domingo, 10 de setembro de 2017

Presbíteros - o ministério da resistência

Toda denominação religiosa possui sua hierarquia. As ADs, ao longo dos anos cristalizaram a sua: cooperador/auxiliar, diácono, presbítero, evangelista e pastor. Atualmente, em alguns ministérios outras nomenclaturas foram admitidas como a de apóstolo, bispo (a) e pastoras.

Cooperador, diáconos e presbíteros dentro da denominação, caracterizaram-se por serem ministérios voltados para a igreja local, enquanto que evangelistas e pastores tem seu foco mais no contexto regional ou nacional das ADs. Mas é o presbítero ou o presbitério, o alvo das maiores controvérsias na história da AD, tanto teologicamente como administrativamente.

O historiador Maxwell Fajardo, em seu livro Onde a luta de travar, destaca que os presbíteros (chamados anciãos nos primeiros tempos), na CGADB de 1933, foram autorizados a ministrar os sacramentos antes efetuados somente pelos pastores, no caso unção dos enfermos e batismo nas águas. Era a padronização das atividades do presbitério entre as diversas ADs espalhadas pelo Brasil.

Nelson e Nyströn com o presbitério da AD em São Cristóvão (RJ)

Na mesma década, o missionário sueco Nils Kastberg, em um artigo publicado no Mensageiro da Paz, em 1936, defendeu a necessidade de mais presbíteros para a igreja. O sueco também argumentava, que o presbíteros deveriam atuar como pastores, pois a única diferença entre eles era o fato do pastor ser um "presbítero de tempo integral".

Com o passar do tempo, porém, a Convenção Geral colocou por interesses ministeriais, a função de presbítero em submissão ao pastor local. Enquanto Kastberg propunha (em tese) a limitação e a divisão do poder pastoral com o presbitério, as deliberações da CGADB restringia o acesso destes obreiros ao poder administrativo.

Mesmo com divergências sobre as funções dos presbíteros, o certo é que ao chegar em determinadas igrejas, presbitério era sinônimo de "problemas" para muitos pastores. Podia o grupo de obreiros contrapor os poderes dos pastores e interferir na administração local.

Caso emblemático foi o da AD em São Cristóvão (RJ) na década de 1950, a mesma anos antes liderada por Kastberg. Alcebíades Vasconcelos, ao assumir a igreja carioca conta em sua biografia, que se deparou com um "presbitério todo-poderoso", o qual comandava a igreja e do qual deveria ser "100% dependente".

Aliás, Vasconcelos criticou essa interferência do colegiado de obreiros comparando-o com o "sinédrio judaico". Em sua gestão em Manaus entre 1972/88, diante de problemas com alguns presbíteros, Alcebíades, após estudos bíblicos para justificar a decisão, extinguiu o cargo.

Em outros ministérios as coisas foram diferentes: com o crescimento das igrejas, o presbitério foi de certa forma "vulgarizado". Relaxou-se as exigências bíblicas para a separação dos presbíteros, gerando ordenações em grande número. Tal ação, diluiu o poder do colegiado e facilitou o controle por parte do pastores-presidentes dos obreiros (pastores, evangelista e presbíteros) sustentados diretamente pelas igreja locais.

Nas igrejas menores, o presbitério ainda concentra determinada força, pois o pastor não dispõe de tantas alternativas para contrapor o poder desses obreiros. Como disse um saudoso pastor catarinense, antigamente, o presbítero era visto como um "coronel" com grande influência sobre os membros na congregação.

Mas hoje, há para os líderes das ADs um perigo maior que o antigo presbitério. É o membro consciente dos seus deveres e direitos, com formação jurídica e intelectual, o qual simplesmente contesta os mandos e desmandos do pastor. Por não depender financeiramente da igreja, e desfrutar de considerável prestígio social, esse tipo de membro não é facilmente cooptado com cargos ou privilégios.

É o poder do presbitério "reencarnado" e o fantasma de muitas administrações eclesiásticas.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

AD em Curitiba - "nada há de novo debaixo do sol"

Muitos acreditam, que a chamada “política eclesiástica” é algo recente dentro das ADs no Brasil. Porém, alguns casos “esquecidos” da história oficial, revelam práticas e situações de tensão na busca pelo poder.

