sábado, 30 de outubro de 2010

Constituição: liberdade religiosa ameaçada?

Um dos capítulos mais interessantes da história dos pentecostais é justamente a adesão desse grupo religioso a política partidária. O sociólogo Paul Freston em seu clássico livro Evangélicos na Política Brasileira: história ambígua e desafio ético trata com muita propriedade essa questão. Para o referido autor questões como a consciência de crescimento numérico, e as disputas no campo religioso por acessos e meios de fortalecimento das instituições evangélicas (esses meios seriam segundo o autor: concessões de rádio e televisão, bem como doações e verbas para as entidades filantrópicas dirigidas pelas igrejas), são um exemplo dos motivos da adesão pentecostal a política partidária. Soma-se a isso o status que a política pode dar a uma família pastoral, e o desejo dos partidos políticos de diversificarem sua clientela.

Porém, para romper com as resistências históricas de um povo, que não via a política dentro das igrejas com bons olhos, qual fator ou discurso se destacou naquela época?

Congresso: "ameaça" à liberdade religiosa impulsionou a eleição dos pentecostais

Para Freston o discurso de "ameaça" à liberdade religiosa foi a grande justificativa das lideranças, para explicar o envolvimento das denominações evangélicas pentecostais (principalmente a Assembleia de Deus) na política. Segundo as lideranças, a Igreja Católica estaria se preparando para voltar a ser a religião oficial do país. O Mensageiro da Paz colaborava com essa informação quando divulgava notícias, nas quais em tom alarmista, deixava claro o perigo iminente que os evangélicos corriam, caso a igreja romana voltasse a ser a religião oficial do estado. Segundo o sociólogo:

"As histórias são sempre vagas e levam as marcas clássicas da boataria. Como entender tudo isso? A ideia de um retorno a uma religião oficial, quase cem anos após a separação de Igreja e Estado e sem campanha pública preparatória, é estranha. Será que os líderes assembleianos estavam totalmente alienados do momentos histórico? Ou era a manipulação cínica dos fiéis em função de objetivos inconfessáveis? Ou devemos entender "liberdade religiosa" como código para algo maior e mais ancorado na realidade?" (FRESTON 1994: 65)

Robson Cavalcanti também corrobora esse raciocínio em seu livro Cristianismo e Política: teoria bíblica e prática histórica ao afirmar que "Durante a campanha de Constituinte a maioria dos candidatos evangélicos pediam que os elegessem para "garantir a liberdade religiosa", que em nenhum momentos esteve ameaçada".

Pode ser que as lideranças realmente acreditaram na versão da "ameaça à liberdade religiosa", pois a história do pentecostalismo no Brasil, é recheada de perseguições. Nos primeiros anos de sua existência, os pentecostais tiveram muitos de seus líderes e membros presos, suas igrejas forma apedrejadas e depredadas. E muitas dessas perseguições eram movidas por sacerdotes católicos ou membros do catolicismo. Nesse período eleitoral vários dos pioneiros ainda eram vivos, e as lembranças das dificuldades dos primeiros anos permanecia.

A falta de sintonia dos líderes assembleianos com o momento histórico é simplesmente um reflexo da pobre formação cultural e política dos mesmos. Muitos deles, analfabetos, aprenderam a ler na Bíblia. Como muitos dos brasileiros de hoje, não entendiam as estruturas políticas e sociais do Brasil. Facilmente se alarmavam com qualquer coisa que ameaçasse seus direitos e privilégios religiosos, conquistados a duras penas durante tantos anos.

Pode ser que o discurso da "ameaça à Liberdade religiosa" foi uma invenção, ou exagero de alguns partidos políticos para a adesão dos evangélicos, e principalmente dos pentecostais a um envolvimento direto nas campanhas políticas. Ao entrevistar pessoalmente algumas lideranças catarinenses ou membros mais antigos sobre o assunto, percebe-se que era realmente esse o receio dos crentes: o medo das restrições religiosas que uma nova Constituição poderia trazer. Então eleger representantes para a nova Carta Magna se tornou um imperativo naquele momento.

Mas passados alguns anos das eleições legislativas que marcaram a entrada dos assembleianos (e pentecostais em geral) na política partidária, o que se percebe é um silêncio sobre essa questão. Obras recentes da Casa Publicadora das Assembleias de Deus no Brasil passam ao largo dessa polêmica.

Exemplo mais marcante desse silêncio é o do Dicionário do Movimento Pentecostal escrito e organizado por Isael de Araújo. Apesar de no verbete Política o autor "copidescar" trechos quase que inteiros de livros e textos dos mais variados autores sobre a inserção dos pentecostais na política, em nenhum momento se refere a "ameaça" da liberdade religiosa como impulso das candidaturas assembleianas a Constituinte. O autor chega a afirmar que somente em 2001 com a criação do projeto "Cidadania AD Brasil" é que a denominação se organizou nacionalmente para eleição de parlamentares ligados a mesma, "esquecendo" assim de mencionar o grande esforço de 1986.

