quinta-feira, 28 de novembro de 2013

J. P. Kolenda e a profissionalização do ministério

Um homem que marcou e "incomodou" sua época. Assim pode ser descrito o trabalho do missionário John Peter Kolenda, ou simplesmente J. P. Kolenda. Nascido na Alemanha em 1898, filho de um pastor luterano que trabalhou em comunidades de colonização alemã no Rio Grande do Sul, Kolenda residia nos Estados Unidos quando, após a conversão, teve contato com o movimento pentecostal. Ordenado pastor ainda jovem sentiu uma forte chamada ministerial.

Quando foi convidado para ajudar no trabalho missionário no Brasil, JP já era um obreiro experiente e destacado nos EUA. Kolenda veio trabalhar (tanto ele como outros missionários da AD estadunidense) em regime de cooperação com a Missão Sueca, inclusive se sujeitando as normas e aos métodos de trabalho dos suecos. Essa sujeição era uma exigência dos escandinavos, pois estes se viam como pioneiros do trabalho pentecostal em terras brasileiras, e não queriam a princípio ceder lugar aos estadunidenses.

Kolenda com pastores catarinenses: crítica ao profissionalismo ministerial

JP chega ao RJ no ano de 1939, e para curiosidade e espanto geral, desembarca com seu Chevrolet e aluga um apartamento em Copacabana. Era evidente que a postura e o status financeiro dos obreiros vindos da América do Norte era vista com reservas pelos suecos. Segundo Paul Freston, não foi só isso que trouxe dificuldade de aceitação por parte dos missionários. Para o sociólogo a "ênfase americana em educação teológica e a atitude menos severa na área de costumes" contribuíram para vários conflitos entre os missionários estadunidenses, suecos e brasileiros. 

Logo, JP seguiu para o Estado de Santa Catarina onde o trabalho ainda era muito modesto. Juntamente com outro missionário estadunidense, organizaram a AD em Santa Catarina e promoveram as bases para seu maior crescimento. De forma simultânea, Kolenda estava envolvido nos grandes debates acerca do ensino teológico nas Convenções Nacionais. Não foram poucos os debates sobre esse assunto, muito dos quais JP foi rechaçado pela liderança das ADs brasileiras. O tema sobre a melhor formação dos obreiros era necessário e incômodo. Mas não havia acordo entre as partes, e as discussões prosseguiram durante muitos anos.

Porém, foi em outro projeto que Kolenda foi bem sucedido. Lançou uma campanha financeira nos EUA e no Brasil em favor da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), para compra de maquinários e aquisição de um prédio próprio para a editora. Conseguiu ainda trazer um técnico dos EUA para ajudar na instalação gráfica. O sonho do instituto bíblico JP não conseguiu concretizar, deixando esse desafio para seus sobrinhos João Kolenda e Dorris Lemos.

Deixou Santa Catarina em 1952, se dedicando tão somente a CPAD no RJ. Ainda nos anos 50 partiu para a Alemanha, país arrasado pela guerra, para ali ajudar na reconstrução das igrejas, fundando inclusive um instituto bíblico em seu país de origem. JP voltou outras vezes ao Brasil, e na década de 70 ajudou a implantar na AD em Belém um instituto bíblico. Em outras vezes esteve em SC para ministrar estudos bíblicos e rever parentes, amigos e obreiros.

Em uma de suas visitas à CPAD no RJ no ano de 1969, Kolenda é entrevistado para o Mensageiro da Paz. Uma das perguntas feitas ao legendário obreiro foi "qual o maior problema que se depara as Assembleias de Deus presentemente?" A resposta do antigo pioneiro surpreendeu por sua aguda observação das transformações em curso no seio das ADs. Para ele o maior problema das ADs no Brasil e no mundo era "a tendência para a acomodação entre os crentes e o profissionalismo ministerial." Ainda segundo Kolenda "o ministério têm perdido o fervor da evangelização, trocando-o por um ministério que é apenas uma profissão".

Chega a ser uma ironia essa constatação, pois quando ele e outros obreiros defendiam os institutos bíblicos, geralmente eram acusados de querer montar uma "fábrica de pastores" dentro das ADs. Agora JP revela outra preocupação e observa uma tendência, a qual se aprofundaria durante os anos seguintes e, chegaria aos dias atuais como uma triste e sórdida realidade: o ministério visto apenas como profissão, meio de vida e fonte de lucro.

