quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Um legítimo pastor do século XXI

Quais seriam as características de um legítimo pastor do século XXI? Caso o leitor não saiba, a revista ISTOÉ traçou um perfil dessa classe eclesiástica através do pastor Samuel Ferreira, líder da Assembleia de Deus - Ministério Madureira no bairro do Brás em São Paulo.

A matéria, apresenta Samuel Ferreira como um pastor ultramoderno. Essa modernidade é apresentada em linhas gerais na forma como Ferreira conduz o rebanho; sobre o qual não faz nenhuma exigência de "usos e costumes", passa por sua elegância em usar vestimentas de marcas conceituadas (Hugo Boss), e seu intenso uso de mídia eletrônica e redes sociais. Em suma: é um sujeito antenado, carismático, na moda e bem resolvido. Um modelo de pastor da Assembleia de Deus atual.


É lógico que Ferreira não é unanimidade. Sua atitude de liberar os membros de qualquer restrição de "usos e costumes" e flexibilizar a liturgia é tido por muitos líderes como uma abominação. Para José Wellington Bezerra da Costa, presidente da CGADB, Samuel "descambou" na questão comportamental. O site da igreja  fala de um plano de recuperação e crescimento, expressão essa que parece ser uma crítica à postura mais conservadora de seu antecessor, a qual ele resolveu abandonar.


Samuel Ferreira: modernidade alicerçada no atraso


Aliás, é na página eletrônica da AD do Brás, que a imagem de "moderno" atribuída pela ISTOÉ é reforçada. Página que foi reformada recentemente, e certas informações sobre o seu líder foram retiradas devido aos exageros. Por exemplo: algumas informações dizendo que Ferreira havia lido um número absurdo de livros, e que era autor de "grandes obras literárias". Na reforma recente, o absurdo de livros, supostamente lidos foram diminuídos, mas continua a insistir "nas grandes obras literárias". Na realidade, o site da AD do Brás é puro marketing, onde a suposta modernidade de seu pastor é exacerbada. 


Mas que modernidade é essa? Na história, modernidade e atraso estão entrelaçados. Na Grécia Antiga os cidadãos discutiam as leis da pólis, e vivenciavam a famosa democracia grega, porque eram beneficiados pela escravidão que os deixava livres e ociosos para a prática política. O moderno sistema capitalista foi erguido a partir da exploração das massas de trabalhadores, camponeses e servos na Europa. Enquanto que no século XIX, trens (símbolo maior do progresso na época) cruzavam os continentes de todo o mundo, vastas áreas da Ásia e da África eram submetidas, exploradas e humilhadas pelo domínio do homem branco, gerando extremas desigualdades até hoje vividas nesses continentes.


No caso de Samuel Ferreira (e de outros), a suposta modernidade, está relacionada ao que de mais arcaico existe nas chamadas sociedades contemporâneas, que valorizam o mérito e o individualismo. Para começar, Samuel é filho do bispo Manuel Ferreira, líder máximo da AD de Madureira no Brasil por mais de 25 anos. Três de seus filhos são pastores das chamadas igrejas históricas do ministério. Coube a Samuel a igreja do Brás, a pioneira do ministério em SP. Ferreira pai, nesse tempo de liderança, também colocou seus filhos no controle da editora Betel e em cargos de liderança das convenções regionais e nacional de Madureira. É evidente o nepotismo escancarado em todas as áreas do ministério em favor da família Ferreira.


Manuel Ferreira, é um típico líder assembleiano no que há de pior no sentido do termo. Além de praticar o nepotismo, já foi candidato derrotado ao senado pelo RJ e deputado federal por esse estado, capitalizando para si mesmo através do cargo os votos dos membros. Nas eleições de 2010, fez circular uma carta "amigável" entre os pastores do ministério ameaçando veladamente (ou claramente) quem não seguisse as diretrizes políticas por ele determinadas. Ultimamente, tem gerado polêmicas ao se unir ao reverendo Moon, criador de uma seita que se choca frontalmente contra as doutrinas básicas defendidas pelas ADs no país. Mas longe de se sentir ameaçado, continua firme na liderança de Madureira, pois como seu fundador Paulo Leivas Macalão, conduz a igreja com mão de ferro.


