terça-feira, 30 de julho de 2013

AD em São Paulo: Revolução e crescimento nos anos 30

Memórias das Assembleias de Deus compartilha uma foto rara do arquivo pessoal do irmão Sigisberto Machado. Reunidos em frente ao antigo templo, vários irmãos e obreiros da Assembleia de Deus em São Paulo capital possam para o registro fotográfico. Sentados a frente, o então pastor da igreja, o missionário sueco Samuel Hedlund e esposa Tora Hedlund, e o também missionário, músico, maestro e compositor Jahn Sörheim. O local? Provavelmente na rua Villela ou na Cruz Branca, antigos endereços da igreja.

O registro deve ter sido feito entre os anos de 1932 a 1935, período que Hedlund dirigiu o trabalho na capital paulista. Sörheim também cooperou nessa igreja, e hoje a banda de música da AD no Belenzinho leva seu nome em homenagem ao missionário.

Não deve ter sido fácil para o casal Hedlund ter dirigido a AD em São Paulo nesse período, pois na condição de estrangeiro presenciou um momento político conturbado na história do país. No dia 9 de julho de 1932, teve início a Revolução Constitucionalista, movimento que se opunha ao governo de Getúlio Vargas. A revolta era uma tentativa de resgatar o poder político do estado de São Paulo perdido na Revolução de 1930. Durante 3 meses os paulistas lutaram, mas isolados e numericamente inferiores, foram derrotados após batalhas sangrentas, e no dia 2 de outubro o conflito teve seu término.

Membros da AD na década de 30: tempo de um trabalho único da capital
Logo após o sangrento conflito, Sylvio Brito, em visita a cidade e futuro colaborador da AD paulista, assim relata ao Mensageiro da Paz (2ª quinzena de 1933): "A vitória! Aleluia! Quem não deseja vencer? Naturalmente, todos nós. Entretanto, nem todos vencem; qual a razão? perderam a visão do Vencedor - de nosso Senhor Jesus Cristo".

Seria uma referência ao conturbado momento político em que o país vivia? Provavelmente sim. Os paulistas, mesmo derrotados se sentiam vitoriosos moralmente, pois Vargas após o conflito reviu sua política, convocou eleições para uma Assembleia Constituinte e promulgou uma nova Constituição. Mas mesmo assim, ainda predominava (e predominaria durante muito tempo) a força do governo de Getúlio. Então politicamente, dependendo do ponto de vista, seria difícil afirmar quem fora de fato o vencedor na queda de braço entre o governo federal e as forças paulistas.

Brito, porém na continuação do artigo assim descreve e aproveita o momento político para espiritualizar o que viu em São Paulo:
Numa recente vista que fiz aos irmãos do Estado de S. Paulo, vi e participei das bençãos e vitórias que o Senhor Jesus Cristo tem concedido ao seu povo ali. O Estado de S. Paulo, que durante perto de três meses, esteve separado do resto do Brasil, está sendo, agora, visitado por Aquele que o profeta Isaías denomina - o Príncipe da Paz.
Foram 14 dias de visita, onde o jornalista observou os cultos evangelísticos em várias praças e ruas da cidade, e no templo com um número considerável de conversões. De forma incisiva, pede orações por Hedlund, pois observa "A seara é grande, mas os obreiros são poucos", e lança mão de vários versículos bíblicos que falam sobre o chamado e a necessidade de trabalhadores para a Obra de Deus.

Dificuldade política, e carência de obreiros diante de tantas oportunidades de evangelização e crescimento. Sylvio Brito assim descreveu o trabalho da AD paulista. Tempos depois, sairia ele do Rio de Janeiro e viria cooperar na capital de SP, se tornando o primeiro pastor brasileiro a dirigir o trabalho na cidade em substituição aos missionários suecos. Talvez imbuído do desejo de fazer mais, tomou uma decisão polêmica: deixou o pastorado da igreja e juntamente com seu cunhado Paulo Macalão, abriu uma congregação filiada a Madureira na cidade. Decisão essa que lhe custou o banimento da história na AD da Missão.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MENSAGEIRO DA PAZ. 2ª quinzena de janeiro de 1933. Rio de Janeiro: CPAD.



