sábado, 26 de abril de 2014

Assembleia de Deus em Manaus: divisão e polêmicas

A Assembleia de Deus no Amazonas é uma das mais tradicionais denominações pentecostais no Norte do Brasil. Fruto do trabalho dos missionários suecos e obreiros nativos, a AD nessa região foi pastoreada por destacados líderes assembleianos como Samuel Nyström, José Menezes, Francisco Pereira do Nascimento, Otoniel Alves de Alencar, José de Souza Reis e Alcebíades Pereira Vasconcelos.

Sede da IEADAM: pioneiros no AM
Uma obra pentecostal fundada em 1918. Tradicional, respeitada e, pela lista de líderes que por ali passaram, muito bem doutrinada; a AD nessa região, porém se viu dividida em duas vertentes no ano de 2000, terminando o século XX, para desgosto de muitos fieis e mácula da sua história cindida em ministérios opostos. Mas quais as razões para que essa divisão acontecesse?

A resposta é complexa, e envolve muitos fatores, mas a razão principal, o "pomo da discórdia", foi a adesão da AD em Manaus liderada por Jonatas Câmara (líder também da Convenção Estadual), a novos métodos de trabalho, identificados por muitos oposicionistas como a incorporação da igreja ao polêmico modelo celular chamado de G12, eufemisticamente chamado de "Nova Visão".

Nesse trabalho celular, os membros da igreja participam dos chamados "Encontros". Essas reuniões - que, diga-se de passagem, se tornaram uma febre em muitas igrejas pentecostais - proporcionava (ou proporciona) aos crentes formas inusitadas de ministrações bíblicas e confissões de pecados.

A mudança brusca de métodos, com a imposição vinda da cúpula para que todos os líderes participassem compulsoriamente dos "Encontros", sob pena de não terem mais espaço nos trabalhos eclesiásticos, gerou fortes dissenções. Dirigentes de congregações perderam seus cargos, e obreiros foram ameaçados de não serem sequer separados ao diaconato, caso não se envolvessem nos eventos. Tudo isso, sem dúvida, gerou uma forte celeuma no ministério regional.

Alguns pastores que se recusaram ao novo modelo proposto, como o pastor Edson Alves (2º vice-presidente da AD em Manaus), Eli Carvalho (pastor auxiliar em Manaus), e pastor Jessé Leandro (pastor-presidente da AD em Manacapuru e 2º vice-presidente da Convenção Estadual) foram gradativamente excluídos dos trabalhos.

Templo sede da IADTAM : trabalho aberto em 2000
Reunidos, esses obreiros no dia 14 de Outubro de 2000, na rua Costa e Silva, em Manaus, em um galpão alugado, iniciaram oficialmente a Assembleia de Deus Tradicional, congregando todos os membros insatisfeitos com os novos rumos da denominação. Presidida em Manaus pelo experiente pastor Edson Alves, e no Estado pelo pastor Jessé Leandro, o novo ministério recebeu após 5 meses de fundação Gedeão Grangeiro Fernandes de Menezes, outro líder de projeção na AD local.

A partir dessa data então, a AD foi dividida e reconhecida por siglas diferentes: Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Manaus (IEADAM), filiada a Convenção Estadual da Assembleia de Deus no Amazonas (CEADAM) lideradas por Jonatas Câmara (irmão de Samuel Câmara da AD em Belém - Pará) e a Igreja Assembleia de Deus Tradicional (IADTAM), ligada a Convenção Estadual da Assembleia de Deus Tradicional (CEADTAM) essas por sua vez orientadas atualmente pelo pastor Gedeão Menezes.

Anos depois, no dia 15 de Abril de 2011, na AGO da CGADB em Cuiabá (MT), a CEADTAM foi reconhecida pela Convenção Nacional, e segundo o site oficial da AD Tradicional, esse reconhecimento se deu "inclusive com a anuência da CEADAM, através de seu Presidente, pastor Jonatas Câmara. Em 07 de janeiro de 2012, foram aclamados como Presidentes Eméritos, os pastores Jessé Leandro da Silva e Edson Alves da Silva".

