sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Assembleia de Deus de São Cristóvão (RJ): a descaracterizarão de uma igreja histórica

Na grandiosa festa de comemoração do 60º aniversário da CEADAM (Convenção Estadual da Assembleia de Deus no Amazonas), cujo tema foi "Avivamento para transformar o Planeta", vários pastores, cantores e pregadores abrilhantaram os trabalhos. A multidão de membros e obreiros de todo estado lotaram o sambódramo da capital Manaus para celebrar o evento.

Entre os preletores nas noites festivas e das reuniões convencionais, estava um jovem pregador. Com pinta de galã, elegantemente trajado, penteado impecável, eloqüente e teatral nas suas prédicas, fazia a multidão delirar com suas mensagens. Obreiros, crentes, homens e mulheres, caiam ao serem atingidos pelos "mísseis" divinos que ele lançava sobre os fieis, ou com um simples sopro crentes caíam a chão extasiadas do "poder" de Deus. Ele mesmo, empolgado com os acontecimentos ao seu redor, entre efusivas manifestações de louvor do povo ali reunido, cambaleava como se estivesse embriagado.

O pregador, cuja performance foi brevemente descrita nas linhas acima é o Apóstolo Jessé Maurício da Assembleia de Deus Missão Apostólica da Fé, igreja com sede na cidade do Rio de Janeiro. Com um templo amplo e espaçoso, a denominação apresenta em seu grande púlpito entre tantos objetos, um grande candelabro (símbolo da nação judaica), um globo representando a terra e vários banners demonstrando os propósitos da comunidade que ali se reuni. Tudo nessa Assembleia de Deus, a começar pela titulação eclesiástica de seu líder, pela teatralidade de sua liturgia, ou pela decoração chamativa do interior de seu templo, faz parecer que estamos diante de mais uma denominação neopentecostal.

Seria mais uma "emergente" entre tantas outras, cujo exotismo de seus cultos e ministério visa uma clientela maior de membros e ouvintes (e contribuintes também). Porém todos esses pormenores chamam a atenção por um único detalhe, o qual daria um certo ar de igreja pentecostal clássica a essa denominação: o nome  Assembleia de Deus.

Na verdade, essa igreja, a qual em nada lembra uma Assembleia de Deus; a não ser pelo nome, é um dos ministérios mais antigos, e um dos mais relevantes para a história das Assembleias de Deus no Brasil. Conhecida até o ano de 2006 como Assembleia de Deus de São Cristóvão, essa igreja foi a pioneira das Assembleias de Deus no estado do Rio de Janeiro, e responsável pelo surgimento de muitas outras pelo país.

Templo da Assembleia de Deus Missão Apostólica da Fé: Assembleia só no nome

Organizada por Gunnar Vingren em 1924, a Assembleia de Deus de São Cristóvão deu origem ao ministério de Madureira (Paulo Macalão foi um dos primeiros crentes e secretário dessa igreja), Penha (hoje Assembleia de Deus Vitória em Cristo), Lapa e Leblon, entre tantas outras. André Bernardino, pioneiro do trabalho assembleiano em Santa Catarina, converteu-se e cooperou em São Cristóvão antes de retornar a Itajaí, e ali organizar a igreja em 1931.

Os principais missionários suecos no Brasil como Gunnar Vingren, Samuel Nyström, Nils Kastberg, Otto Nelson, e Nels Nelson dirigiram essa igreja. Pastores pioneiros como Francisco Pereira do Nascimento, Alcebiades Pereira Vasconcelos, José Pimentel de Carvalho e o grande nome do jornalismo assembleiano Emílio Conde contribuíram para o crescimento desse ministério. O Mensageiro da Paz e a CPAD iniciaram seus trabalhos e impressões nas dependências de São Cristóvão. O primeiro Curso de Aperfeiçoamento de Professores da Escola Dominical (CAPED) foi realizado nessa igreja. Enfim, essa igreja como nenhuma outra contribuiu para modelar e expandir o pentecostalismo no país. As Assembleias de Deus no Brasil tem uma dívida histórica para com São Cristóvão.

Mas o que aconteceu com esse ministério? Como uma igreja líder, pioneira e referência para tantas outras, ficou irreconhecível em sua liturgia e pregação? O que aconteceu para que hoje ela não esteja mais filiada a Convenção Geral, ou sequer ser mencionada nos periódicos da CPAD, principalmente o MP?

