sábado, 27 de novembro de 2010

Tim Tones - paródia com ares proféticos

Você lembra de Tim Tones? Os mais jovens provavelmente nunca ouviram falar dele, mas Tim Tones era um personagem do famoso humorista Chico Anysio. Talvez seja um dos precursores da teologia da prosperidade no Brasil. O nome do cômico personagem lembrava o pregador norte americano Jim Jones, que alguns anos antes ficou famoso por liderar um suicídio coletivo na Guiana.

O quadro humorístico era também uma clara alusão ao programa do famoso televangelista Rex Humbard, que era apresentado em vários países, inclusive no Brasil. Exibido em meados dos anos 80, o quadro causou forte reações no meio evangélico (principalmente nas lideranças), os quais não gostaram de se ver de forma estereotipada no horário nobre da Rede Globo de televisão. Tal foi a indignação, que a revista Veja numa matéria intitulada De mal humor: personagem de Chico Anysio descontenta igrejas descreve assim a polêmica:

O pastor Tim Tones, um personagem que Chico Anysio apresenta há dois meses na TV Globo, está provocando reações entre os membros de várias igrejas protestantes do país... O Tim Tones de Chico Anysio é um pastor esperto que se apresenta sempre junto com a família - a mulher e sete filhos - e explora seus fiéis. (Veja 07/11/1984)

No decorrer da matéria, dois lideres evangélicos são ouvidos sobre a polêmica. Um deles o pastor Nemuel Kessler da Assembleia de Deus do Rio de Janeiro critica: "A questão é que, do jeito que Chico Anysio faz sua sátira, as pessoas não diferenciam um pseudomissionário de um verdadeiro". 

Tim Tones: paródia profética

Outro ponto interessante, é a menção do texto do pastor Paulo César Lima escrito no Mensageiro da Paz, cujo título Tim Tones: sátira ou blasfêmia? No artigo, o autor reconhece que o alvo do humorista são os "mercadores do evangelho", mas sua crítica principal é a maneira desrespeitosa como o nome de Deus é usado. Para Lima, o nome de Deus é "proferido no programa como se fosse um mero produto de utilidade pública." Ao ser procurado Chico Anysio respondeu simplesmente "Quem reclama do Tim Tones, Tim Tones é".

Ainda repercutindo a polêmica, o jornalista e pastor Joanyr de Oliveira no Mensageiro da Paz (fevereiro de 1985) dá a réplica ao humorista.

Será mesmo? Não! Aquela foi uma apressada conclusão que, em absoluto, não corresponde à verdade. Milhões e milhões de evangélicos se entristecem ao saber que se desacredita a nobre causa evangélica ao se caracterizar como pastor a um cínico aproveitador da ingenuidade popular - mas nada têm haver com tal procedimento. Portanto, muitos são os que não são Tim Tones nem gostam dele.

Porém, mais adiante, pastor Joanyr reconhece:

É verdade que o falso pastor criado pelo humorista não é um mero personagem de ficção. Ele encarna uma categoria de cidadãos em todos os Estados e que vêem enodoando o evangelismo pátrio. Eles exploram os crentes e exigem quase insuportáveis sacrifícios dos fiéis, prometem curas que nunca acontecem e, com as contribuições dos irmãos, avolumam seu patrimônio e o de familiares seus.

Joanyr de Oliveira reconhece, que o Tim Tones da TV era uma alusão verdadeira de falsos mestres, os quais deveriam ser denunciados com vigor. Por outro lado, Oliveira faz coro com Paulo César Lima e argumenta que realmente Chico Anysio estava sendo blasfemo e assegura "é bom que se diga, nosso Deus não se deixa escarnecer".

Há muito o programa deixou de ser apresentado, e Chico Anysio hoje está morto. Mas Tim Tones está vivo, presente e multiplicado mais do que nunca no meio evangélico. Àquilo que era um quadro cômico, num determinado programa uma vez por semana, tornou-se uma tragédia, um drama dentro das denominações pentecostais. 

Tim Tones hoje possui diferentes nomes, variados horários no rádio e na televisão brasileira e infelizmente está todos os dias na mídia, fazendo com o nome de Deus aquilo que Lima justamente criticou em seu famoso artigo, ou seja, transformando o evangelho em "mero produto de utilidade pública". Ou pior: entesourando para si e família milhões em dinheiro.

domingo, 21 de novembro de 2010

Refúgio para um pardal - a autobiografia do Pr. Nirton Santos

Deixando agora a política um pouco de lado, gostaria de informar que li recentemente o livro autobiográfico do Pr. Nirton dos Santos, intitulado Refúgio para um pardal (Editora Letra Moderna). O título é uma alusão ao pássaro que a Bíblia apresenta como o de menor valor. Pr. Nirton em sua trajetória de vida se compara a essa ave, a qual mesmo sendo de valor insignificante, contudo é alvo do cuidado divino.

Pr. Nirton: refúgio para um pardal

Nas páginas desse livro, encontramos a história de um menino, cuja vida é desde cedo marcada por tragédias familiares, abandono, trabalho árduo e solidão. É realmente comovente, e impressionante o relato do suicídio da sua mãe, bem como o destino trágico das suas irmãs. Entre tantas perdas, miséria e desconforto, o jovem Nirton se converte ao evangelho de Cristo, e consegue formar um lar, desenvolver seu ministério de pastor pentecostal.

Os pontos altos de sua narrativa são: o indiscutível pioneirismo, abnegação e renúncia do Pr. Santos e da sua falecida esposa, bem como os relatos de seu trabalho de evangelismo por regiões de difícil acesso. Seja de pé, bicicleta, moto ou de carro, Pr. Nirton se revela um obreiro incansável.

