sábado, 26 de outubro de 2013

Assembleia de Deus no Ceará: um caso militar

Um dos maiores desafios para os historiadores da AD é pesquisar sobre os fatos polêmicos da trajetória da denominação e dos seus líderes. O silêncio sobre certos acontecimentos, a omissão de informações, e a falta de registros escritos ou orais, fazem que a simples história oficial prevaleça. Sendo assim todo um contexto social e político se perde.

O caso da cisão da AD no Ceará é um exemplo. A grande turbulência ocorrida na denominação nos anos 60, ao que tudo indica, só foi resolvida com a influência política e militar. Luiz Bezerra da Costa tentou substituir o sogro na liderança, mas não conseguindo tal intento e, vendo certa rejeição do ministério ao seu nome, resolveu dar autonomia a congregação o bairro Bela Vista em Fortaleza.

AD Bela Vista: cisão com apoio militar?
Nesse processo de independência, a AD em Fortaleza viveu dias traumáticos. Gedeon Alencar, que na época dos acontecimentos era criança e filho de um pastor local, relembra em sua tese ter visto e ouvido "muitos relatos de gente que bateu e apanhou na "guerra campal" acontecida após a morte do Pr. José Teixeira Rego".

A ordem cronológica dos fatos aponta o início dos problemas ainda em 1960 com a morte do pastor Teixeira Rego. A AD Ministério de Bela Vista é fundada oficialmente em 1963, mas as desavenças continuam até 1966, quando um acordo é selado na CGADB. As "guerras campais" devem ter ocorrido nesse período e o fator militar pesou para a emancipação da igreja de Luiz Costa.

O genro do falecido pastor, Luiz Costa além de possuir um status social e político elevados a época, era também militar da reserva, e desfrutava de prestígio nesse meio, pois em setembro de 1959, a AD em Fortaleza realizou uma série de cultos com a presença maciça de militares de diversas denominações. Entre os preletores, estava justamente o então evangelista Luiz Costa. Então, apoio de classe com certeza ele teve em meio as complicações ministeriais.

Outro importante fator foi que, justamente nessa época, os militares estavam em alta, pois a partir de 1964 o Brasil passou ser comandado por generais golpistas. Há evidências de que pelo menos um grupo deles apoiou Costa na emancipação da igreja, pois na solenidade em homenagem aos 50 anos da fundação da AD em Bela Vista, a Câmara Municipal de Fortaleza homenageou os fundadores do ministério. Além do casal Costa, são citados como colaboradores os "obreiros tenente Mendonça, sargento Sobrinho, diácono João Moreira, tenente Severino Pedro de Lima, entre outros." Como se vê um número considerável de fardas em prol de um trabalho evangélico.

Gedeon lembra, que na sua infância sempre ouvia referências aos militares nas conversas sobre a cisão da AD, porém não entendia as razões das mesmas, mas com certeza devem estar ligadas ao apoio da classe aos colegas dissidentes. Mas algumas perguntas ficam no ar: as "guerras campais" foram da parte dos líderes da AD do templo matriz para reaver a congregação rebelde? Foi nesse momento que Luiz Costa e seus colaboradores usaram em pleno regime militar à força da instituição para conseguir seus intentos? Emiliano Costa, novo pastor da AD matriz empossado em 1962 teve que aceitar a contragosto a imposição da caserna nos assuntos eclesiásticos?

Questões como essas precisam de respostas mais claras. A história oficial camufla em prol da edificação dos fieis as circunstâncias. É fato que os evangélicos de modo geral apoiaram o regime militar, e receberam o golpe como "Providência Divina" para salvar o país do comunismo. Como será, que essa possível intervenção dos militares em nível local foi recebida? Mais um pergunta que não quer calar...

Fontes

ALENCAR, Gedeon Freire de. Assembleias Brasileiras de Deus: Teorização, História e Tipologia- 1911-2011. Pontifícia Universidade Católica: São Paulo.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington: Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Revista A Seara out/dez de 1959: CPAD

sábado, 19 de outubro de 2013

Assembleia de Deus no Ceará: cisão e turbulência

Em 2014 a Assembleia de Deus no Estado do Ceará comemorará seu centenário. O movimento pentecostal em terras cearenses começou com o trabalho de evangelização de uma mulher. Maria de Jesus Nazareth, no ano de 1914 pregou aos seus familiares e conhecidos na Serra de Uruburetama.  Posteriormente o trabalho, entre altos e baixos se expandiu, chegando à capital Fortaleza em 1923.

