sábado, 13 de janeiro de 2018

A Catedral de Madureira - simbolismos e contrastes

Inaugurado com grande festa e pompa no dia 1º de maio de 1953, o templo sede ou a catedral da AD em Madureira, no Rio de Janeiro, segundo o sociólogo Gedeon Alencar, personificava em seu esplendor e imponência, o líder máximo do ministério carioca, o gaúcho Paulo Leivas Macalão.

Alencar, em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, aponta para o simbolismo dos templos da AD em Madureira e o da AD em São Cristóvão. O primeiro com seu estilo gótico, apontava para o conservadorismo de Macalão; o segundo, construído em 1970, com seu prédio de seis andares, dotado de elevador e estacionamento, revelava à modernidade do ministério da Missão.

Citada na extinta publicação Subúrbios em Revista, em 1955, à construção localizada na Rua Carolina Machado, foi descrita como "uma das mais belas obras de arte da Capital da República". A revista ainda informava, que o majestoso templo de Madureira, era uma das maiores e mais belas obras arquitetônicas das Américas e do mundo.


Para o historiador Maxwell Fajardo, enquanto os líderes do Norte/Nordeste enfatizavam o "mito da simplicidade", Macalão por ser de origem social abastada rompia com essas ideias dominantes no meio assembleiano e procurava dar ao Ministério por ele fundado projeção pública e social. Então, as discussões sobre o famoso templo, estavam (e ainda estão) para além dos estilos arquitetônicos. Falam muito da visões ministeriais opostas nas ADs no Brasil.

Na época, o belo e grandioso templo de Madureira, não contrastava somente com as expectativas estéticas dos templos da AD no norte do país. O Ministério mais próximo ao de Macalão no Rio, o de São Cristóvão, no mesmo período, possuía um edifício que ficava muito distante do projeto arquitetônico do pastor gaúcho.

No ano de 1945, à equipe da Revista da Semana, antiga publicação do Rio, visitava às dependências da AD em São Cristóvão. A reportagem descreveu o antigo templo do ministério carioca como um "sobrado cinza", idêntico "a muitos prédios do bairro". Internamente, notaram os jornalistas do periódico que "O templo é simples, de paredes nuas, sem requintes de arte ou florões de luxo."

Não dá para evitar comparações históricas e estéticas com Madureira, quando o jornalista registra o seguinte: "Não se nota aqui aquela grandiosidade constrangedora nos abate e nos oprime quando visitamos as velhas catedrais. Tudo é singelo e natural." Nada no templo em São Cristóvão em 1945, pelo menos na arquitetura, lembra o de Madureira em 1953, a não ser pela identificação: Assembleia de Deus.

Em Madureira, os vitrais, cujos desenhos lembram o Dia de Pentecoste com suas línguas de fogo reproduzidas nos vidros vermelhos; as flores estampadas no teto e paredes; e o piso com desenhos caprichados, era (e é ainda) a pompa e o fausto. Na AD em São Cristóvão, as paredes nuas, sem imagens coloridas, tudo era simples e claro. "O templo é amplo, mas sua estrutura arquitetônica, como todo o mobiliário, não apresenta retoques de luxo" - observou a Revista da Semana.

O contraste entre as sedes dos Ministérios era evidente. Mais uma vez, Macalão demonstrava seu perfil diferenciado nas ADs e, é claro, que tamanho luxo e imponência gerou muitas críticas dos opositores de Macalão. Por outro lado, na história assembleiana há relatos de verdadeiros milagres ocorridos durante o tempo da construção. 

Narrativas que serão relembradas na próxima postagem.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CABRAL, Davi. Assembleia de Deus: A outra face da história. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2002.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. Curitiba: Editora Prismas, 2017.

Revista da Semana. Rio de Janeiro, ano XLVI - nº 28 - 14/07/1945. pág.11-17, 50.

SUBÚRBIOS EM REVISTA. Rio de Janeiro. Ano VII. nº 78. Set.1955.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

O Plano Divino através do séculos - clássico do pentecostalismo

Em um tempo em que o ensino teológico formal era uma aberração nas ADs, o missionário norte-americano Nels Lawrence Olson publicou, em 1956, o livro O Plano Divino Através dos Séculos, o qual, tornou-se uma grande fonte de pesquisa, e posteriormente, livro-texto em vários seminários e institutos bíblicos.

Clássico da literatura teológica pentecostal, O Plano Divino Através dos Séculos, ultrapassou a 25ª edição e vendeu mais de 100 mil cópias. Na obra, Olson faz uma descrição detalhada da ação de Deus através dos tempos, seguindo a linha da escola de pensamento teológica conhecida como dispensacionalismo. 

Acompanhando o livro, havia um mapa ilustrado que servia de apoio didático para a ministração dos estudos sobre as dispensações. Num tempo de índices alarmantes de analfabetismo, o mapa era um poderoso instrumento para a compreensão das teorias expostas por Olson em suas mensagens e estudos. Muitos obreiros, seguindo o exemplo do missionário, realizavam estudos com o auxílio do mapa nas congregações.