O pastor José Pimentel de Carvalho, ex-presidente da CGADB declarou certa vez, que assumiu a liderança da AD em Curitiba, em 1962, em um momento muito delicado. A igreja estava dividida, em crise, e contra sua vontade deixou a cidade do Rio de Janeiro para pastorear na capital paranaense.

Mas, por qual divisão e crise a igreja passava? No site oficial da AD curitibana, há uma menção sobre dificuldades ministeriais no ano de 1952, quando "um pequeno grupo de dissidentes deixou a igreja”. Indício de dificuldades futuras e de tensões no seio da denominação?

Matéria do Última Hora (PR)

O certo, é que antes da efetivação do longevo pastor Pimentel, a denominação teve três pastores em pouco mais de quatro anos. Delfino Brunelli (1957-1959), Daniel Tavares Beltrão (7 meses) e Agenor Alvez de Oliveira (1960-1962). Percebe-se, que por alguma razão, a instabilidade havia se instaurado na "Cidade Sorriso".

Sobre a mudança de Pimentel para o sul, o site da AD curitibana apenas narra que ele a “convite do pastor Agenor Alves de Oliveira, em 6 de março de 1962, transferiu-se para Curitiba onde assumiu a presidência da Assembléia de Deus." 

Contudo, entre a saída definitiva de Agenor e a posse de Pimentel, a igreja vivenciou uma polêmica eleição para a presidência com dois candidatos conhecidos dos membros: o pioneiro sueco Charles Leonard Simon Lundgren, e o pastor Alfredo Reikdal.

Lundgren, havia liderado a AD curitibana entre 1942 a 1955. Reikdal por sua vez, era genro do fundador da igreja, o pastor Bruno Skolimovski, o qual teve duas importantes passagens por Curitiba. A primeira como organizador da denominação pentecostal na capital do Paraná entre 1929 a 1939. Posteriormente, Skolimovski volta como substituto do próprio Lundgren entre 1955 a 1957.

Dois fortes candidatos para tentar acabar com a instabilidade, e representantes de tendências políticas e ministeriais na AD Local. Mas, por conta da rivalidade, o que seu viu, foi uma agitada disputa. Reikdal, na época, já era pastor na AD no bairro do Ipiranga em São Paulo. Além de ser genro do fundador da igreja, a família dele fazia parte do núcleo dos primeiros assembleianos em Curitiba. Em 1939, Alfredo foi separado para o ministério pastoral pelo próprio sogro. 

Assim, ao abrir as páginas do jornal Última Hora (edição Paraná) no dia 21 de fevereiro de 1962, causou espanto aos curitibanos, ao se depararam com a seguinte matéria: Politicagem na Igreja Provoca Descontentamento Entre os Fiéis. Segundo o periódico, circulava na cidade um "curioso impresso propugnando a candidatura do sr. Alfredo Helkedal [sic] para pastor-presidente" da AD em Curitiba.

No panfleto, Reikdal enumerava dez razões para os membros da AD o escolherem (vide imagem). Declarando-se jovem, espiritual, doutrinador, idealista, imparcial e de moral elevada, o candidato também afirmava que não concederia privilégios aos "filhos", "apadrinhados" ou "afilhados" na igreja.

Para o Última Hora, o método de campanha ao cargo era de fazer "inveja aos políticos”. O clima de acirrada disputa descambou para uma eleição conturbada. Os partidários dos candidatos tumultuaram a votação no templo central de Curitiba, com direito até ao reforço policial para garantir a ordem. 

Logicamente, tentou-se apagar da memória institucional toda a confusão. Na biografia de Reikdal tal episódio sequer é citado. Conhecido na história assembleiana por seu perfil ortodoxo, o saudoso pastor do Ministério do Ipiranga, colocou como uma das suas virtudes para assumir a igreja o fato de não usar de "politicagem ou politicaria na Igreja". 

Ironias e controvérsias das biografias eclesiásticas. Como disse o sábio “nada há de novo debaixo do sol.” Eclesiastes 1.9.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

COHEN, Eliezer. E Deus confirmou os seus passos: biografia do pastor Alfredo Reikdal. São Paulo: s/e, 2006.