PS: Sobre a Revolução Constitucionalista de 1932, vários livros e sites estão disponíveis. Porém, como o tempo é curto, foi aproveitado as ótimas informações e pontos de vista do link da revista Nova Escola.


domingo, 28 de julho de 2013

CGADB de 1985: um pouco além da história oficial

A história trás respeitabilidade e legitimidade a uma instituição, seja ela política, financeira, empresarial ou religiosa. Sendo assim, todo grupo institucional procura não só contar sua história, mas também controlá-la. E nesse processo, selecionam-se as informações, omitem-se outras, e na construção da narrativa histórica procura-se dar um tom edificante e moralista para os fatos que serão escritos e perpetuados no imaginário coletivo. 

Com as Assembleias de Deus no Brasil não é diferente. Com as proximidades do centenário, e de outras datas significativas, sua liderança através da CPAD, procurou contar (ou recontar em alguns casos) a história da igreja e de seus líderes. Porém, como também é de praxe em toda instituição, passa ao largo de vários pontos polêmicos, e deixa vácuos enormes no entendimento da história. Somente nas entrelinhas que se percebe que algo não foi bem.


Livro da CPAD: história na ótica oficial da liderança atual
Um claro exemplo disso acontece no livro História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, quando se conta sobre a CGADB de 1985. Foi nessa convenção nacional, que se elegeu a chamada "chapa do consenso", ou seja, uma chapa única, eleita por aclamação para presidir a CGADB no biênio (1985-87). A eleição, conduzida pelo presidente do biênio (1983-85) Manuel Ferreira da AD de Madureira foi descrito como o "grande acontecimento da Convenção Geral" e representava a unidade da igreja, sendo idealizada num encontro de lideranças ocorrido em João Pessoa/PB.

Na leitura que se faz dessa eleição - segundo Silas Daniel - "histórica e emocionante" há sempre um clima de expectativa, de interrogação, de apreensão caso a "chapa do consenso" não fosse eleita. Porém, não há menção direta aos conflitos, ou as divergências motivadas por políticas eclesiásticas. O que estava acontecendo? Na leitura, pura e simples dos fatos e da forma como foram colocados os acontecimentos, o leitor fica no vácuo.

Segundo Edson d'Avila, em sua tese Assembleia de Deus no Brasil e a política: uma leitura a partir do Mensageiro da Paz  havia o temor de que Manuel Ferreira buscasse a reeleição dentro da instituição. Percebendo a manobra, líderes assembleianos teriam idealizado a "chapa do consenso" meses antes, justamente para evitar a reeleição do líder de Madureira. A expectativa era de que a Mesa Diretora da CGADB (formada em grande parte por pastores de Madureira) não homologasse a "chapa do consenso", mesmo sendo apresentado um documento com 101 assinaturas em apoio a mesma. Caso Manoel Ferreira buscasse a reeleição, poderia haver uma ruptura na denominação naquele momento. Por isso o clima de tensão evidenciado na leitura da obra de Silas Daniel.

Manuel Ferreira, em suas memórias conta que, pelo trabalho de união, reconhecimento de ministérios e organização de encontros de lideranças em nível nacional, sua reeleição teria sido até sugerida por outros pastores não ligados ao ministério de Madureira, porém ele não teria aceito a proposta, e num acordo de cavalheiros prevaleceu o apoio a "chapa de consenso". 

Mas segundo o Bispo, nessa Convenção Nacional "trabalharam muito para desmanchar esse acordo". Resta saber o seguinte: quem teria trabalhado para frustrar um acordo da liderança nacional? Obreiros ligados a Madureira ou a Missão? Ou simplesmente jogo de palavras para não admitir e pressão dos líderes descontentes com a proposta de um recondução ao cargo máximo da instituição?

Segundo Ferreira, houve também um entendimento, no qual haveria sempre na CGADB uma Mesa Diretora representando tanto Madureira como a Missão. Acordo esse não honrado na CGADB de 1987. Mas não deixa de ser uma ironia, de que a "chapa do consenso" revelava mais desunião do que o nome supostamente queria evidenciar. Coisas da história assembleiana, contradições da história contada pela ótica oficial.

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

d'AVILA, Edson. Assembleia de Deus no Brasil e a política: uma leitura a partir do Mensageiro da Paz, 2006. Dissertação (Mestrado) - Universidade Metodista de São Paulo, Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião, Curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião.

