quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A celebração da Ceia: transformações na liturgia

A celebração da Ceia, principalmente a utilização do cálice individual ou coletivo, foi motivo de muitas polêmicas, e até mesmo tomado como símbolo (no caso da AD em Abreu e Lima) de rompimento com a tradição implantada pelos missionários suecos nas ADs no Brasil.

As discussões começaram na CGADB de 1935, e se arrastaram pelo menos por mais 5 décadas. Nos anos 30, as polêmicas envolveram as igrejas do norte do país, mas continuaram por muito tempo. Em um artigo intitulado Cálice "comum" ou "individual" escrito para o Mensageiro da Paz (2ª quinzena de março 1965), o articulista Paulo Santos fornece algumas informações que esclarecem melhor as celeumas dentro da igreja.


Ceia na AD em São Cristóvão (RJ): décadas de debates em torno do uso do cálice
Reconhece o escritor que, dentro das ADs o "pão é ministrado de modo idêntico em todas as igrejas, em todos os lugares", mas percebia que no partilhar o vinho "não há uniformidade", sendo que algumas igrejas adotavam copos grandes para uso comum ou cálices individuais. Para Santos, o uso do cálice comum era anti-higiênico e não recomendável, pois colocava em risco a saúde do fiel. Porém, segundo o escritor, a defesa de alguns para a continuação do uso do cálice comum consistia em ser essa prática um "ato de fé", e portanto aceitável nas práticas litúrgicas da denominação.

Percebe-se, nas argumentações do autor, que há um embate entre a racionalidade e o desejo de higienização, resultante de uma educação mais apurada, contra os costumes praticados em nome da fé, os quais já não mais se coadunavam com os tempos modernos. O articulista, favorável ao uso dos cálices individuais, clama para que as ADs tenham seus usos e costumes "definidos e padronizados" em todas as regiões do Brasil. Para ele, entre uma ou outra prática, deveria-se "escolher e preferir" àquela que fosse bíblica e mais apresentável, ou seja, o uso do cálice individual.

Mas possuir usos e costumes "definidos e padronizados" dentro das ADs no Brasil  - pelo menos nessa questão - seria ainda uma utopia longe de se realizar, pois anos depois desse artigo, algumas igrejas ainda continuariam a celebrar a Ceia "à moda antiga". Um exemplo disso foi o Ministério do Belém em SP. José Wellington Bezerra da Costa informa em sua biografia, que ao assumir o ministério em 1980, resolveu mudar do cálice único para o individual. Mas antes dessa mudança, conta ele que fez um estudo sobre a Ceia, mas mesmo assim uma pequena minoria não concordou; porém prevaleceu o consenso sobre o uso do cálice individual.

Todas essas discussões revelam, como nas ADs diversos costumes e liturgias ainda conviviam lado a lado no tempo. A Ceia é um exemplo disso, mas outras questões como o uso da televisão, corte de cabelo feminino, forma de louvor e participação política entre outros, foram muito debatidos não sendo aceitos de pronto em todos os ministérios e por toda a liderança. As ADs como toda instituição sempre foi resistente as novidades, e em muitos casos como autodefesa, se fechava ainda mais em alguns aspectos.

Hoje, o cálice individual é praticamente onipresente em todas as ADs no Brasil. Porém, ainda não há uniformidade na sua celebração, pois dependendo da região e do ministério, a liturgia é diversificada. Não só diversificada, como controlada. Mas esse é um assunto para a próxima postagem.

Fontes

ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAUJO. Isael. José Wellington: biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

MENSAGEIRO DA PAZ. 2ª quinzena de março de 1965. Rio de Janeiro: CPAD.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A Ceia nas ADs: polêmicas e "quebra de tradições"

A celebração da Ceia, juntamente com o Batismo em Águas é um dos rituais que dão legitimidades as igrejas consideradas herdeiras da Reforma Protestante. As denominações pentecostais desde sua gênese praticam essas duas ordenanças e, pelo que se observa na história assembleiana, é justamente na forma de ministração da Ceia que as polêmicas foram maiores e mais demoradas.