Assim, é nesse contexto de nepotismo, coronelismo eclesiástico e vaidades religiosas, que está fundamentada a modernidade de Samuel Ferreira. E ao que tudo indica, será ele o sucessor de seu pai na liderança do ministério. Além de perpetuar as práticas políticas-administrativas de seu pai. É um círculo vicioso, em que interesses políticos, econômicos e familiares estão em jogo. Não só em Madureira, mas no Belenzinho, Santos, São Cristóvão, Belém e por muitas ADs no Brasil.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A Assembleia de Deus em Porto Alegre: sucessões tumultuadas (parte 2)

O missionário norueguês Nils Taranger assumiu a AD gaúcha no ano de 1955 em substituição ao missionário sueco Gustavo Nordlund, depois que uma crise político-eclesiástica levou Nordlund à renuncia do comando da denominação no estado. Taranger, já estava trabalhando no RS desde o ano de 1946, mas sempre em cidades do interior, quando em meio a uma enorme turbulência, assumiu a igreja.

Nils Taranger e família: crise sucessória e vontade negada

Nesse contexto de crise, pacificou os ânimos dos revoltosos, e criou a Convenção Estadual, dando autonomia a 15 campos eclesiásticos, todos porém subordinados à igreja de Porto Alegre. Na sua longa gestão à frente da igreja, autorizou a emancipação de outros campos, investiu em mídia (programas de rádio e revistas) e em obras assistenciais.

Porém, depois de 43 anos à frente da igreja, em 1998 Taranger sofre uma isquemia cerebral, a qual o leva ao afastamento do pastorado. Nas versões oficiais é comunicado que Nils Taranger "entregou" o pastorado ao pastor João Ferreira Filho, na época pastor da igreja da AD no município de Ijuí. Mas conforme informa Deivis V. Lopes na sua tese de mestrado, o missionário norueguês teria se afastado temporariamente, mas caso não tivesse condições de retornar, o seu sucessor seria o pastor Edgar de Souza Machado, então presidente da AD em Canoas. Essa vontade inclusive, segundo Deivis, teria sido formalizada em uma carta escrita pelo próprio Taranger. Ao tomar conhecimento do teor da carta, a cúpula da Convenção Estadual, principalmente o jovem pastor Humberto Schmidt, ficaram inconformados com tal decisão.

Uma nova crise se instala, e para contornar a situação, os principais pastores do estado destituem Taranger de todos os seus cargos alegando não haver mais condições de exercê-los devido a sua frágil saúde; ignoram sua última vontade e "somem" com o documento escrito pelo missionário.

Na sequencia dos fatos, o pastor João Ferreira Filho (presidente da Convenção Estadual) autoproclama-se pastor da igreja de Porto Alegre, sendo que Nils, só fica sabendo dos acontecimentos dias depois do pastor Ferreira assumir os cargos que lhe pertenciam. Um desfecho no mínimo cruel e irônico para o norueguês, pois assumiu a igreja em meio a uma grave crise, mas deixa o pastorado em meio a outra crise de consequências mais duradouras.

Somente algumas considerações devem ser feitas, pois algumas informações disponíveis se chocam, sendo necessário esclarecê-las.  Deivis afirma em sua tese que as ambições são sempre pelo comando da igreja de Porto Alegre e da Convenção Estadual. Mas acontece, que o comando da Convenção Estadual há muito tempo (ao que tudo indica) estava nas mãos de outros pastores. Ferreira Filho, nesse momento de crise, já era presidente da Convenção do estado gaúcho, e assim, talvez o motivo em ignorar as orientações de Taranger e se autoproclamar líder da igreja da capital. Presidir a igreja pioneira, a mais importante e expressiva no RS seria o ápice do seu ministério.

