quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

As Assembleias de Deus em São Paulo: Missão & Madureira

São Paulo, capital. Cidade cosmopolita, centro financeiro e industrial do Brasil, possui também os maiores ministérios das Assembleias de Deus no país. Existe em SP, uma pluralidade de ministérios, sendo os mais representativos, a AD do Brás, ligado ao Ministério de Madureira, e a AD do Belém, ligado à Missão. Essas duas igrejas, durante muito tempo, preconizaram uma feroz rivalidade, a qual foi registrada no principal órgão de informação da AD: o Mensageiro da Paz (MP).

A AD em São Paulo, foi fundada em 1927 pelo pioneiro sueco Daniel Berg. Foram também pastores em seus primeiros anos além de Berg, Samuel Nyström, Samuel Hedlund, Bruno Skolimowsky, Jahn Sörheim e Simon Lundgren. O trabalho na cidade cresceu rápido, organizando-se juridicamente em 1929. Pelo que se sabe, a AD do Ipiranga surgiu em 1931 como uma congregação da AD fundada pelos missionários suecos.

Sede da AD do Belém: ministério fundado pelos suecos
No ano de 1938, Madureira abriu seu trabalho na capital paulista. Paulo Macalão, pastor da igreja carioca, motivado por uma revelação resolveu então ir até a cidade de SP, e alugar um salão para os cultos. Seu cunhado Sylvio Brito, até então membro e dirigente da AD fundada pelos missionários suecos, tornou-se o primeiro dirigente do novo ministério. A atitude de Macalão, causou constrangimentos, e nunca foi totalmente digerida pela Missão. 

Sede de Madureira no Brás: concorrente direto da Missão
Pelo menos, é o que se percebe nas notícias divulgadas no MP.  As relações, não eram lá muito fraternais entre os dois ministérios. Exemplo disso é o relato da inauguração do antigo templo sede da AD do Brás, descrito no MP. Em linguagem heroica e comovente, é dito sobre o início da igreja, sobre a "semeadura árdua", das "intempéries" enfrentadas, e das "críticas, zombarias e muitas perseguições". Porém, vencendo todos esses obstáculos a AD do Brás se tornou uma "frondosa árvore" com ramificações por várias cidades de São Paulo, chegando ao Mato Grosso, Sul de Minas Gerais e Paraná. Destaca ainda o texto a presença de muitos pastores e autoridades de outros estados brasileiros para prestigiar o evento. Em suma, a reportagem é um retrato de um trabalho que deu certo, e o templo, grandioso para os padrões da época, era a materialidade da persistência dos primeiros líderes. 

Meses depois, o MP trás em suas páginas, informações sobre a AD do Belém. Fica evidente na matéria, assinada pelo pastor João Pereira de Andrade Silva - na época vice-presidente da igreja - o desejo de revidar, ou de alguma forma contestar o ministério concorrente. O texto afirma, que a AD do Belém é uma das maiores igrejas do país, porém pouco conhecida devido ao modo discreto e sóbrio de liderança do pastor Cícero C. de Lima. Em seguida, o leitor é informado que "Nunca é demais afirmar que a igreja no Bairro do Belém, na capital paulista, se estende por quase todos os Bairros da capital, para muitas cidades do interior do Estado, e até Mato Grosso".

Na sequencia, nota-se, a busca de legitimidade da AD do Belém, ao lembrar aos leitores que:
... a Assembleia de Deus, no Belém, é a igreja pioneira do Trabalho Pentecostal no Estado de São Paulo, isto é das Assembleias de Deus no Brasil. Ela é a mesma iniciada pelo Pioneiro Missionário Daniel Berg que começou este abençoado trabalho, em um dos bairros desta capital... Da igreja Assembleia de Deus no Belém, saíram quase todas as outras que tem prosperado. Umas saíram legalmente, outras de forma que não desejamos ventilar... A Assembleia de Deus no Belém, é de certo modo a "Igreja Mãe" de quase todas as demais Assembleias de Deus em São Paulo.
Assim, reiterando o pioneirismo e a história da AD do Belém, o pastor João Pereira, visa responder ainda, aos aparentes burburinhos, descritos no texto, os quais diziam, que a igreja liderada pelo pastor Cícero era "a grande desconhecida" no Brasil, ou de que a "igreja do Belém, em S. Paulo vai mal".

Era o texto, uma referência a Igreja do Brás, a qual teve um princípio conturbado e polêmico na capital paulista? Seria uma nota de desagravo, a um ministério concorrente, porém considerado pela Missão ilegítimo? Provavelmente sim.

