sábado, 30 de janeiro de 2010

Incidente em Antares – Uma reflexão sobre a fé cristã


O livro Incidente em Antares do grande e saudoso escritor gaúcho Érico Verissimo, é sem dúvida alguma uma obra-prima da literatura nacional. É o tipo de livro, em que o autor nos convida a diversas reflexões políticas, filosóficas, sociológicas e... teológicas!

Para quem nunca leu o romance, e nem o conhece, pode passar simplesmente como uma ficção, onde mortos ressuscitam e se apresentam em decomposição na praça central da cidade. Porem é necessário esclarecer alguns pontos e ressaltar certas lições de grande atualidade.

Antares é uma cidade fictícia, localizada no Rio Grande do Sul. Ao relatar a origem e desenvolvimento de sua povoação, o escritor vai contando; através desse município, um pouco da história do Brasil e do próprio Rio Grande do Sul. A ascensão e decadência do coronelismo nessa parte do país, bem como a dinâmica social, são retratadas com argúcia e inteligência pelo autor.

Antares é na verdade uma síntese do Brasil na era do pré-golpe de 1964. Nela encontramos os antagonismos de uma sociedade polarizada, dividida e em crise. Políticos conservadores, corruptos, lideres sindicais, divisão de classes, ricos insensíveis, favelas e pobreza extrema, agitação social e política, são alguns dos elementos trabalhados pelo o escritor para retratar o país (o macro) nesse microcosmo perdido em algum lugar em terras gaúchas. 

Dentro desse quadro de polarizações e radicalismo, encontramos também dois extremos da vivência da fé católica. De um lado encontramos o Padre Gerôncio. Descrito com um sacerdote idoso (daí o nome simbólico de Gerôncio), ele é a representação do conservadorismo religioso. Apegado aos valores antigos da religião católica, tem horror a mudanças que ameacem à ordem constituída. Reza suas missas com total dedicação, mas fecha os olhos aos problemas vitais do ser humano.

No outro extremo nos é apresentado o padre Pedro Paulo. Descrito como jovem e “perigosamente bonito” é o símbolo da guinada que uma parte do catolicismo romano deu a partir dos anos 60. Nele encontramos a chamada “opção preferencial pelos pobres”, pois além de jovem (contrastando com o velho Gerôncio) ele desenvolve seus trabalhos sociais e espirituais na Vila Operária e numa favela intitulada ironicamente de Babilônia. 

Pedro Paulo é critico, moderno e causa horror aos conservadores. Dispensa a batina e anda de sandálias, mangas de camisa e calça de brim. Participa de reuniões políticas e sindicais. Critica a defasagem existente entre o acúmulo de riquezas por parte dos grandes estancieiros e a população subnutrida das favelas da região. Por essas razões é chamado de “padre vermelho” pelos poderosos, ou seja, é identificado como um comunista.

Sobre sua postura e ação pastoral ele mesmo explica no romance: “O importante é ser cristão. Mas dum cristianismo militante e não apenas teórico “simpatizante”. Sempre digo ao vigário da Matriz de Antares: “Padre continue rezando pelos seus mortos que eu continuarei lutando pelos nossos vivos. Nossa igreja é desse mundo”.

Por ser jovem e bonito (seria chamado hoje pela mídia de padre galã) Pedro Paulo faz sucesso com as mulheres, mas se mantém fiel a sua vocação. Porém como ninguém é de ferro, é revelado no contexto da história uma paixão platônica vivida pelo jovem sacerdote. Valentina é o nome da mulher que deixa Pedro Paulo perturbado e confuso. Esposa do juiz de Direito da cidade, Valentina é uma mulher de grande carisma e beleza, porém está “enjaulada” como diz o autor, num casamento com um homem conservador e totalmente oposto a sua personalidade. 

Eles conversam muito, trocam idéias e livros, tem identificação mútua, mas é impossível vivenciar um amor real. Pedro Paulo é fiel ao seu sacerdócio, à opção pelos pobres, e ela por sua vez fiel ao seu casamento e aos filhos, mesmo tendo que se anular como pessoa dentro dele.

