quinta-feira, 23 de junho de 2011

Os 80 anos da Assembleia de Deus: uma cobertura do jornal O Assembleiano


"Há 80 anos, no dia 18 de junho de 1911, nascia o maior e mais tradicional movimento pentecostal do Brasil: a Assembléia de Deus." Com essas palavras o jornal O Assembleiano iniciava sua reportagem especial sobre os 80 das Assembleias de Deus no Brasil.

Escrita por Judson Canto e Ildo Campêlo (in memoriam) a reportagem aprofunda questões históricas e sociológicas da denominação e trás um panorama geral das festividades ocorridas no ano de 1991 na cidade de Belém do Pará. Descreve também a evolução administrativa e principalmente a contextualização da igreja; contextualização essa descrita como "gradativa e irreversível".

Encontra-se também nessa reportagem, vários comentários de líderes e pioneiros da denominação, os quais revelam sua visão do trabalho pentecostal depois de 80 anos de história. Alguns com maior pessimismo como o pastor Satyro Loureiro de Joinville, o qual observava que "ao lado do crescimento do trabalho no campo espiritual, houve também grande desenvolvimento cultural e financeiro, que possivelmente tenha determinado certos limites no aperfeiçoamento da igreja". Ou como o pastor José Pimentel de Carvalho (falecido recentemente) de Curitiba que declarou que estavam "... havendo algumas modificações, alguns avanços em direção ao modernismo e ao mundanismo...", mas que se declarava otimista com a igreja, ainda que "... pequenos grupos estão declinando, voltando a prática de coisas inconvenientes como vaidades e mundanismo, mas a genuína Assembleia de Deus está viva, poderosa e continua sua marcha".

Porém, a grande maioria dos entrevistados explicitava uma opinião otimista em relação ao trabalho pentecostal após oito décadas de história. Revelam em suas palavras as características positivas da Assembleia de Deus, do seu crescimento e pujança.

Deixo aqui para o leitor desse blog, algumas frases, opiniões e analises sobre a denominação, garimpadas pela competente equipe do jornal O Assembleiano durante a celebração de 80 anos das Assembleias de Deus no Brasil.

"Deus tem promovido este movimento, que já alcançou todo o Brasil e já ultrapassa fronteiras, porque, regra geral, os movimentos evangélicos começam a decrescer quando alcançam 50 anos, ao passo que o nosso continua avançando". (Pastor Túlio Barros Ferreira - Assembleia de Deus de São Cristóvão - RJ)

"Oitenta anos de Assembleia de Deus impressiona qualquer historiador". (Pastor Delfim Brunelli - Assembleia de Deus Casa Verde - SP)

"Hoje louvamos ao Senhor porque encontramos entre nós gente de todas as atividades profissionais, como na minha igreja, que tem médicos, advogados, engenheiros e militares graduados. Já não somos mais aquele pessoal que só trabalhava com favelados e gente da construção civil". (Pastor José Ezequiel - Assembleia de Deus de Taubaté - SP)

"Nossos pioneiros foram guiados por Deus e andavam dentro dos parâmetros da Palavra de Deus na evangelização, no ensino e na construção de igrejas. A igreja é uma dinâmica, e nessa dinâmica, os pioneiros souberam aproveitar as oportunidades do ponto de vista cultural e sociológico. Os pioneiros investiram grandemente na construção de congregações, isto é, não esperavam que o povo fosse a igreja, mas levavam a igreja ao povo, fazendo um verdadeiro trabalho de penetração nos recantos brasileiros. Este foi um dos fatores mais importantes para o crescimento da Assembleias de Deus nessas oito décadas debaixo da unção de Espírito Santo". (Pastor João Kolenda Lemos ex-diretor do Instituto Bíblico de Pindamonhangaba - SP)

"Se eles (os pioneiros Daniel Berg e Gunnar Vingren) observassem esta festa ficariam admirados... e felizes". (Pastor Armando Chaves Cohen)

"Esses 80 anos têm um grande significado. Entendemos que é o resultado de um trabalho fecundo realizado em todo território nacional, e a nossa vinda aqui em Belém foi simplesmente para rememorar e fazer o nosso coração vibrar mais uma vez com a obra maravilhosa que Deus iniciou através daqueles dois servos Seus e que espalhada está em todo Brasil". (Pastor José Wellington Bezerra da Costa - presidente do Ministério do Belenzinho em SP e da CGADB)


Bertil Vingren: se o pai estivesse vivo pensaria que é um sonho 

"Se meu pai estivesse aqui hoje, pensaria que era um sonho este tamanho desenvolvimento da trabalho iniciado por ele e Daniel Berg. Ele não sabia qual seria o fruto desta obra, depois dos tempos que iriam passar, pois não podia imaginar a grandeza do trabalho, porque ele foi enviado por deus, pelo Deis Vivo, que sabia das necessidades do Brasil". (Bertil Vingren - filho do pioneiro Gunnar Vingren)



Fonte: O Assembleiano- Joinville edição junho/julho de 1991 -p.5-6

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A escrita da história assembleiana: algumas reflexões

Nos últimos anos a Assembleia de Deus, ou os responsáveis por escrever sua história tem procurado, através da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), servir o grande número de fieis dessa denominação, com livros históricos, nos quais a saga dos pioneiros pentecostais é revalorizada.