Mas essa história, e as complexas relações desses ministérios com a CGADB, e as polêmicas sobre o método G12 nas ADs não terminam nessa postagem. Há contradições em todo esse processo de fragmentação, a qual expõe variados interesses. Assuntos para outros momentos...

Fontes:


ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.


http://ceadtam.com.br/?var=historia (acesso 26/04/2014)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O Ministério Musical da AD em Natal - um pouco da sua história

O blog Memórias das Assembleias de Deus compartilha com os leitores um pouco da história da banda musical da Assembleia de Deus em Natal (RN). O texto escrito pela historiadora e maestrina Priscila Souza, trás se forma sucinta o esforço de décadas de vários membros da igreja para conservar e expandir o trabalho musical na AD em Natal.

O Ministério de música da Assembleia de Deus de Natal (RN) - Templo Central teve o seu início na década de 1930, quando a igreja em Natal vivia um amplo crescimento e desenvolvimento, nesta década sediou a 1ª Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil - CGADB, com a vinda de 18 pastores e missionários, entre os quais: Lewi Pethrus (Estocolmo/Suécia), Gunnar Vingren, Daniel Berg e outros missionários suecos em atuação no País, juntamente com os principais líderes nacionais. 

Nesta Convenção foi definida a ida de todos os missionários suecos para o Sul/Sudeste; a entrega dos trabalhos da região Norte/Nordeste aos pastores brasileiros; a criação do Jornal Mensageiro da Paz que até hoje circula nacionalmente e também o ministério e trabalho das mulheres na igreja. 

Nesse contexto de expansão da igreja, o irmão major Andrade, organizou e criou em 1935 o coral. No dia 24 de janeiro de 1938, cinco músicos formaram um pequeno Conjunto Instrumental: Tenente Onel, (violoncelo), Saraiva (Saxofone), Nelson Bezerril (clarinete), Paulo Gonzaga (sax-soprano), e Afrodísio (clarinete), este grupo instrumental começou a fazer parte na liturgia dos cultos acompanhando o Coral e depois começaram a atuar separadamente. 

Banda Musical da AD em Natal: 1º de agosto de 1954 - 32 homens em sua formação

A Banda de Música da Igreja Assembleia de Deus Natal (RN) originou-se da iniciativa desses músicos, membros da igreja, sendo efetivada em 01 de agosto de 1954, pelo Pastor Nelson Bezerril, com 32 componentes do sexo masculino, que com muita dedicação incentivou o crescimento espiritual e técnico da Banda de Música Assembléia de Deus - Natal (RN), empenhando até mesmo recursos próprios. 

O primeiro professor de música da igreja foi o pastor Nelson Bezerril, que estudava clarinete na Escola de Música Santa Cecília em Natal, vindo posteriormente a assumir a regência da banda, nas horas vagas começou a dar aulas de teoria e solfejo para as pessoas da igreja, no método Alex Garaudè, único permitido na igreja. Relata o Pr. Maestro Abinoam Praxedes: “"Os professores eram sempre os maestros ou os contramestres, usavam o Solfejo Alex de Garaudé, um pouco de Teoria Musical, e quando tinha um instrumento musical disponível colocava-o a disposição do aluno mais adiantado, que nem sempre começava no instrumento preferido, se dizia, "quem começa pelo Sax-Horn, fica muito bom em leitura de partitura musical"”. 

Novos tempos: em 1974 as mulheres foram incluídas na banda 

Conforme relatos do maestro Mário Rodrigues, antes do Pastor Nelson Bezerril assumir a direção da Banda de Música, músicos que não pertenciam à igreja eram contratados para tocar em ocasiões festivas, para suprir esta lacuna o pastor Nelson teve a iniciativa de ministrar aulas de teoria musical, solfejo e práticas instrumentais objetivando formar músicos membros da igreja. 

