quinta-feira, 27 de junho de 2013

As Assembleias de Deus e o esquecimento institucional

O último assunto tratado nesse blog foi sobre o esquecimento institucional promovido em algumas igrejas, com determinadas pessoas e ministérios, que de uma forma ou de outra, não se acharam dignas (para quem escreveu ou escreve a história) de serem lembrados. Érico Veríssimo ironizou essas ações institucionais chamando-as de "operação borracha".

O caso do pastor José Bezerra da Silva não é único. Sylvio Brito, primeiro pastor brasileiro da Assembleia de Deus em São Paulo é outro exemplo. Brito ficou alguns meses no pastorado e depois foi ajudar seu cunhado Paulo Macalão a abrir o trabalho de Madureira na capital paulista. Ele foi totalmente banido da história da igreja ligada a missão, não sendo contado nem mesmo como pastor da igreja. Porém textos do Mensageiro da Paz dessa época registram sua visita as oficinas do periódico assembleiano e o destacam como pastor da igreja paulistana.

Operação Borracha: quantos já não foram vítimas?
Frida Vingren é outro notável exemplo. Quanto tempo sua atuação ficou esquecida? Basta ler as teses do sociólogo Gedeon Alencar e outros estudos, para se perceber quanto tempo se passou até que seu ministério, e as polêmicas envolvendo seu nome serem conhecidas.

Outros nomes poderiam se juntar a essa lista, a qual não seria pequena. Mas como bem lembrou o Evangelista Daladier Lima a "história é escrita pelos vencedores, pelos presentes, e pela conveniência". O historiador Maxwell Fajardo também comentou que "As memórias costumam ser seletivas e sujeitas às tramas das relações de poder do presente, gerando assim muitos personagens injustiçados... No entanto, há também os casos em que a operação borracha é colocada em prática contra pessoas vivas!"

Nessa perspectiva, pode-se até citar uma manobra ainda hoje muito comum e intencional  no esquecimento da memória de algum líder, que no meio do caminho não se acertou em algo. O recolhimento do seu retrato da galeria de pastores presidentes. Dessa forma, na linha do tempo da igreja criava-se um vácuo, um vazio, uma descontinuidade na gestão do ministério. É como se tal pastor não tivesse existido.

Outras alternativas são a adaptação da história e das biografias para de alguma forma esconder algo, ou explicar o inexplicável. Note o leitor: quando há reviravoltas extremas em alguma biografia (ex: mudanças de cidade, espaço de tempo muito longo entre a última igreja que presidiu até sua morte) de um líder, sempre é sinal de que alguma coisa estranha pode ter acontecido. Pode ter sido uma divisão (caso Brito), problemas morais ou financeiros, mas é quase certo que algo não foi bem. 

Em outro texto continuaremos o tema. Mas deixo a palavra com os leitores. Caso tenham outros exemplos (e devem saber de muitos), deixe seu comentário.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A Assembleia de Deus em Pernambuco e um pastor esquecido

Em seu livro Incidente em Antares, o escritor gaúcho Érico Veríssimo conta uma história surrealista na qual 10 mortos insepultos se dirigem até a praça central da cidade, e exigem seu enterro, não realizado devido a uma greve geral que atingiu variadas classes trabalhadoras, inclusive os coveiros. 

Ao término do drama vivido por mortos e vivos, onde a presença dos cadáveres afetou sensivelmente a normalidade moral e ética da cidade e - diga-se de passagem - a olfativa também, o poder público resolveu fazer uma "operação borracha". Ou seja, procurou-se de todas as formas apagar da memória dos dignos moradores de Antares, a presença indesejável e mórbida dos mortos. O autor, de forma irônica retrata como é construída a história oficial de uma sociedade ou instituição. Entre verdades e mentiras, fatos e ficção, uma versão se estabelece e se consolida. 

A construção da história das Assembleias de Deus é semelhante a essa ficção. São vários os casos em que a versão oficializada, divulgada e celebrada está longe do que de fato aconteceu. E também são muitos os que tiveram seu trabalho pioneiro, por uma razão ou outra, apagados da memória oficial da igreja.

