terça-feira, 26 de abril de 2011

Foto Memória: Assembleia de Deus em Joinville

A foto abaixo mostra o templo e um bom número de membros da Assembleia de Deus em Joinville. A frente pode-se distinguir entre tantos pastor Satyro Loureiro então líder da igreja, missionário J. P. Kolenda, pastores Antônio Lemos, Manoel Germano de Miranda.

Não se tem a data exata dessa fotografia, mas provavelmente esse registro foi feito entre 1954 e 1957, quando Satyro Loureiro presidiu a igreja, substituindo o missionário norte-americano Vilgil Smith. Em 1957 Loureiro é transferido voltando a presidir a AD de Joinville 22 anos depois, quando em 1979, após o falecimento do pastor Liosés Domiciano, ele reassume a igreja ficando em seu comando até o ano de 1990.


Salta aos olhos, para quem conhece esse local, é a transformação urbana de Joinville nesses anos que passaram. A avenida Getúlio Vargas, local onde esses irmãos se colocaram para esse registro fotográfico, está (como não poderia deixar de ser) totalmente modificada hoje em dia.

O antigo templo sede da AD joinvilense que aparece nessa foto, o qual foi inaugurado em 1943 também já não existe. Demolido em 1984 na segunda gestão do pastor Satyro, deu lugar ao atual todo revestido de mármore e granito.

Uma curiosidade nessa foto é a observação de uma corneta no alto do templo. Segundo os crentes mais antigos, era por ela que as pessoas que passavam nas imediações da igreja ouviam os cultos no seu interior.

sábado, 16 de abril de 2011

Frida Vingren: um ministério contestado e polêmico

Frida Maria Strandberg Vingren (1891-1940) é uma das biografias mais polêmicas (e porque não perturbadora) da história das Assembleias de Deus no Brasil. Missionária sueca, enfermeira, poetisa, compositora, musicista, redatora, pesquisadora, pregadora e ensinadora pentecostal, era também esposa do pioneiro assembleiano Gunnar Vingren.

Frida: nas palavras do filho Ivar ela foi incompreendida

A todos esses predicados, poderia também estar incluído o de pastora. Frida, poderia ter sido reconhecida há muitos anos, como a primeira pastora das Assembleias de Deus no Brasil. Na biografia do esposo encontram-se a aceitação por parte do pioneiro do ministério feminino, inclusive com a separação de uma diaconisa na igreja de São Cristóvão no Rio de Janeiro. A própria história assembleiana é clara quanto ao desempenho da senhora Vingren. Na ausência (ou na presença) de Gunnar Vingren, Frida dirigia, pregava e ensinava na igreja.

Porém os líderes assembleianos dos primeiros anos não aceitaram o ministério feminino. Na primeira Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) o assunto foi discutido. Frida foi a única mulher a participar ativamente das reuniões convencionais. As divergências entre os próprios missionários suecos sobre o assunto era antiga. Silas Daniel (2004) escreve que Samuel Nyström era contrário ao ministério feminino, tendo inclusive, atritos com Vingren nessa questão. Provavelmente a atuação de Frida já era alvo de contestações e polêmicas, sendo na CGADB de 30 um dos pontos de discórdia dos obreiros.

Prevaleceu a decisão de não reconhecer e nem admitir mulheres no ministério pentecostal assembleiano. Com as constantes revisões históricas e pesquisas acadêmicas feitas nos últimos anos, o ministério de Frida Vingren tem sido de certa forma "resgatado". Quais seriam os objetivos desse "resgate" histórico? Talvez o desejo de legitimar as transformações que a denominação esta vivenciando, onde cada vez mais as mulheres estão sendo reconhecidas no ministério. Ou quem sabe é uma justificativa histórica, uma forma de explicar o porque da  AD ser uma denominação grandiosa, com tantas mulheres em seu meio, mas com as decisões nas mãos dos homens. Ou as duas coisas e outras ao mesmo tempo. O certo é que essa revalorização do ministério da senhora Vingren servirá para muitos propósitos.

E como se diz nas igrejas "para não ficar só nas minhas palavras", deixo alguns fragmentos dessa polêmica. São pequenos trechos disponíveis que ajudam a entender o contexto dessa controvérsia.


"A minha esposa, com os obreiros da igreja, têm levado a responsabilidade pela obra" 
(Palavras de Gunnar Vingren registrado no seu diário publicado pela CPAD)


"... pois não é o homem, nem tampouco a mulher que faz o ministério, mas é o dom. Isto é um fato simples e claro. E qualquer que tenha recebido um dom um dom torna-se responsável diante do Senhor. A mulher recebendo-o entra assim no ministério da palavra, e pode então pregar e ensinar, conforme adireção do Espírito Santo".

