quarta-feira, 21 de maio de 2014

Lydia Nelson - o amor como marca principal

Ontem completei 49 anos de idade, agora sem a presença de meu marido e amado companheiro Nels Julius Nelson. Foram 28 anos de vida conjugal e, agora, começou para mim a outra metade de um século em minha vida. Não sei quanto tempo ainda perdurarei, mas meu desejo é que o Senhor possa me conduzir sempre dentro da sua vontade e que minha vida possa servi-lhe de alguma maneira
Com essas palavras, Lydia Nelson, esposa do missionário sueco Nels Nelson abre seu diário no dia 12 de março de 1963. Seu esposo foi um grande líder nas Assembleias de Deus no Brasil. Chegou ao país solteiro e somente se casou as 40 anos de idade, já liderando a AD em Belém. A jovem escolhida para ser sua esposa foi Lydia Rodrigues, filha do presbítero Manoel Maria Rodrigues um dos primeiros crentes da igreja. 
Lydia Nelson: prêmio por obras artísticas
Porém, Lydia uma jovem criada na igreja, não ficou apenas à sombra do seu notável marido, mas exerceu um trabalho eficaz e pioneiro na área musical nas igrejas por onde passou principalmente na criação do coral feminino juvenil na AD em Belém do Pará e na AD em São Cristóvão no RJ. Nas duas igreja citadas, a pioneira organizou as apresentações natalinas, as quais encantavam os membros pela beleza das sua mensagens.

Sua atuação na esfera social também foi marcante. Com muito esforço fundou o orfanato Ebenézer, e administrou um abrigo para irmãs sem família na igreja. Para esse projeto Lydia conseguiu mensalmente uma ajuda de uma organização sueca. Mas segundo as memórias do seu filho Samuel Nelson, sua mãe percorria algumas grandes igrejas do Rio de Janeiro pedindo ajuda para o orfanato e o abrigo. Em sua estratégia de angariar fundos, ela visava principalmente os irmãos que possuíam algumas posses. Alguns deles ao perceberem sua presença e suas já conhecidas intenções "corriam dela quando a viam..."

Mas há um outro lado extremamente interessante da vida da senhora Nelson, pouco conhecido dos assembleianos. Lydia foi a primeira mulher no Estado do Pará a tirar carteira de motorista. Na verdade foi algo necessário, pois ela tinha que "se virar" com as constantes ausências do esposo em viagens, estudos bíblicos e enfermidades.
Casal Nelson pelas ruas de Belém (PA)
Hoje é algo normal ver uma mulher dirigindo um veículo, mas naquela época era algo inusitado. E mais: um sinal de independência numa área predominantemente masculina. Consequentemente as mulheres que guiavam seus carros eram alvo de comentários na sociedade. Ignorando as convenções sociais, por gosto e necessidade, Lydia resolveu ser pioneira nessa área. Ao transitar pela capital Belém era o centro das atenções e curiosidades. Afinal mulher no volante não era algo que se via constantemente.

Outra habilidade da senhora Nelson ainda desconhecida de muitos era o seu pendor para as artes. Lydia pintava e apresentava seus quadros tanto em Belém como no Rio de Janeiro. Seu nome chegou a constar na Galeria de Artistas Paraenses. Em uma exposição no RJ ganhou o 1º e 2º lugar concorrendo com apenas dois quadros. Suas habilidades artísticas também demonstradas ao pintar o batistério das ADs em Belém e São Cristóvão.

Interessante que ao falecer, somente os aspectos da atuação social da viúva de Nels Nelson foram destacados em uma reportagem do Mensageiro da Paz. Isso porque até aquele período, as atividades extras de um crente (principalmente mulher) de certa forma não eram destacadas no currículo do crente. Valorizavam-se quase sempre suas ações eclesiásticas e não as seculares. Mas o dinamismo de Lydia, porém ia além das paredes da igreja e levou-a a sempre estar engajada em projetos sociais.

