sexta-feira, 23 de agosto de 2013

AD em São Cristóvão - RJ: mudança e crise

Já foi tratado aqui nesse blog, sobre a descaracterização de uma das mais tradicionais e históricas igrejas das Assembleias de Deus no Brasil: a AD em São Cristóvão - RJ. Pioneira no movimento pentecostal no estado do RJ, dela procederam muitas outras ADs no estado fluminense e fora dele. Até mesmo, líderes de outras denominação pentecostais passaram esse ministério.

Presidida durante por muitos anos pelos míticos missionários suecos, a AD em São Cristóvão formou várias lideranças, e depois da era sueca foi dirigida por pastores como Alcebíades Pereira Vasconcelos, Francisco Pereira do Nascimento e Túlio Barros Ferreira. Pastor Túlio, grande liderança de sua época, no fim de sua vida e ministério, passa a direção ao seu filho caçula e sucessor Jessé Ferreira.

Antiga sede da AD em São Cristóvão: tempos áureos
Ainda em vida, pastor Túlio desliga-se da CGADB, adere a uma "nova dimensão" espiritual. Separado ao Apostolado (e seu filho a Bispo), adota o método do G12 e promove transformações profundas na igreja. Com todas essas mudanças feitas em pouco tempo, um bom número de crentes saiu da igreja, fundando um outro ministério. Uma congregação nova, porém herdeira da antiga São Cristóvão que se perdeu no emaranhado de novidades teológicas e litúrgicas adotadas pela nova liderança.

Surge ai um indagação: qual seria a verdadeira AD, ou a herdeira legítima dos primórdios do pentecostalismo no RJ? É algo estranho de se pensar quem sabe, mas fica a curiosidade. Na AD Missão Apostólica da Fé (novo nome da AD em São Cristóvão) somente o templo lembra a antiga igreja, pois a liturgia, pregações e tudo mais foi modificado. Na ADRJ (ministério dissidente) os membros e as práticas litúrgicas provavelmente são herdeiras da antiga São Cristóvão.

Os comentários de leitores nesse blog sobre a situação da ADMAF, dos que frequentaram ou até fizeram parte do antigo ministério da igreja, é de que ela está irreconhecível. Nada ali faz lembrar a antiga AD pioneira. Porém, a ADMAF ainda proclama sua legítima filiação ao pentecostalismo clássico. Como entender e mensurar a perplexidade de muitos crentes diante da evaporação de um ministério tradicional e respeitado, para uma denominação de práticas neopentecostais? Como suportar a saudade de uma igreja emblemática, a qual simplesmente, em pouquíssimo espaço de tempo perdeu sua identidade?

Antigo templo hoje: aluga-se

Como um sinal da mudança e dos novos tempo, um leitor desse blog, resolveu enviar uma foto do antigo prédio que abrigava a AD de São Cristóvão. Em frente uma faixa com a palavra "Aluga-se". As informações que chegaram ao blog foram de que ali funcionava a administração da igreja. Será isso um inegável sinal de crise da igreja? Será essa foto um símbolo, um retrato visual, mas de caráter espiritual também, da decadência de um ministério influente, o qual se deixou-se influenciar, e agora é vista como somente mais uma excentricidade no meio pentecostal?

A resposta não é simples e não deve ser unânime também, mas reflexões sobre como essa são necessárias. E mais: quantas igrejas não estão seguindo esse caminho?

Colaboração: Marcelo Antunes, e Gunnar Vingren Fialho os quais enviaram fotos e informações do RJ.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Bibi: memória viva da AD em Joinville

Memórias das Assembleias de Deus homenageia o irmão Marcílio de Miranda, carinhosamente conhecido como "Bibi". Aos 86 anos de vida (completados no último dia 27/07), Bibi é um dos filhos do pioneiro das ADs em Santa Catarina, Manoel Germano de Miranda. Segundo filho de uma prole de oito (dos seus irmãos mais quatro estão vivas), a vida desse ancião se confunde com a própria história da igreja.

Quando seu pai fundou a AD em Joinville, Bibi contava com 5 anos de idade, e é hoje um últimos remanescentes do pequeno grupo de fieis que iniciaram a obra pentecostal na cidade. Na mudança, lá estava ele na carroça com mais três irmãos, a qual seu pai emprestou do cunhado Pedro Vargas para ir de Itajaí até Joinville. Carroça essa que sacolejava numa longa e cansativa viagem na estrada empoeirada. A família Miranda, levava somente roupas pessoais e de cama na mudança, mas carregava a fé e a esperança de realizar uma grande obra.

Bibi e os filhos: oito décadas de memórias assembleianas

Bibi passou parte de sua infância e adolescência acompanhando o desenvolvimento da pequena AD na cidade. De suas lembranças, se destacam as perseguições dos primeiros tempos, o trabalho incansável do seu pai na evangelização da toda região, a qual fazia de pé, trem ou bicicleta. Bibi possui muitas memórias das primeiras casas alugadas para realização dos cultos na cidade. Quando seu pai foi transferido para a cidade de Mafra, e o missionário estadunidense Virgil Smith assumiu o trabalho, Bibi ficou morando com Smith, e aprendeu música com ele para depois ajudar o pai na nova igreja que dirigia.

Smith, após assumir a igreja, resolveu construir um templo próprio para a denominação. Para a época era um construção enorme, onde muitos recursos materiais e humanos foram necessários. Pois nesse tempo, lá na década de 40, estava o jovem Miranda ajudando a descarregar carroças com tijolos. Mas pelo jeito não foi uma experiência muito boa:
...E nesse ínterim que eu fiquei seis meses na casa do missionário para aprender música eu ajudava esporadicamente assim a descarregar carroças de tijolos, várias vezes. Aqueles tijolos ficavam na carroça na rua e ficava uma pessoa mais ali  e outra mais lá, e mais lá. E ia passando aqueles tijolos, jogando! Inclusive caiu um em cima do meu dedão do pé que eu passei mal. Cai no pé e eu já desisti do trabalho, desisti do trabalho...
Viúvo e alfaiate de profissão, Bibi vive modestamente em Joinville, cercado de amigos, parentes, e das memórias dos seus longos dias. Este simpático senhor de espírito jovem e sorriso tímido, é de uma geração de filhos de pioneiros que não galgaram status na denominação ou se apoderaram de uma igreja ou ministério. Sua maior riqueza são os filhos que lhe cercam e o reconhecimento de ser um humilde servo de Deus. É a história e memória viva de uma denominação que já conta com 80 anos. 

Parabéns irmão Bibi!

Obs: na foto juntamente com Bibi seus filhos Marli (sentada à esquerda), Marlon, Marcos, Márcio e Marlei (à direita) do velho pai. Colaboração Eliane Westphal Nunes, sobrinha do homenageado e neta do pastor Miranda.

Fontes:

Miranda, Marcílio. 20 de agosto de 2008. Entrevista concedida a Claiton Ivan Pommerening e Mario Sérgio de Santana.


POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.