Um caso simbólico é do antigo líder da AD em Recife e membro da diretoria da CGADB nas décadas de 30 e 40, o pastor José Bezerra da Silva. Pastor Bezerra foi o primeiro líder nativo da AD em Recife, substituindo o missionário sueco Joel Carlson e pelos registros oficiais participou ativamente nas convenções nacionais da AD.


Pastor Bezerra entre os líderes da AD de Pernambuco: um líder esquecido
Mas há controvérsias sobre o período em que Bezerra esteve na liderança. Isael de Araújo sustenta que Bezerra nos anos 30 assumiu de fato a igreja e que Carlson cuidava de problemas menores. Moisés Germano de Andrade em sua tese "Uma história social" da Assembleia de Deus, parece sustentar que era Carlson o verdadeiro líder da igreja. 

As versões se complementam ao se verificar, que nesse período o governo Vargas estava no auge de sua campanha de nacionalização. A liderança formal de um brasileiro, ainda que chamado e vocacionado para o ministério diante da denominação seria estratégica, ou seja, Bezerra presidia a igreja, mas Carlson supervisionava a obra. Com a morte de Carlson, José Bezerra se efetiva de fato no controle da igreja.

José Bezerra da Silva, preside a igreja até o ano de 1953, quando problemas familiares o levam ao afastamento e desligamento da denominação. Foram 16 anos de ministério pastoral, e de intenso trabalho social. Porém, sua queda e os problemas gerados a partir de então, levaram a liderança a iniciar sua "operação borracha". 

Tanto é que Moisés Germano chega a afirmar que "O Pr. Bezerra é, sem dúvida, uma das pessoas mais injustiçadas na História da Assembleia de Pernambuco". Segundo o referido autor "Tratar sobre o governo do pastor José Bezerra é um dos temas mais complexos para se investigar nos anais da igreja: há poucos registros sobre sua administração" e somente os membros mais antigos recordam-se do seu tempo de ministério na região.

Para um líder que foi o primeiro pastor brasileiro da AD em Recife, braço direito e sucessor do mítico Joel Carlson e presidiu na época a maior igreja das ADs no Brasil durante 16 anos, encontrar poucos registros sobre sua administração e referências sobre seu ministério é no mínimo revelador de uma vagarosa operação de esquecimento institucional orquestrado pelo ministério. O motivo: seu insucesso conjugal e consequente dano ministerial. 

A história eclesiástica só pode e deve ter exemplos dignos para os fieis. Mas caso os autores da Bíblia seguissem essa lógica Abraão, Isaque, Jacó e Davi teriam suas histórias de vida e de fé banidas das Sagradas Escrituras. É de se pensar, em quantas "operações borrachas" já foram ou estão sendo ainda realizadas na nossa história.


Fontes:

ANDRADE, Moisés Germano de. "Uma história social" da Assembleia de Deus: a conversão religiosa como forma de ressocializar pessoas oriundas da criminalidade. Dissertação (Mestrado) - Universidade católica de Pernambuco. Pró-reitoria Acadêmica. Curso de Mestrado em Ciências da religião, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

SANTOS, Roberto José. (Org.). Assembleia de Deus em Abreu e Lima - 80 Anos: síntese histórica. Abreu e Lima: FLAMAR, 2008.  

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Entre Flores e Espinhos

Será lançado no dia 22 de junho de 2013 no templo sede da Assembleia de Deus em Joinville, o livro Entre Flores e Espinhos: o Espírito em movimento na Assembleia de Deus. Obra comemorativa dos 80 anos da denominação na cidade Organizada pelo pastor Claiton Ivan Pommerening, o livro trás artigos de 14 autores com temáticas diferentes sobre a AD.

Sinto-me honrado e agradecido a Deus por ter tido a oportunidade de fazer parte desse projeto. Contribui com o tema A caminho das urnas: a Assembleia de Deus em Joinville nas eleições de 1988, onde abordei sobre o lançamento e sustentação que a AD fez de uma candidatura própria no pleito municipal daquele ano. Recomendo a leitura, a qual certamente enriquecerá o conhecimento de todos.