segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Frida Vingren: seu esquecimento e morte

O lançamento da biografia da missionária Frida Vingren editado pela CPAD foi aguardado com muita expectativa pelos estudiosos da história das Assembleias de Deus no Brasil, pois muitas informações sobre a pioneira, seu ministério e as polêmicas envolvendo seu nome já eram conhecidas através dos escritos do sociólogo Gedeon Alencar, o qual desde fins dos anos 90 tem resgatado a memória da senhora Vingren.

Alencar fez uma extensa pesquisa sobre Frida como parte da sua tese de mestrado e doutorado. Em 2009 já havia publicado um artigo na revista Religiões em Diálogo intitulado Frida Vingren (1891-1940): quando uma missão vale mais que a vida - e nesse texto detalhado a atuação da mulher de Gunnar Vingren nas ADs e a oposição ao seu ministério. Em sua tese de doutorado, o sociólogo teve a ajuda da jornalista Kajsa Norell, que lhe deu vários livros, jornais e cartas dos suecos digitalizados lhe auxiliando grandemente na pesquisa. Dessa forma, novos detalhes foram incorporados e, o espanto sobre os acontecimentos aumentando.

Frida, os filhos e Gunnar: ele lembrado sempre, ela esquecida por décadas
O livro editado pela CPAD, diga-se de passagem, mesmo sendo uma versão oficial - tem seus méritos - e através dele pode haver uma complementação e aprofundamento de algumas questões trabalhadas na acadêmia. Isael de Araújo teve como fontes de informações, além dos arquivos do Centro de Estudos do Movimento Pentecostal (Cemp), depoimentos dos filhos e netos de Gunnar e Frida Vingren feitos em sua viagem a Suécia em 2008.

É através desses depoimentos, que o autor procura tirar uma dúvida cruel - dúvida essa levantada por ele mesmo no Dicionário do Movimento Pentecostal - Frida teria sido abandonada num manicômio, morrido e sepultada como indigente? Pelo testemunho dos filhos a resposta é não. Na verdade, ela teria tido períodos de internação, com idas e vindas, onde sua situação foi ficando cada vez mais crítica. Os filhos teriam tentado cuidar da mãe até o seu falecimento.

Apesar da escrita ser feita em tom conciliatório (ao contrário de Gedeon que é polêmico), Isael de Araújo descreve momentos que revelam as dificuldades enfrentadas pela viúva de Gunnar Vingren. Frida, ao que tudo indica, realmente esteve muito doente e foi internada num sanatório, mas é intrigante saber que poucos irmãos da igreja iam visitá-la, e que depois de algum tempo ela "teve que padecer a acusação de alguns pastores" de que estava com "problemas mentais".

Ou seja, é perceptível que Frida era um problema, um peso, uma questão delicada para a igreja. A acusação de que estava com "problemas mentais" revela toda a indisposição do ministério sueco para com ela. Isso fica ainda mais visível no relato da família sobre a maneira discretíssima que Lewi Pethrus anunciou a morte de Frida na igreja, a qual foi feita após o término do culto, de forma lacônica. Segundo os filhos Ivar e Margit, eles esperavam que Pethrus pelo menos "falasse um pouco mais sobre a mãe deles no culto".

Ainda segundo o relato da família, a igreja Filadélfia cuidou do sepultamento de Frida, sendo ela enterrada no mesmo cemitério onde estava Gunnar. Então dessa forma, Araújo prova que a pioneira não foi enterrada como indigente, mas teve alguns cuidados em sua morte e sepultamento. Menos mal para uma pessoa que já era considerada morta socialmente para a comunidade de fieis.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013.

MORAES, Isael Araújo de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Frida Vingren: do esquecimento a mitificação

O sociólogo Paul Freston ao refletir sobre a história do pentecostalismo brasileiro, comenta que, quanto mais "erudita" uma igreja se torna, maior é a preocupação com o controle de sua própria história. Com o aumento das pesquisas acadêmicas sobre as Assembleias de Deus (e também sobre outras denominações pentecostais) essa preocupação se tornou ainda maior, pois alguns mitos e biografias, inevitavelmente acabam sendo revistos e questionados. Então como lidar com essas novas versões? Ignorá-las e fazer de conta que a história denominacional é intocável? Ou seria melhor retocá-la, ou seja, responder com uma nova versão dentro dos padrões já pré-estabelecidos pela instituição?