Assim, a disputa é somente pela igreja da Capital e não pela Convenção do Estado. É no mínimo estranha essa confusão institucional por parte do autor. Pode-se pensar, que parte dessa confusão se deve ao fato de Taranger durante muitos anos presidir a Convenção Estadual, mas há registros que há muito tempo ele não mais presidia a mesma.

Com toda essa crise, o que se destaca é a ânsia por parte da cúpula ministerial gaúcha, de controlar a igreja de Porto Alegre. Terminada a crise, o pastor João Ferreira Filho presidiu a AD da Capital por 5 anos. Acometido por um câncer, uma nova sucessão se inicia, e uma nova crise desponta no horizonte...

Fontes:

ALENCAR, Gedon. Assembleia de Deus-origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.


LOPES, Deivis Vânio. A Organização eclesiástica da Assembléia de Deus em Canoas/RS. – Porto Alegre, 2008. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, PUCRS.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A Assembleia de Deus em Porto Alegre: sucessões tumultuadas (parte 1)

É de conhecimento da maioria dos estudiosos, que a história das Assembleias de Deus é escrita com o objetivo de edificação dos fieis. Assim, para os desavisados ou mais ingênuos, tudo nela (a história) surge pintado em tons róseos, heroicos e celestiais. Só se percebem conflitos, divisões e paixões humanas nas entrelinhas da escrita, naquilo que inevitavelmente vem à tona em forma de contradição de informações, ou em trabalhos de pesquisadores sem vínculos formais com a denominação.

Nos últimos anos, tem se multiplicado o número de trabalhos acadêmicos, que visam contextualizar a história da AD. Fruto de pesquisas e discussões historiográficas, esses trabalhos possuem o mérito de preencher lacunas históricas e humanizar o processo de expansão e crescimento da igreja no Brasil. Alguns trabalhos, trazem informações interessantes, que lançam luz sobre eventos esquecidos da memória assembleiana.

Nordlund: excesso de centralização?

Um desses trabalhos é do sociólogo Deivis Vânio Lopes em sua dissertação de mestrado intitulada A Organização Eclesiástica da Assembleia de Deus em Canoas/RS. O objetivo do estudo, como o título já indica, é analisar a estrutura organizacional da igreja, sua administração, relações de poder, as práticas religiosas e estratégias dos líderes da AD de Canoas. Mas para fazer toda essa análise, o autor teve que se deter um pouco na história da igreja em terras gaúchas. Sendo filho de pastor e de família assembleiana, com um passado de várias atividades na denominação, Deivis teve acesso a vários pastores e fontes, os quais lhe ajudaram em sua tese a escrever a história da denominação no RS com acréscimos de detalhes não revelados pela historiografia oficial.

Em sua tese, por exemplo, Deivis esclarece os motivos da saída do missionário sueco Gustavo Nordlund do comando da AD do RS. Nordlund, aparece na história da AD como pioneiro do pentecostalismo em terras gaúchas. Organizou a denominação no estado em 1924, construiu templos na capital e no interior e no ano de 1951, recebeu e presidiu a CGADB em Porto Alegre. Por essas razões, Gustavo Nordlund está colocado no panteão dos heróis da AD. Na leitura de sua biografia, após todas essas informações, apenas se diz que o grande pioneiro foi substituído pelo missionário norueguês Nils Taranger em 1955, depois de ficar 30 à frente do trabalho pentecostal no RS. Não há informações que justifiquem sua saída (como por ex: enfermidade, transferência para outra igreja ou aposentadoria) e se percebe uma lacuna na história oficial. 