É interessante perceber a guerra de propaganda e contrapropaganda desse período. Enquanto o mundo vivia o auge da Guerra Fria - a polarização entre Capitalismo e Socialismo - nesse momento a AD em SP, vivia a "guerra fria" entre Madureira e Missão. Mais irônico ainda, é notar essa luta no MP. Na prática, o jornal era um mensageiro, não da paz, mas uma reverberação das muitas disputas ministeriais. E isso durou muito tempo...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MENSAGEIRO DA PAZ. 1ª quinzena de abril de 1962. Rio de Janeiro: CPAD.

MENSAGEIRO DA PAZ. 2ª quinzena de agosto de 1962. Rio de Janeiro: CPAD.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

As Assembleias de Deus Brasileiras: uma interpretação sociológica

A tese de doutorado do sociólogo Gedeon Alencar ASSEMBLEIAS BRASILEIRAS DE DEUS: Teorização, História e Tipologia 1911-2011, defendida no Programa de Ciências da Religião da PUC - SP promete - como outras obras do autor - polêmicas e várias discussões. Alencar já é bem conhecido no meio evangélico e assembleiano por suas pesquisas, livros e entrevistas, onde sempre levanta questões polêmicas sobre a história oficial da denominação.

Certa vez afirmou em entrevista que Gunnar Vingren não seria assembleiano nos dias de hoje. Sempre alertou para a constante mitificação dos fundadores da igreja, dois pioneiros esquecidos e vencidos dentro da denominação que fundaram, mas alçados ao posto de herois nas últimas décadas. Destacou o ministério de de Frida Vingren, esposa de Gunnar, mulher pregadora, ensinadora e líder, a qual foi rejeitada pelos suecos e pastores brasileiros.

Gedeon: sociólogo e estudioso das ADs no Brasil
Cearense, assembleiano de berço, o pai de Gedeon, o pastor José Freire de Alencar foi pioneiro no Ceará, tendo trabalhado ao lado de figuras ilustres no meio da AD como o escritor e missionário Orlando Boyer e de lideranças locais como José Teixeira Rego, Emiliano Costa, Armando Chaves Cohen entre outros. Por ter essa condição "privilegiada", Alencar ainda na mais tenra infância vivenciou as tensões, disputas e cisões tão típicas da AD brasileira.

Agora, em seu trabalho, Gedeon, além de lançar mão de uma vasta bibliografia, de autores clássicos da sociologia como Max Weber, para explicar aquilo que chama de Matriz Pentecostal Assembleiana Brasileira - MPAB - e suas "identidades irreversivelmente fracionadas em divergências internas", gerando os assembleianismos urbano, rural, difuso e autônomo, pois como bem salienta em sua introdução "Não se trata, assim, de uma igreja, mas de diversas, distintas, concorrentes e divergentes entre si, muito parecidas com o país onde nasceram, cresceram e se consolidaram. Portanto, Assembleias Brasileiras de Deus".

No desenvolvimento do trabalho, Gedeon divide sua analise sobres as ADs em três períodos:

Primeiro Período - 1911 a 1948 - O Movimento Pentecostal: a iluminação do carisma
Segundo Período - 1946 a 1988 - A Instituição Pentecostal: o avanço da tradição
Terceiro Período - 1988 a 2011 - A Corporação Pentecostal: a (i) racionalidade dos poderes

Do ponto de vista histórico, o sociólogo lança luz e contextualiza muitos dos principais acontecimentos da história assembleiana. Com uma escrita segura, instigante e por vezes irônica (escrita essa que reflete muito bem sua personalidade comunicativa e espontânea) Gedeon com a ajuda de Kajsa Norell, jornalista sueca, teve acesso a cartas, jornais e documentos dos pioneiros suecos, os quais foram importantíssimos no aprofundamento histórico e na interpretação dos fatos. Com várias informações inéditas, que desmontam muitos pontos da narrativa oficial, fica interessante pensar como os historiadores oficiais da AD, irão se debater em busca de respostas e explicações para a sustentação de seus mitos.

Como toda obra humana, a tese não é perfeita, completa ou imutável. Seu maior mérito, e assim é o desejo do autor, é gerar discussões e outros estudos sobre a maior denominação evangélica do pais. Centenária, fragmentada, porém presente em todo território nacional. Brasileira em todos os sentidos.

PS: Caso o leitor desse blog seja pastor (a) assembleiano, você pode contribuir para prosseguimento da pesquisa, direcionando ou respondendo o questionário da pesquisa de doutorado em Ciências da Religião, realizada na PUC-SP, em 2012, sob a orientação do Prof. Dr. Edim Abumanssur, sob o tema "ASSEMBLEIAS BRASILEIRAS DE DEUS: Teorização, História e Tipologia 1911-2011".

A tabulação final dos dados não identificará pessoas individualmente, apenas mostrará os resultados percentuais totalizados das respostas.

O link da pesquisa é esse abaixo: