar as transformações aceleradas na região constatava: "Madureira cresce assombrosamente". Era do bairro que ele falava, mas bem que poderia ser o sobre o Ministério. Em poucos anos, o pastor Paulo já tinha sob seu controle congregações na cidade, no estado do Rio, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás e São Paulo.

Assim, a famosa "Capital do Subúrbio", "Berço do Samba" ou "Coração da Zona Norte", seria o centro de um grande Ministério Interregional das ADs no Brasil. Luz de salvação para milhares, sombra de preocupação outros...

Fontes:

acervo.oglobo.globo.com

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

LUIZ, André. História da Assembleia de Deus em Bangu – 2006 – Edição do Autor.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Madureira_(bairro_do_Rio_de_Janeiro) 

Madureira e Pelourinho: consumo e representação de comidas típicas em festas populares. Adelaide Chao e João Maia. UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 

https://www.bn.gov.br/noticia/2015/07/rio-450-anos-bairros-rio-madureira

terça-feira, 18 de julho de 2017

Ensino Teológico nas ADs – conflito e superação

No dia 21 de julho de 2017, defendeu a dissertação de mestrado intitulada Da objeção ao reconhecimento: conflito e superação na constituição da Educação Teológica formal nas Assembleias de Deus no Brasil – Faculdade EST/São Leopoldo (RS), o pastor Orlando Martins. Nela, o pesquisador revisita a história dos embates entre as lideranças nas questões da instrução teológica nas ADs.

Para alguns, essa problemática pode estar superada, mas Orlando destaca que, mesmo com a abertura das ADs ao conhecimento teológico formal, ainda "dentro de seus arraias eclesiásticos" há resistências, "principalmente por aqueles que advogam mais a favor da importância da Experiência Religiosa do que a favor da Educação Teológica"   afirma o jovem pastor e teólogo.

Para embasar suas considerações, Martins fez amplo levantamento documental e bibliográfico, os quais "comprovam o conflito que houve entre a missão sueca, contrária a fundação de institutos bíblicos  e a missão americana, que apoiava a fundação destes institutos".




Embates que duraram décadas, mas ainda não superados, pois eles aparecem nas escolhas e práticas dos obreiros assembleianos na atualidade. Martins destaca na dissertação uma entrevista do pastor Antônio Gilberto, teólogo e consultor doutrinário da CPAD, onde ele reclama da falta de apoio, disposição e patrocínio dos líderes aos ensinadores pentecostais.

Partindo de um respeitado mestre assembleiano, Orlando afirma que o "relato do pastor Antônio Gilberto retrata a falta de incentivo à Educação Cristã". Não só isso. Fica em evidência nas ordenações ao ministério a preferência ao preletor que "se destaca mais por envolver a Igreja com sua oratória, do que por apresentar um sermão com profundidade bíblica,  o que para muitos, "dá sono", ou seja, não gera espiritualidade."

A realidade, segundo o estudioso, é que "apesar de hoje haver um grande incentivo para que os obreiros estudem Teologia, e de ser um dos pré-requisitos para a ordenação de um obreiro, ainda falta muito apoio não somente dos pastores, mas da comunidade de modo geral."

Membro e pastor auxiliar da Assembleia de Deus Mais de Cristo (ADMC) em Florianópolis, Orlando Martins é Coordenador dos Cursos Teológicos da igreja fundada pelo pastor Júnior Batista em 2007, portanto, tem vasta experiência na área e conhecimentos significativos para defesa da dissertação.

A ADMC, apresenta-se como herdeira do chamado "Pentecostalismo Clássico", mas sem a ênfase nos usos e costumes. Nas questões educacionais, a igreja tem "identificação com as ADs, e com o chamado modelo americano, pois valorizam a Educação Teológica Formal."

O trabalho acadêmico do escritor e jornalista Orlando Martins, só comprova o quanto as chamadas "temporalidades históricas" estão presentes nas ADs. Ou seja, em pleno século XXI, com tantas transformações estéticas e tecnológicas dentro da denominação, a antiga mentalidade sobre o estudo teológico ainda resiste. É a herança sueca, o legado que ainda persiste.

sábado, 15 de julho de 2017

Ministério de Madureira - a gênese em Bangu

Madureira, um dos Ministérios mais conhecidos e polêmicos das Assembleias de Deus no Brasil, fundado pelo mítico pastor Paulo Leivas Macalão, curiosamente teve sua origem em outro bairro da periferia da cidade do Rio de Janeiro: Bangu.