A resposta não é fácil de dar, mas algumas pistas podem esclarecer os fatos. Um dos motivos ao que tudo indica, são as profundas divergências que nos últimos anos se agravaram, entre a liderança assembleiana. Há mais de vinte anos, o pastor presidente do ministério do Belenzinho em São Paulo José W. Bezerra da Costa, lidera juntamente com uma oligarquia de pastores de algumas convenções assembleianas espalhadas pelo Brasil, a CGADB. São vinte anos de absoluta hegemonia, sem alternância na condução da instituição e dos negócios da CPAD. As igrejas e ministérios do estado do Rio de Janeiro (principalmente a capital), que há alguns anos atrás tinham tanta importância na CGADB, gradativamente foram perdendo espaço e poder dentro da Convenção Geral. Percebe-se que o eixo de influência e poder eclesiástico em nível nacional das igrejas do Rio, as quais anteriormente eram centro e referência para todo o Brasil, foi se deslocando em meados da década de 1980 para São Paulo; mais precisamente o Belenzinho.

Talvez a eleição para presidência da CGADB em 1999, tenha agravado a situação. Concorrendo contra José Wellington nesse ano, estava o pastor Túlio Barros de São Cristóvão. Os convencionais reunidos na sede do Belenzinho em São Paulo, e com toda certeza havia um número expressivo de ministros desse ministério, concedeu uma vitória esmagadora ao seu presidente. Reeleito com 71% dos votos válidos contra 28% do seu oponente, a eleição revelava ainda mais o declínio das lideranças cariocas. Em seu discurso de posse, pastor José Wellington deixa transparecer a rivalidade desse pleito quando falou aos convencionais: "Eu e o pastor Túlio não somos adversários... A eleição terminou e nossa amizade e comunhão permanecem. vamos realizar a obra de Deus". (DANIEL 2004: 610)

A eleição terminou é verdade, mas o líder máximo de São Cristóvão resolveu iniciar seu processo de ruptura com a CGADB. Um ano após sua fragorosa derrota na Convenção Geral, segundo a revista Enfoque (junho de 2008) "pastor Túlio Barros desafiou a igreja a uma nova dimensão que, segundo membros e líderes, resultou em renovação e avivamento espiritual". Esse desafio para uma "nova dimensão" foi a adoção do G12, polêmico método de crescimento e evangelização neopentecostal. Notas em alguns sites na internet comentam o fato do ministério ter perdido muitos membros de peso por esse decisão. Outros comentários  afirmam, assim como a revista Enfoque, que o crescimento foi acentuado. Mas é bem provável, pela sua tradição e história, que esse novo "desafio" não foi aceito sem enormes resistências. 

É bom deixar bem claro, e é um detalhe importante, que o genro do pastor Túlio Barros, Jonatas Câmara, é pastor presidente da igreja Assembleia de Deus em Manaus, e líder da Convenção do estado do Amazonas. Nessa igreja, ele adotou o método do G12, provocando enormes polêmicas e divisões em Manaus. Seu irmão Samuel Câmara por sua vez, na liderança da igreja de Belém, por força do ministério local não conseguiu esse feito com risco até de perder seu cargo se insistisse no projeto. Ou seja, o interesse de implantar um projeto como o G12 nas Assembleias de Deus era algo mais amplo, com referenciais no mínimo familiares. 

Outro fator importante para se identificar a ruptura, também está no fato da sucessão ministerial. Com idade avançada, como muitos outros pastores líderes de igrejas e ministérios, pastor Túlio transferiu a direção de São Cristóvão ao seu filho mais moço Jessé Maurício. Novas gerações são muito mais propensas a aderir a inovações e projetos de resultados práticos. Talvez sentido o vento das mudanças, e desejando a qualquer custo manter sua linhagem na direção da igreja, pastor Túlio entregou o ministério para o filho, pois nessas condições toda uma rede de interesses familiares também fica garantida. 