Deivis esclarece, que os motivos da saída de Nordlund foram políticos, pois um grupo dissidente da AD gaúcha pretendia assumir o controle da denominação, sendo que o estopim da crise foi uma manifestação contrária ao missionário num templo da AD na cidade de Canoas, onde se comemorava os 30 anos da AD no estado gaúcho. Nesse fatídico dia, os dissidentes entraram na igreja, e aos gritos, tentaram tirar os pastores  de cima do púlpito, sendo que em sequencia se iniciou uma briga generalizada só encerrada com a chegada da polícia. Deivis informa ainda, que outras igrejas foram invadidas, pichações nos muros da cidade foram feitas e programas de rádio utilizados para gritar palavras de ordem contra o missionário. Como resultado de tudo isso, o pastor sueco renunciou à liderança da igreja e um grupo de três pastores escolheu o novo líder da igreja gaúcha. Nils Taranger foi escolhido e conseguiu pacificar a igreja, implantando um novo modelo de gestão eclesiástica para o trabalho no estado.

Diante de tantas informações, pode-se indagar: quais os motivos para toda essa confusão em torno de uma liderança como Nordlund? Algumas pistas para responder a essa questão, se encontram na trajetória ministerial de Gustavo, nos atos de seu sucessor, assim como no contexto das ADs na época. Informa-se, que Nordlund em 1927, esteve por sete meses na Suécia. Nesse período, outro sueco, o missionário Nels Nelson, supervisionou a obra. Nota-se, principalmente nesse caso, certa centralização dos suecos; centralização essa questionada na Convenção Geral de 1930. Será que ainda depois de 1930, Nordlund não continuou excessivamente centralizador, e nessa postura contribuiu para que o sentimento nacionalista dos gaúchos se exacerbasse com manifestações de maior autonomia? Sabe-se que por todo o Brasil, dentro das ADs, vários ministérios estavam se formando tendo como justificativa o desejo de  se criar igrejas brasileiras em oposição às igrejas dirigidas pelos suecos.

É importante notar, que Nils Taranger logo após, ao assumir o controle da igreja e pacificar os ânimos, criou a Convenção Estadual da Assembleia de Deus no RS (CIEPADERGS) e deu autonomia a 15 campos que anteriormente estavam subordinados a igreja de Porto Alegre. Nesse modelo de administração, o controle ainda permanecia para o missionário norueguês, mas proporcionava maior autonomia aos outros líderes. Seria à prática daquela máxima imperialista "dividir para melhor dominar"?

Taranger, continuou à frente da AD gaúcha por mais de 40 anos. Porém, tal como seu sucessor, não conseguiu uma sucessão pacífica para a igreja de Porto Alegre. Mas isso é assunto para a próxima postagem.


Fontes:

ALENCAR, Gedon. Assembleia de Deus-origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.


LOPES, Deivis Vânio. A Organização eclesiástica da Assembléia de Deus em Canoas/RS. – Porto Alegre, 2008. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, PUCRS.










quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Virgil Smith e o silêncio da história

Dentro da história das Assembleias de Deus no Brasil se destacam alguns missionários norte-americanos. E cada um deles é lembrado pela historiografia da denominação com características e virtudes bem definidas. Por exemplo: Lawrence Olson é o ensinador e teólogo; Orlando Boyer é o escritor pentecostal; Bernhard Johnson Jr. é o pregador, o evangelista de grandes cruzadas; J. P. Kolenda (era de nascimento alemão, mas foi enviado pela igreja dos EUA) o desbravador, um dos construtores da CPAD, defensor do ensino teológico.

E o missionário Virgil Smith? Como ele é apresentado pelos historiadores da AD? Na verdade, Smith é um caso controverso dentro da história assembleiana. Caso tivesse permanecido na AD, com certeza hoje seria lembrado como um dos grandes pioneiros, um homem à frente do seu tempo (como no caso Kolenda). Mas por ter desembarcado da AD nos anos 50 e migrado para outras formas de pentecostalismo que estavam implantando as mais novas formas de evangelismo no país; Virgil se tornou um caso para ser esquecido.

Smith quando era pastor em Joinville: influenciou vários lideres de SC

E por qual razão isso aconteceu? Existem algumas pistas para explicar esse esquecimento. Em primeiro lugar, os missionários norte-americanos (hoje tão cultuados dentro da história da AD) foram aceitos pelos suecos  para atuar no trabalho pentecostal da AD com muitas ressalvas e desconfianças. Na verdade os suecos não queriam que os norte-americanos viessem para o Brasil, e sim que escolhessem outros países da América do Sul para trabalharem. Como disse Gedeon Alencar, os suecos queriam impor uma "reserva de mercado" para si. Porém houve um acordo com a Missão dos EUA para que seus obreiros trabalhassem em cooperação com a AD no Brasil. Mas essa colaboração dos estadunidenses deveria estar condicionada a sujeição e aos métodos de trabalho da liderança brasileira.

Virgil ao ingressar na AD aceitou essas condições, mas com o tempo percebeu que poderia se aventurar, experimentar novas formas de evangelismo e pregações. Ao sair da AD, ele renuncia as imposições dos suecos e brasileiros as quais se moldou durante tantos anos e assim se torna um renegado. Renegados na história da AD são banidos ao esquecimento, pois não são exemplo para os fieis. Para eles o que resta é o silêncio oficial.

Encontramos um exemplo disso na revista do cinquentenário da AD em Joinville editada em 1983. Ao traçar um perfil de Smith como missionário, líder e administrador, o texto termina simplesmente informando que ele se transferiu para São Paulo. O livro comemorativo do Jubileu de Diamante da AD* joinvilense em 2008 já avança em informações, pois além dos dados encontrados na revista do cinquentenário, a obra atualiza informações biográficas e de forma diplomática revela o destino e os trabalhos que Virgil desenvolveu em São Paulo e Brasília. Porém, não há uma linha e nenhuma alusão a sua saída da AD.

No livro História da CGADB, há um registro interessante sobre Smith. Na Convenção  de 1964 em Curitiba ocorre a informação de que uma comissão de pastores fora designada para tratar do caso (sinônimo de problema) dos missionários Gustavo Bergström e Virgil Smith. O problema era que Bergström estava ajudando seu antigo colega nas cruzadas evangelísticas em São Paulo. Ao ser reprovado por tal atitude na CGADB em 1966, duas coisas foram consideradas: os costumes do missionário não se coadunavam com os princípios da AD brasileira, a abertura de trabalhos em São Paulo com apoio de pessoas alheias às AD.  Segundo o relato oficial, Gustavo Bergström teve que confessar seu erro e prometer "jamais trabalhar fora dos princípios de cooperação mútua que os missionários americanos se comprometeram com a Convenção Geral das ADs no Brasil..." (Daniel p.373)

Percebe-se nesse episódio claramente o pecado capital de Smith: trabalhar fora do modelo assembleiano. Modelo esse aceito pelos norte-americanos, mas renunciado por Virgil fazendo dele um concorrente em potencial dos cardeais da denominação.

É com Jason Tércio em seu livro Os Escolhidos, que se encontram informações interessantes sobre Virgil Smith. Tércio, filho de pastor assembleiano, jornalista conceituado, sem vínculos denominacionais, traça um perfil revelador das aspirações e da carreira do missionário. É ele quem diz que a AD não mais satisfazia Virgil. Fala de como Smith desejava experimentar as táticas evangelísticas inovadoras trazidas pela Quadrangular. Revela suas vicissitudes ao ser ridicularizado pela imprensa sensacionalista de São Paulo, e dos processos judiciais que teve que responder por ser acusado de exploração da credulidade pública. Informa ainda seus empreendimentos editoriais, fonográficos e comerciais, e sua instalação na nova Capital Federal nos anos 60, para ali construir um grande tabernáculo de alvenaria para pregar o evangelho.

Ao comparar as informações disponíveis sobre Smith, se percebe a princípio o silêncio da historiografia oficial, pois o objetivo da mesma é relatar somente o que o então pioneiro construiu em prol da denominação. Com o passar dos anos, com muitas lideranças (inclusive Smith) já desaparecidas, as quais na época se sentiram incomodadas e desafiadas por ele; a história oficial "vaza" informações não tão edificantes, anteriormente revelados por um jornalista de linhagem assembleiana.