Só se admitia homens na Banda, em 1974 as mulheres foram incluídas, após passarem pelas aulas de teoria, solfejo e prática de instrumento musical. Havia um cuidado de só admitir alunos e alunas que fossem membros da igreja. Da Banda de Música muitos passaram em concursos para as Orquestras Sinfônicas e Bandas Militares Municipais, Estaduais e Federais. 

O Pr. Nelson Bezerril, regente fundador, tinha a preocupação de passar os seus conhecimentos musicais para os membros da igreja para manter a continuidade do trabalho musical no âmbito da Igreja Assembleia de Deus em Natal (RN). Vários regentes deram continuidade ao trabalho musical após o pastor Nelson Bezerril; Mário Rodrigues de Paiva, Clemenceau Souza Alves Ribeiro, Omar Batista da Silva, Otoniel Sotero, Emanuel Cícero de Lima, Jeremias Pedro de Souza Neto, Raimundo Matias Diniz, Abinoam Praxedes Marques e Paulo Henrique Albino da Silva e atualmente o pastor Daniel Batista de Souza.

Fontes:

SOUZA, Priscila Gomes de. A banda de música da Igreja Evangélica Assembleia de Deus do Templo Central em Natal-RN. 2009. Monografia (Graduação em Licenciatura em Música) – Escola de Música da UFRN. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN. Orientador. Prof. Dr. Zilmar Rodrigues de Souza.

domingo, 6 de abril de 2014

O testemunho do jovem Alcebíades

Alcebíades Pereira Vasconcelos (1914-1988), como se sabe, foi um dos pioneiros das Assembleias de Deus no Brasil. Ao morrer era reconhecido nacionalmente como um destacado pastor, escritor e conferencista. Do interior do Piauí, o menino nascido em Regeneração conheceu o mundo. Para homenageá-lo, sua filha Hadna-Ansy, publicou em 2003 pela CPAD a biografia do pai. Com o título de Alcebiades Pereira de Vasconcelos: Estadista e Embaixador da Obra Pentecostal no Brasil, a obra é a coletânea das memórias escritas do velho e saudoso pastor. Porém, esse blog quer trazer ao leitor outras memórias do pastor Vasconcelos.

Pastor Alcebíades: vocação evangelística
No ano de 1938, o jovem Alcebíades, enviou ao Mensageiro da Paz (1ª quinzena de novembro) na secção Testemunhos seu relato de conversão e os primeiros passos no trabalho de evangelização. Inicia seu testemunho intitulado de 18 anos no mundo e 5 em Cristo com as seguintes palavras:
Com pesar digo que estive 18 anos, e com prazer, que estou há 5 em Cristo. Si bem que tivesse procurado gozar aquele tempo, não podia me livrar das incertezas e falta de paz. Vivia sem fé, sem esperança e sem Deus; o pecado me oprimia. Sempre refratário à religião, não cria nos dogmas romanistas. Certo dia, encontrei um livro que antes nunca vira: a Bíblia. Era a verdade do céu, escrita aos homens, na terra. Em junho de 1933, me entreguei a Jesus, num culto pentecostal.
Em suas memórias (publicada pela CPAD), pastor Vasconcelos detalha que seu pai por influência evangélica era contrário ao batismo de crianças, sendo o próprio Alcebíades somente batizado na Igreja Católica aos 3 anos de idade. Outro detalhe: antes de começar suas leituras da Bíblia, Alcebíades e dois de seus irmãos haviam sobrevivido a uma epidemia de paratifo (uma infecção intestinal). Um casal de vizinhos evangélicos lhe visitaram, oraram por sua recuperação. Após 55 dias de febre, ainda em estado de recuperação, o jovem Vasconcelos teve uma visão a qual lhe impressionou profundamente. Somente ao passar por tais situações, o sempre cauteloso futuro obreiro, resolveu ler a Palavra de Deus.
Estando minha mãe congregada na Igreja Batista, eu fiquei com ela por 9 longos meses, até que, voltando certo dia a Assembleia de Deus (com sede), Jesus me selou imediatamente, no Espírito Santo, durante essa visita.  Foi isso em abril de 1934.
Não havia no município de Lagoa Nova (MA) nenhuma Assembleia de Deus. Alcebíades foi então por circunstâncias diversas visitar um amigo na localidade de Carrasco. No meio do caminho, ficou sabendo que o mesmo, o jovem Cristóvão, tinha recebido num culto pentecostal o batismo com o Espírito Santo. O pânico lhe tomou as entranhas. Havia sido doutrinado sobre o batismo no Espírito Santo de forma contrária pelos batistas. Mas o assunto do momento entre os crentes era o culto. Não havia como não saber das maravilhas realizadas. Seu conhecimento sobre os evangélicos assembleianos foi aumentando e, após contatos e observações in loco das experiências pentecostais, Alcebíades foi batizado com o Espírito Santo.

