domingo, 28 de abril de 2013

A sineta: um símbolo aposentado nas Assembleias de Deus

As transformações que passam as Assembleias de Deus no Brasil não são só de ordem de usos e costumes, mas teológica, também. É consenso, que cada vez mais a famigerada teologia da prosperidade consegue adeptos e se implanta em vários ministérios assembleianos. Mas algumas mudanças, além das teológicas, são perceptíveis também na decoração, nos púlpitos e no acréscimo ou na falta de alguns objetos dentro dos templos das ADs. 

Entre esses objetos, um que perdeu sua função foi a sineta. Sim, a sineta! Nada talvez, simbolize tanto uma era quanto ela, e seu desaparecimento fala mais do que as muitas analises teológicas e comportamentais dos novos tempos (e templos) assembleianos. 

Dentro da liturgia das ADs, a sineta era o símbolo da ordem, a qual sempre deveria existir no andamento do culto divino. Iniciava-se muitas vezes os cultos com seu toque. Quando em algum momento da reunião, as atenções se dispersavam, ela era utilizada para dar chamar à atenção dos desavisados que o culto ainda prosseguia. Estava sempre no púlpito, à mão do pastor, e seu som era firme, alto e cheio de autoridade.

Ela era também (para muitos), o símbolo maior da opressão e autoritarismo do obreiro sobre os profetas, ou sobre qualquer manifestação mística que não estivesse de acordo com a teologia pastoral. Seu som calava os que profetizavam fora do tempo, ou os que falavam sobre temas que não estavam de acordo com a visão espiritual do pastor. As vezes, ao tomar posse de uma igreja, o novo obreiro já avisava se era costume seu usa-lá ou não. Se usava, era porque sua postura seria de extremo zelo na condução do culto divino. Caso anunciasse o contrário, era considerado um obreiro do tipo "deixa rolar", ou seja, era a alegria dos profetas e membros mais espirituosos.

Sineta: símbolo de ordem e poder na liturgia assembleiana
Sua ausência nas reuniões, é sinal de novos tempos. Tempos onde as manifestações espirituais são cada vez mais raras, onde as pregações e ensinamentos sobre os dons estão relegados ao segundo ou terceiro plano. Ou seja, a função da sineta com o passar do tempo se extinguiu. Foi atropelada pela modernidade, tal qual as antigas máquinas de datilografar. Ficou obsoleta com as novas tecnologias ou teologias. Foi deixada de lado, pois as novas teologias, cultos pirotécnicos e shows  - dominantes nas igrejas - são os que ditam as  regras de adoração do crente no templo.

Quem sabe, um dia no futuro, a sineta seja exposta num museu juntamente com as bíblias dos pioneiros, as antigas edições da Harpa Cristã, ou rascunhos de velhas anotações dos antigos obreiros. Pode ser que, não só uma, mas várias estejam presentes nesse museu do futuro. Desde as bem elaboradas até as mais simples, indicando não só a pluralidade de modelos, mas também a condição social do rebanho. Seria uma exposição muito interessante...

sábado, 20 de abril de 2013

Santa Catarina: uma convenção marcante em 1938

Nesse ano de 2013, a Assembleia de Deus em Joinville completará 80 anos. A AD joinvilense foi uma das primeiras igrejas da denominação no Estado de Santa Catarina. Organizada em 1933, através do trabalho do simples, mas esforçado Manoel Germano de Miranda, a AD se desenvolveu de forma rápida, tornado-se referência na região norte do Estado.

A foto que ilustra essa postagem é de 1938, ou seja, 5 anos após o início dos trabalhos na cidade e foi realizada durante uma convenção regional. Estiveram presentes nesse evento os famosos pregadores pentecostais Howard Carter da Inglaterra e Lester Sumral dos Estados Unidos. 