Segundo alguns pesquisadores, Macalão, "censurado e incompreendido" e sentindo-se sem espaço na nascente e promissora igreja carioca surgida no bairro de São Cristóvão, Zona Norte, em 1924, partiu para evangelizar as áreas afastadas do centro do Rio. A história mostrou que nessa missão, o jovem obreiro foi extremamente competente e exitoso.

Antiga sede do Governo Imperial e próximo ao centro da cidade, São Cristóvão, na época em que a AD ali foi implantada no Rio, reunia a maior parte das industrias da cidade e concentrava quarteis e instalações militares. Tal era a importância estratégica da nova congregação, que Gunnar Vingren deixou o pastorado da igreja em Belém do Pará com objetivo de consolidar o trabalho pentecostal em terras cariocas. 

Por isso, a decisão do moço pareceu "precipitada" para muitos. Localizado entre os enormes maciços da Pedra Branca e do Medanha, Bangu era uma região isolada geograficamente. Não sem razão, o pastor Alípio da Silva em 1954, no Mensageiro da Paz, descreveu o esforço de Macalão "trilhando estradas pedregosas e hostis".

Inauguração do templo da AD em Bangu em 1933






















Deixar São Cristóvão, e aventurar-se naquela localidade de difícil acesso, percorrendo longas distâncias e com grandes fazendas, não seria aconselhável naqueles épicos dias. Anda mais para um rapaz de classe média, boa educação e de família militar.

Mas, suportando o tradicional calor da região, observando o contraste entre os ricos sitiantes e os moradores do pobres casebres, o futuro pastor, munido do seu violino "alteraria profundamente o perfil da igreja do Rio de Janeiro"  destacou com razão o pastor e historiador André Luiz.

Porém, nesse tempo, o cenário do bairro se transformaria. Sede da Companhia Progresso Industrial de Brasil (Fábrica Bangu) e contando com o Bangu Atlético Clube em plena atividade, a área verde cederia lugar rapidamente à concentração urbana. Os moradores da vila operária, construída pela principal empresa da região e a vinda de trabalhadores de outras partes da cidade, eram alvos do constante esforço evangelístico de Macalão.

Assim, em 1926, iniciava a "grande arrancada evangelística" do pastor Paulo por toda a região de Realengo, Bangu, Campo Grande, Santa Cruz e Marechal Hermes. No dia 1º de janeiro de 1933, o "incompreendido" auxiliar em São Cristóvão inaugurou o primeiro templo de alvenaria construído no antigo Distrito Federal.

Não seria a primeira e nem a última vez, que o gaúcho faria história no pentecostalismo no Rio de Janeiro e no Brasil. Os planos de expansão eram grandes e pouco mais de um ano antes da inauguração do templo em Bangu, mais precisamente no dia 15 de novembro de 1929, Macalão iniciaria o trabalho da congregação no bairro Madureira, na Zona Norte.

Logo, a nova igreja teria grande importância entre as ADs cariocas. E seria conhecida em todo o Brasil. Benção para alguns, desconforto para outros.

Fontes:

acervo.oglobo.globo.com

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

LUIZ, André. História da Assembleia de Deus em Bangu – 2006 – Edição do Autor.

Mensageiro da Paz, 1ª semana de julho de 1954.

terça-feira, 4 de julho de 2017

CGADB e CONAMAD - unidos na perpetuação do poder

Após meses de intensa batalha judicial, polêmicas e de uma conturbada eleição online, assumiu no dia 03 de julho, o novo presidente da CGADB, o pastor José Wellington B. da Costa Júnior. Duéto (como é conhecido popularmente Costa Júnior) é filho primogênito do atual e longevo pastor José Wellington Bezerra da Costa.

A cerimônia de posse da Mesa Diretora, contou com a presença de mais de 10 mil pastores no futuro templo sede da AD Ministério do Belém (SP). Políticos como o Ministro da Fazenda Henrique Meirelles e líderes das ADs de todo o Brasil, testemunharam em clima de grande emoção, a transmissão de pai para filho do cargo de presidente.

Prestigiou também o evento, a figura marcante do bispo Samuel de Cássio Ferreira, Presidente Executivo da Convenção Nacional da Assembleia de Deus - Ministério de Madureira (CONAMAD) e líder da AD no Brás em São Paulo.

Samuel de Cássio Ferreira "Costa": apoio a Duéto

A presença de Ferreira foi de grande simbolismo. Diplomado recentemente como bispo em cerimônia muito criticada nas redes sociais, Samuel exaltou a família Costa e expressou sua admiração pelo antigo rival do seu pai e dizia se sentir em casa na Igreja do Belezinho.

Ironicamente, Manoel Ferreira e José Wellington protagonizaram uma acirrada disputa pela presidência da CGADB em 1983. Em 1989, com José Wellington na condição de Presidente da Convenção Geral e Ferreira como Presidente da CONAMAD, Madureira foi suspensa dos quadros da instituição.

Samuel externou seu apoio ao antigo e ao recém empossado líder da Convenção Geral. Afirmou considerar-se filho do casal Costa. Seu nome seria Samuel de Cássio Ferreira "da Costa". Contou que o Ministério de Madureira acompanhava em oração o momento delicado que passava a CGADB. E que a CONAMAD, não aceitaria de forma alguma, um pastor que levou a igreja as barras dos tribunais.

Sobre questões judiciais Madureira tem vasta experiência. Igrejas antes filiadas ao Ministério, conseguiram na justiça se desvincular do mando Ferreirista. Por isso a empatia do bispo e aliado. Outro ponto importante: apoiar a transição da família Costa é legitimar a si mesmo, pois Samuel herdou do pai à liderança da CONAMAD.

Emocionado, o pastor José Wellington também leu uma carta aberta aos convencionais. Nela defendeu seu nome e o seu ministério. Refutou as acusações de fraude nas eleições. Declarou que fraudadores são os que levam a igreja aos tribunais e dividem campos, os que não respeitam os votos, os mais velhos e deixaram a cruz pela mídia. Ao fim foi ovacionado pelo público presente.

É claro que uma boa parte dos ministros ligados a CGADB discordam do pastor Costa. A posse de Duéto ainda não é o fim da batalha judicial. Mas, por enquanto, algumas pessoas diretamente ligadas o status quo assembleiano respiram aliviadas.

Uma coisa é certa e evidente: a cúpula da CONAMAD e da CGADB, décadas atrás dividida, uniu-se na perpetuação do poder.

* Com a colaboração de Leandro Limas Lopes (SP)

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Flagrantes da cerimônia de diplomação dos novos bispos em Madureira

A Assembleia de Deus - Ministério de Madureira mais uma vez faz história. Na noite de do dia 27 de junho de 2017, em Brasília na Catedral Baleia foram diplomados os novos bispos da igreja. Além do reverendo Manoel Ferreira, Madureira tem agora como bispos os pastores Samuel e Abner Ferreira, Oídes José do Carmo, Abigail Carlos de Almeida e Daniel Fonseca Malafaia. Como toda novidade, a iniciativa é elogiada por uns e criticada por outros. Exotismo ministerial? Legitimação de ministérios? Nas redes sociais o espanto é enorme. Vai render muito ainda...



O beija-mão é uma tradição de reverência a personalidades eminentes, praticada em várias culturas desde tempos remotos. Na cultura lusófona suas origens são medievais, sendo um costume da monarquia portuguesa em Portugal depois herdado pela corte imperial brasileira. O beija-mão era uma cerimônia pública em que o monarca se colocava em contato direto com o vassalo, o qual, depois da devida reverência, podia aproveitar a ocasião para solicitar alguma mercê. A cerimônia tinha grande significado simbólico, lembrando o papel paternal e protetor do rei, invocava o respeito pela monarquia e a submissão dos súditos. (Fonte: Wikipédia)



sexta-feira, 16 de junho de 2017

AD em Cordovil (RJ) - controvérsias e divisão em sua autonomia

No ano de 1959, o pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos em sua administração a frente da AD do campo de São Cristóvão, emancipou suas principais filiais no Rio de Janeiro. Receberam autonomia as congregações do Leblon, Lapa, Rio Comprido, Vila Isabel, Tijuca, Todos os Santos, Bonsucesso, Caetés, Olaria, Ilha do Governador, Penha e Cordovil.