Não deixa de ser interessante essa parte do testemunho, pois revela como o novo crente era motivado, incentivado e orientado para ser "selado" com o chamado "batismo de fogo". Naquela época era assim: logo após a conversão o fiel era, ou por ensino ou convivência com outros crentes, a buscar ansiosamente a realidade pentecostal em sua vida.
Inúmeras foram as oposições lançadas contra mim mas, com Jesus pude vencer todas. Fui separado para evangelista e enviado para o campo das "lutas e vitórias". Agora dirijo uma congregação. Glória a Jesus!
Ainda na obra da CPAD, pastor Vasconcelos fala das oposições. Sua família, então congregando na Igreja Batista de Lagoa Nova não aceitou sua pentecostalidade. Houve tensões entre os familiares e na própria igreja onde frequentava. Acontece que para os batistas daquele lugar, a imagem que tinham de um pentecostal, era de alguém que em êxtase rolava, espumava e fazia caretas horrorosas. Algo que é claro, não acontecia com o jovem Alcebíades. Porém, com o tempo as coisas mudaram, e alguns familiares receberam a Cristo em cultos promovidos por obreiros da Assembleia de Deus. Sobre o fato de ser separado a evangelista, é importante ressaltar, que o jovem Vasconcelos relutou muito em aceitar sua chamada para ministério. Considerava-se despreparado e sem capacidade.

E ainda sobre o campo de "lutas e vitórias", segundo suas memórias coletadas por Hadna-Ansy, Alcebíades relata das dificuldade de adaptação, das febres provocadas pelo impaludismo, das longas distâncias percorridas e das lutas interiores e espirituais que colocavam em prova sua chamada ministerial. Bom retrato de uma época. A palavra campo tinha um significado muito diferente do de hoje...

Após esses relatos sucintos de sua conversão e chamada, o futuro presidente da CGADB assim conclui seu testemunho:
Amigo e leitor descrente, diante dessa experiência, crê e te entrega a Jesus, que também tem um trabalho para te confiar. Si te sentires fraco e incapaz de servir ao Senhor, pode saber que serás um bom servo, pois Ele não confia naqueles que se julgam fortes em sim mesmos. Irmãos orai por mim, pois há ainda muitas almas por salvar.
Desponta nas palavras finais do jovem evangelista a paixão pelas almas e o conceito de ministério. "Si te sentires fraco e incapaz de servir ao Senhor, podes saber serás bom servo...". Por sentir desde o começo de sua carreira ministerial certas limitações, pastor Alcebíades buscou se aprimorar. Para ele, um bom servo seria sempre um ser dependente do Supremo Pastor. Uma pena que tal conceito tem sido cada vez mais abandonado. Mas sempre haverá um remanescente fiel.

Fontes:

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz 1ª quinzena de 1938