quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Celina Albuquerque: uma revisão da história assembleiana

Celina Martins Albuquerque, é sem dúvida um dos nomes mais famosos da história das Assembleias de Deus no Brasil. Reconhecida como umas das pioneiras da AD, ela também foi destacada por muito tempo como a primeira crente no país a ser batizada com o Espírito Santo. Pode-se afirmar que durante quase 80 anos ou mais de sua história, as publicações oficiais da denominação eram firmes e contundentes na afirmação, de que essa senhora, falecida em 1966 aos 90 anos, cuja foto ilustra diversas publicações da CPAD, seria a primeira pessoa no Brasil a receber a experiência pentecostal, cuja maior evidência é o falar em novas línguas.

Porém, ao ler com atenção o livro comemorativo do centenário assembleiano publicado pela CPAD, o discurso no qual se diz que Celina Albuquerque é a primeira crente da igreja batista a receber o Batismo com o Espírito Santo é abandonado. O relato, no qual se exaltava a senhora Albuquerque como pioneira dessa experiência no Brasil é sutilmente modificado. Segundo a nova versão, Celina seria a primeira "crente da igreja batista" em Belém a receber o batismo e não mais a primeira "crente no Brasil". Mas o que teria feito a CPAD mudar seu discurso histórico? 

Celina Albuquerque: uma das pioneiras da AD no Brasil

Informações de que a experiência pentecostal foi vivida por outras pessoas alguns anos antes de Celina começaram a ser divulgadas. Relatos, como a do pastor Paulo Malaquias do Rio Grande do Sul em 1907, e Pedro Graudin em Santa Catarina em 1909, ficaram conhecidos pelo Brasil. Segundo as informações obtidas e confirmadas, Celina não teria a primazia no Brasil nessa experiência, e sim Malaquias, seguido de Graudin ambos da região sul do país.

Porém, a aceitação desses senhores como pioneiros do batismo pentecostal também não se deu sem resistências. A menção de Malaquias e Graudin no livro síntese da história da AD publicado em 1997 é acompanhada do registro de um trecho do diário de Gunnar Vingren, onde exatamente em uma viagem ao sul do Brasil, ele encontra um grupo que vivencia experiências místicas estranhas. Não se nega a informação, mas não se legitima os fatos como autenticamente pentecostais.

Coincidentemente, tanto Paulo Malaquias como Pedro Graudin (assim como Celina de Albuquerque) pertenciam a igreja batista. A experiência de Malaquias, o qual foi pastor assembleiano no RS, foi testemunhada no Mensageiro da Paz em 1947, mas durante muito tempo ignorada pela historiografia oficial. O caso de Graudin, foi resgatado pelo escritor Ismael dos Santos em uma obra histórica sobre a AD de Santa Catarina no ano de 1995, onde se lê que o mesmo se tornou sogro do fundador da AD no estado catarinense.

Talvez a crescente divulgação desses fatos, tenha levado a CPAD a admitir o pioneirismo desses senhores no pentecostalismo brasileiro. Mas também a mudança dos rumos políticos da CGADB tenham sido determinantes para essa aceitação tardia. O pastor da igreja da AD de Belém do Pará, é forte oponente do atual presidente da Convenção Geral. Admitir essa modificação na história assembleiana, é o mesmo que desprivilegiar a igreja mãe em Belém. É uma mudança sutil, porém reveladora do clima político da CGADB nos últimos anos.

Fontes

ARAÚJO, Isael de. 100 Acontecimentos que marcaram a história das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

SANTOS, Ismael. Raízes da nossa fé: A história das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus em Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Blumenau: Letra Viva, 1996.