sexta-feira, 30 de julho de 2010

A Assembleia de Deus e a Revolução Cultural

Um dos momentos mais interessantes da História das Assembleias de Deus no Brasil foi o encontro da CGADB ocorrido em 1968 na cidade de Fortaleza, Ceará. Segundo o escritor Silas Daniel no livro História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil “os reflexos da Revolução Sexual já atingiam as igrejas, preocupando os convencionais”. As discussões começaram por um pastor catarinense; Satyro Loureiro, que perguntou: “Qual a atitude das Assembleias de Deus no Brasil em relação às minissaias e aos cabeludos que estão tentando invadir as igrejas?”

Não é preciso dizer que nas páginas seguintes os debates foram intensos, sobrando até para o respeitável Mensageiro da Paz, órgão oficial da igreja, pois segundo um pastor, estaria o MP publicando em suas matérias “fotografias de moças e senhoras com vestidos curtos e cabelos com penteados fora do comum”. Como não poderia deixar de ser, as deliberações dos convencionais foram de condenação aos “costumes mundanos”, e de maior rigor nesses casos.

 Anos 60: transformações na sociedade, sentida até  nas Assembleias de Deus

Entrou também na pauta dessa convenção o uso de anticoncepcionais. A pergunta surgiu do pastor Álvaro Motta que questionou: “Qual a posição das Assembleias de Deus no Brasil com relação ao uso das pílulas anticoncepcionais, com finalidade de controlar a natalidade, ou melhor, limitar o número de filhos? Devemos permitir ou não?” Segundo Daniel o “plenário se manifestou em peso contrário ao uso de anticoncepcionais”.

É interessante observar esses debates, pois através deles, podemos analisar as pressões sociais que viviam os membros das Assembleias de Deus no Brasil. Os anos 60 foram de profundas mudanças no mundo capitalista e ocidental. Grandes transformações culturais estavam perpassando toda a sociedade e influenciando a música, moda, comportamento e sexualidade. A descoberta e a comercialização da pílula anticoncepcional estava revolucionando as práticas sexuais, onde até então, o sexo era visto simplesmente como meio de reprodução e não de prazer. O anticoncepcional dava à mulher a oportunidade de uma relação sexual mais livre e sem medo de uma gravidez indesejada. 

Pode-se perceber que justamente no auge desses anos de mudanças mundiais, a igreja sente em seu interior a influência de tais transformações. Está implícito no texto, que os membros, principalmente os mais jovens, estavam aderindo a essas mudanças. Ou seja, os pastores percebiam que seus membros não estavam imunes ao “mundo”, mas desejavam como parte da sociedade da época seguir as tendências do momento.

É comum ao ler essas deliberações da CGADB, julgar os líderes assembleianos com as informações que dispomos hoje, e taxá-los de atrasados ou coisa parecida. Devemos sempre lembrar que os pastores eram homens na sua maioria de origem rural, com pouco grau de instrução e fortemente apegados aos valores conservadores da sociedade vigente. A sociedade também era conservadora. Não eram só os pentecostais que condenavam as modas e costumes gerados durante os anos 60. Não eram só os assembleianos que condenavam o uso de anticoncepcionais, mas grande parte do corpo social no qual estavam inseridos. Tanto é assim, que nas leituras sobre os debates, alguns pastores se utilizavam de artigos escritos por não evangélicos para reforçar seus pontos de vista.

O único problema talvez seja que, enquanto as mudanças avançaram na sociedade, as Assembleias de Deus se fecharam, continuando numa postura ultraconservadora, e assim perderam muitos membros nascidos ou criados nessa geração, durante ou pós 68.

domingo, 18 de julho de 2010

Algumas curiosidades da história assembleiana

Meu propósito é pontuar algumas curiosidades históricas da Assembléia de Deus no Brasil. As informações aqui contidas nesse post estão disponíveis no livro História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil (CPAD 2004). Apenas estarão inseridos alguns comentários procurando contextualizar alguns fatos para que o leitor possa entender as razões de certas decisões ou debates.

