sexta-feira, 31 de agosto de 2012

30 anos sem Paulo Leivas Macalão

No dia 26 de agosto de 2012, completou 30 anos do falecimento do pastor Paulo Leivas Macalão, um dos maiores (e polêmicos)  líderes das Assembleias de Deus no Brasil. A data foi relembrada pelo Ministério de Madureira através de redes sociais, onde fotos e textos foram compartilhados para marcar as três décadas de ausência de seu fundador e antigo líder máximo.

Macalão e esposa: incompreendido e segundo Vingen muito independente

Naquele agosto de 1982, o Ministério de Madureira sofreu duas grandes perdas. Vinte um dias antes da morte do pastor Paulo Macalão, seu vice-presidente e amigo, pastor Alípio da Silva faleceu. Pastor Alípio era o braço direito de Macalão e ao que tudo indica, seu eventual sucessor no ministério. Dentro dessa situação, o Ministério de Madureira elegeu o pastor da AD do Brás, Lupércio Vergniano para a presidência. Manuel Ferreira, hoje presidente vitalício do ministério já estava em ascensão naquela época. Foram esses senhores (e pelo que se percebe), junto com a viúva de Macalão a missionária Zélia Brito Macalão,  deram continuidade aos projetos da igreja.

Passados 30 anos de sua morte, sua obra ainda é motivo de diversas analises e reflexões. Macalão foi um pioneiro do pentecostalismo sem dúvida alguma, mas também foi pioneiro na formação da primeira cisão ministerial da denominação e inspirou muitos outros a fazerem o mesmo. Ainda em vida, a palavra mais usada pelos textos oficiais para justificar a iniciativa de Paulo Leivas de formar um ministério à parte do suecos foi incompreensão. Sim, Macalão foi um incompreendido, um jovem que ao entrar em choque com os líderes escandinavos se deslocou para os subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, para ali formar seu próprio rebanho. E esse rebanho cresceu muito, sempre inspirado na veia nacionalista e autoritária de seu líder. A AD passou então em muitas regiões do Brasil a ser conhecida como Missão, em alusão aos trabalhos fundados ou dirigidos pelos suecos, e Madureira, a AD verdadeiramente nacional.

Após a saída do Ministério de Madureira da CGADB, a literatura da CPAD ainda continua a reconhecer Paulo Leivas como grande líder, porém sempre é destacado um trecho do diário de Vingren onde ele registra uma interessante observação sobre Macalão: "ele é muito independente". Outras faces do "Apóstolo do século XX" são reveladas nas edições posteriores, sob um ângulo nem sempre favorável, legitimando assim a cisão ocorrida em 1989 como algo inevitável, pois o germe da divisão estaria nas ações expansionistas e polêmicas do fundador de Madureira. Assim, após 30 do seu falecimento, sua memória cada vez mais é exaltada por Madureira, mas por outro lado é questionada nem sempre de forma sutil pelas AD's ligadas a Missão. 

Outro ponto que envolve a figura de Macalão em mistério seria a sua provável filiação a maçonaria. Antigos líderes e membros afirmam essa ligação, mas não há evidências claras de que isso tenha ocorrido. Sua amizade com o Reverendo Isaías de Souza Maciel, ministro evangélico, o qual chegou a ser grão-mestre na maçonaria é destacada para afirmar essa hipótese. Gedeon Alencar registra em seu livro, que o questionamento de um pastor pertencer ou não a maçonaria foi ventilado na CGADB de 1966, e ainda, segundo alguns entrevistados para sua tese, uma comissão teria realizado um solenidade em sua homenagem. Mas esse é um caso onde não há confirmações ou desmentidos convincentes.

A certeza de tudo isso é que, passados 30 anos de sua morte, a vida e obra de Paulo Leivas Macalão ainda merecem um estudo mais aprofundado. Poucas informações sobre ele se levantaram nesse período além das que já estão dadas pela historiografia oficial. Macalão ainda é uma incógnita para muitos pentecostais, um personagem mítico esperando por ser desvendado.