Última Hora, ano I, Curitiba, Quarta-feira, 21 de fevereiro de 1962, nº 224 - Acervo digital da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

http://www.assembleiadedeus.org.br/historia-da-ieadc/

sábado, 19 de agosto de 2017

As Assembleias de Deus - títulos e honrarias

"O brasileiro é vaidoso e guloso de títulos ocos e honrarias chocas. O seu ideal é ter distinções de anéis, de veneras, de condecorações, andar cheio de dourados." (Lima Barreto)

Para muitos assembleianos, causa surpresa a proliferação de títulos considerados "exóticos" para os principais líderes da denominação. Ainda soa estranho, por exemplo, certas igrejas terem como seu líder máximo um "Apóstolo" ou "Bispo".

Vale lembrar, que no Mensageiro da Paz na década de 1930, quando se anunciava estudos bíblicos, obreiros como Samuel Nyströn, Gunnar Vingren entre outros, eram chamados simplesmente de "irmãos". E ser pastor naquela época, era muitas vezes viver sem salário e com muita perseguição.

Mas em 1938, segundo Silas Daniel no livro História da CGADB, "entrou em pauta o ministério de apóstolo". Concordaram os obreiros com a existência do ministério apostólico, mas rejeitaram a "consagração de apóstolos". O reconhecimento da honraria deveria ser feita pela igreja e "não dependia de um título".

Daniel esclarece: "as Assembleias de Deus nunca consagraram apóstolos, por entenderem que tal consagração não tem apoio bíblico, porém sempre tiveram o costume de denominar alguns dos grandes nomes da história da Igreja, inclusive no Brasil, como apóstolos." Entretanto, o reconhecimento só viria depois da morte do pioneiro.

Bispos de Madureira: etiqueta de mando?

Porém, Paulo Leivas Macalão ainda em vida, foi chamado de "Apóstolo do século XX"; Túlio Barros da AD em São Cristóvão (RJ), em 2004, consagrado "Apóstolo" e o seu filho Jessé Maurício "Bispo". Nesse tempo, São Cristóvão já estava rompida com a CGADB.

Em 1959, Antônio de Souza Campos, em um artigo publicado na revista A Seara, questionou o uso que alguns pastores faziam da titulação de reverendo. Para ele, tal título, além de ser impróprio, seria a aberração "de um cristianismo órfão, pobre de espiritualidade o qual para impressionar precisa lançar mão de títulos pomposos". 

Nem mesmo a nomenclatura, "pastor geral", "pastor-presidente" ou "pastor regional" foram aceitas sem contestações na década de 1950. O pastor José Menezes, no Mensageiro da Paz chamou essa prática de "anti-bíblica" e "maligna", sendo uma "etiqueta de mando" para legitimar abusos autoritários. 

Para Menezes, o objetivo dos "pastores regionais" era "empunhar o cetro da distinção" e "exercer o império do mando." Isso seria ainda um "beco de inovações, criação de leis e estatutos imprecisos, proteção a favoritos, trazer a outros com aves de arribação."

Com a evolução dos Ministérios, as ambições de reconhecimento social também cresceram. Gedeon Alencar observa em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, o uso das titulações acadêmicas nos periódicos da CPAD como forma de legitimação dentro da igreja. A titulação de pastor já não seria suficiente para dar peso as publicações? 

Muitas são as justificativas para o uso das nomenclaturas. Mas para muitos, o que parece mesmo é que as lideranças foram picadas pela famosa "mosca azul". Parece que Lima Barreto escreveu pensando em alguns dos nossos líderes.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de abril de 1969. Rio de Janeiro: CPAD.

A Seara, ano VI - nº 1, ano de 1959.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Reuniões e cultos nas ADs – novos significados

As Assembleias de Deus em mais de cem anos de história, já passou por significativas transformações. Por ser uma denominação presente em todo território nacional, ela é também muito diversificada. Não há uniformidade em tudo, mas o objetivo dessa postagem é somente refletir sobre certas mudanças. 