O certo, é que sua biografia ainda incomoda. Sua dissidência trouxe prejuízos para a liderança da AD. Virgil Smith se tornou um renegado, um traidor, um caso para ser esquecido e ignorado. Hoje é lembrado pela AD,  de certa forma foi reabilitado, mas ainda permanece sobre sua vida o estigma de ser um dissidente.

* Livro esse de coautoria do autor desse blog. Obras institucionais e comemorativas, financiadas por uma empresa ou denominação, constituem-se em uma "camisa de força" para quem o escreve. Diplomaticamente, tratou-se da saída de Virgil porque o objetivo da obra em si é engrandecer os líderes e a denominação, dando somente uma versão grandiosa e edificante dos fatos conhecidos.

Fontes:

ALENCAR, Gedon. Assembleia de Deus-origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

SANTOS, Ismael. Raízes da nossa fé: A história das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus em Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Blumenau: Letra Viva, 1996.

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Virgil Smith: uma vida pentecostal

A história de sua vida poderia virar um filme, tamanho as reviravoltas e aventuras vividas. Pode-se dizer com certeza, que Virgil Frank Smith (1902-2000) nos seus quase cem anos de existência "surfou" nas "ondas" do pentecostalismo brasileiro. A história de sua vida e ministério, de certa forma, é a história do pentecostalismo nacional.

Nascido nos EUA, filho de um pregador, Smith teve uma sólida formação teológica. No ano de 1927, é enviado ao Brasil pela Igreja de Cristo. Na cidade de Garanhuns estudou o português por três meses, frequentando a Igreja Presbiteriana daquela cidade juntamente com Orlando Boyer, também pertencente à Igreja de Cristo. De toda a sua extensa biografia, além de constar seu pioneirismo na pregação do evangelho pelos Estados de Pernambuco, Alagoas e Ceará, Virgil é conhecido por ter sido feito refém do temido cangaceiro Lampião. Desse encontro, além de evangelizar o famoso cangaceiro, ouviu as seguintes palavras: "Nós dois estamos tentando corrigir as pessoas. Vocês, pregadores, com a palavra de Deus; e eu, com a palmatória e o ferro quente". Tempos depois conheceu outra personalidade mítica do nordeste: o padre Cícero, do qual recebeu permissão para pregar o evangelho na região de Juazeiro e do Crato.

Em todas essas andanças, Smith e sua esposa, recebem a experiência pentecostal e estreitam laços com os missionários suecos da Assembleia de Deus no Brasil. Em 1936 é recebido como membro das Assembleias de Deus no Brasil. Permanece trabalhando no nordeste, até que no dia 20 de fevereiro de 1941 o casal Smith assume o pastorado da AD em Joinville, Santa Catarina.

Quando assumiu o trabalho em Joinville, a igreja se reunia em uma casa alugada e era pastoreada por Manoel Germano de Miranda, um dos pioneiros da AD no estado catarinense, e também, um homem muito simples. Virgil Smith assume a igreja e, com maior visão administrativa e preparo teológico aprimora diversos departamentos, abre congregações, e ministra conhecimentos em Bibliologia, Cristologia e Geografia Bíblica nas escolas para obreiros. Do aluguel, conseguiu a epopeia, juntamente com os membros, de comprar um terreno, construir e inaugurar em dois anos o antigo templo sede da igreja em Joinville, que na época foi considerado um dos maiores templos evangélicos do país.

Juntamente com J. P. Kolenda criou toda uma estrutura evangelística e jurídica para a AD no estado catarinense. No âmbito nacional, Smith participou de diversos debates, principalmente sobre a criação de institutos bíblicos na Assembleia de Deus, tema esse polêmico e visto com muitas reservas, tanto por parte dos suecos como por parte dos brasileiros. Fez parte do conselho administrativo da CPAD e de campanhas para arrecadação de fundos para a editora.

Apesar de todas essas atividades algo não ia bem. Jason Tércio ao traçar um perfil do missionário norte-americano faz a seguinte observação sobre Smith em seu livro Os Escolhidos: Em 1945 estava em Joinville, Santa Catarina, organizando uma rede evangelística a partir de um salão alugado. A Assembleia de Deus não o satisfazia.