Convenção em Joinville: presença de Howard Carter e Lester Sumral  
Os dois renomados pregadores estiveram meses antes na CGADB na cidade de São Paulo, e a convite do missionário Albert Widmer participaram da convenção regional em Santa Catarina. O encontro, deixa evidente a liderança e influência de Widmer na obra pentecostal catarinense nos seus primórdios. Bem ao lado da casa em que aparece na fotografia acolhendo os fieis, foi inaugurado 5 anos depois o primeiro templo sede da AD joinvilense.

Aliás, Widmer em seus relatórios ao Mensageiro da Paz, deixa sempre transparecer o potencial que ele encontrava na igreja e na região de Joinville para expansão da mensagem pentecostal. No texto do MP (1º quinzena de março 1938, p.7) Alberto Widmer assim descreve o crescimento da AD no município e da denominação:
Joinville, a mais importante cidade onde as indústrias estão em atividade, dia e noite, e o povo ordeiro procura a paz e o trabalho, não podia ficar sem a visitação da mensagem pentecostal. Em menos de 2 anos, levantou-se aqui uma igreja forte e próspera. De tempos em tempos, realizamos batismos nas águas, e o número de membros esta constantemente aumentando, tornando-se, assim, a maior igreja evangélica do Estado
Hoje, 75 anos após essa constatação, a AD em Joinville é a maior igreja da denominação em Santa Catarina. Muitos pioneiros ajudaram a construir essa história de dificuldades e vitórias. Mas fica aqui o registro fotográfico de alguns deles, os quais certamente, nem imaginavam a pujança que a igreja teria hoje.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Uma inauguração histórica da AD catarinense

A revista A SEARA de março de 1969, trouxe em suas páginas um momento festivo e importante; a inauguração de mais um templo da Assembleia de Deus em Blumenau - SC. A escrita e as fotos, revelam o momento de alegria e grande participação dos líderes e membros da AD blumenauense.

Fachada do templo e obreiros na AD em Vila Nova - Blumenau

Satyro Loureiro e Antônio Lemos: pioneiros unidos em momento festivo
Segundo informações do site da AD em Blumenau, a igreja na localidade de Vila Nova ainda é modesto. Conta atualmente com pouco mais de 129 membros. Porém, esse momento foi ímpar por reunir pioneiros das ADs em Santa Catarina. Uma recordação de um tempo e de uma época de dificuldades, mas também de vitórias.

sábado, 13 de abril de 2013

Uma doce lembrança da juventude

A revista A SEARA de julho/agosto de 1961 trouxe em suas páginas, uma matéria sobre o grupo de jovens da Assembleia de Deus em Joinville - Santa Catarina. Liderada na época pelo saudoso pastor Antonieto Grangeiro Sobrinho a reportagem - escrita pela sua filha Elda Grangeiro - destaca os trabalhos de evangelismo realizado pelos jovens, com cultos ao ar livre aos domingos, e reuniões de adoração no próprio templo central. A senhorita Elda destaca ainda a operosidade desse grupo em todos os setores da igreja.

Irmãs Grangeiro: atuação marcante na AD em Joinville

Evangelismo realizado pelos jovens ao ar livre em Joinville
A família Grangeiro, de origem cearense, foi pioneira das ADs em Santa Catarina e trabalharam em diversas cidades, até que em outubro de 1957 pastor Antonieto assumiu a igreja em Joinville. No período em que atuou na cidade, foi eleito para ser presidente em da Junta Excecutiva da CGADB (1964-66), e é contado no livros História da CGADB da editado pela CPAD como um dos presidentes da instituição, tendo exercido também a presidência da convenção em Santa Catarina.

Interessante, é que muitos assembleianos de Joinville não sabem que um dia um pastor da cidade ocupou um cargo de extrema importância da denominação no país. Além disso, suas filhas, tiveram grande atuação na igreja, inclusive atuando como professoras em uma escola primária fundada pelo pastor Antonieto nas dependências da congregação do bairro Itaum em Joinville.

Infelizmente, muitos obreiros e crentes desconhecem o pioneirismo dos Grangeiros em terras catarinenses. Mas com bem afirmou o historiador Eric Hobsbawm em seu livro A Era dos Extremos, é o ofício do historiador na sociedade atual, muito mais voltada para o futuro do que para o passado, "lembrar os que os outros esquecem".

quinta-feira, 11 de abril de 2013

AD do Belenzinho: manifestação de apoio ao Regime Militar

No último post, o assunto sobre o apoio das lideranças das Assembleias de Deus ao Regime Militar foi tratado a partir de um evento de jovens na cidade de Volta Redonda no Rio de Janeiro. Mais uma vez, aqui nesse blog, tomando com fonte o Mensageiro da Paz (15 de fevereiro de 1973, p.12), o tema será discutido com base em uma celebração cívico-militar ocorrida na cidade de São Paulo, com a participação de um dos maiores ministérios da AD no Brasil.

Por ocasião das comemorações dos 150 anos da independência do Brasil, a AD do Ministério do Belenzinho - SP organizou um desfile cívico pelas principais ruas da capital paulista. O desfile, como não poderia deixar de ser foi um primor de organização e civismo. Bandas, bandeiras, cartazes e hinos religiosos e pátrios deram ao evento um colorido todo especial. A manifestação terminou na Praça do Mercado, onde um culto cívico religioso se realizou.

Matéria do MP sobre o desfile: "apoio incondicional ao Presidente Médici"
Nesse culto, foi convidado a se pronunciar o Comandante do 22º Batalhão Policial, o coronel Francisco Torres de Araújo que disse: "Em Munique, onde os atletas de quase todas as nações do mundo, reunidos, participam dos Jogos Olímpicos, imperam o ódio e a intranquilidade, mas aqui nessa praça onde os crentes estão reunidos participando dessas solenidades... imperam o amor e a paz!".

Uma pérola da desinformação promovida pelo regime. A capital de SP e o país, andavam as voltas com ataques, sequestros e outras ações da militância esquerdistas, e o coronel apontava acontecimentos internacionais para confirmar que o Brasil era muito mais seguro. Mas não deve-se esquecer que era o tempo do slogan "Brasil ame-o ou deixe-o".

Ao término das solenidades, o orador oficial pastor João Pereira. Falando de improviso, o reverendo revela a imagem que a liderança tinha ainda do governo militar. Referiu-se ao então ditador de plantão Emílio Médici como "legitimo comandante de todos os brasileiros". Destacou ainda que Médici era um "dos comandantes da Revolução Democrática vitoriosa de 31 de março de 1964!". E na continuação, as palavras do reverendo João Pereira tornam-se ainda mais ufanistas quando afirma: "E o importante é, que este País que está comemorando o Sesquicentenário de sua Independência, também está comemorando sua Independência econômica!".

Em toda a matéria as palavras do pastor João Pereira são de elogios, apoio e reverência ao governo. Em determinado ponto, ele afirma que:
O Evangelismo Nacional e, particularmente as Assembleias de Deus filiadas ao ministério da Igreja do bairro do Belém, em São Paulo, expressam hoje nessa concentração cívica religiosa, o seu apoio incondicional ao Presidente Médici, ao Governador Laudo Natel, e as demais autoridades constituídas.
Deve-se frisar sempre: não foi somente as ADs que apoiaram o Regime Militar. Porém, muitas leituras podem ser feitas desse acontecimento. Seria a manifestação, fruto de um deslumbramento e submissão total ao governo com base em Romanos 13.1? Identificação e simpatia com os milicos e seu estilo autoritário de comando, além de um exacerbado sentimento de gratidão por terem eles "salvo" o país do comunismo? Ignorância do contexto político? Percebendo algum resultado econômico favorável na vida dos membros da igreja (com reflexos imediatos nas contribuições), os líderes da AD pensavam nos militares como agentes de Deus em prol da nação?

Dentro desse contexto, é bom lembrar que boa parte da sociedade brasileira apoiava o governo. As ADs foram (e são) reflexo da sociedade; conservadora e atraída pelas comodidades do consumo. Há um outro detalhe, o qual transparece no texto: o apoio incondicional ao regime, num momento em que os próprios militares cada vez mais estavam sendo questionados na condução política da nação.