Em certo ponto da história um amigo lhe questiona: como é sua fé em Deus? Tem ele dias e horas de dúvida? Pedro Paulo responde sim que ele sente angustias, desejos e muitas dúvidas. Revela que ao passar por um período de crise escreveu uma carta confessional ao seu superior e diz com sinceridade: “sinto que minha fé está presa apenas por um fio”. 

A resposta é um bálsamo para ele, pois seu superior lhe diz que se alegrava em saber que sua fé estava por “um fio” e lhe revela que na verdade não confiava em “fés inabaláveis” do tipo que se julgam com poder para deslocar montanhas. Seriam muito teatrais e superficiais e ensina: “O fio que prende a sua fé deve ser do melhor aço e portanto resistente e ao mesmo tempo flexível. Fé sem flexibilidade, fé sem dúvida pode acabar em fanatismo”.

Que grande lição encontramos nesse texto! Seria bom que os grandes pregadores da prosperidade lessem essa reflexão. Pois o que se encontra nas mensagens atuais em sua maioria é justamente o oposto. O cristão não pode ter dúvidas e não pode ser humano. Sua fé deve ser impermeável à dúvida ou qualquer coisa parecida. Não pode questionar. É massacrado psicologicamente e espiritualmente, e com certeza levado ao fanatismo, e desse fanatismo a uma decepção extrema.

Todo evangelho pregado que despreza a condição humana, que implanta no coração da humanidade uma ilusão de invencibilidade e de superpoderes é farsa e demagogia pura. Fica a bela lição do saudoso romancista.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Uma entrevista histórica com o pastor José Pimentel de Carvalho



O pastor José Pimentel de Carvalho, saudoso presidente da Assembléia de Deus em Curitiba, foi um dos últimos obreiros que conviveu com os pioneiros suecos, e com outros pastores que fizeram história na denominação e ajudaram a moldar a igreja nesses quase cem anos de sua existência no Brasil.

Presidente da CGADB por seis mandatos e presidente da AD de Curitiba desde 1962, ele concedeu no final do ano de 1987 uma entrevista em Joinville ao periódico O Assembleiano. Na época no alto de seus 71 anos com 42 anos de ministério, ele expressou-se sobre alguns assuntos que ainda hoje geram polêmica dentro da denominação.

Por ser um representante legítimo de uma geração de obreiros quase que extinta, selecionei trechos da entrevista onde em seguida faço alguns comentários para situar o leitor historicamente. 

O Assembleiano: Há quarenta e dois anos, no início do seu pastorado, era mais fácil conduzir a igreja?

Pimentel: Era mais fácil, porque o crente respeitava mais a autoridade pastoral. Havia mais imposição e menos discussão, em torno de certos assuntos. Esses eram como regras estabelecidas e o crente obedecia ou era disciplinado. Tal situação somente era possível, pois a grande maioria de crentes eram pessoas simples, que aceitavam as regras de igreja de forma muito passiva. Certas interdições, proibições ou imposições eram plenamente assimiladas por gente humilde, sem estudo e de condição material limitada. Com o passar dos anos a igreja mudou seu perfil social. Membros com mais escolaridade e nível social maior tendem a questionar mais, se impor mais e com isso causar certos conflitos dentro das igrejas. Pastor Pimentel estava vivendo esse momento de transição e se lembrava com certo saudosismo do tempo de irrestrita obediência as regras da igreja. 

O Assembleiano: O senhor deve estar entrando, talvez, na sua última década...

Pimentel: Eu creio que sim.

Ele cria, porém a crença não se confirmou, pois esse senhor continuou no pastorado da igreja até sua morte ocorrida somente no dia 24 de fevereiro de 2011. Foram 49 anos de liderança na igreja da capital paranaense e 66 anos de ministério pastoral. Sua longevidade no pastorado da igreja em Curitiba o fez parecer um verdadeiro papa no exercício do seu pontificado. Só saindo do cargo com a morte.

O Assembleiano: O senhor vê seu ministério mais aperfeiçoado, ou o considera no mesmo nível em que começou?

Pimentel: Eu me sinto com um ministério realizado, e tenho no meu coração uma dor muito grande pela obra de Deus. Eu fico preocupado quando observo esses pastores de laboratório...

O Assembleiano: O que o senhor entende por “pastores de laboratório”?

Pimentel: Esses institutos, onde se fazem cursos rasos de teologia, pois não temos professores gabaritados, onde as pessoas estudam durante 3 a 4 anos e já aparecem como bacharéis em Teologia, quando conhecem muito pouco, mas que influenciam e ficam criando problemas para a obra (...) Esta produção de pastores de laboratório está contribuindo para o surgimento de certos grupos que não se conformam comigo, com 42 anos de ministério. Não se conformam, porque pretendo manter aquela linha, até morrer, pois creio que a AD, que já fez 75 anos de existência, deve continuar a ser igreja pentecostal, e pentecostalismo não se mistura com o mundo. Então pretendo manter isto, os novos pastores estão apoiando grupos de idéias avançadas para o mundo, com novidades, inovações. 

Como autêntico representante de uma época, pastor Pimentel ainda manifesta certas restrições aos institutos bíblicos. É evidente nesse ponto da entrevista a revelação entre o choque das lideranças mais antigas formadas junto aos pioneiros suecos e as novas lideranças moldadas nas instituições de ensino teológico.

Vale à pena refletir: quais mudanças esses novos pastores queriam? Quais problemas geravam? Quais inovações desejavam?

É inegável nesse ponto a constatação de que grupos dentro da denominação ansiavam por mudanças e transformações, ou para atender novas gerações de crentes mais escolarizadas e em plena ascensão social, ou devido a forte concorrência de novas igrejas pentecostais onde as proibições e as questões de “usos e costumes” inexistiam.

Outro dado importante é que a expressão “pastores de laboratório” sempre foi usada pela antiga liderança assembleiana para de forma pejorativa se criticar, impedir ou anular qualquer tentativa de criação de institutos bíblicos entre as Assembléias de Deus no Brasil. O argumento era que esses institutos criariam obreiros artificiais e mundanos, os quais estariam longe da “linha” de conduta ministerial dos pioneiros.

O Assembleiano: O senhor tem sido o arquiteto da unidade da igreja, enquanto Presidente da Convenção nacional. É possível manter essa unidade?

Pimentel: Hoje eu estou apenas apreciando o cenário e estou verificando que talvez esse fracionamento seja irreversível, isto porque o desvirtuar da unidade começou há muito tempo, por volta de 1940, de modo que convivi com o problema no Rio de Janeiro por 17 anos. Já na época, não houve formas de voltar à unidade e esse desvio avolumou-se.

Pastor Pimentel iniciou seu ministério no estado do Rio de Janeiro, e viu o surgimento de ministérios assembleianos que se tornaram concorrentes entre si. Debaixo da mesma placa denominacional brigas ferozes ocorreram na disputa por membros, ministros e de campos de trabalho. Ao se referir ao ano de 1940 como início da fragmentação assembleiana, Pimentel estaria se reportando à fundação do ministério de Madureira por Paulo Leivas Macalão? É provável que sim, pois foi justamente em 1941 que Madureira conseguiu sua autonomia jurídica em relação à AD de São Cristóvão, igreja a qual ele era filiado.

Como bem observou, seguindo o exemplo de Madureira outros ministérios conquistaram sua autonomia, e ainda hoje a fragmentação continua. Atualmente a Assembléia de Deus é uma grande denominação fracionada em diversos ministérios que intensificaram ainda mais a concorrência entre si. E não é somente isso. As diferenças litúrgicas e teológicas cada vez mais se acentuam, tornando a igreja uma verdadeira Babel eclesiástica, onde cada um fala a sua língua e se conduz como achar melhor ou mais lucrativo. 

Fonte:

O ASSEMBLEIANO. Joinville ano II nº6 dez 87/jan.88 p.5