Porém, para os que estudam a história do pentecostalismo, ou das Assembleias de Deus, fica uma certa decepção, pois sempre se espera mais detalhes de alguém que conviveu com tantos líderes, participou e influenciou nas mudanças da denominação no estado catarinense. Todavia a obra escrita por esse pioneiro (com possível ajuda de seu filho) segue à risca as demais do gênero. Ou seja, o livro esta mais para uma hagiografia, do que propriamente uma biografia. Nesse tipo de trabalho biográfico as polêmicas ficam ao longe, enquanto que as virtudes são destacadas; tudo com vista a edificação dos fiéis.

A trajetória de vida e ministério do Pr. Nirton é um dos exemplos mais exatos do que ocorre na Assembleia de Deus nos dias atuais. É a história do patriarca que se converte ainda na juventude, com muito sacrifício desenvolve igrejas, passa até necessidades, e gradualmente ascende no ministério. Conforme a denominação cresce e enriquece, a família do líder se beneficia, e assim com o passar do tempo, quase todos estão de uma forma ou de outra colhendo os frutos do seu progenitor. Dos seus quatro filhos, dois são pastores de importantes igrejas no estado (sendo que um deles já conseguiu sua jubilação), outro com apoio da denominação conseguiu se eleger vereador em Blumenau, e em 2010 conquistou um mandato para deputado estadual em Santa Catarina. Um de seus genros teve uma ascensão meteórica no ministério, sendo seu vice-presidente em algumas igrejas por onde Pr. Nirton passou, e assumiu a presidência da Assembleia de Deus em Blumenau, quando o reverendo Santos se jubilou e passou a se dedicar somente a convenção estadual.

Mas nem tudo é perfeição. A transição que deveria assegurar o controle da igreja de Blumenau ao clã dos Santos se comprovou uma lastimável decisão. E essa é uma das notas do livro, e da vida do Pr. Santos que ainda lhe causam constrangimento. Sem mencionar para quem entregou a igreja, e os motivos de tal decepção, ele resume os acontecimentos com as seguintes palavras "minha família passou por um vendaval destruidor". Assegura que pagou "um preço desnecessário e a igreja enfrentou um tempo considerável de turbulências".

Para finalizar minhas considerações, parece-me que o pardal encontrou um refúgio. Mas sem dúvida, sua prole também conseguiu um excelente ninho do qual se provém com abundância. A história de vida desse pioneiro é somente um retrato fiel de várias famílias pastorais, que hoje controlam a Assembleia de Deus em todo Brasil.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ainda sobre as eleições: o perfil dos candidatos pentecostais

Ainda continuando sobre a eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, é importante destacar o perfil dos candidatos apoiados pelas igrejas, ou seja, quem a liderança buscou para fazer a representação da denominação como um todo.

Paul Freston descreve em seu livro Evangélicos na Política Brasileira, as qualidades ou as qualificações dos primeiros candidatos pentecostais. Em suma eles eram pregadores ou cantores conhecidos dos fiéis. Portanto tinham projeção eclesiástica, pois numa eleição majoritária, ter um nome já conhecido ajudava no projeto de eleição do candidato oficial. Lançar um desconhecido talvez não seria um bom negócio. Outra qualificação era a de empresário de origem humilde, mas bem sucedido na carreira profissional. Outro fator para indicação foi a ligação do pretendido candidato com a mídia evangélica.

Geralmente um candidato reunia em si duas , ou senão três dessas qualificações citadas acima. Um exemplo é o caso de Matheus Iensen. Eleito deputado constituinte em 1986 pelo estado do Paraná, Iensen atuava como empresário de mídia (controlava emissoras de rádio e uma gravadora evangélica), mantinha programas próprios  em suas rádios, e com isso, alimentava juntamente com a família, uma bem sucedida carreira de cantor sacro.

Iensen: cantor, comunicador e empresário. Qualidades de um candidato evangélico.

Certamente, uma coisa pelo menos unia a grande maioria dos candidatos: a falta de experiência política. Segundo Freston sete dos deputados pentecostais eleitos em 1986, "surgiram politicamente do nada". Esse dado simplesmente revela o caráter imediatista que as eleições tiveram para os evangélicos. O importante era a garantia da liberdade religiosa, e a defesa dos valores culturais tidos como importantes para os mesmos.

Mas outra característica, ou qualidade, a qual poderia fazer de alguém um potencial candidato oficial da igreja, seria sua ligação familiar com o principal pastor da Assembleia de Deus do estado ou região. Foi à partir desse momento, que em todo o Brasil, familias pastorais passaram a investir em seus membros como futuros candidatos. 

Não bastava mais aos líderes assembleianos constituírem seus filhos, genros ou apadrinhados no ministério da igreja. Era preciso de agora em diante, alcançar maior status; e esse status a política poderia oferecer, engrandecendo o nome da dinastia e consolidar ainda mais o poder do líder religioso, o qual era, a partir desse momento, o grande patrocinador e cabo eleitoral de seu "escolhido". Interesses de família se mesclam com interesses denominacionais. Prováveis candidaturas são desestimuladas, e potenciais líderes comunitários e sociais, ainda que pertencentes a denominação, são preteridos por projetos familiares.

Essas marcas da política assembleiana e pentecostal, ainda são visíveis em nosso meio. Cantores e pregadores com destaque no meio religioso, sem ter um projeto, ou preparação política se aventuram a cada eleição. E alguns infelizmente conseguem se eleger. Pastores de grandes igrejas lançam seus protegidos do nada, e usam seus obreiros como verdadeiros cabos eleitorais, para muitas vezes tentar o êxito de um desconhecido na eleição. Felizmente muitos naufragam nessa tentativa.

Com algumas modificações e particularidades, ainda é esse o retrato dos candidatos oficiais da quase centenária Assembleia de Deus no Brasil.