terça-feira, 25 de março de 2014

Francisco Pereira do Nascimento: nascido para o pastorado

Túlio Barros, então pastor presidente da Assembleia de Deus em São Cristóvão assim declarou sobre a morte do pastor Francisco Pereira do Nascimento ocorrida em 1968: "O pastor Alcebíades certa ocasião disse: 'O Pereira nasceu para ser pastor'". Assim dessa forma, em uma frase objetiva e curta, que toda a simplicidade de vida e ministério do pastor Pereira foi resumida. 

Nascido em Santa Isabel do Pará, "Chico Pereira" converteu-se ao evangelho em 1929 na cidade de Belém, e cedo começou a se destacar nas pregações. Certo dia, o então pastor da AD em Belém missionário Nels Nelson recebeu em seu escritório o obreiro responsável pela congregação de Sacramenta, o qual lhe informou haver um novo convertido, que quando pregava toda a congregação louvava a Deus.

Pastor Nascimento e família: origem humilde no Pará 
Curioso com a novidade, o missionário Nelson resolveu conferir. Orientou para que o jovem obreiro fosse ordenado pregar no domingo à noite. Nelson foi até a igreja, porém não entrou de imediato. Ficou do lado de fora, embaixo de uma árvore, um pouco distante para ouvir o preletor. No meio da pregação, Nels Nelson entra, mas "Chico Pereira" não se intimidou e nem perdeu a compostura; continuou a pregar com a eloquência que lhe era própria. Ao final do culto, admirado com a ousadia do moço, Nelson pediu que lhe procurasse no templo central em Belém.

Sapateiro de profissão, Chico não possuía muito estudo formal, mas como muitos obreiros da sua época tornou-se um auditada e se aprofundou nos conhecimentos bíblicos. Procurava sempre se aperfeiçoar na língua pátria, pregando sempre com muita clareza. Atento a educação dos filhos, sempre corrigia-os em seu linguajar. Sua busca pelo conhecimento foi essencial para se sobressair como orador nas grandes concentrações da Sociedade Bíblica do Brasil. Em meio a pastores eruditos presbiterianos e batistas, pastor Nascimento sempre se destacava.

Segundo seu filho Jessé Sadoc, seu pai "discutia qualquer assunto, com brilhantismo, sempre expondo idéias próprias. Uma personalidade, muito atraente e agradável. Dr. Gueiros de uma família tradicional presbiteriana, era figura bem presente em nossa casa, para conversar assuntos em geral, na saída sempre os ouvi falar, quão agradável teria sido aquela tarde". Outra lembrança de Sadoc era do seu contato com os mais jovens: "era muito querido pelos jovens da igreja, por se relacionar naturalmente, com bastante humor, sem perder a seriedade. Foi exaustivamente convidado pelos políticos, para se candidatar, a cargos políticos, sempre declinando por sua missão maior".

Trabalhou como evangelista no interior do Pará e Maranhão. Percorria a pé grandes distancias e cuidou de várias igrejas. Ordenado ao ministério em 19 de março de 1934 continuou sua carreira, pastoreando igrejas no interior do Pará e outras de maior destaque como a AD em São Luis (MA), Manaus (AM) e a própria igreja-mãe em Belém (PA).

Pastor Nascimento também foi em três oportunidades (1953,55,59) presidente da CGADB. Em 1960 assumiu a AD em São Cristóvão (RJ) a convite do missionário Nels Nelson. Quando chegou encontrou animosidades ferrenhas entre os crentes de São Cristóvão e Madureira. Um clima tão pesado que os assembleianos de ambos os ministérios não se cumprimentavam nas ruas. Ainda segundo seu filho Jessé Sadoc, seu pai sempre falava que não existiam dois céus, e que não deveria haver divisões e animosidades entre as igrejas. Imbuído desse pensamento, estimulou com visitas e atividades conjuntas a união das ADs no RJ. 

Com a saúde precária, pastor Francisco foi jubilado em 1964, sendo substituído pelo pastor Túlio Barros Ferreira. Mesmo depois de jubilado atendia convites para ministrar por todo o Brasil. Amava pregar e ensinar a Palavra de Deus. Deixou saudades entre os familiares e amigos.

De tantas lembranças do saudoso "Chico Pereira" talvez uma das mais marcantes seja justamente a do filho do missionário Nels Nelson. Samuel Nelson considerava o fiel auxiliar do seu pai um dos seus melhores amigos. Lembra ele que na sua infância "pastor Francisco sentava numa cadeira, cruzava as pernas, me chamava, me fazia sentar no peito do pé dele e começava a movimentar os braços como se estivesse serrando e dizia: serra, serra, serrador..."

Francisco Pereira do Nascimento certamente como todo líder não foi uma unanimidade. Porém décadas após sua morte, a lembrança de um obreiro como ele, que era conhecido por ser um grande pacificador, pode servir de inspiração para muitos líderes assembleianos, os quais em meio as suas animosidades e ambições fragmentam ainda mais a denominação. Que se levantem outros "Chicos Pereiras" nas ADs em todo Brasil! 