Entre os primeiros líderes da igreja estão nomes de renome da AD: Antônio do Rego Barros, Bruno Skolimowski e Julião Pereira da Silva. Mas o grande nome de destaque desse período foi o do pastor José Teixeira Rego. Quando assumiu a igreja definitivamente no dia 1º de maio de 1932, o trabalho contava apenas com 42 membros em comunhão e 11 congregados. Na sua administração, a obra se desenvolveu adquirindo um espaço próprio para realização dos cultos e, 10 anos depois de sua posse, a igreja contava com 1.450 membros na capital e mais 4.000 espalhados pelo interior cearense.

Luiz Bezerra da Costa: um perfil inusitado para sua época
Mesmo com as perseguições, a denominação crescia e Teixeira Rego firmou-se como pastor regional. Porém em 1960, quase 3 décadas depois de assumir a igreja, pastor José veio a falecer subitamente. Sua morte causou grande comoção e uma traumática luta pela direção da AD na capital. E entre os candidatos a sucessão, estava seu genro, Luiz Bezerra da Costa.

O então evangelista Luiz Costa, era uma figura de destaque na igreja e na sociedade. De uma família de comerciantes, possuía um perfil inusitado para a época. Completou seus estudos secundários formando-se em direito. Atuando na advocacia, chegou a ser assessor jurídico de destaque, dando-lhe com isso projeção política para ser eleito deputado estadual em 3 legislaturas, num tempo que a participação política era algo distante para os crentes.

Segundo seu irmão José Wellington B. da Costa, Luiz tinha muito prestígio político, pois além de ser deputado controlava nomeações de autarquias estaduais, atuava como secretário da Assembleia Legislativa, e liderou por um período a bancada do governo. Consta também que ele era militar da reserva, e participava de negócios imobiliários. Além de tornar-se genro do presidente do pastor da AD em Fortaleza, chegou ao cargo de vice-presidente da igreja.

Portanto, Luiz Costa, um jovem em ascensão política e eclesiástica, talvez se achasse no direito de suceder Teixeira Rego. Mas na opinião do sociólogo Gedeon Alencar, provavelmente o genro do pastor presidente era considerado muito moderno para sua época e, sendo visto dessa forma, foi rejeitado para suceder o sogro. Ele era realmente uma figura proeminente na sociedade. Diferenciava-se dos demais em status social e político, tinha negócios variados, contatos diversos, talvez um homem independente demais...

A história oficial relata que após a morte do pastor Teixeira Rego em 5 de dezembro de 1960, Luiz Costa assumiu a direção da igreja. Porém sua gestão durou um pouco mais de um mês. Em 20 de janeiro, Armando Chaves Cohen assumiu a igreja. Cohen ficou um ano na direção do trabalho até a posse definitiva do pastor Emiliano Ferreira da Costa no dia 12 de fevereiro de 1962. Segundo consta ainda, Luiz teria emancipado a AD em Bela Vista em 1963. 

Mas a simples informação de datas camuflam eventos traumáticos. Repercussões das discórdias chegaram as reuniões da CGADB, e nelas se procurou uma pacificação, tal o nível de desentendimentos no campo. Foram anos de desavenças entre Luiz Costa e o ministério local. Na Convenção Geral, ocorrida em Recife em 1962, portanto em meio aos impasses ministeriais, os convencionais levantaram um clamor em favor da igreja que passava "sérias dificuldades". 

Na CGADB seguinte, em 1964, uma comissão foi criada, um documento redigido e os obreiros envolvidos na questão foram chamados para o assinarem: Emiliano da Costa, José Freire Alencar, Simão Nascimento, M. F. Almeida, Pedro Brito e Luiz Bezerra da Costa. Foi criada ainda uma subcomissão para ir ao Ceará e acompanhar o caso. Finalmente, em 1966 ficou resolvido que a AD em Bela Vista, liderada por Luiz Costa seria desligada da AD matriz em Fortaleza e vinculada a Convenção da AD no Pará.