Espero aqui as considerações dos leitores desse blog. É um tema que precisa ser estudado com maior profundidade. Mas certamente, as ADs não foram neutras nesse jogo de poder, o qual durou mais de 20 anos.

sábado, 6 de abril de 2013

Congresso de jovens e a Segurança Nacional

Como já foi exposto nesse blog, os evangélicos de forma geral apoiaram o golpe militar de 1964. Perceberam esse acontecimento político como resposta de Deus ao perigo do comunismo. Foi dado ao evento como bem observou Robson Cavalcanti uma áurea de "sacralidade" e o apoio foi quase que total.

As Assembleias de Deus, através do Mensageiro da Paz, não se manisfestaram sobre os acontecimentos de 1964. Mas a posição de sua liderança ficou muito evidente, seja no silêncio, ou em eventos oficiais da igreja, onde o apoio e alinhamento aos militares ficou muito explícito.

Um exemplo disso foi o VI Congresso da UMADER realizado em 1972. O evento (descrito no MP de junho de 1972, p.6-7), realizado na cidade de Volta Redonda, onde se encontra a famosa Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) foi considerado "o maior movimento de jovens no Brasil". Pelo fato da CSN ser considerada "O Coração do Aço do Brasil" o MP usando palavras de efeito disse que: "nos dias do congresso, o Coração de Aço foi derretido pelo poder do espírito de Deus!".

Realizado entre os dias 23 a 27 de fevereiro, o congresso teve uma programação extensa com devocionais, plenárias, testemunhos, cânticos e estudos bíblicos. Além da juventude assembleiana, vários líderes (inclusive Paulo Leivas Macalão) compareceram ao evento prestigiando a liderança jovem.  Porém, é no dia 25 ( sexta-feira), que além dos habituais estudos e devocionais, ocorre no período vespertino uma concorrida palestra com o comandante do 1º BIB, Ten. Cel. João Cássio Martins de Souza intitulada "Segurança Nacional".

Militares: na visão de muitos eles foram salvadores da pátria contra o comunismo ateu
Como se sabe, a Segurança Nacional era um conceito chave da ideologia do Regime Militar e de sua manutenção. Apontava para um inimigo em comum (os comunistas) e apelava para os valores da ordem e do civismo como forma de coesão social. A AD nesse evento, com o consentimento dos seus líderes, patrocinou a ideologia da caserna entre seus obreiros e membros. Não é novidade que alguns líderes e pastores cursaram a Escola Superior de Guerra (ESG), onde a Doutrina da Segurança Nacional era ministrada. Altamires Sotero Cunha (então diretor da CPAD) por exemplo, tinha em seu currículo a formação na ESG.

O MP relata ainda, que o Ten. Cel. ficou "visivelmente emocionado com o espírito de civismo e patriotismo dos crentes e Jesus Cristo". O apoio dos evangélicos (pentecostais ou tradicionais) era importante nesse momento. O governo militar, apesar da prosperidade econômica, já não era mais unanimidade  principalmente na classe média e entre os intelectuais. 

Também não é novidade, que um dos seus principais líderes, Paulo Macalão, mantinha vínculos com militares. Pode ser que essa palestra tenha sido somente uma evidência desses contatos. Aliás a causa nacionalista era comum entre eles.

Porém, uns dos pensamentos que dominavam e seria decisivo para esse alinhamento ao regime, é a interpretação do texto de Romanos 13.1 que afirma: "Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus". Os militares haviam salvado o país do comunismo ateísta. A forma como as igrejas, tanto católica como evangélicas saudaram o golpe, fez que esse texto tivesse uma mística maior entre os evangélicos.

Anos depois, esse medo do comunismo seria explorado nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte em 1986. Seria revivido na campanha presidencial de 1989. E a cada eleição, de uma forma ou de outra outros medos seriam explorados...

Fontes:

CAVALCANTI, Robison. Cristianismo e política. Niteroi: Editora Vinde, 1988.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994.