(Trecho de um artigo publicado no jornal O Som Alegre em janeiro de 1930 por Frida, numa clara alusão as polêmicas e contestações sobre o ministério feminino na Assembleia de Deus no Brasil)

"As irmãs têm todo o direito de participar da obra evangélica, testificando de Jesus e a sua salvação, e também ensinando quando for necessário. Mas não se considera que uma irmã tenha função de pastor de uma igreja ou de ensinadora, salvo em casos excepcionais mencionados em Mateus 12. 3-8 (uma referência ao princípio de necessidade). Isso deve acontecer somente quando não existam na igreja irmãos capacitados para pastorear ou ensinar"

(Decisão da Convenção Geral reunida na cidade de Natal (RN) em setembro de 1930, ou seja, oito meses após o artigo de Frida publicado no O Som Alegre)

"tinha o dom de ensinar e pregar como ninguém, e por essa razão sofreu muita perseguição"."Foi incompreendida e demasiadamente criticada".

(Palavras de Ivar Vingren, filho de Gunnar e Frida Vingren, nas quais se percebe ressentimentos por parte da família pioneira)

Fontes

ALENCAR, Gedon. Assembleia de Deus-origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

MESQUITA, Antônio Pereira de. Mensageiro da Paz - Os artigos que marcaram a história e a teologia do Movimento Pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004. volume 1 p.43

domingo, 3 de abril de 2011

Minha Assembleia de Deus

O pastor Joanyr de Oliveira, falecido em em dezembro de 2009, foi um dos grandes nomes da literatura assembleiana. Jornalista, poeta, advogado, compositor e escritor, foi ex-diretor da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) e ex-membro da liderança da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Sua biografia é marcada por relevantes serviços prestados a AD, e por sustentar durante anos, ideias avançadas demais para a geração de obreiros com quem conviveu. Joanyr, antes de tudo era um intelectual, uma mente inconformada, um crítico do sistema eclesiástico, alguém que almejava algo a mais para si e para sua igreja.

Joanyr: para a cúpula assembleiana ele  era um "rapaz perigoso"

Em 1994 o Mensageiro da Paz, publicou um artigo de autoria de Oliveira intitulado "Minha Assembleia de Deus". O texto é um verdadeiro exercício utópico, sentimento esse comum em seres humanos que como Joanyr; homem de olhar crítico e espírito inquieto, buscava sempre transformações e melhorias, e que não gostava de se acomodar ao status quo de um determinado sistema. Sentimento esse comum em cidadãos aos quais  o direito de pensar ainda é um bem precioso, e a crítica é benéfica para se construir um mundo melhor (nesse caso uma igreja melhor).

Nas linhas do texto, percebe-se um pouco de suas memórias, principalmente quando ele fala  em institutos bíblicos e apoio a mocidade. É bom lembrar que em seu tempo, por defender a criação de institutos formais de ensino teológico e da realização de congressos de mocidade, Joanyr foi considerado por alguns líderes assembleianos um "rapaz perigoso". Por defender a formação teológica e cultural, ele sempre foi hostilizado, ou ignorado. Jason Tércio em seu livro Os escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília, informa que nas idas de Paulo Macalão à nova capital federal, freqüentemente o fundador do ministério de Madureira visitava Joanyr. Ao receber tão ilustre e importante visita Oliveira "aproveitava a ocasião para falar sobre a necessidade de investir em educação teológica. Mas ao sugerir essa discussão, Joanyr pregava no deserto"

Nota-se também certa dose de pessimismo em relação a realidade assembleiana, e uma nostalgia de um tempo que ficou para trás. Talvez a maior lição que o escritor tenta nos passar com toda sua experiência na denominação, é a contínua perda da simplicidade do evangelho. O processo de aburguesamento dos seus membros e principalmente do ministério, tendem aos desvios éticos e a própria negação dos ensinos de Cristo.

 Acompanhe alguns trechos do artigo.

Minha Assembleia de Deus não é (nunca foi) aquela que condena os institutos bíblicos, tachando-os de "fábrica de pastores"; entendo que em seminários não se "faz" pastor. Ele é vocacionado por Deus...

Minha Assembleia de Deus não teme a mocidade, não obstrui o caminho dos mais jovens, antes o apoia, os encoraja, os estimula, os aconselha com paciência, ajudando-os no caminho de sua vocação ministerial...

Minha Assembleia de Deus não tolera a adoção de privilégios em favor dos ricos, brancos, cultos e "importantes", contra os simples e humildes, lembrada que Jesus teve especial carinho pelos pequeninos, pelos mais pobres, pelos explorados e deserdados da terra...

Minha Assembleia de Deus estimula os crentes à leitura, além da Bíblia, de bons livros, revistas e jornais... porque não podemos viver desinformados e ignorantes do que acontece ao nosso redor...

Minha Assembleia de Deus, pelo temor que tem do Senhor, não acaricia os pecados dos seus maiores contribuintes, "nem dos seus ilustres", mas ama a todos com igual amor e a todos trata com paciência até os limites do biblicamente admissível...

Para minha Assembleia de Deus, os filhos do pastor e os filhos da mais apagada das famílias da igreja têm os mesmos deveres de santidade e obediência, e as mesmas oportunidades, dependendo tudo do seu comportamento perante a sociedade e da dedicação à obra de Deus.

Fontes:
ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MESQUITA, Antônio Pereira de. Mensageiro da Paz - Os artigos que marcaram a história e a teologia do Movimento Pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997.