quinta-feira, 28 de julho de 2011

Os 80 anos da Assembleia de Deus em Santa Catarina: o pioneiro André Bernardino

André Bernardino da Silva fundou a Assembleia de Deus em Santa Catarina no dia 15 de março de 1931 na cidade portuária de Itajaí. Segundo as fontes disponíveis, organizou a AD ainda no mesmo ano em Blumenau, e em São Francisco do Sul. Em 1933 foi atuante na fundação das igreja de Guaramirim e Joinville. No dia 3 de janeiro de 1932, em visita a Itajaí, o missionário Gunnar Vingren separa Bernardino a pastor, mas faz a seguinte observação: "Não deveria consagrá-lo ao ministério. Você ainda tem muito pouco tempo de conversão e é solteiro, mas devido a falta de obreiros vou separá-lo para o pastorado". Por 12 anos, André Bernardino trabalha na fundação e na organização de igrejas da AD no estado catarinense. Ao ser entrevistado para a Revista do Jubileu de Ouro das Assembleias de Deus de Santa Catarina e Sudoeste do Paraná, André afirma que seu substituto no trabalho foi o missionário Albert Widmer.

Numa primeira e superficial leitura dos registros históricos, fica a impressão de que Widmer foi o substituto natural de Bernardino, o qual após trabalhar mais de uma década em terras catarinenses se retira para outras searas. Mas algumas contradições na historiografia oficial e as memórias de quem conviveu com o pioneiro, indicam que Bernardino ao se despedir de SC, já há muito tempo havia sido suplantado por Albert Widmer na liderança da AD catarinense.

Não se sabe exatamente o ano em que Albert Widmer chegou à Santa Catarina, mas se observa que não muito depois da fundação das primeiras igrejas ele já estava atuando. Em suas memórias, Daniel Graudin da Silva (filho de André Bernardino), relata que Widmer não pertencia a AD e sim a outro ministério pentecostal. Seu pai teria o convidado para ingressar na AD e logo depois, Widmer teria suplantado seu pai na liderança do trabalho.

A versão do filho de Bernardino contradiz a historiografia oficial, quando se observa que Widmer já colaborava com o Mensageiro da Paz no ano de 1935 com traduções de artigos; indicando assim sua filiação à denominação. Mas registros comprovam que Widmer separou ainda no início da década obreiros ao diaconato e ao presbitério em Blumenau, comprovando que o suíço já liderava a AD nessa época. Também diverge muito a versão apresentada pelo familiar de André sobre a saída de Albert do Brasil. Segundo a historiografia oficial, o missionário teria entregado o trabalho a J. P. Kolenda por problemas financeiros gerados pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. Widmer era sustentado por ofertas vindas de igrejas da Inglaterra. Na versão apresentada por Daniel da Silva, o suíço teria saído por motivos menos nobres.

Para quem esta acostumado com a historiografia oficial da AD, a versão da família de Bernardino soa um tanto estranha se comparada com as informações conhecidas e divulgadas há tantos anos pela denominação. Mas não é novidade, que muitos escândalos e cismas nos ministérios da AD, são camuflados e revestidos de uma linguagem e escrita heroica, visando sempre a edificação dos fiéis.

O fato é que ao deixar Santa Catarina, Bernadino não era mais líder há muito tempo do trabalho pentecostal no Estado. Também é certo, que ao sair, André já não estava mais em comunhão com a igreja, e assim permaneceu por muitos anos, pois no ano de sua saída (1943), foi publicada uma declaração assinada pelos principais líderes da AD em SC, informando que o pioneiro havia sido desligado do ministério das AD. Ou seja, o pioneiro não foi substituído por Widmer e sim suplantado por ele na liderança, e ao deixar o Estado já estava fora da denominação que fundou anos antes. Talvez por esses motivos, a literatura oficial da CPAD considera J. P. Kolenda o primeiro líder oficial da AD em terras catarinenses.

Ainda, segundo as fontes disponíveis, Bernardino fundou várias igrejas no interior de São Paulo, e na década de 1960 encontrava-se em Brasília (DF). Na nova capital, André participa de uma polêmica divisão em uma congregação da AD do ministério de madureira. Um grupo de obreiros queria colocá-lo como líder substituto do pastor local do qual discordavam. Bernardino, juntamente com o grupo descontente é desligado da comunhão da igreja e meses depois passa a congregar na AD ligada ao ministério de São Cristóvão (RJ).

No fim de sua vida, volta para o estado do Rio de Janeiro, vindo a falecer no dia 8 de agosto de 1992 na cidade de Macaé.

Obras consultadas:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MAFRA, Carlos. Capítulos que movem nossas vidas. Blumenau: Nova Letra, 2009.

SANTOS, Ismael. Raízes da nossa fé: A história das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus em Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Blumenau: Letra Viva, 1996.

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997.