Pastor Nirton do Santos ensinando o Plano Divino Através dos Séculos

Assim, a teologia da dispensações foi popularizada por todo o Brasil dentro das ADs. Mas vale ressaltar, que esse modelo interpretativo da Bíblia também era pregado por Samuel Nyström e JP Kolenda em suas preleções. O estudo das dispensações também era popular nos EUA nessa época, e por muitas anos dominou o cenário teológico nas ADs e outras denominações pentecostais.

Dentre tantos questionamentos sobre os estudos do Plano Divino, duas questões controversas podem se destacar: uma relacionada ao mundo espiritual e outra de sentido legal (da lei). Na questão mística, Olson defende a distinção entre anjos caídos e demônios. Para ele, os anjos caídos possuíam "corpo espiritual", enquanto que os demônios não. Por esse motivo, nos relatos bíblicos os demônios sempre buscam corpos para habitar.

Na área legal, o famoso missionário defendia à pena de morte, ou simplesmente não adaptou o texto que retratava a realidade estadunidense para a brasileira, pois no Brasil, desde à implantação da República, à pena capital nunca foi utilizada oficialmente. 

A defesa do instrumento jurídico é analisada nas condições da aliança divina com o homem depois do Dilúvio, na chamada Dispensação do Governo Humano, o autor destaca a ordem divina "Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu" (Gn 9.6).

Na sequência, há críticas sobre determinadas pressões de cristãos para o fim da pena capital. Essa atitude (de tentar abolir a pena de morte) seria de "crentes mal informados", pois Deus só trata com misericórdia àqueles que aceitam sua graça. Aos que rejeitam à graça e vivem na prática dos crimes é a aplicação severa da lei. Somente "o medo da morte" é o "freio" do homem sem Deus - conclui Nels Olson.

Mesmo com o sucesso do livro e suas várias reedições, essas idéias não chegaram a influenciar tanto nas pregações dos obreiros nativos. Sabe-se, por exemplo, que nas prisões há um intenso trabalho de evangelização por parte das igrejas. Caso a pena de morte fosse aplicada com rigor, menos convertidos fariam parte das congregações nos presídios.

Após seis décadas de sua primeira publicação, O Plano Divino Através dos Séculos ainda é referência para muitos ensinadores. Outra questão também pode ser refletida ao relembrar a obra: a influência contante dos autores norte-americanos no pentecostalismo no Brasil. Basta pesquisar os catálogos das editoras nacionais.

Com a palavra os entendidos da área...

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

OLSON, Nels Lawrence. O Plano Divino através dos séculos. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.

revista.faculdadeunida.com.br/index.php/unitas/article/download/429/361

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O serviço das irmãs nas igrejas

O serviço das irmãs nas igrejas - esse foi o título de um texto publicado no jornal Boa Semente em outubro de 1929, em Belém do Pará. O artigo na verdade, era um resumo de um livro chamado Linhas de direção do despertamento pentecostal. Não há maiores informações sobre a obra, somente que o tal livro era de uma "convenção pentecostal em Berlim".

Samuel Nyström era o responsável pelo periódico, e o objetivo da publicação era claro: defender sua posição contrária ao ministério feminino na igreja, pois no Rio de Janeiro, o pioneiro Gunnar Vingren pensava justamente o oposto do conterrâneo sueco. O assunto dividia (e ainda divide) os líderes das ADs, e as divergências se arrastaram durante meses.

No livro da História da CGADB (CPAD:2004), Silas Daniel informa sobre as trocas de cartas entre Nyström e Gunnar Vingren discutindo essa questão. As correspondências foram trocadas em setembro de 1929. Em outubro, o Boa Semente repercutindo as desavenças entre os pioneiros publicou o texto sobre o trabalho das irmãs na igreja. Em novembro, Nyström e Vingren se encontraram no Rio de Janeiro para tratar do caso, mas não chegaram a um acordo. Samuel, ainda em novembro, acompanhado de Daniel Berg e Simom Lundgren, tentou impor seu ponto de vista a Gunnar, porém, sem sucesso.

O resultado de tantas idas e vindas já é conhecido. A Convenção Geral de 1930, tentou colocar as irmãs em seu devido lugar. Mas Frida Vingren continuou seu ministério no Rio, até que em 1932 voltaram à Suécia.