PRATES, Denise; FERNADES Renato. Tributo ao Centenário da Assembleia de Deus no Brasil. Madureira, RJ, 2011.

sábado, 27 de julho de 2013

Memórias das Assembleias de Deus na Revista CIADESCP

O blog Memórias das Assembleias de Deus teve umas das suas postagens publicadas na Revista da CIADESCP - Informativo oficial das Igreja Evangélicas Assembleia de Deus de SC e SO do PR. O texto publicado no espaço memória, fala sobre um dos pioneiros da AD em SC, pastor Manoel Germano de Miranda. Agradeço ao pastor e amigo, e jornalista responsável pela publicação Adael Santos pela gentileza e confiança depositadas no autor do blog e da página no facebook do mesmo nome, onde compartilho os textos aqui nesse espaço publicados, e fotos antigas gentilmente cedidas por amados colaboradores de diversas partes do Brasil.


sábado, 13 de julho de 2013

Impressões sobre as Assembleias de Deus nos EUA

Na postagem anterior, viu-se um pouco das reflexões do pastor Alcebíades Pereira de Vasconcelos sobre a obra pentecostal nos EUA. Mas outras observações interessantes ele ainda registrou em outros artigos, que chegaram ao total de 5. Todos os textos foram publicados no principal veículo de informação das ADs, o Mensageiro da Paz.

Em resumo, pastor Vasconcelos destaca o forte êxito educacional das igrejas dos EUA, tendo inclusive as igrejas adquirido um prédio em Springfield e ali constituído uma universidade pentecostal, onde foi inclusive, convidado a falar sobre o Brasil. Deve-se lembrar, que enquanto que aqui em terras tupiniquins se discutia a abertura de institutos bíblicos, a igreja nos EUA já estavam com universidades montadas.

Outra observação, foi sua admiração de que boa parte das receitas das igrejas eram investidas em missões. Os EUA nesse momento viviam uma época "dourada" em sua economia, e isso se traduzia em bons dividendos para as missões. Sabe-se que Vasconcelos amava a obra missionária, pois ele mesmo foi missionário na Bolívia, e portanto diante do que via, não tinha como comparar como os tímidos esforços da igreja brasileira sobre esse assunto.


Alcebíades nos EUA: impressões sobre a AD estadunidense
Mas um dos comentários que mais chamam a atenção é sobre o estilo de liderança norte-americana. Observa ele a humildade do superintendente geral das ADs nos EUA e a capacidade administrativa dos que o cercam. E surpreende-se com algo que vale a pena aqui transcrever. Causou-lhe admiração "a ausência do espírito de mandar!" e em seguida relata "observei como ao invés do mando a simples e pura liderança e o indispensável espírito de equipe". E, novamente, Alcebíades como que num desabafo declara: "Francamente, num clima semelhante ao que ali observei, é possível trabalhar com prazer e produzir maior e melhor rendimento".


Essa comparação é interessante, pois deixa implícito um traço muito comum na liderança da AD brasileira: o mandonismo e o estilo coronelista. Aqui no desenvolvimento das ADs no Brasil, as lideranças sempre foram fortes e de certa forma esmagadoras. Tanto fomentavam o crescimento de um trabalho, como também excluíam outras possíveis lideranças. Faltava quem sabe "o indispensável espírito de equipe", o qual talvez trouxesse resultados melhores para a igreja.

Quase 50 anos já se passaram dessa viagem, mas ainda a liderança das ADs brasileiras comportam-se de forma contrária ao que desejava o saudoso pastor Alcebíades Vasconcelos. Os últimos acontecimentos envolvendo a cúpula da AD nacional, simplesmente dão aos escritos e observações do antigo líder amazonense um caráter de atualidade incríveis. São lições que não podem se perder no tempo.

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

MENSAGEIRO DA PAZ. 1º quinzena de junho de 1964. Rio de Janeiro: CPAD.

MENSAGEIRO DA PAZ. 2º quinzena de junho de 1964. Rio de Janeiro: CPAD.

sábado, 6 de julho de 2013

Alcebíades P. Vasconcelos: memórias de uma viagem aos EUA

Alcebíades Pereira Vasconcelos (1914-1988) foi um dos maiores líderes das Assembleias de Deus no Brasil. Pastor, ensinador, escritor e jornalista, Alcebíades com seu autodidatismo foi içado ao posto de culto conhecedor da Bíblia, das línguas originais, além de dominar com fluência o inglês e espanhol. Apesar disto era um homem extremamente simples e humilde. 

