sábado, 31 de outubro de 2009

Paulo Leivas Macalão - um líder e vários olhares / 3º parte



Porém, uma das descrições mais reveladoras da personalidade de Paulo Leivas Macalão é feita pelo jornalista Jason Tércio em seu livro "Os Escolhidos - A saga dos evangélicos na construção de Brasília". Nessa obra o escritor relata o pioneirismo dos membros e obreiros de diversas denominações evangélicas na tarefa de erguer e implantar trabalhos na nascente capital brasileira.

Entre as denominações, obviamente encontramos a Assembleia de Deus. Por ser a futura capital do Brasil com possibilidades enormes de crescimento e estratégica para qualquer denominação, os ministérios assembleianos passaram a investir nessa região.

Macalão aproveita uma visita feita em uma inauguração, para propor a filiação de uma congregação aberta pelo pastor Antônio Carneiro ao seu ministério. Essa visita é contada por Tércio que assim descreve o patriarca de Madureira:
Baixo, corpulento, era um dos principais líderes da Assembléia de Deus no Brasil, tendo expandido seu trabalho evangélico com proverbial rigidez. Obreiros de seu ministério que demonstrassem personalismo e um mínimo de independência eram severamente repreendidos, às vezes punidos com transferência para outra igreja ou simplesmente excluídos. Se ele não simpatizasse com alguém ou percebesse que o crente pretendia apenas usar sua influência, Macalão o neutralizava com um gesto simples, porém bastante eficaz - cumprimentava com as pontas dos dedos. Em poucos anos ele formara uma inaudita legião de seguidores, dando início a uma nova vertente da Assembléia de Deus. Inflexível nas decisões, provocava polêmicas com seu espírito expansionista e conservador, impondo controle moral sobre a conduta de seu rebanho (Tércio 1997: 109).
Ainda sobre seu estilo de pregação o autor nos conta em outro trecho:
...Orador mediano, Macalão cativava seus ouvintes entremeando histórias pitorescas nos sermões, com uma voz bem modulada, diminuindo de tom e de repente se elevando, num ímpeto que às vezes assustava alguém distraído, e fazia os fiéis emitirem vibrantes "aleluias"! (Tércio 1997: 112)
Ao relatar esses aspectos de Paulo Macalão, o escritor resgata assim um pouco do que a história denominacional não o fez. É revelado assim um pouco mais sobre o líder de Madureira, bem como a personalidade polêmica e autoritária mostrada em outras publicações, é de certa forma corroborada com o texto de Tércio.

Outro detalhe interessante revelado era sua forma de pregar ao povo crente. Seu carisma e seu domínio de público se tornam evidentes, não lembrando a descrição das mensagens de seu início de carreira, onde se diz que Macalão pregava com virulência e como que às pressas.

Nas páginas a seguir, Macalão aparece com desenvoltura política e faz uma barganha, que aos olhos de qualquer leigo parece um sacrilégio: simplesmente oferece outra congregação para o pastor Antônio Carneiro em troca daquela que se acabava de abrir. É irônico o trecho no qual Macalão, para vencer a resistência de Carneiro, apela para uma suposta revelação para atingir seus objetivos.

Anos mais tarde, com o trabalho já estabilizado, Paulo Leivas projeta construir em Brasília o maior e melhor templo das Assembléias de Deus no Brasil até aquela data, demonstrando mais uma vez sua ousadia e determinação que lhe eram próprios.

Paulo Macalão morreu no dia 26 de agosto de 1982, aos 79 anos de idade. O ministério conduzido por ele até a morte continua se expandindo. Passados apenas sete anos de seu falecimento o Ministério de Madureira, depois de muitas disputas dentro da CGADB, se desligou completamente e agora prossegue com sua própria convenção nacional.

Esse pequeno estudo da vida desse homem teve como objetivo com as fontes disponíveis no momento, traçar um perfil um pouco mais humanizado do patriarca de Madureira. A riqueza em estudar a vida de Macalão, consiste justamente em juntar todos esses fragmentos biográficos e perceber que atrás do mito, havia uma personalidade polêmica e ousada que construiu um grande ministério e ajudou a Assembléia de Deus a ser o que é; para o bem ou para o mal.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997.

VASCONCELOS, Alcebiades Pereira. Alcebiades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Paulo Leivas Macalão - um líder e vários olhares / 2º parte



Sobre Paulo Macalão, encontramos dentro das biografias oficiais alguns dados que podem ajudar a explicar seu pioneirismo nas Assembléias de Deus, e a independência de seu ministério já nos idos dos anos 30.

Um dos autores que analisou (ainda que de forma concisa a trajetória de Macalão) foi Paul Freston, sociólogo e historiador evangélico. Freston ressalta as origens atípicas de PLM para explicar a sua autonomia em relação aos missionários suecos com quem ele trabalhou. Para o historiador, por ser filho de um general, de família e educação culta, e com um futuro promissor nas Forças Armadas, Macalão demonstrava um status social visivelmente superior se comparado com os próprios suecos e os obreiros brasileiros. Para Freston "Macalão era um gaúcho numa igreja de nortistas e nordestinos. Era filho de general, numa igreja de pobres. Mas, longe de levar a AD a subir de nível social, ele tornou-se o líder absoluto dos mais miseráveis".

Sua formação militar, seu rigorismo e autonomia logo se refletiram em suas pregações, e o levaram a entrar em choque com os suecos, que por sua vez o permitiram formar um novo ministério na incipiente AD dos anos 30. Dos dados oficiais encontramos uma observação muito interessante sobre Macalão para comprovar esse fato quando se diz:
A força com que pregava a convicção com que dirigia seus ataques violentos contra o pecado, vinham sendo, há um tempo motivos de censura por parte daqueles que não viam no evangelho algo que tivesse de ser pregado daquela maneira, às pressas e com autoridade até nunca vista. Censurado e incompreendido, o irmão Paulo, em setembro de 1926, decidiu pregar exclusivamente nos subúrbios da Central... (ARAÙJO: 438)
Percebe-se nessa informação o desacordo entre ele e alguns irmãos da igreja sobre sua forma de pregar. Possivelmente essa discordância foi com a liderança de São Cristóvão, representados principalmente em seu pastor Gunnar Vingren e em sua esposa Frida. Paulo Macalão além de um dos primeiros membros da igreja foi também o formador da primeira banda de música da congregação e secretário de Vingren.

Porém a postura ousada e dinâmica desse jovem de classe média se manifestava não só nas pregações, mas também nas atitudes que desagradavam aos suecos. Gunnar Vingren já no ano de 1929 fez a famosa anotação em seu diário; registro esse que é usado pelo escritor Silas Daniel no livro "História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil" para revelar o caráter autônomo de Macalão e do ministério formado por ele. Segundo as anotações do pioneiro assembleiano Macalão teria batizado crentes no subúrbio do Rio sem lhe comunicar e observou "Ele é muito independente".

Mas como o movimento pentecostal estava em seu nascedouro, não havia estruturas denominacionais formadas, e assim a iniciativa de Paulo Leivas de se aventurar pela periferia da cidade, pregando e abrindo novas congregações não pareceu um sinal de formar uma nova denominação, e sim um novo ministério.

Quem sabe foi a melhor solução, pois Macalão trabalhou com os suecos por bom período e as divergências já deviam vir de algum tempo. Ficaria ele agora livre para evangelizar os bairros carentes do Rio de Janeiro, abrir congregações e consolidar sua liderança na Zona Norte da cidade.

Freston também aponta um detalhe interessante na trajetória de Macalão que nos ajuda a entender a própria história do Ministério de Madureira. Segundo esse autor a influência do nacionalismo seria um dos motivos para que Paulo Leivas (que durante toda a sua vida manteve vínculos como os militares) cultivasse certa autonomia ou desconfiança em relação aos missionários suecos. Afinal esse mesmo sentimento nacionalista levou em 1930 os pastores brasileiros a reivindicarem a liderança das principais igrejas no país, deslocando os suecos para a região sul.

Outra observação importante feita por Daniel é o fato das igrejas lideradas por Paulo Macalão serem mais rígidas em relação a usos e costumes dos que as subordinadas aos suecos, gerando desde os primórdios a distinção "Madureira" e "Missão" para identificar os respectivos ministérios. Essa diferenciação de ministérios pelo que se entende estava ligada não só a questão de costumes, mas também ao sentimento nacionalista. As igrejas dirigidas por suecos eram; além de serem mais liberais, também controladas por estrangeiros.

Tudo isso ajudava, de uma maneira ou outra a dar a Macalão destaque e liderança entre as igrejas no Rio de Janeiro, pois se deve considerar que a principal Assembléia de Deus na cidade (Campo de São Cristóvão) fundada em 1923 somente veio a ser pastoreada por brasileiros em fim dos anos 50, ou seja, mais de trinta anos depois de seu início.

Ainda no livro da História da CGADB, Macalão aparece como centro de várias discussões sobre o desrespeito as normas convencionais onde estabeleciam limites aos ministérios (jurisdição eclesiástica) em seus campos de trabalho. Ficam evidentes nas páginas dessa obra as discussões, ambições, calunias e jogo de interesses eclesiásticos não só por parte de Macalão, mas de outros líderes assembleianos. Mas fica claro também que o expansionismo de Madureira e a forte personalidade de seu fundador incomodavam a todos os líderes, e as pacificações dos conflitos foram ficando mais complicadas com o passar do tempo.

Nesses debates surge o lado inflexível, rígido e opiniático do "Apóstolo do Século XX". Seu pioneirismo tão louvado em outros escritos oficiais é retratado nessa obra como "invasão de campo" e puro expansionismo. Várias páginas revelam um Macalão intransigente, onde por discordâncias ministeriais ele deixou de ir a uma Convenção Geral para demonstrar seu desgosto, em outra convenção ele rebate calúnias e difamações e apresenta documentos e versões que são colocados em dúvida por outros pastores. Em outra reunião nacional ele ameaça que se não for resolvida uma questão envolvendo o Ministério de Madureira, abrir uma igreja em outro estado fora de sua jurisdição eclesiástica, gerando com isso mais polêmicas.

Já no início dos anos 70, um sério desentendimento ministerial com o pastor Túlio Barros, levou os convencionais a mediarem um acordo e um encontro público de perdão, onde uma visita mútua seria feita entre os líderes de Madureira e São Cristóvão. Deve-se imaginar a repercussão de tal desacordo, que envolveu cartas escritas com termos duros, mudança de pastor, extinção de convenção criada em Brasília e culto específico para reconciliação.

Nesse ínterim de polêmicas e acirradas discussões, Paulo Macalão constrói em 1953 o majestoso templo sede de Madureira no Rio. Edificado com grande esforço dos fiéis, o templo de amplas dependências, estilo gótico e exuberantes vitrais eram e ainda é considerado um dos templos mais belos entre as Assembléias de Deus no Brasil. Na inauguração as presenças de autoridades e de milhares de crentes davam a todos dimensão da força e liderança de seu ministério perante as outras igrejas co-irmãs.

Em 1958 funda a Convenção Nacional de Ministros de Madureira unindo juridicamente o ministério e segundo as informações oficiais tinha a intenção de com isso evitar a divisão do trabalho pelo Brasil. Macalão fez isso justamente num momento em que as Assembléias de Deus começavam a se fragmentar em vários ministérios, que eram criados em torno de lideranças personalistas como ele próprio.

Só para se ter a idéia de como ele se preveniu; o Ministério de São Cristóvão um ano depois, portanto em 1959 através de seu pastor Alcebíades Vasconcelos resolveu dar autonomia a determinadas congregações, pois segundo o próprio Alcebíades em suas memórias, as igrejas fatalmente iriam se desligar de São Cristóvão devido a insubordinação de seus presbíteros.

O ministério de São Cristóvão se fragmentou, outros ministérios seguiriam esse caminho, mas enquanto isso acontecia Paulo Leivas conduzia com vigilância e rigidez o Ministério de Madureira.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

VASCONCELOS, Alcebiades Pereira. Alcebiades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Paulo Leivas Macalão - um líder e vários olhares

Todo crente assembleiano ao participar dos cultos e dos cânticos congregacionais, e ao manusear seu hinário, logo fica familiarizado com as iniciais do seguinte autor P. L. M. As iniciais do pastor Paulo Leivas Macalão (1903-1982) estão presentes em 54 composições de sua autoria e em outras 190 versões que totalizam 244 hinos, ou seja, 38% dos 640 da atual Harpa Cristã.