Na Convenção Geral de 1937 os convencionais desaprovaram uma proposta do missionário sueco Algot Svenson, líder da Assembléia de Deus em Belo Horizonte, de criar hospitais evangélicos em parceria com outras igrejas. A proposta foi rejeitada, pois entendiam os pastores que a função da igreja de Cristo deveria ser exclusivamente espiritual. Acreditavam ainda que a construção de hospitais fosse uma contradição à fé pentecostal, pois os enfermos deveriam antes de tudo receber orações e serem curados.

Ainda na mesma convenção foi discutida pela primeira vez a utilização do rádio como forma de evangelização. A proposta partiu de Albert Widmer, que na época trabalhava como missionário no estado de Santa Catarina. A convenção decidiu aprovar a utilização do rádio como forma de evangelização, mas não a liberação para os fiéis terem um aparelho em casa. O rádio na época era o grande meio popular de comunicação, que desde seu início no Brasil em 1922 ia ganhando cada vez mais espaço nos lares da nação. A programação radiofônica que no inicio era cultural, foi se transformando, e voltada para as massas, buscava nas músicas populares e programas de auditório maior retorno comercial. O samba, as programações esportivas e as novelas (radio novelas) representavam o secular e o mundano para os crentes desse tempo. O rádio foi sem dúvida nesse período, o que a televisão foi há alguns anos atrás para os assembleianos, um verdadeiro “bicho papão”. Ou seja, quem tinha um deles em casa, já estava fora da comunhão.

Nessa mesma convenção foi discutido sobre o uso da cruz nas fachadas dos templos assembleianos espalhados pelo Brasil. Em sua resolução a convenção decidiu pela não utilização, pois no contexto brasileiro a cruz tem um forte apelo idolátrico e supersticioso. Como alternativa a maioria das igrejas adotou textos bíblicos nas fachadas das igrejas, ou dentro delas. O interessante é que, se a cruz foi rejeitada e ainda não é utilizada como símbolo religioso, a proliferação de candelabros e símbolos ligados a fé judaica são uma constante nas igrejas assembleianas. Isso também não seria uma forma velada de superstição? Ter um símbolo judaico deixa a igreja mais abençoada? É bom refletir sobre a utilização desses símbolos nas igrejas e sua finalidade também.

A Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD) foi fundada em 1940. Nos anos seguintes, a CGADB, fez um grande esforço para concretizar o objetivo de tornar a CPAD uma empresa viável em todos os sentidos. Na convenção nacional de 1947 se discutiu o local de instalação da empresa. Logo se percebe como as preferências ficaram divididas entre as cidades do Rio de Janeiro (capital federal nesse período) e São Paulo. Preferências à parte, o certo é que o Rio de Janeiro ficou sendo o local de instalação da Casa Publicadora. Mas, o interessante foi o comentário do escritor e funcionário da CPAD Emílio Conde. Segundo ele:


A opinião de pessoas experimentadas apontam para São Paulo como o local apropriado para as instalações, em face de diversos fatores, tais como: grande centro industrial, facilidade em aquisição de matéria prima, rendimento do trabalho manual em conseqüências do clima etc.



São Paulo: segundo Emílio Conde teria maior "rendimento do trabalho manual".


Parece uma coisa esquisita, mas não era. Observar esses fatores como o “rendimento do trabalho manual em conseqüências do clima”, foi algo que o grande empresário e editor Victor Civita fez ao chegar ao Brasil e fundar a Editora Abril em 1950. Segundo o jornalista Mario Sérgio Conti em seu livro “Notícias do Planalto”, Victor Civita teria escolhido São Paulo como local apropriado para sua empresa, ao invés do Rio, pois para Civita os paulistas seriam mais empreendedores, ou seja, pegavam no “batente” mesmo.