Nada mais natural, pois na medida em que se aproxima o centenário das Assembleias de Deus, o interesse pela história da denominação aumenta. A institucionalização da igreja e o "aburguesamento" dos membros e ministério da AD também contribui para isso. Como afirmou o sociólogo Paul Freston quando há um processo de ascensão social por parte da denominação, e ela passa a ser uma "igreja erudita", a preocupação com o controle de sua história aumenta.

Alguns livros lançados pela CPAD nos últimos anos, tem sido de grande contribuição para estudiosos e pesquisadores do movimento pentecostal. É óbvio que por se tratar de uma "história oficial", as obras editadas pela CPAD, devem ser lidas com certo espírito crítico, pois nesses livros se encontram os fatos que líderes da denominação no presente momento autorizaram a ser divulgado. Com toda certeza, muitos outros fatos históricos (ou versões) ficaram de fora, e o leitor terá tão somente uma visão parcial dos acontecimentos.

Mas algumas considerações devem ser feitas sobre a atual historiografia assembleiana.

Os livros históricos da CPAD procuram realmente informar melhor o seu público sobre a história assembleiana, trazer conhecimentos relevantes da denominação, ou será que simplesmente a editora esta procurando trazer à tona conhecimentos já divulgados por teses e estudos de historiadores e sociólogos não comprometidos com o status quo da denominação?

É impressionante a similaridade de informações que se encontram nas obras da CPAD com as de outros trabalhos já anteriormente publicados. O pior é que um desses livros, é na verdade em grande parte, uma compilação de vários outros livros já editados e estão reunidos nessa obra. Evidente que lá ao final dos textos estão as fontes, mas se o leitor acompanhar atentamente, verificará que em vez de se parafrasear, ou sintetizar com suas próprias palavras os textos, o autor (ou compilador) coloca na íntegra textos e capítulos inteiros de outros obras. Quem já escreveu um simples artigo acadêmico, conhece as regras básicas da escrita que deve vir à publico. Será que isso é ignorado na referida editora?

Seriam também os livros da Casa Publicadora uma resposta ao que os estudiosos do movimento pentecostal já estão popularizando entre os interessados no assunto? Não deveria a CPAD e seus "historiadores" estar na vanguarda da história pentecostal, ao invés de sempre publicar obras com informações já divulgadas por estudiosos das ciências sociais? Dá uma certa impressão que a editora está como se diz "correndo atrás".

Outro fator é a falta de historiadores escrevendo a história das Assembleias de Deus. O que se observa é que um grupo de jornalistas, funcionários da editora, é que tem recolhido, selecionado e escrito sobre a AD. Não que um jornalista não possa fazer história, mas é preocupante que todo o material recolhido esteja a serviço de um pequeno grupo. A denominação precisa ter seus próprios historiadores, com domínio de conceitos históricos e que façam a produção de obras mais contextualizadas. História, não é só informar, não é só curiosidade, mas é contextualizar, problematizar, levar a outras indagações e pesquisas, as quais resultem em mais conhecimentos e problemáticas.

Outra coisa preocupante, é a disponibilidade do acervo da CPAD. Percebe-se que a editora convoca seus membros a contribuírem para seu memorial com fotos e documentos, mas o mesmo não ficará disponível para os mesmos. Recentemente um de seus jornalistas "historiadores" ao ser indagado por este que vos escreve, sobre a disponibilidade do acervo, e sobre sua socialização para pesquisadores que estão fora da cidade do Rio de Janeiro, disse que não há condições de se digitalizar os documentos, pois não há funcionários e recursos suficientes para isso.

Isso quer dizer que todo material ou documento histórico enviado a editora será recolhido, e não poderá ser divulgado. Ora se todos são chamados para conceder material histórico, todos devem ter o mais rapidamente acesso a esse mesmo material. Lógico que a CPAD deve ter sua equipe, e sempre haverá um grupo seleto para escrever a "história oficial" da denominação, sempre do ponto de vista de quem esta no comando. Mas é necessário se rever alguns conceitos, caso contrário a Casa Publicadora corre o risco de sempre estar "correndo atrás", ou seja, estar continuamente publicando informações que já estão popularizadas no meio acadêmico

Essas provocações são feitas, não com o intuito de depreciar algum livro da referida editora, mas com a intenção de suscitar um debate sobre a escrita da história assembleiana. É preciso refletir sobre a produção histórica feita pelos seus responsáveis e a qualidade historiográfica de seus livros.