Nesse processo, segundo Gedeon, cujo pai era pastor na época, verdadeiras "batalhas campais" foram travadas, onde foi necessária a intervenção policial. Crentes bateram e apanharam; um escândalo de enormes proporções na terra do padre Cícero. Algo que deixou ressentimentos profundos na comunidade assembleiana. Mas há uma ironia em tudo isso. Luiz Costa não conseguiu suceder o sogro, o pioneiro José Teixeira Rego, mas ao falecer 30 anos depois de fundar oficialmente o Ministério de Bela Vista, foi sucedido por seu filho primogênito José Teixeira Rego Neto. Agora sim, sem "batalhas campais" tudo ficou em família...

Fontes

ALENCAR, Gedeon Freire de. Assembleias Brasileiras de Deus: Teorização, História e Tipologia- 1911-2011. Pontifícia Universidade Católica: São Paulo.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington: Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

sábado, 12 de outubro de 2013

José Wellington - Biografia

De São Luís do Curu, Ceará, para o mundo. Assim pode ser resumida a biografia do pastor José Wellington Bezerra da Costa, presidente simultâneo da Assembleia de Deus - Ministério do Belém (SP), da CONFRADESP e da CGADB.

Escrita por Isael de Araújo, jornalista e historiador-mor da denominação nos últimos anos, o livro segue o padrão de obras do gênero editadas pela CPAD, ou seja, o biografado possui uma vida e família exemplar, quase perfeita, e um ministério extraordinariamente abençoado. Sua ascensão ministerial e embates na denominação ocorrem dentro da mais pura Providência Divina. 

Mesmo que Araújo ressalte na introdução da obra, que ela "não se enquadra na categoria de hagiografias porque José Wellington tem feito coisas grandiosas para Deus mesmo com falhas e defeitos de homem", o que se depreende ao término da leitura, é que as falhas e defeitos de José Wellington são praticamente inexistentes. Ele e seus familiares estariam longe da mesquinhez e ambições tão normais aos seres humanos.
Obra dentro do padrão CPAD de biografias
O claro objetivo do trabalho é sem dúvida legitimar a cada vez mais questionada liderança do atual presidente da CGADB. Mas não só legitimar sua ascensão e permanência no cargo. Há também todo um trabalho de desqualificar seus opositores e isso fica muito explícito na introdução, quando o filho mais velho do biografado, pastor Wellington Junior assim escreve: "Hoje nos deparamos com muitos que querem se engrandecer e alcançar o que nosso pastor já alcançou. Mas não querem pagar o preço da jornada e, ao contrário, buscam um caminho mais fácil e rápido." 

E não fica somente nisso. Pelas páginas da biografia, encontram-se referências nada simpáticas aos seus concorrentes. José Wellington se refere aos seus oponentes como "essa gente", diz que estão motivados "por um espírito de contenda" e que há da outra parte uma verdadeira "obsessão pela presidência da CGADB" e para isso "fazem qualquer coisa" para alcançar seus objetivos. Em suas observações diz ainda que seus competidores são liberais e "querem levar a Assembleia de Deus para dentro do modelo que eles vivem".

Porém, é possível detectar ao longo da narrativa contradições no discurso conservador do presidente da CGADB. E para quem está familiarizado com sistema eclesiástico assembleiano, vai com certeza perceber, que as versões de determinados fatos não se sustentam com o já conhecido modus operandi do ministério.

Contudo a obra é significativa, pois fornece muitas e preciosas informações sobre as ADs, as quais podem e devem ser aproveitadas pelos estudiosos da denominação. Capítulos importantes da história da igreja como a sucessão no Ministério do Belém, o desligamento do Ministério de Madureira, e o relacionamento de José Wellington com outros líderes assembleianos, dão subsídios para a árdua tarefa de escrever e interpretar a história da AD tão carente de aprofundamentos historiográficos.

Lançada no 17 de setembro de 2012 no templo-sede da Assembleia de Deus do Ministério do Belém, o livro também teve como finalidade impulsionar a campanha do pastor Wellington e, garantir assim sua reeleição ocorrida em abril de 2013. Mais uma vez José Wellington venceu aquela "gente"...

domingo, 6 de outubro de 2013

Cícero Canuto de Lima: oposição ao ensino teológico

"Sentado em uma velha poltrona, entregue a seus pensamentos". Assim descreveu a reportagem da Folha de São Paulo o velho pioneiro e antigo pastor das Assembleias de Deus no Brasil. Aos 89 anos de vida e 60 de ministério, Cícero ainda conservava "o sotaque de sua terra e a marca de caráter de um homem que foi formado na luta diária contra a terra árida e na formação mais rígida que as Igreja Pentecostais já tiveram no Brasil". Reclamava dos rumos da igreja, do sucessor e do seu esquecimento.