Fontes: 

ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. 

Entrevistas com Jessé Sadoc (filho do pastor Francisco P. Nascimento) e Samuel Nelson, escritor, historiador da ADs no Brasil e filho do missionário Nels Nelson.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Celebração da Centésima postagem

O blog Memórias das Assembleias de Deus comemora sua centésima postagem. Desde o ano de 2009, esse espaço tem sido destinado a refletir, compartilhar e divulgar outras "histórias" sobre a maior denominação pentecostal do Brasil. Algumas postagens foram tímidas, mas na medida em que as pesquisas foram se desenvolvendo, alguns temas puderam ser tratados com maior profundidade e reflexão. Agradeço a todos os meus amigos, colegas e irmãos que sempre me incentivaram a nesse blog colocar a história assembleiana sob outra perspectiva. Como celebração desse momento, deixo com os leitores algumas considerações sobre esse blog de bons amigos e incentivadores desse historiador voluntário das ADs.



A memória é fundamental para a formação da identidade. Todos nós recorremos ao passado para explicar nossas escolhas e justificar nosso modo de vida. Um sujeito sem memória perde sua referência. Quem sofre de amnésia, não sabe mais quem é. O mesmo pode ser dito com relação às instituições religiosas. Com relação às Assembleias de Deus são vários os elementos presentes nesta memória da qual cada assembleiano (especialmente os mais antigos) acaba tomando parte em maior ou menor medida: usos e costumes, convenções, Berg, Vingren, suecos, Frida, Macalão, Harpa Cristã, bandas, congressos de mocidade, ar livre, CPAD, Ministérios, vigílias, folhetos evangelísticos, Missão x Madureira... são apenas alguns termos carregados de significados que ajudam a explicar a identidade (ou melhor, as múltiplas identidades assembleianas). O Blog Memórias das Assembleias de Deus tem se preocupado com a preservação do passado assembleiano a partir destes elementos. Por trás de cada postagem há uma preocupação constante do historiador Mário Sérgio Santana (coordenador do blog) com a qualidade da pesquisa em documentos, livros, jornais e fontes orais, mediadas por reflexões que enriquecem o debate sobre as identidades assembleianas e ultrapassam os limites da história oficial. Neste sentido, o blog tem se tornado endereço obrigatório para os que se interessam em pensar a história das Assembleias de Deus no Brasil. (Maxwell Fajardo - Evangelista da AD Ministério Perus (SP), professor e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de SP). 
Nesses últimos anos em minha pesquisa sobre a historia assembleiana, o blog Memórias das Assembleias das Deus foi um estimulo e também um desafio. Eu tinha que fazer um trabalho minimamente razoável para ser digno de ser lido - e corrigido - pelo Mario Sérgio. Seu trabalho de resgate dessa história bonita, mas pouco estudada, foi de fundamental importância para mim, por exemplo, que uso bastante de elementos históricos para construir minha teorização dos assembleianismos, mas não tenho formação como historiador. Seu blog hoje e um referencial importante e necessário para qualquer pesquisador. (Gedeon Freire Alencar - Doutor em Sociologia pela PUC de SP e autor de vários artigos e livros entre esses Matriz pentecostal Brasileira: Assembleia de Deus 1911 -2011).
O blog Memórias das Assembleias de Deus é uma das raras fontes de informação histórica sobre as Assembleias de Deus, editado pelo Professor Mario Sérgio Santana, que possui portanto a formação, competência, e a dedicação necessária para quem incursiona neste terreno tão vasto e importante! (Gedeão Menezes - pastor-presidente da Convenção Estadual da Assembleia de Deus Tradicional do Amazonas - CEADTAM)
Acho de suma importância a releitura da história da maior denominação evangélica do mundo, tendo em vista o foco de alguns detalhes que a história oficial não contou. O blog Memória das Assembleias de Deus assumiu essa responsabilidade: trazer à reflexão dos leitores, fatos interessantes omitidos pela história oficial. Quer dizer o blog está completando o serviço iniciado pelos primeiros escritores da AD. (Jacó Rodrigues Santiago - pesquisador, escritor e autor do livro A Assembleia de Deus no Vale do Aço).
O blog Memórias das Assembleias de Deus, nesta era virtual, cumpre papel relevante, quando busca descrever a nossa história sem os engessamentos institucionais, que, em certos momentos, "escondem" fatos que a instituição, por diferentes motivos, não tem interesse em divulgar. Louvo a iniciativa de Mario Sérgio Santana, que nos oferece uma nova fonte de pesquisa, onde, certamente, muitas lacunas históricas de nossa AD estão sendo preenchidas. (Geremias do Couto - pastor, conferencista e escritor)
O blog Memórias das Assembleias de Deus é indispensável para a informação histórica de nossa denominação. Com fotos, textos e informações de bastidores o blog se destaca por não ter as limitações da história oficial. Que Deus continue abençoando este maravilhoso espaço. (Daladier Santos - Evangelista da AD Ministério de Abreu e Lima e editor do blog Reflexões sobre quase tudo).

domingo, 2 de março de 2014

Pastor Liosés Domiciano: lições de um ministério

Liosés Domiciano nasceu na cidade de Itajaí, no dia 31 de julho de 1927. Com 12 anos de idade, ele e sua família começaram a frequentar a Assembleia de Deus, e aos 14 anos, Liosés começou a dirigir a escola dominical para as crianças na cidade de Guaramirim. Mais tarde, aos 19 anos recebeu a tarefa de liderar uma congregação no município.