Ao pesquisar sua história de vida, logo o curioso assembleiano verificará que esse senhor falecido a mais de um quarto de século foi um dos grandes líderes da Assembléia de Deus no Brasil e fundador de uma das maiores ramificações ministeriais da denominação nesse país: o Ministério de Madureira.

P. L. M. e seu famoso violino: um líder das massas

Os dados biográficos sobre Paulo Macalão se encontram com fartura na literatura da denominação. Após a sua morte ocorrida em 26 de agosto de 1982, dois livros sobre sua vida e obra foram lançados. O primeiro de autoria de Jefferson Magno "Paulo Macalão - A chamada que Deus confirmou" foi lançado um ano depois de seu falecimento. Três anos depois sua viúva Zélia Brito Macalão (1907-1988) publicou outro livro biográfico intitulado "Traços da vida de Paulo Leivas Macalão". Ambos os livros foram publicados pela Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD), editora que Macalão ajudou a fundar. Várias outras publicações da CPAD que trazem biografias de seus pioneiros e grandes líderes sempre mencionam Paulo Macalão, pois afinal seu ministério e a trajetória da denominação se entrelaçam por mais de 50 anos. 

Como já foi citado, o hinário oficial da igreja carrega até hoje sua marcas. A Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil (CGADB) tem na sua pessoa um dos responsáveis pelo estatuto feito em 1946, e a CPAD encontrou nele um dos seus principais entusiastas (se bem que a principio Macalão foi contra o projeto de fundação de uma editora própria para a denominação).


É importante lembrar quase todas as publicações oficiais predominam a narrativa romântica, heróica e edificante para relatar a vida desse pioneiro, e de outros também. Ao ler a biografia (ou hagiografia) de P. L. M. o leitor na verdade, em alguns momentos tem a impressão de estar conhecendo um homem superior, imune às paixões e vaidades que caracterizam todos os mortais.


A memória de Macalão é entre os assembleianos (principalmente os de Madureira) venerada, e os predicados para enaltecê-lo são evidentes. Basta uma rápida leitura em qualquer site das igrejas filiadas ao Ministério de Madureira para se chegar a essa conclusão. Um exemplo claro dessa constatação se verá no site da Assembléia de Deus de Volta Redonda, cujo pastor David Cabral é o autor do livro intitulado "Assembléia de Deus - A outra face da História". Neste site, cujo texto foi adaptado da obra já citada, Macalão é chamado de patriarca e "Apóstolo do século XX" e sua carreira ministerial enaltecida, sendo reverenciado pelo seu pioneirismo e visão do trabalho evangelístico.

Certamente Paulo Leivas não foi o primeiro líder assembleiano, e nem será o último a receber páginas e tintas de menções honrosas e elogios variados. Gunnar Vingren, um dos fundadores da Assembléia de Deus mesmo sendo contrariado e derrotado nas decisões eclesiásticas da cúpula assembleiana, tem sua memória exaltada e seu pioneirismo destacado nas múltiplas publicações dos ministérios da denominação.

Mas o que importa nessas publicações sem dúvida alguma, é a utilização da biografia de determinado pioneiro para a edificação dos fiéis e conservação da unidade eclesiástica. O líder retratado é o exemplo a ser seguido, é o herói cujo sacrifício não se pode esquecer; e é em torno dessas histórias de vida engrandecidas, que os atuais líderes procuram ganhar legitimidade e manter unidos seus rebanhos de fiéis para seguir em seus projetos de poder denominacional.


Dessa forma uma riqueza de detalhes do biografado se perde, as características mais marcantes de sua personalidade se esquecem, e fica-se longe de mostrar o lado humano e social de uma vida; rica em histórias e fatos, os quais ajudam a compreender a própria formação da igreja e a sociedade na qual ela esta inserida. Para se extrair algo a mais como diz Freston "é preciso ler, entre as linhas extraordinárias, as entrelinhas comuns; ou seja, colocar os pés dos heróis docéticos novamente no chão".


Assim milhares de crentes conhecem Paulo Macalão apenas pelo viés oficial, onde a vida desse grande líder é filtrada de todas as formas, chegando até nós somente algumas particularidades que de maneira alguma satisfazem a todos aqueles que procuram se aprofundar na história da denominação.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

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