Pastor Cícero: para ele era "mortalmente perigoso um obreiro adquirir tanta eficiência"
Esse relato sobre o patriarca, é uma imagem que realmente a história oficial da denominação não pretende divulgar. Assim como o mítico missionário sueco Daniel Berg, Cícero foi relegado ao ostracismo após não fazer seu sucessor no ministério, e perder seu poder e influência na denominação que ajudou a construir.

Mas quais seriam as outras características da vida e ministério de Cícero Canuto de Lima? Somente quem conviveu com o pioneiro poderia responder essas questões. José W. Bezerra da Costa, em sua biografia escrita por Isael de Araújo cede algumas informações, mas é a versão de José Wellington, ou seja, seu ponto de vista acerca do velho pioneiro dentro do convívio ministerial. Porém, nesse reduzido espaço se tentará oferecer um panorama desse ícone assembleiano.

Gedeon Alencar em sua tese de doutorado e em tom crítico, destaca o fato de Cícero (assim como Paulo Macalão) ter sido ainda muito jovem separado ao pastorado. Mas conforme o tempo passou, o líder assembleiano não proporcionou oportunidades aos mais jovens. Via com desconfiança qualquer novidade nos apriscos da AD, e relutava contra as transformações em andamento na igreja.

Para se ter um exemplo disso, quando a implantação de institutos bíblicos estava em andamento nas ADs, pastor Cícero de Lima fez questão de entrevistar pessoalmente o pastor da igreja Filadélfia Willis Sawe e, nas linhas do Mensageiro da Paz ( maio de 1967 p.4), refutar o modelo de formação de obreiros que se pretendia implantar nas igrejas. Na época, se usava o exemplo da igreja sueca, a qual teria uma escola de preparação para obreiros chamada de Kaggeholm. A entrevista, é dirigida de forma a esclarecer, que a famosa escola era na verdade uma instituição de formação primária, e não um seminário teológico. 

Tirada essa dúvida sobre a função da instituição, Cícero afirma que não havia desprezo pela cultura em si, mas que numa escola teológica os obreiros são "estampados", ou seja, ficam determinados a um "molde", perdem sua "originalidade pessoal". Para ele era "mortalmente perigoso um obreiro adquirir tanta eficiência, que perca a humildade e não dependa de Deus". Salienta ainda que "não localizamos nas Escrituras que nos dias apostólicos houvesse qualquer educandário que formasse pastores e pregadores" pois na sua visão os obreiros deveriam confiar "somente" e "inteiramente" na ajuda do Espírito Santo.

Quase 15 anos depois dessa entrevista, o patriarca declara a Folha que: "O Espírito de Deus se encarrega de nos iluminar, de nos orientar". Até o fim da vida afirmou isso, pois segundo ele, seria melhor gastar dinheiro com a evangelização do que na construção de seminários. Sabe-se que o IBAD foi erguido e iniciado em Pindamonhangaba (SP) contra vontade geral da cúpula assembleiana, e ainda por cima na jurisdição eclesiástica do Belém. Não foi fácil o convívio dos fundadores do IBAD com Cícero de Lima, o qual representava a oposição ao modelo de ensino teológico que se tentava implantar nas ADs no Brasil.

Cícero até o fim da vida foi fiel aos seus princípios. Mas percebeu que a igreja e o ministério, o qual ajudou a construir tomavam um rumo diferente do que ele queria. Seu ostracismo revelava que novos tempos estavam se impondo. José Wellington, em sua biografia, ao narrar os lances da sucessão do seu antigo pastor, lembra uma frase, a qual seria uma síntese do que Cícero de Lima vivia. Ao ver seu indicado ser rejeitado no ministério do Belém para sucedê-lo, teria dito: "Eu não estou mandando é mais nada. Vou embora".  Por ironia do destino, a escola teológica fundada no Ministério do Belém em SP, após sua morte levou o seu nome. 

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Assembleias Brasileiras de Deus: Teorização, História e Tipologia- 1911-2011. Pontifícia Universidade Católica: São Paulo.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington: biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

Acervo.folha.com.br

MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro: CPAD, maio de 1967.