O livro Frida Vingrem, do jornalista Isael de Araújo é uma tentativa de retoque na historiografia oficial das ADs. Os estudiosos já sabiam de antemão que, a obra seria uma resposta da CPAD aos escritos do sociólogo Gedeon Alencar, o qual desde fins dos anos 90 têm resgatado a memória da pioneira do esquecimento da história oficial e, lançado luzes sobre acontecimentos e polêmicas envolvendo os míticos missionários suecos e os principais pioneiros da AD no Brasil.

Biografia de Frida: do esquecimento a mitificação
Foi com surpresa, que grande parte dos membros e estudiosos das ADs conheceram o profícuo ministério da senhora Vingren nos primórdios da AD em terras brasileiras. Frida atuava como escritora, compositora, redatora, pregadora, ensinadora e liderava juntamente com seu esposo (e na ausência dele) a igreja no Rio de Janeiro. Gedeon Alencar conta que "descobriu" Frida em sua pesquisa de mestrado. Ao ler e tabular artigos do jornal Boa Semente (antecessor do Mensageiro da Paz) Alencar se perguntou? "Quem era essa mulher que veio sozinha em 1917, solteira para se casar aqui. E em que local do mundo uma mulher dirigia um jornal? Mulher não votava nem no Brasil, nem na Suécia e nos EUA. Mas articula e dirigia o jornal assembleiano".

A partir dessas questões, o sociólogo aprofundou suas pesquisas em torno da esposa de Gunnar Vingren e descreveu todo o processo de atuação e oposição as atividades do ministério feminino nas ADs, pois não somente Frida, mas outras mulheres participavam do avanço do pentecostalismo no Brasil, porém ela era o caso mais emblemático de um modelo de atuação e ministério que não agradou em grande parte aos missionários suecos e aos obreiros nativos. Por ser líder da mais importante igreja das ADs no país sofreu o boicote da liderança masculina e, caiu no esquecimento.

Mas ao ter sua memória evidenciada décadas depois de sua partida e morte, Frida mais uma vez causa desconforto. Os estudos de Alencar se divulgam, e a missionária torna-se assunto frequente de outras pesquisas, blogs e conversas formais e informais entre estudiosos da AD. Surge então a necessidade de "controlar a memória" histórica da denominação. É preciso um contra-ponto. E eis que a CPAD lança uma biografia para alçar a pioneira ao panteão dos heróis assembleianos.

O livro escrito por Isael de Araújo, se por um lado passa ao largo de várias polêmicas, porém tem o mérito de trazer alguns detalhes que elucidam os últimos dias de vida de Frida e, em alguns pontos até corroboram as informações trabalhadas por Alencar. Os debates sobre a pioneira ainda estão em aberto. E nas próximas postagens, estaremos nesse espaço discutindo as versões e olhares (tanto de Alencar, como de Araújo) sobre Frida Strandberg Vingren.

Então aguarde!

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Dedos de Davi - Missões na Argentina

Uma semana inesquecível para o trabalhos da Assembleia de Deus em terras argentinas. Assim pode ser descrito, as festividades que marcaram um ano de trabalho evangelístico do missionário Claribalte (Duca) Nunes e de sua família em Barranqueras, cidade portuária da província do Chaco na Argentina. A celebração da nova igreja em formação foi destaque no Mensageiro da Paz edição de fevereiro de 1977, com uma reportagem assinada pelo pastor Oceano Ramos Correia.

Enviados pela AD em Joinville, a família Nunes iniciou sua trajetória missionária em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia em 1974. No início de 1975, a família transferiu-se para a Argentina, mais especificamente para a província de Corrientes. Um mês depois rumaram para o Chaco, se estabelecendo na pequena cidade de Barranqueras. A princípio, os cultos eram realizados em sua própria residência, mas sentindo as possibilidades de crescimento da obra pentecostal, Duca contra todas as expectativas possíveis e sem recursos financeiros, resolveu alugar um salão muito maior para realização dos cultos, onde dois caixotes faziam apoio para uma tábua que era o banco.