Família Domiciano da década de 60
Em 1950, aos 23 anos, Liosés contraiu matrimônio com a jovem Noêmia Figueira. No mesmo ano foi convidado para dirigir a AD em Mafra, cidade localizada no planalto norte catarinense. Era jovem e inexperiente. Logo as lutas e dificuldades o fizeram pensar em desistir. Nesse intento, ainda em Mafra, conseguiu um emprego em um estabelecimento comercial, mas ao voltar para casa e contar para sua esposa sua decisão de não mais trabalhar integramente na obra, Noêmia o contestou de forma firme, mas amorosa, dizendo que ela jamais abandonaria seus objetivos de seguir no ministério. Convencido pela mulher, Domiciano reconsiderou e, continuou na obra evangélica.

Essa singela história, um fragmento das muitas lembranças que os filhos possuem do seu pai, é revelador das condições adversas que um obreiro enfrentava naqueles tempos. Salários e recursos precários, os quais em momentos de aperto faziam as mais firmes convicções ministeriais serem abaladas. 

De Mafra, Liosés rumou para Jaraguá do Sul, onde nasceu o primeiro filho do casal Domiciano, chamado Leomir. E em cada cidade que pastoreou, um filho lhe nasceu. A família então, retratava a geografia do seu ministério por Santa Catarina. Leomir nasceu em Jaraguá, sua filha Leni em Joaçaba, Lineas em Tubarão e seu caçula Lediel em Lages.

Há um outra curiosidade acerca do seu ministério. Pastor Liosés era chamado informalmente pelos familiares e irmãos de "Nino". E ele até preferia assim, pois seu nome para os crentes mais simples era um tanto difícil de se pronunciar. "Nino" ficava mais acessível para todos. Um detalhe que fala muito dessa época, demostrando como era a convivência entre pastores e ovelhas, ou seja, não havia como hoje aquele abismo social ou hierárquico. Pastores e irmãos se tratavam de forma mais igualitária, e tinham um padrão de vida muito semelhante, e em alguns casos, o pastor até era materialmente inferior a muitos membros.

No ano de 1972, pastor Liosés foi transferido para Joinville. Seria sua última igreja. Acometido de um câncer que lhe levou a morte no dia 13 de janeiro de 1979, Domiciano ainda padeceu 52 dias de internação em um hospital na cidade de Curitiba. Enquanto isso, devido a sua impossibilidade de responder pela igreja, e prevendo a vacância do cargo, uma disputa pela presidência da AD na cidade se abriu. Alguns companheiros de ministério lutaram para assumir seu posto. E isso com ela ainda vivo, e com a família na triste expectativa da morte de seu pai. 

Tempos depois, sua esposa e filhos tiveram que aguentar a pressão para que deixassem a casa pastoral. Liosés em tantos anos de ministério não havia se preocupado em adquirir um imóvel para a família. Algo impensável nos dias de hoje, quando muito líderes eclesiásticos antes de se aposentarem (ou jubilarem) já fazem seu bom "pé-de-meia". Infelizmente, como é previsível, todo esse desfecho traumático da vida e ministério do pastor Liosés, gerou para os filhos um distúrbio para a vida emocional e espiritual de enormes proporções. 

É algo paradoxal. Um pastor que em vida, juntamente com sua família, se dedicou a obra, pastoreou algumas igrejas em Santa Catarina, assumiu cargos na CPAD e viajou pelo mundo representando sua denominação, nos anos seguinte à sua morte tenha seus rebentos praticamente revoltados com o ministério. Uma situação vivida por inúmeras famílias pastorais, que por diversas razões ou circunstâncias, não conseguiram superar a perda dos pais para a igreja, ou para a eternidade.

Mas o tempo passou e a família Domiciano conseguiu superar as dificuldades. Leomir, o primogênito faleceu precocemente. A esposa Noêmia também já descansou depois de tantas lutas. A filha Leni, viúva, continua na igreja Assembleia de Deus em Joinville, sempre envolvida com atividades do coral. Lineas é pastor da Igreja da Família em Jaraguá do Sul, e Lediel é pastor auxiliar da Igreja do Evangelho Quadrangular em Joinville. 

Os filhos, hoje bem mais conformados, até refletem que a morte do pai foi uma lição para a grande maioria dos ministros da AD em Santa Catarina, pois a partir de todo esse trauma, os demais pastores e obreiros perceberam a importância de se resguardarem para uma fatalidade como essa que acometeu a família Domiciano. E, diga-se de passagem, aprenderam bem a lição... 

Fontes: 

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008. 

Entrevistas como Lineas e Lediel Domiciano, filhos do pastor Liosés Domiciano.