Resta saber o porque desse aparente "esquecimento"? Será que os rumos tomados pela denominação nas questões políticas teriam tornado o discurso da "ameaça" à liberdade religiosa, assumido naquele momento pela cúpula assembleiana, algo totalmente obsoleto e digno de ser apagado da sua história?

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Assembleia de Deus e eleições: 1986 um ano decisivo

Uma das notícias mais comentadas nos meios de comunicação a cada eleição legislativa, é o aumento, ou a diminuição da chamada "bancada evangélica" no Congresso Nacional. Nesse ano de 2010, verificamos que o número de parlamentares evangélicos aumentou, saltando de 43 para 71 congressistas.

A Assembleia de Deus maior igreja protestante e pentecostal do Brasil, fez jus ao seu gigantismo, e agora na proximidade do seu centenário, conseguiu eleger (ou em alguns casos reeleger) 23 deputados federais, superando assim as dificuldades da eleição legislativa de 2006, quando vários de seus representantes não conseguiram a reeleição.

Mas como será que a maior denominação evangélica do país se comportava em matéria de política partidária  há alguns anos atrás?

Segundo alguns estudiosos, a origem estrangeira dos missionários suecos que fundaram a Assembleia de Deus no Brasil, a baixa condição social dos seus membros nas primeiras décadas de sua expansão e as perseguições ferrenhas enfrentadas, teriam sido alguns dos fatores para seu apolitismo institucional durante muitos anos. Afinal, a luta dos primeiros crentes era pela sobrevivência, suportando as perseguições e esperando a volta de Cristo para qualquer momento. Não se pensava em outras conquistas ditas "mundanas", incluindo o poder político.

Porém alguns membros se destacaram na seara política. O caso mais notável é o de Antônio Torres Galvão, o qual construiu uma carreira política interessante em Pernambuco, tendo chegado a ocupar a chefia do governo desse estado por alguns meses em 1952. Outro exemplo é o de José Fernandes, o primeiro membro da Assembleia de Deus a chegar ao Congresso Nacional em 1978 pelo estado do Amazonas.

Mas a grande entrada e mobilização das Assembleias de Deus na arena política tem um ano como marco: 1986. Nesse ano, os cidadãos brasileiros elegeram a nova Assembleia Nacional Constituinte, que teria a responsabilidade de formular uma nova Carta Magna para o país. Estaria em jogo, segundo os líderes evangélicos em geral, a liberdade de culto e religião, a qual somente seria assegurada com uma ampla mobilização e eleição de representantes para atuar na constituinte.

Constituição: sua mística garantiu a eleição de muitos pentecostais 

Cada convenção estadual ou regional das Assembleias de Deus no Brasil, escolheu ou apoiou candidatos, e realmente se mobilizou para a eleição dos mesmos. O esforço conjunto foi um sucesso, pois dos 32 deputados evangélicos eleitos, 14 eram assembleianos. Porém na eleição seguinte, sem "a mística da constituinte" como bem afirmou Freston, e com maior concorrência e desilusões por parte do eleitorado protestante, o número de deputados ligados a denominação (e aos evangélicos em geral) caiu drásticamente. Em 1990 a Assembleia de Deus somente conseguiu reeleger 5 dos deputados da legislatura de 1986, e 4 conseguiram assumir como suplentes.

Com o maior número de candidaturas por parte de seus membros a cada eleição, e as consequentes derrotas dos chamados chamados "candidatos oficiais", a liderança assembleiana chegou a lançar em 2001 o projeto político "Cidadania AD Brasil". O projeto estimulava em linhas gerais, a candidatura de políticos comprometidos com a igreja, e procurava fortalecer através dos mesmos, a influência da instituição nos rumos políticos do país. Como resultado desse esforço institucional a Assembleia de Deus conseguiu eleger em 2002, 22 deputados. Porém com a CPI dos "Sanguessugas" (a máfia das ambulâncias), e o envolvimento de alguns parlamentares evangélicos (muitos deles assembleianos), o número de parlamentares pertencentes a denominação caiu para 9 nas eleições de 2006.

Agora em 2010, a Assembleia de  Deus voltou a eleger um número significativo de congressistas. Porém algumas questões levantadas por estudiosos do tema, ainda continuam atuais. Quais motivos realmente incentivaram as igrejas e seus líderes a lançarem candidatos próprios? E o mais importante: quem são na sua maioria os candidatos oficiais da denominação? Mas esse é um assunto para se discutir nos próximos textos.