Para conhecimento e reflexão do tema, segue o fragmento do Boa Semente com o texto O serviço das irmãs nas igrejas. Como de vez em quando o tema volta à baila, ainda mais com a criação da Convenção da Assembleia de Deus no Brasil (CADB), é bom ler e reler o documento publicado num momento tenso da história das ADs no Brasil.




quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Retrospectiva 2017 - CPAD: lucro e interesses


A perpetuação establishment da CGADB em 2017, diretamente também consolidou a permanência do comando administrativo da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD). Desde 1993 no cargo (uma longevidade nunca antes vista na função), o atual diretor-executivo da CPAD, Ronaldo Rodrigues de Souza dirige a editora com mão de ferro. Mas a aposta em Rodrigues deu resultados: a cambaleante CPAD, hoje é uma empresa sólida e lucrativa. Porém, mais do que nunca, a histórica editora foi instrumentalizada para garantir interesses e eliminar pluralidade de ideias ou questionamentos políticos. Um bom exemplo disso foi a 84ª Assembleia Geral Ordinária (AGO) da Convenção de Ministros das Assembleias de Deus no Estado de São Paulo e Outros (COMADESP). Seu presidente, o pastor Carlos Roberto da Silva concorreu na chapa opositora nas eleições da CGADB nesse ano. Resultado: a CPAD ignorou o evento presidido pelo pastor Carlos. Quem marcou presença e investiu na convenção foi a Editora Vida. Um internauta não deixou passar sem um comentário ironico. Segundo ele, a convenção foi um sucesso, mesmo sem o patrocínio da CPAD. “Ou seja, existe VIDA além da CPAD."

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Retrospectiva 2017 - Canalhas


Na 43ª Assembleia Geral Ordinária da CGADB, o deputado federal e pastor da AD em Campinas, Paulo Freire da Costa resolveu desabafar sobre as liminares contrárias a posse do seu irmão, o pastor Wellington Júnior na presidência da instituição. Isso aconteceu durante o tumulto entre os adversários e os aliados do pastor José Wellington Bezerra da Costa. Indignado, o nobre deputado chamou de "canalhas" todos os opositores do seu pai. O vídeo com as fortes declarações de Paulo Freire viralizou nas redes sociais e provocou muitas críticas. Milhares de obreiros sentiram-se incluídos nas acusações do tribuno sem merecer. Por essas e outras, o saudoso pastor Túlio Barros, na condição de presidente da Convenção Geral realizada em Santo André (SP) em 1966, proibiu "a gravação magnética" dos debates por um convencional. Atualmente, como já sabemos, é quase impossível esse tipo de ordem. Para terminar: meses depois, um menos indignado Paulo Freire votou a favor do arquivamento das denúncias contra o Presidente Temer. Mas em Brasília e no Palácio do Planalto não tem canalhas...

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Retrospectiva 2017 - Bye CGADB!


Pródiga em novidades nesse fim de ano, a CADB ganhou nos últimos dias uma adesão significativa. Filiou-se à nova convenção, o conhecido pastor, escritor e jornalista Geremias Couto. Critico do atual establishment da CGADB, Couto trabalhou por muitos anos na CPAD, onde foi chefe do Departamento de Jornalismo e Gerente de Publicações. Acompanhou, nessa condição privilegiada, momentos decisivos da história das ADs, inclusive o início da presidência de José Wellington, o qual entrevistou em primeira mão para o Mensageiro da Paz em julho de 1988. Em 1996 deixou à Casa Publicadora e posteriormente rompeu definitivamente com a empresa ao criticar a publicação da Bíblia Dake. Tempos depois renunciou ao Conselho Político da CGADB do qual fazia parte. Causou espanto em 2015, ao se declarar calvinista e reacender o debate soteriológico dentro das ADs. Para muitos não causou surpresa sua adesão à CADB, pois Couto já apoiava o pastor Samuel Câmara nas últimas eleições. Mesmo assim, o jornalista declarou em sua página no Facebook, que a decisão foi tomada após oração e reflexão sobre o assunto. Na visão de outros, o "herege calvinista" vai tarde, pois nas redes sociais ele já foi excomungado, excluído e lançado na fogueira inquisitória. Ainda bem que estamos no século XXI...

sábado, 23 de dezembro de 2017

Retrospectiva 2017 - Essa gente incômoda


Talvez nem o jornalista José Roberto Guzzo esperasse tanta repercussão do seu texto publicado na revista semanal Veja (04/10/2017), intitulado Essa Gente Incômoda. Repercussão negativa e com um festival de críticas infundadas. Foi triste ver tantas bobagens serem escritas e ditas, fruto da desinformação. Um exemplo disso foi umas das críticas do deputado federal Marcos Feliciano. Feliciano chegou a dizer que Guzzo foi "rebaixado" de diretor para articulista da revista. Isso seria uma prova cabal da sua incompetência. Na verdade, Guzzo foi por 15 anos diretor de redação de Veja e pediu para sair em 1991, pois queria dedicar-se a outros projetos. Voltou para contribuir na área administrativa e editorial da Abril à partir de 2008. Gutierres Siqueira escreveu no seu blog na época da polêmica: "Muitos evangélicos simplesmente não entenderam que o colunista usa inúmeras ironias para mostrar o preconceito velado que existe no meio cultural e na elite intelectual contra essa 'gente incômoda'. Quem acompanha a coluna do Guzzo sabe que o texto dele sempre é marcado pelo uso da ironia. Ele, inclusive, usa algumas aspas no decorrer do artigo, que é uma marca em qualquer escrito irônico." Realmente, o artigo  Essa Gente Incômoda, incomodou muita gente que não saber ler e interpretar um texto corretamente.