Revista do Jubileu de Ouro das Assembleia de Deus  em Santa Catarina e Sudoeste do Paraná (1981)

Entrevista concedida por Daniel Graudin da Silva no dia 10 de setembro de 2008.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Os 80 anos da Assembleia de Deus em Santa Catarina: contradições historiográficas

O ano de 2011, marca não somente as celebrações do centenário das Assembleias de Deus no Brasil, mas também, os 80 anos de fundação da igreja no Estado de Santa Catarina.

Foi na cidade portuária de Itajaí, que o jovem André Bernardino da Silva, realizou no dia 15 de março de 1931 o primeiro culto da denominação em terras catarinenses. Bernardino, havia se convertido no ano anterior na cidade do Rio de Janeiro, após ser curado de tuberculose através da oração dos pioneiros Gunnar Vingren e Paulo Leivas Macalão. Restabelecido da enfermidade, o jovem André passou a colaborar na AD de São Cristóvão com seus talentos musicais e recebendo instruções dos missionários. Depois de alguns meses, retornou a Itajaí, e nessa cidade iniciou o trabalho pentecostal da Assembleia de Deus.

Simples é contar o início da denominação, mas difícil é conciliar a historiografia disponível sobre os primeiros anos da igreja e o papel dos seus primeiros líderes. André Bernardino foi sem dúvida o pioneiro que fundou a primeira AD no Estado em Itajaí e nas cidades próximas. Porém, ao que tudo indica, Bernardino não consegue manter sua liderança à frente da denominação, e outro obreiro aparece nos registros como sucessor de André: Albert Widmer.

Widmer, ainda com a presença de Bernardino no Estado catarinense, desempenha o papel de líder do trabalho pentecostal. Suíço de origem metodista, Albert Widmer é enviado ao Brasil sendo sustentado pelas igrejas da Inglaterra. Segundo Isael de Araújo no seu Dicionário do Movimento Pentecostal, ele teria percorrido o Brasil, tendo passado pelo estados do Amazonas, Pernambuco, Bahia e São Paulo. Ainda segundo Araújo, aparecem registros de artigos traduzidos pelo missionário para o Mensageiro da Paz no ano de 1935. Em 1936, Widmer teria se transferido de São Paulo para Santa Catarina, mais especificamente para a cidade de Itajaí, local onde a AD através de André Bernardino, recém tinha aberto uma congregação.

É nesse ponto que a bibliografia disponível sobre esse pioneiro se contradiz. Pois se Araújo aponta o ano de 1936 como referência ou marco da chegada e Widmer a Santa Catarina, o escritor Carlos Mafra, com base em uma entrevista com o filho de André Bernadino, afirma que em 1934, após uma conversa de Bernardino com o suíço, este teria se transferido para a AD. Segundo as memórias e a versão do filho de Bernardino, Widmer não pertencia a denominação assembleiana, e sim a um outro trabalho pentecostal muito próximo a igreja da AD. Depois de alguns meses, na versão escrita por Mafra, Widmer assume a igreja de Itajaí e André Bernardino transfere-se para a cidade de Blumenau.

Já outro escritor, Ismael dos Santos, data a chegada do missionário suíço no final dos anos 30 sendo o mesmo procedente do Rio Grande do Sul. Segundo esse autor, Widmer se estabeleceu nesse tempo na cidade de Florianópolis, de onde semanalmente atendia as congregações da AD. Mas contraditoriamente, aponta a presença do mesmo em 1936 como fundador da igreja de Imbituba, e em outra parte do seu livro, relata que ainda no início dos anos 30, Widmer separa em 1932 Antônio Lemos para o diaconato e Ananias Castellain para o presbitério de Blumenau.

Mesmo com as versões discordantes, o fato é que Albert Widmer (segundo os autores consultados) aparece como o líder da denominação ao fim da década de 30 em Santa Catarina. Mafra apresenta em seu livro uma cópia do certificado de Presbítero regional de um dos primeiros obreiros, com a assinatura de Widmer como presidente da igreja no estado, como forma de comprovar que nesse tempo, é o suíço que responde pela liderança da denominação. Há também, uma unanimidade dos autores em reconhecer, que foi Widmer que convidou J. P. Kolenda para assumir seu lugar na liderança da denominação em Santa Catarina. Outra informação unânime, é que Widmer teria se transferido para o Paraguai após a chegada de Kolenda ao estado. O motivo de sua saída teriam sido problemas financeiros ocasionados com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, na qual a Inglaterra (de onde provinha seus recursos) estava envolvida.

E André Bernardino? Qual o papel desse pioneiro nesse contexto? Esse é assunto para a próxima postagem.

Obras consultadas:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MAFRA, Carlos. Capítulos que movem nossas vidas. Blumenau: Nova Letra, 2009.

SANTOS, Ismael. Raízes da nossa fé: A história das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus em Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Blumenau: Letra Viva, 1996.