Nesse processo de adesão ao G12, outro passo foi a aceitação do chamado "Movimento de Restauração Apostólica", onde ministérios e igrejas reconhecem como apóstolos seus principais lideres. Pastor Túlio em 2004 ao ser jubilado (aposentado) das suas funções ministeriais, recebe a consagração de apóstolo, e seu filho o de bispo. Assim, pastor Ferreira se tornou o primeiro apóstolo das Assembleias de Deus no Brasil, mesmo a denominação não reconhecendo essa titulação eclesiástica. A mudança de nome para Missão Apostólica da Fé foi mais uma forma de romper com o tradicionalismo. É segundo seus lideres, um retorno as origens pentecostais, ou segundo outra opinião, uma questão de marketing.

Espera-se que de forma breve e com as informações disponíveis, o leitor possa ter um esclarecimento de como se deu a descaracterizarão dessa igreja histórica e de grande importância para o pentecostalismo brasileiro. Hoje, longe de ser uma referência, a Assembleia de Deus de São Cristóvão parece ser de um exotismo digno das mais jovens denominações neopentecostais.

Observação: para construir esse texto, foram consultados os livros História de Convenção Geral das Assembleia de Deus no Brasil, Dicionário do Movimento Pentecostal, revista Enfoque (junho de 2008), e alguns sites na internet. Alguns comentários de criticas favoráveis ou contrárias a implantação do G12 são interessantes para se ter um ideia das complicações que uma mudança drástica de liturgia causou na igreja. Sobre o "apóstolo" Jessé Maurício,  basta consultar o YouTube e observar suas pregações teatrais, tanto em Manaus como na igreja de São Cristóvão.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Benedita da Silva - mulher, negra, favelada e política assembleiana

Para Paul Freston em seu livro Evangélicos na Política Brasileira, Benedita da Silva é uma pentecostal atípica. Filha de um operário de construção (décima-segunda numa prole de treze) e de uma lavadeira, ambos analfabetos, Benedita trabalhou de empregada e camelô. Tornou-se auxiliar de enfermagem, e posteriormente já vereadora, graduou-se em Serviço Social.

Freston observa ainda, que a sua politização se deve aos pais. Sendo filha de mãe de santo, ela herdou de sua genitora a capacidade de liderança, e nas associações comunitárias ela desenvolveu sua formação política. Tornou-se membro da Assembleia de Deus aos 24 anos, "adaptando-se aos costumes mas não ao apoliticismo." (Freston 1994: 108)

Durante toda sua atuação política foi vista com reservas e desconfianças pela liderança assembleiana. Era filiada ao PT numa época em que o partido era visto como a encarnação do mal. Ao defender os direitos dos negros, mulheres e homossexuais, ela causava desconfianças entre os evangélicos. Como podia uma cristã, ainda mais pentecostal defender temas tão antagônicos as diretrizes de sua própria denominação?

O fato é que, como bem foi observado por Freston é que: "ela não é produto político da AD. Nunca foi candidata oficial, e toda sua trajetória fere a mentalidade tradicional da igreja, que não incentiva membros comuns (sobretudo mulheres pobres) a conquistar posições na sociedade secular."

Logicamente pagou um preço por isso. Tendo carreira política independente, sendo de um partido de esquerda, e defendendo temas polêmicos, ela não foi apoiada pelos principais ministérios assembleianos na eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro em 1992. Recebeu apoio de alguns segmentos, mas a liderança refutou sua candidatura.

No Mensageiro da Paz de setembro de 1986, uma matéria expôs alguns dos candidatos assembleianos a constituinte. No texto é destacado algumas informações e projetos políticos dos futuros constituintes, e na apresentação de Benedita, no registro de suas palavras e ideias, há a revelação de uma candidata que é uma verdadeira anomalia perto dos candidatos oficiais da Assembleia de Deus.

A vereadora Benedita da Silva, líder do seu partido na Câmara do Rio de Janeiro e membro da AD do Leblon, tem procurado levar sempre à comunidade evangélica a necessidade de um envolvimento maior do crente com a verdadeira justiça social. 

"Minha prática política é baseada na minha prática espiritual. Por isso quero que todos tenham direitos", ressaltou Benedita da Silva em entrevista recente ao MP. Ela disse, ainda, que, como mulher, negra e cristã, tem sofrido uma série de discriminações e preconceitos. Mas isso não a impede de continuar procurando defender a justiça para o povo: "Não compreendo como existem cristãos muito ricos e não dividem a riqueza com os empregados, deixando até de pagar férias, 13º salário... E à noite estão nas igrejas, dirigindo cultos."