Ao que tudo indica, os missionários suecos ao implantar a denominação no Brasil começaram a celebrar a Ceia com cálices coletivos. Era a interpretação das palavras de Cristo na última ceia: "bebei dele todos", entendida como o dever de ser tomar o fruto da vide na mesma taça. Ainda segundo registros mais antigos, também partiu dos suecos a orientação de restringir aos membros batizados em águas a participação na celebração.
Ceia em Madureira com cálices coletivos: tradição sueca preservada
Na CGADB de 1933, o missionário Nils Kastberg orientou para que a Ceia, só fosse ministrada "aos que, havendo sido batizados por imersão, demonstrem estar em comunhão e na mesma fé com as Assembleias de Deus". Outra orientação, foi a de que o ritual somente deveria ser realizado nas igrejas; salvo algum caso de impedimento de saúde ou de idade.

Mas foi na CGADB de 1935, que as discussões sobre o uso do cálice coletivo ou individual começaram. Segundo os escritor Silas Daniel nessa convenção "foi tratada a uniformização no uso do cálice na Ceia." A questão foi levantada devido ao fato de "algumas Assembleias de Deus começarem a usar cálices individuais na ministração da Ceia, enquanto todas as outras usavam um cálice comum para todos." Ainda segundo o autor, após muito debates, ficou resolvido que cada igreja fizesse o que lhe conviesse.

Porém, há alguns detalhes dessa polêmica, as quais não estão incluídos na narrativa oficial. Segundo relato do 1º secretário da convenção, o sueco Joel Carlson (informações essas transcritas no Mensageiro da Paz), o debate teve inicio após recebimento da carta de um irmão do Rio Grande do Norte, o qual pedia que a convenção tratasse dessa questão do uso do cálice. Na continuação, Carlson detalha ainda que, o uso do cálice individual, estava sendo feito em "algumas" ADs Deus no norte do país.

Seria essa polêmica em torno da celebração da Ceia, uma manifestação simbólica da rejeição de algumas ADs da influência sueca? A carta de um fiel do Rio Grande do Norte pode ser uma pista. No referido estado, liderava a AD o pastor Francisco Gonzaga da Silva. Foi em sua liderança em Natal em 1929 que ocorreu a reunião preliminar de pastores brasileiros que convocou a 1ª CGADB, a qual ocorreu no ano seguinte na mesma cidade. Seu nome está na chamada de convocação da 1ª CGADB juntamente com outros pastores nativos, e sua trajetória ministerial não deixa dúvida sobre a proeminência desse líder nas ADs no Brasil. Após pastorear a AD em Natal, transferiu-se para a AD em Santos, sendo o primeiro pastor nacional dessa igreja, e por um tempo liderou simultaneamente as ADs em Santos e em São Paulo - Capital.

Pode até não ter partido de Francisco Gonzaga da Silva essa postura de mudança de liturgia, mas o fato de se mencionar as igrejas do norte como pioneiras no uso individual do cálice é emblemático. Vinte anos depois em Pernambuco essa questão foi novamente levantada, e mais uma vez serviu como simbolo de "quebra de tradição". Na igreja de Abreu e Lima nos anos 50, a celebração da Ceia com cálice individual foi vista como rompimento com os costumes implantados pelos escandinavos, e um sinal de independência do ministério de Abreu e Lima em relação à AD no Recife, pois se censurava na época o seu líder dizendo que "o pastor José Rosa rompeu com a tradição sueca, trazida por Joel Carlson, sobre o cálice da Ceia. Parece que saiu da doutrina".

Mas, enquanto algumas igrejas do norte e nordeste rompiam com a tradição sueca, no RJ nessa mesma época as ADs de São Cristóvão e de Madureira preservavam o uso dos cálices coletivos. Uma foto no Dicionário do Movimento Pentecostal (p.536) e em outra postada acima nesse blog evidenciam que no mesmo período, os dois ministérios usavam os cálices coletivos na celebração da Ceia. Pelo que se percebe, Paulo Macalão pelo menos nesse aspecto não demonstrou independência em relação aos suecos. Pelo menos nisso...

Fontes:

ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

MENSAGEIRO DA PAZ. 1º quinzena de novembro de 1935. Rio de Janeiro: CPAD.

SANTOS, Roberto José. (Org.). Assembleia de Deus em Abreu e Lima - 80 Anos: síntese histórica. Abreu e Lima: FLAMAR, 2008.