Algumas retratam alterações sociais e econômicas. Outras, o direcionamento teológico e político da igreja. Conforme a participação dos leitores a lista pode ser aumentada. Vamos aos verbetes:

Culto de doutrina: assim era chamado a reunião semanal, geralmente as terças-feiras, que em tese seria de ensinamentos bíblicos. Mas os crentes de boa memória sabem, que de Bíblia tinha muito pouco, e se havia alguma coisa, eram versículos descontextualizados para reforçar os usos e costumes. De tão desgastado, o termo "doutrina" é evitado. Hoje as igrejas preferem nomear as reuniões de culto de edificação cristã ou ensinamento.

Vigília: reunião noturna de oração que atravessa a madrugada. Antigamente era só oração, no máximo com alguns hinos e testemunhos para aliviar um pouco o cansaço. Hoje, as vigílias transformaram-se em eventos badalados em determinados lugares. Há programas especiais com pregações, louvores, testemunhos e muito re-te-té... mas oração mesmo, quase nada.

Culto da mocidade: algumas congregações ainda usam a nomenclatura. Porém, muitas igrejas já substituíram o nome da reunião por "celebração jovem", mais adequado aos novos tempos. Outra: as "celebrações" jovem também procuram adaptar-se ao gosto do seu público. Com louvores ousados e liturgia mais despojada, esse tipo de reunião tenta atrair, conquistar, e principalmente, segurar a garotada na congregação. Em tudo parece ao estilo das comunidades evangélicas.

Antigo cartão de membro: à direita o visto pastoral

Cartão de membro: identidade do crente. Era levado na sede do campo anualmente para ser revalidado. Orgulhoso, o assembleiano guardava e apresentava-o para entrar na igreja nas ceias e cultos administrativos. Hoje, anda um tanto esquecido. Muitos crentes não se dão ao trabalho nem de buscá-lo na secretaria de igreja.

Círculo de Oração: criado na década de 1940, na AD em Recife (PE), espalhou-se pelas igrejas no Brasil. Era símbolo de um tempo: o homem, provedor-mor do lar trabalhava fora e a esposa dirigia-se nas tardes livres para orar na congregação. Atualmente, os horários refletem as transformações sociais, pois as irmãs trabalham fora para ajudar no rendimento familiar e as reuniões em muitos locais passaram para o período noturno.

Estudos Bíblicos: trabalhos marcados nas igrejas, geralmente nos fins de semana, para examinar temas e assuntos da doutrina cristã. Sumiram das programações. Mas em compensação, os chamados "cultos da vitória" ganharam espaço incrível. Os estudos bíblicos ficaram mesmo para os corajosos da escola dominical.

Ministério: era sinônimo de dedicação, sofrimento e parcos salários. Hoje, é uma carreira desejada por muitos. Comparar o estilo de vida dos primeiros obreiros com os atuais chega a ser revoltante. Alguns obreiros mais parecem gerentes de empresas do que pastores  de igrejas. 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Qual o papel da mulher na igreja? - a pergunta que não quer calar

O ministério feminino sempre foi um ponto polêmico dentro das Assembleias de Deus. Desde a primeira Convenção Geral realizada em 1930 em Natal (RN), com a presença de Frida Vingen, questiona-se sobre o papel da mulher na igreja. 

A famosa resolução de 1930, não pacificou os conflitos entre os convencionais e a esposa do pioneiro Gunnar Vingren. O casal dois anos depois regressou à Suécia, mas o tema vez por outra emergia na instituição. Sinal de que a imposição às mulheres na primeira conferência sempre foi alvo de contestações internas. 

Em 1966, o antigo pastor da AD em Pindamonhangaba (SP), João de Oliveira escreveu no Mensageiro da Paz, um artigo intitulado Qual o papel da mulher na igreja? Nele, Oliveira desenvolveu argumentações que devem ter repercutido muito entre os assembleianos da sua época. O texto com certeza, seria alvo de ardorosos elogios e contestações ainda hoje.

Pastor João argumentou: Deus não faz acepção de pessoas, ou concede dons e ministérios usando como requisitos cor, sexo e posição social, sendo Soberano e Absoluto em Suas escolhas. "Mas se é Deus quem dá ao homem e a mulher o dom e quem os envia com autoridade, quem poderá se levantar contra Deus?"  afirmou o saudoso escritor e comentarista das Lições Bíblicas da CPAD. 

Relembrou, que na história bíblica e secular, há exemplos de mulheres profetas, guerreiras, conselheiras e líderes. E apontou para uma realidade concreta já em seu tempo: "Se uma mulher hoje pode ser advogada, juiz e até governante de uma nação (como na imensa Índia, atualmente), e desempenha com eficiência sua carreira, como não poderá servir ao Senhor segundo o ministério dos dons de Deus?".

Vale lembrar, que durante o pastorado de João de Oliveira em Pindamonhangaba, foi implantado o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD). Durante anos ele conviveu com o casal fundador da instituição: João Kolenda Lemos e Ruth Doris Lemos 

Ruth era jornalista profissional e pastora assembleiana nos Estados Unidos. Talentosa na área musical e competente pedagoga, por décadas, foi uma "referência de exercício pastoral", mas no Brasil, submeteu-se "a um modelo machista"  conforme o sociólogo Gedeon Alencar, ou seja, abriu mão do título de pastora para ser tratada simplesmente de "irmã" ou no máximo, missionária Doris.

Oliveira acompanhava então, um caso exemplar de ministério feminino não reconhecido por muitos dos seus pares. Segue abaixo parte das exposições em defesa do reconhecimento das mulheres na atuação ministerial.


Com a palavra os nossos pastores, líderes e teólogos...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Mensageiro da Paz, 1º quinzena de março de 1966.

sábado, 22 de julho de 2017

Madureira - o bairro sede do Ministério

"Em termos de importância, Madureira está para o subúrbio assim como Copacabana está para a zona sul. Guardadas algumas diferenças, é nesses bairros que tudo acontece e de tudo se vê." 
(Leda Costa - professora e pesquisadora dos subúrbios cariocas)

"Censurado" e "incompreendido" na AD em São Cristóvão, Paulo Leivas Macalão no auge da sua juventude partiu a evangelizar os subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, em 1926. Logo toda a região de Realengo, Bangu, Campo Grande, Santa Cruz e Marechal Hermes seria alcançada com a mensagem pentecostal.

Em 15 de novembro de 1929, Macalão iniciou oficialmente a AD no bairro de Madureira, na Zona Norte do Rio. O trabalho começou na residência de um crente e depois foi transferido para pequenos salões comerciais conforme a congregação se desenvolvia, até que veio a mudança para um prédio próprio. Em 1941, a igreja de Madureira obteve personalidade jurídica e passou a ser a sede do Ministério, anteriormente localizado em Bangu.

A transferência do Ministério foi acertada. Madureira crescia velozmente impulsionado pela localização estratégica, sendo passagem através dos ramais ferroviários as diversas regiões dos subúrbios. Não por acaso, o bairro é conhecido como "Coração da Zona Norte" do Rio.

Bairro de Madureira década de 1950: "Capital do Subúrbio"

O bairro já era nesse tempo muito movimentado devido ao funcionamento desde 1914, do Mercadão de Madureira. Ampliado em 1929, o estabelecimento impulsionava o crescimento da região. Outro fator de grande importância era a presença das Escolas de Samba Portela (1923), e Império Serrano (1947), as quais trouxeram ao local o título de "Berço do Samba".

Os subúrbios contavam com uma população em sua maioria composta por "negros, ex-escravos, operários, imigrantes (na maioria nordestinos)". Uma gente excluída do centro da cidade pelo famoso “Bota Abaixo” e das reformas modernistas do prefeito Pereira Passos. Nesse contexto social, a congregação de Madureira expandia-se conforme o ritmo do bairro. 

Macalão sempre foi visionário e ao mudar a sede de Bangu para Madureira, o filho do general deu maior visibilidade ao Ministério por ele liderado. Estratégia e aposta numa igreja promissora e de grande potencial, agora instalada na "Capital do Subúrbio", onde "tudo acontece e de tudo se vê".

A importância da igreja aparece nas páginas do Mensageiro da Paz, na 1ª quinzena de agosto de 1935, quando Zélia Brito Macalão envia notícias na seção Na Seara do Senhor – espaço no periódico para informar sobre as atividades pentecostais pelo Brasil – onde Madureira é citada juntamente com Bangu no título da matéria. Ou seja, a congregação já era de grande visibilidade.