"Essa discussão tem muita importância para mim, mesmo que tenha algum político evangélico e latifundiário querendo defender suas terras. Minha participação será sobretudo, a de uma serva do Senhor na Constituinte." (MP setembro de 1986)

É lógico que o tempo passou, e Benedita da Silva "amadureceu" politicamente. Chegou a ser a primeira mulher negra eleita senadora e governadora de um estado brasileiro (RJ). Foi ministra no governo Lula, e novamente consegue em 2010 se eleger deputada federal. Foi alvo de polêmicas envolvendo seus familiares e a si mesma. Nesse  percurso deixou de ser assembleiana, e hoje é filiada a igreja Presbiteriana.

Porém (provavelmente por um cochilo dos editores) suas críticas feitas no MP são de uma atualidade impressionante. São observações que revelam algumas facetas obscuras de políticos evangélicos, e revelam que infelizmente se aceitam certas injustiças sociais dentro do próprio rebanho. Ou seja, certas posturas conservadoras, são na verdade, o desejo de manter seus próprios privilégios e de uma minoria.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Memória fotográfica - Líderes da Assembleia de Deus em Santa Catarina

A fotografia nos permite reviver momentos alegres e tristes, permite também realizar uma viagem ao tempo. Ela capta um momento, um instante, um evento e o eterniza.

Nessa fotografia você observa um desse momentos eternizados. Cedida gentilmente pela família Loureiro, esse encontro de pastores e obreiros catarinenses ficou para posteridade através dessa foto.


No livro O Reino entre príncipes e princesas  - 75 anos de história da Assembleia de Deus em Joinville encontramos a informação de que esse registro se fez na Convenção de obreiros, realizada em Florianópolis em 1958.

Na primeira fila sentados da esquerda para a direita encontramos os pastores João Ungur e esposa, Antonieto Grangeiro, Antonio Lemos, missionário Simon Lundgren, Manoel Germano de Miranda, Agnelo José da Costa, Osmar Cabral e esposa, Satyro Loureiro e esposa.

Em pé, entre vários convencionais se observa a presença de Artur Montanha, Liosés Domiciano e José Vieira. Ainda em pé na quarta fila (o terceiro da esquerda para a direita, bem abaixo do bem-vindos), esta o pastor Nirton Santos.

Todos esses senhores, a grande parte de saudosa memória, outros ainda vivos, contudo já jubilados de suas atividades pastorais, foram realmente grandes pioneiros do trabalho pentecostal em Santa Catarina. Evangelizavam várias cidades de pé, bicicleta, cavalo, carroça ou qualquer outro veículo. 

Observe esses senhores. Não há o espírito triunfalista que hoje toma conta de tantos obreiros. Ao contrário de que acontece hoje, alguns deles largaram carreiras promissoras e bons empregos para se dedicar a tarefa árdua de pregar o evangelho. Um deles foi integrado, mas sem promessa de salário mensal garantido, outro ao morrer acabou por deixar a família sem casa ou algum imóvel para morar. Outros no desejo de agradar a Deus e a igreja, descuidaram dos próprios filhos e morreram vendo a família praticamente fora da denominação que ajudaram a construir.

Observe esses obreiros. Seus semblantes estão marcados pela dureza, vicissitudes e perseguições dos primeiros tempos de pregação pentecostal. Alguns morreram no total esquecimento, ou sem o devido reconhecimento por tantos anos de lutas. Longe se ser um bom negócio, ser obreiro pentecostal naquela época era optar pelo sacrifício, pelas lutas e por uma vida espartana, sem luxos ou ostentações.

Observar esse momento, refletir sobre a vida desse pioneiros é importante para repensarmos o que é ser ministro do evangelho hoje. É evidente que os dias são outros, a sociedade mudou e a igreja também. As circunstâncias nas quais são edificados muitos obreiros são muito diferentes das de antigamente, mas é também evidente que o ministério deixou de ser encarado por muitos como uma vocação, para se tornar simplesmente um meio rentável de ganhar a vida.

Então ao visualizar essa imagem, procure ir além dela e conheça as vidas e as várias histórias que estão por trás delas. Leia os semblantes, pesquise sobre sua época, e será grande seu aprendizado.