"Tudo decorreu num ambiente da maior cordialidade, espiritualidade e compreensão" – informou o pastor Antônio Gilberto ao Mensageiro da Paz. Vasconcelos, porém, narra em sua biografia as razões concretas das emancipações: a instabilidade reinante entre o ministério da AD em São Cristóvão. Os dirigentes das congregações não prestavam contas e as cisões seriam inevitáveis. Para contornar a situação, organizou-se autonomias controladas no Rio.

Contudo, mais um fato iria contradizer às palavras de Gilberto. Durante o processo de emancipações, o líder da AD carioca não conseguiu conter uma grande divisão. No site da igreja em Cordovil há informações, que o então dirigente da congregação, presbítero Alexandre Ferreira "desejoso de ser independente" pediu sua autonomia. Mas a igreja sede não considerou "viável e entendendo que o momento não era oportuno, negou a pretensão" do obreiro.

Manifesto publicado no Diário de Notícias (RJ)

Negado o pedido veio o rompimento com São Cristóvão. Ferreira abriu outra congregação levando oitenta por cento dos membros consigo e fundou a AD Parada de Lucas. Só permaneceram ligados à matriz a maioria dos crentes dos pontos de pregação de Cordovil.

Outra fonte para se entender melhor o caso, é o manisfesto da congregação de Cordovil publicado no Diário de Notícias (RJ), no dia 24 de fevereiro de 1959. No documento, consta que o desejo de emancipação dirigido à sede foi feito no dia 25 de janeiro. Em reposta ao pedido de autonomia, Alcebiades aconselhou os membros a esperar "por mais algum tempo", pois seriam atendidos. Mas havia uma exigência dos crentes: a permanência de Ferreira na liderança da igreja.

Segundo o manifesto, o então pastor da AD em São Cristóvão prometeu no púlpito, perante toda a congregação a permanência do antigo dirigente. Mas Vasconcelos descumpriu a promessa e enviou outro obreiro para assumir à igreja. Com a visível discordância dos membros em aceitar à imposição do novo líder, houve ameaças de fechamento da igreja.

Pressionados, os membros apelam publicamente pelo jornal, apoio e intervenção de outras congregações para que a autonomia fosse concedida e que o presbítero Alexandre permanecesse na liderança. Afirmam ainda, não se tratar de um movimento rebelde ou indisciplinar, mas de "uma justa aspiração".

A publicação no Diário da Noite é bem anterior a Assembleia Geral Extraordinária em São Cristóvão realizada em 05 de maio de 1959, onde se decidiu pelas emancipações. Percebendo que a solicitação não seria atendida, obreiros e muitos crentes oficializaram a cisão nesse meio tempo.

Pode-se refletir sobre as causas das divergências. Alcebiades conta, que alguns presbíteros agiam com total independência. Pode ter sido o caso de Alexandre Ferreira. As autonomias seriam controladas e talvez o pastor-presidente sentisse que estava perdendo o controle da próspera congregação. Pode ter ocorrido mais algum fato que está submerso nas narrativas, o que não é incomum nas histórias assembleianas. Somente os crentes mais antigos sabem de todos os detalhes.

O certo, é que o clima de instabilidade era enorme nas ADs cariocas ligadas à Missão. Paralelamente, Macalão amarrava suas congregações com o famoso estatuto padrão. São Cristóvão com uma política de fragmentação, Madureira seguindo caminho contrário. Diferenças marcantes e estratégicas nos dois ramos assembleianos.

Fontes:

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de novembro de 1959.

http://www.admc.com.br/2014/nossa_historia.html

http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/ - Diário de Notícias, 24 de fevereiro de 1959, p.8.

sábado, 10 de junho de 2017

Assembleias de Deus – televisão e o reality culto

Implantada no Brasil em 1950, por obra do polêmico empresário e jornalista Assis Chateaubriand, a televisão foi anunciada como "o mais subversivo de todos os veículos de comunicação do século" – detalhou o escritor Fernando Morais, biógrafo do antigo dono dos Diários Associados.