Tanto não o satisfazia que em 1953 Virgil se desliga da AD em Joinville e vai para São Paulo realizar campanhas evangelísticas com os também norte-americanos Harold Willians e Raymond Boatringht da Cruzada Nacional de Evangelização. A partir de então, Smith começa a desenvolver novos projetos e dar novos rumos ao seu ministério.

Mas quais seriam as razões para que Smith ficasse insatisfeito e deixasse mais de 20 anos de militância na AD, uma denominação que ele ajudou a estruturar tanto em nível nacional e regional? Ao deixar o pastorado da AD de Joinville a igreja já era uma das mais prósperas do estado catarinense e com grande perspectiva de crescimento devido ao fato de estar se desenvolvendo na cidade uma série de indústrias. Pode-se pensar em algumas respostas analisando alguns dados biográficos de Virgil, como o próprio contexto pentecostal da época.

Em primeiro lugar Smith era um aventureiro, um homem irrequieto, movido pelo desejo de evangelizar e abrir novas frentes de trabalho. Suas aventuras no nordeste brasileiro, sua mudança da igreja de Cristo para a nascente AD e depois sua adesão ao trabalho da Cruzada nacional de Evangelização revelam alguém com disposição de assumir riscos e de uma personalidade aberta a novas ideias e experimentos. Segundo Tércio: 
Virgil Smith estava interessado numa tática diferente de evangelização, mais abrangente, como fazia a Igreja do Evangelho Quadrangular, também originária dos Estados Unidos. A Quadrangular estava trazendo para o Brasil um novo conceito de evangelização, que correspondia mais às aspirações de Virgil. Os cultos não deveriam ser realizados apenas em templos e ao ar livre. Era preciso atrair multidões de ouvintes. E para tanto, só mesmo tendas de lona e grandes auditórios, ginásios esportivos, estádios. 
Por outro lado encontramos uma AD em processo de institucionalização, com crescentes disputas de poder, e antagonismos cada vez fortes de seus principais líderes. Em muitos momentos os missionários norte-americanos foram questionados quanto às questões de institutos bíblicos e métodos de trabalho e evangelização. Os obreiros dos EUA tinham os dólares (ou facilitavam sua chegada), mas eram vistos com desconfianças e reservas. Smith, conhecedor das estruturas de poder coronelistas do nordeste, talvez tenha começado a perceber dentro da denominação um outro tipo de coronelismo: o eclesiástico. Porém sintonizado com as novidades da época e insatisfeito com a AD, Virgil, deixa a primeira "onda" do pentecostalismo tão bem representada pela AD e vai "surfar" na segunda "onda" trazida pela Quadrangular.

Talvez o registro feito pelo escritor Ismael dos Santos em seu livro Raízes da nossa fé resume muito bem o sentimento e o contexto do missionário norte-americano: 
E, mesmo aceitando o desafio de construir em Joinville, naquela época, um dos maiores templos evangélicos do Brasil, sua paixão pelo evangelismo o levou a confessar: "O templo foi construído na rua principal da cidade e era o edifício mais conhecido. Mas, em comunhão com Deus, apareceu-me a pergunta: Quantas pessoas frequentavam o seu templo? A resposta que eu podia dar era que não mais de mil pessoas frequentavam aquela igreja. Então a voz do Espírito Santo em mim dizia: E quem está ministrando aos outros vinte e dois mil habitantes?"
É certo que ele não foi o único a tomar tal decisão. Outros obreiros em momentos diferentes fizeram o mesmo, mas o caso de Smith é emblemático, pois os registros disponíveis sobre sua vida e obra, e aqui colocados, esclarecem os rumos da AD e do pentecostalismo brasileiro.

Fontes:

ALENCAR, Gedon. Assembleia de Deus-origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

SANTOS, Ismael. Raízes da nossa fé: A história das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus em Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Blumenau: Letra Viva, 1996.

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997.