Hoje as ADs transformaram-se em uma verdadeira fábrica de pastores. Porém, esse obreiros não são feitos em institutos, mas em famílias pastorais, atuando em uma espécie de plano de carreira ministerial. Plano esse que não exige nada mais do que uma boa filiação, parentesco, casamento ou lábia para ser bem sucedido. Sim, conforme diagnosticou JP, o ministério para muitos se transformou em uma atrativa profissão. E quem paga essa conta e as benesses de uma vida de muitos privilégios?

Fontes

ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

MENSAGEIRO DA PAZ. Junho de 1969 - nº 12. Rio de Janeiro: CPAD.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Josias Pereira Santiago: revisitando a vida de um pioneiro

A vida e a obra de Josias Pereira Santiago representa fielmente um período da história das Assembleias de Deus no Brasil. Evangelista da igreja nos anos 60 e 80 do século XX, sua biografia é um retrato exemplar do grande trabalho de pregação do evangelho executado por obreiros que, infelizmente, raras vezes aparecem nas histórias oficiais da denominação.

Josias nasceu em 1926 na localidade de Rio Branco, então município de Iapu (MG), e ainda jovem teve muitas responsabilidades. Ajudava na criação dos irmãos menores, e como muitos jovens da sua época gostava de aproveitar a noite em bailes, onde revelava seus talentos musicais, principalmente na sanfona. 

Logo ao casar-se em 1956, adoeceu gravemente. Em meio a recuperação da enfermidade, um dos seus irmãos pregou-lhe o evangelho e Josias aceitou a fé pentecostal. Pouco depois o casal Josias e Ana se converteu a Cristo em um culto dirigido pelo então evangelista Marcolino Gonçalves Lopes, na residência do seu irmão na localidade Águas Claras (hoje pertencente ao município de Santana do Paraíso). Em 1958 Josias Santiago é batizado nas águas em Coronel Fabriciano, pelo pastor José Alves Pimentel. 

Josias: de pé ou a cavalo sempre pregando o evangelho
Como todo novo convertido, o jovem Santiago queria colaborar na obra pentecostal da sua região. Convidado pelo pastor Pimentel auxiliou trabalhos e atendeu várias igrejas no interior do Estado mineiro. As igrejas nesse tempo, além de serem pobres e de recursos financeiros limitados, eram de difícil acesso. Para visitá-las eram necessárias longas caminhadas, ou o uso da bicicleta ou do cavalo. Certa vez o intrépido evangelista cruzou 14 km a pé para levar a ceia a um grupo de fieis na localidade com o exótico nome de Bom Jesus do Bagre no distrito de Belo Oriente. Em outros momentos, longas distancias foram vencidas na cela de um cavalo.

Seu filho Jacó Santiago lembra que seu pai não era um pregador eloquente. Como muitos obreiros da sua época, suas mensagens eram marcadas pela simplicidade e expressões inusitadas; engraçadas até. Mas percebendo suas limitações procurava ler bons livros teológicos e ministrar estudos bíblicos nas congregações por onde passava e realizar seminários para os jovens. De temperamento sanguíneo, Josias procurava conduzir o rebanho de forma amorosa, mas uma vez ou outra seu lado irritadiço despontava, principalmente no zelo pela "doutrina", o qual lhe custou afastamentos da direção de algumas igrejas e até ameaças de agressões físicas.

As igrejas pastoreadas por Josias Santiago cresceram. Algumas mais que outras, mas é fato que em uma delas a AD em Belo Oriente hoje conta com mais de 2.500 crentes na região, várias congregações e templos construídos.

Revisitar a vida do pioneiro, e conhecer ainda que parcialmente de seu trabalho evangelístico, é uma forma de refletir sobre as transformações da própria igreja e da sociedade nesses últimos anos. Pregar o evangelho nesse tempo era um trabalho árduo, sofrido e de muitas carências sociais e financeiras. Pioneiros como Josias Santiago se entregavam sem esperar receber nada em troca. Tanto é que sua família não enriqueceu através do ministério e Josias morreu vitima de complicações de um AVC numa situação material e financeira muito humilde em 2008.

Suas limitações de oratória, teológica e de trato com as pessoas, eram compensadas com muito sacrifício e determinação. Hoje, infelizmente muitos possuem muito mais facilidades, ou até qualificações para servir a igreja, mas dela se servem e se apropriam como simplesmente um negócio. Quanta falta faz um pioneiro de espírito desbravador como Josias Santiago.


Para saber mais do pioneiro acesse:

Agradeço as informações de Jacó Santiago, filho do pioneiro homenageado nesse texto.