Fontes:


ALENCAR, Gedon. Assembleia de Deus-origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

sábado, 25 de agosto de 2012

Os Escolhidos - fragmentos da história assembleiana

O livro Os Escolhidos: a saga dos evangélicos na construção de Brasília do jornalista Jason Tércio é uma obra que trás relatos surpreendentes sobre a história das Assembleias de Deus no Brasil. O objetivo do autor, é fazer um relato da evangelização e instalação dos vários segmentos evangélicos no período da formação da nova Capital Federal. Nas páginas de Os Escolhidos, se encontram diversas informações do trabalho pioneiro de batistas, presbiteranos, metodistas e, principalmente, assembleianos na grande obra do governo JK.

Filho de um pioneiro assembleiano (seu pai Venâncio Rodrigues do Santos foi pastor e escritor na AD) Tércio, numa linguagem acessível e objetiva, conta as aventuras e desventuras dos primeiros evangélicos em Brasília. Por ser filho de assembleianos, ele "retrata um mundo que lhe é muito familiar", segundo as palavras de Joanyr de Oliveira que prefaciou o livro. Tendo essa familiaridade como aliada, o jornalista revela histórias não contadas pela historiografia oficial da denominação, e lança luz sobre muitos acontecimentos de bastidores.

Brasília foi projetada para ser a meta-síntese da administração JK, e o símbolo máximo do seu slogan "50 anos em 5". Trabalhadores de todo o Brasil se aventuraram na construção de uma utopia no Planalto Central brasileiro, de uma cidade que representasse o futuro de desenvolvimento, otimismo e capacidade de superação do Brasil e seu povo. Ironicamente, ali na futura Capital, as AD's conseguiram sintetizar seus quase 50 anos em 5. Como fizeram isso? Tércio detalha as divergências e negociações dos ministérios assembleianos rivais, as administrações personalistas dos seus pioneiros, a fragmentação ministerial numa cidade sonhada para unir e não para dividir. Tudo isso está relatado em Os Escolhidos.

Para os leitores dessas linhas, transcrevo alguns trechos significativos. Muitas outras informações se encontram no livro, mas deixo aqui um pequeno apanhado sobre os líderes e ministérios da AD. Dados que a história oficial não divulga, mas que vale a pena compartilhar.

Sobre Paulo Leivas Macalão: Tércio descreve seu físico e estilo de liderança. 
Baixo, corpulento, era um dos principais líderes da Assembléia de Deus no Brasil, tendo expandido seu trabalho evangélico com proverbial rigidez. Obreiros de seu ministério que demonstrassem personalismo e um mínimo de independência eram severamente repreendidos, às vezes punidos com transferência para outra igreja ou simplesmente excluídos. Se ele não simpatizasse com alguém ou percebesse que o crente pretendia apenas usar sua influência, Macalão o neutralizava com um gesto simples, porém bastante eficaz - cumprimentava com as pontas dos dedos.
Os acordos de limites de jurisdição eclesiástica: o livro relata os acordos informais feitos entre os líderes para depois serem desrespeitados.
No acampamento da construtora Castor, na Granja do torto, os trabalhadores crentes continuavam fazendo cultos num barraco erguido por eles. Discutiam a necessidade de fundar mais um templo da Assembléia de Deus. Havia, porém, uma barreira: acordo recém firmado entre Madureira e outros ministérios assembleianos estabelecera limites territoriais - onde existisse  igreja de Madureira não haveria outro ministério, e vice-versa. No escritório da igreja de São Cristóvão, Rio, o pastor-presidente, Alcebíades Vasconcelos, seu vice, Túlio Barros Ferreira, e Paulo Macalão tinham se reunido, com um mapa do Brasil sobre a mesa, delimitando sua respectivas áreas de atuação.
Criação de ministérios autônomos: a nova Capital despertava um ímpeto de independência nos novos obreiros que ali ministravam. Percebia-se um grande potencial de crescimento. Esse foi o caso do pastor Francisco Miranda.
Assim Miranda criou uma igreja autônoma, presidida por ele, sem vínculo com sede em São Cristóvão... A independência unilateral foi proclamada na noite de 15 de janeiro, sexta-feira, durante um culto, transformado em assembléia extraordinária, para tratar, segundo Miranda informou, de assuntos administrativos urgentes... Os auxiliares de Miranda logo passaram a considerar seu método administrativo muito personalista e centralizador. Nas conversas informais após os cultos, brotava a discórdia, prenunciando uma tempestade. 
Fonte:

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997.