Assim como o rádio, a televisão sofreu rejeição por muito tempo dentro das ADs no Brasil. No Dicionário do Movimento Pentecostal, há o registro sobre os primeiros debates sobre à nova mídia na CGADB de 1957. É possível que muitas das argumentações para o uso da TV na evangelização, assim como no caso do rádio e dos institutos bíblicos, estivessem a cargo dos missionários norte-americanos.

A entrevista do missionário Nels Lawrence Olson, na revista A Seara (edição maio/junho de 1957), meses antes da Convenção Geral realizada em Belo Horizonte é indicativo disso. "Devemos estar com as vistas voltadas para a televisão que rapidamente vem substituindo o rádio como meio de difusão"  – declarou o pioneiro dos programas radiofônicos nas ADs.

Silas: Imagem e espetáculo na TV

Mas, não era essa a visão da maioria dos líderes. Durante décadas a TV foi denunciada, rejeitada e condenada como instrumento do mal. O Mensageiro da Paz publicava na década de 1960, uma paródia do Salmo 23. Era o Canal 23, com a seguinte mensagem: "O Televisor é meu pastor meu crescimento espiritual faltará". O pastor Francisco de Assis Gomes criou até o termo "televisiolatria" para alertar sobre os (des) encantos do aparelho e suas programações.

Gradualmente, porém, as ADs absorveram a tão criticada mídia. Não de maneira uniforme é claro. Silas Malafaia, em 1981, no Rio de Janeiro iniciava o programa "Renascer". Em 1982, a AD em Belém (PA) transmitia o "Boas Novas no Lar". Contudo, a resistência à TV ainda era severa nas igrejas. Disciplinas e exclusões eram rotineiras por causa dela. E assim permaneceu durante muito tempo.

Mas a inserção dos assembleianos na TV gerou paralelamente adaptações, principalmente à linguagem televisiva. Segundo Ciro Marcondes Filho, o "espetáculo é a linguagem da televisão
– a única lógica possível à TV". Seguindo esse raciocínio, nomes de programas como o "Show da Fé", "Vitória em Cristo" ou "Impacto" são utilizados estrategicamente para dar sentido de grandiosidade as programações.

Dentro da mesma lógica, a estética também começou a ser importante para os televangelistas. Afinal, beleza e boa aparência é (quase) tudo na TV. Silas Malafaia é um exemplo claro: tirou o bigode e fez implante capilar para rejuvenescimento da imagem. Claudio Duarte seguiu o mesmo caminho. Samuel Ferreira fez cirurgia bariátrica e também ficou mais palatável aos telespectadores (não esquecendo possíveis questões de saúde no procedimento).

Nessa linha, os cultos transformaram-se em celebrações midiáticas da fé. As câmeras buscam as emoções do fiéis o tempo todo. Lágrimas, exclamações de louvor e gesticulações devem ser explorados ao máximo. Não é somente um culto, é uma transmissão televisiva e como tal é necessário ter estética e linguagem apropriadas. Atrair ao público que está em casa é fundamental.

Fica a pergunta: o que é espontâneo ou superficial nos cânticos, pregações e orações quando as câmeras estão focadas no público? Muitas vezes ele se vê no enorme telão e sabe que tudo irá para a telinha. Quem não gosta de ficar bem na imagem reproduzida no espelho ou tela? Estariam os crentes sentido-se num verdadeiro reality culto?

Outro ponto importante: os altos custos com os programas de televisão atualmente justificam as mais esdrúxulas formas de arrecadações de fundos. Pode-se afirmar, que o uso da mídia televisiva abriu as portas para a teologia da prosperidade nas ADs. Realmente a TV foi subversiva...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

FILHO, Ciro Marcondes. Televisão, a vida pelo vídeo. São Paulo: Moderna, 1988.

MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. A vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

http://piaui.folha.uol.com.br/materia/vitoria-em-cristo/

http://istoe.com.br/138157_UM+PASTOR+MODERNO+ENTRE+OS+RADICAIS/