Em 1937, o escritor Diomedes de Figueiredo Morais, na Revista Rio Ilustrado, ao observar as transformações aceleradas na região constatava: "Madureira cresce assombrosamente". Era do bairro que ele falava, mas bem que poderia ser o sobre o Ministério. Em poucos anos, o pastor Paulo já tinha sob seu controle congregações na cidade, no estado do Rio, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás e São Paulo.

Assim, a famosa "Capital do Subúrbio", "Berço do Samba" ou "Coração da Zona Norte", seria o centro de um grande Ministério Interregional das ADs no Brasil. Luz de salvação para milhares, sombra de preocupação outros...

Fontes:

acervo.oglobo.globo.com

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

LUIZ, André. História da Assembleia de Deus em Bangu – 2006 – Edição do Autor.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Madureira_(bairro_do_Rio_de_Janeiro) 

Madureira e Pelourinho: consumo e representação de comidas típicas em festas populares. Adelaide Chao e João Maia. UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 

https://www.bn.gov.br/noticia/2015/07/rio-450-anos-bairros-rio-madureira

terça-feira, 18 de julho de 2017

Ensino Teológico nas ADs – conflito e superação

No dia 21 de julho de 2017, defendeu a dissertação de mestrado intitulada Da objeção ao reconhecimento: conflito e superação na constituição da Educação Teológica formal nas Assembleias de Deus no Brasil – Faculdade EST/São Leopoldo (RS), o pastor Orlando Martins. Nela, o pesquisador revisita a história dos embates entre as lideranças nas questões da instrução teológica nas ADs.

Para alguns, essa problemática pode estar superada, mas Orlando destaca que, mesmo com a abertura das ADs ao conhecimento teológico formal, ainda "dentro de seus arraias eclesiásticos" há resistências, "principalmente por aqueles que advogam mais a favor da importância da Experiência Religiosa do que a favor da Educação Teológica"   afirma o jovem pastor e teólogo.

Para embasar suas considerações, Martins fez amplo levantamento documental e bibliográfico, os quais "comprovam o conflito que houve entre a missão sueca, contrária a fundação de institutos bíblicos  e a missão americana, que apoiava a fundação destes institutos".




Embates que duraram décadas, mas ainda não superados, pois eles aparecem nas escolhas e práticas dos obreiros assembleianos na atualidade. Martins destaca na dissertação uma entrevista do pastor Antônio Gilberto, teólogo e consultor doutrinário da CPAD, onde ele reclama da falta de apoio, disposição e patrocínio dos líderes aos ensinadores pentecostais.

Partindo de um respeitado mestre assembleiano, Orlando afirma que o "relato do pastor Antônio Gilberto retrata a falta de incentivo à Educação Cristã". Não só isso. Fica em evidência nas ordenações ao ministério a preferência ao preletor que "se destaca mais por envolver a Igreja com sua oratória, do que por apresentar um sermão com profundidade bíblica,  o que para muitos, "dá sono", ou seja, não gera espiritualidade."

A realidade, segundo o estudioso, é que "apesar de hoje haver um grande incentivo para que os obreiros estudem Teologia, e de ser um dos pré-requisitos para a ordenação de um obreiro, ainda falta muito apoio não somente dos pastores, mas da comunidade de modo geral."

Membro e pastor auxiliar da Assembleia de Deus Mais de Cristo (ADMC) em Florianópolis, Orlando Martins é Coordenador dos Cursos Teológicos da igreja fundada pelo pastor Júnior Batista em 2007, portanto, tem vasta experiência na área e conhecimentos significativos para defesa da dissertação.

A ADMC, apresenta-se como herdeira do chamado "Pentecostalismo Clássico", mas sem a ênfase nos usos e costumes. Nas questões educacionais, a igreja tem "identificação com as ADs, e com o chamado modelo americano, pois valorizam a Educação Teológica Formal."

O trabalho acadêmico do escritor e jornalista Orlando Martins, só comprova o quanto as chamadas "temporalidades históricas" estão presentes nas ADs. Ou seja, em pleno século XXI, com tantas transformações estéticas e tecnológicas dentro da denominação, a antiga mentalidade sobre o estudo teológico ainda resiste. É a herança sueca, o legado que ainda persiste.