Mesmo tendo presidido importantes igrejas com as ADs de Belém do Pará, São Cristóvão/RJ e Manuas/AM, ainda conservava o espírito humilde de servo. Pastor Gedeão G. Menezes assim relembra o pastor Vasconcelos: "lembro bem de seu terno "surrado" cor cinza e do "conga" que usava para combinar com o terno..."

Dentre as muitas experiências desse líder, está uma viagem aos EUA por ocasião do Jubileu de Ouro das ADs norte-americanas em 1964. O que presenciou, pastor Alcebíades registrou em 5 textos para o Mensageiro da Paz intitulados Impressões da Assembleia de Deus na outra América. Nesses artigos, o líder brasileiro ao observar as condições do movimento pentecostal em solo estadunidense, reflete sobre o próprio trabalho das ADs no Brasil. É uma comparação de cultura e valores interessantes de se verificar.

Alcebíades P. Vasconcelos: uma visão critica sobre as ADs no Brasil
Em seu primeiro texto, Alcebíades destaca sua visita a Casa Publicadora das ADs nos EUA. Ele admira-se com a grandeza do edifício da instituição, a qual descreve como "indescritível e extraordinário". Elogia a organização e funcionalidade da empresa e a certa altura do texto assim reflete: "Porque em verdade, irmãos, diante da Casa Publicadora aqui nos Estados Unidos, a nossa no Rio é um simples arranjo e verdadeiramente precário..."

Mais adiante, pastor Vasconcelos ainda confessa que:
Uma única coisa lamentei ali mesmo: foi estar sozinho aqui para ver tudo isso! eu gostaria que toso os meus colegas brasileiros fossem beneficiados por Deus com essa oportunidade que Ele graciosamente me deu, porque isso os faria entender melhor muitas coisas que se passam entre nós e que poderia produzir resultados mil vezes melhores e completamente diferentes daqueles que às vezes produzem!
É significativa as observações por parte do líder brasileiro. As ADs no Brasil já estavam com mais de 50 anos de existência e presente em todo território nacional, mas a sua Casa Publicadora é descrita por Alcebíades (que nela trabalhou com redator) como um "simples arranjo", uma instituição precária - mesmo que as ADs brasileiras já tenham força numérica substancial  - em comparação a sua congênere nos EUA. 

E qual o motivo dessa precariedade? Pelas palavras usadas pelo escritor, seria a falta de um projeto nacional, de forças unidas em prol da construção de algo grandioso como era de se esperar de uma igreja como a AD. Nesse momento de sua história as ADs crescem, mas as lutas internas entre seus ministérios, não permitem que o crescimento se concretize em planos nacionais, inclusive com uma editora que esteja à altura desse crescimento. Alcebíades então deseja que todos os seus companheiros vissem o que ele viu, pois quem sabe, entenderiam melhor o quanto estavam atrás devido as ambições, desuniões e concorrências desnecessárias.

Porém o tempo passou, e na CGADB de 1981 quando entrevistado pelo Mensageiro da Paz sobre a situação da igreja, assim ele se expressou: "Infelizmente reconheço que é a política ministerial se tem convertido num autêntico opróbrio à nossa igreja; e se ela não cessar de imediato, ameaçará a nossa igreja, despreparando-a para o Arrebatamento, que se avizinha".

Não seria essa política ministerial que Alcebíades Vasconcelos se referia em 1964? Uma política que impedia uma editora decente e grandiosa para as ADs no Brasil. A história da AD, e de sua editora é clara ao informar, que a CPAD só não fechou as portas por causa das ajudas incessantes das igrejas, mas que em contrapartida durante muito tempo seus produtos ficavam aquém da qualidade desejada.

E agora, em pleno século XXI, não seria essa política ministerial ainda o opróbrio da maior denominação pentecostal do país? Pelo que se percebe, não é de hoje que ela atrasa a evangelização e a Obra de Deus no Brasil.

PS: as observações do saudoso pastor Alcebíades continuam nas próximas postagens.

Fontes:

 ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.


 MENSAGEIRO DA PAZ. 1º quinzena de maio de 1964. Rio de Janeiro: CPAD.