Mesmo sem apoio, e de forma precária o trabalho cresceu e se tornou vistoso. Ao ponto do pastor Oceano registrar que "Agora não apenas uma família sob as intempéries ambientais realizando unicamente o culto doméstico, mas um povo pentecostal, cheio do Espírito Santo, cura divina, revelação, pregação."

Assim, após um ano de tão difícil começo, o casal Nunes preparou uma grande celebração que, além da visita do pastor Oceano, recebeu também duas comitivas. Uma da cidade de Joinville com a presença do então pastor da AD Liosés Domiciano (SC), e outra do pastor Alvarino João Cardoso da AD em Barracão (PR), que pregaram e ministraram estudos bíblicos durante os dias festivos. Na matéria são destacados os cultos, os louvores, o trabalho da Escola Dominical e o batismo em águas, o qual foi precedido por um desfile dos fieis até às margens do rio Paraná e o encerramento onde todos se confraternizaram e agradeceram a Deus pelas vitórias conquistadas.

Passado algum tempo, o missionário Duca conseguiu um terreno e construiu um templo próprio em terras argentinas. Tempos depois entregou a direção da igreja para o próprio pastor Oceano, o mesmo que fez o relatório da obra em Barranqueras. Porém os irmãos pediram a volta do pai na fé deles (como eram chamados o casal Nunes por todos), o que fez com que a família retornasse novamente à Argentina e desse prosseguimento nas atividades missionárias.

Durante esse processo, mesmo com muitas idas e vindas, lutas e incompreensões a AD em Barranqueras se desenvolveu. A família Nunes, desde aquele tempo da missão, tornou-se conhecida por formar o Grupo Musical Dedos de Davi percorrendo todo o Brasil louvando e pregando a Palavra de Deus.

Somente na década de 1990, é que o missionário irmão Duca e sua esposa Zenaide voltaram definitivamente para a cidade de Joinville. Duca faleceu em 23 de janeiro de 2004. Infelizmente não conseguiu apoio e solidariedade para que a obra na Argentina se fortalecesse. Hoje ainda a igreja continua, apesar de bem pequena e com o ministério local dirigido pelo pastor Juancito - filho na fé dos missionários que por lá tantos anos trabalharam. Contudo os momentos, as emoções e alegrias ficaram eternizados em imagens e texto, que o blog Memórias das Assembleias de Deus compartilha com todos. Seja bem-vindo as festividades na AD em Barraqueras!

"...O irmão Claribalte, irmã Zenaide e seus filhos viram dias de dificuldades próprios da missão, mas Jesus concedeu vitória (...) Agora não apenas uma família sob as intempéries ambientais realizando unicamente o culto doméstico, mas um povo pentecostal, cheio do Espírito Santo, cura divina, revelação, pregação..."

 "...A seguir fomos para o almoço tomar uma refeição. Embora a mesa estivesse pronta, a presença de Deus era tão real e a comoção perene nos corações, que resolvemos ouvir alguns irmãos externarem as palavras de contentamento que sentiam. Inclusive outros cooperadores de Joinville dizer da surpresa que presenciaram, porque nunca havia passado pelo pensamento a presença de tão grande bençãos já concedidas pelo Senhor de forma extremamente gloriosa em terras argentinas..."

"...Hinos inspirados eram entoados pelo jovens. De Barracão o irmão Paulo R. Teixeira trouxe o seu órgão, formaram rapidamente um conjunto como os presentes, e, com muita graça de Deus, acompanhavam os louvores ao Senhor..."

 "...O frio estava insuportável. Não tinha sol e parecia que ia chover. Mas a alegria a alegria era maior que o frio (...) Enquanto o povo entoava hinos de louvor ao Senhor Jesus, foram batizados 19 soldados de Cristo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito..."

Fontes:

Mensageiro da Paz. Fevereiro de 1977. Rio de Janeiro: CPAD

Entrevista e fotos: Toni Nunes