Nels Nelson faleceu em 1963, e quando Lydia escreveu seu diário e expressou que seu "desejo é que o Senhor possa me conduzir sempre dentro da sua vontade e que minha vida possa servi-lhe de alguma maneira" mal sabia que ainda ela teria mais 23 anos para realizar projetos, viajar e instrumentalizar a obra social. No culto fúnebre na AD em São Cristóvão em 1986 muitas palavras foram ditas em sua homenagem. Mas a frase que melhor sintetizam sua vida foi a da abertura da matéria: "O amor ao próximo era sua marca principal".

No dia 18 de julho de 1986 foi sepultada a viúva de Nels Nelson, a pioneira motorista de Belém, a apreciada artista de belos quadros e, sem esquecer, a paciente mãe e dedicada esposa de um grande missionário. Seu filho Samuel Nelson, em suas conversas lembra com saudades e carinho que, sua mãe além das muitas qualidades e trabalhos desempenhados na obra, gostava mesmo era de puxar suas orelhas (quase as arrancava) devido as suas muitas traquinagens. Enfim, deixou saudades em toda a igreja. Mas hoje relembramos suas conquistas.

Fontes:

NELSON, Samuel. Nels Nelson - O Apóstolo Pentecostal Brasileiro. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: 1986 p.10

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Assembleia de Deus em Manaus: algumas considerações

Na postagem anterior, a refletiu-se sobre a divisão na AD em Manaus e no Estado do Amazonas. A mudança de rumos nos trabalhos evangelísticos e doutrinários da igreja ocasionou uma cisão no ano de 2000, quando um grupo de pastores e membros fundou a AD Tradicional. 

Para os partidários do pastor Jonatas Câmara, o que a igreja passou a implantar foi somente a adoção de "novos métodos". Por outro lado, para os oposicionistas a denominação naquele momento estava se rendendo ao polêmico e antibíblico G-12.

Templo da AD Tradicional: reconhecida em 2011 pela CGADB
Como era de se esperar, tamanha celeuma ganhou notoriedade pelo Brasil afora. A divisão ocorreu no ano de 2000, e na CGADB de 2001 as discussões já se tornaram evidentes. Segundo Silas Daniel no livro História da CGADB as polêmicas em torno da implantação do G-12 gerou um "concorrido debate entre os convencionais". Ainda segundo o autor, o pastor Ezequias Soares de SP, "expôs todos os pontos heréticos do movimento", os quais para ele eram claramente contrários à Palavra de Deus.

Dando sequência nos debates, Silas Malafaia "que havia combatido o Movimento G-12 em rede nacional através do seu programa Vitória em Cristo, também alertou os convencionais para os perigos das doutrinas heréticas do movimento". Outros convencionais se posicionaram contra, e sugeriram a exclusão dos obreiros envolvidos no G-12. Malafaia, porém pediu cautela, e uma análise mais detalhada dos casos. Foi criada um comissão, mas nada se informa depois. Em outras convenções Jonatas Câmara até permanece em conselhos regionais da CGADB.

Em todo o registro feito por Daniel não há menção de nomes e convenções, mas fica evidente que a AD em Manaus e possivelmente a AD em São Cristóvão (RJ) estivessem na mente dos líderes. Nos dois casos há algo em comum: as ligações familiares. Túlio Barros Ferreira, então pastor da AD em São Cristóvão era sogro de Jonatas Câmara de Manaus. Não era somente algo espiritual, mas sim familiar, ou seja, uma família dando novos contornos a ADs mais tradicionais.

Mas não deixa de ser contraditório. Na CGADB, alguns obreiros pedem a exclusão de ministros adeptos do G-12, enquanto que em Manaus os dissidentes da igreja por causa dos "novos métodos" são desligados da mesma instituição, sendo somente reintegrados em 2011 aos quadros da convenção nacional.

Outro ponto vital nesse caso, que não foi debatido (e nunca o será provavelmente), é justamente que o grande problema em Manaus foi a imposição da cúpula a um modelo de trabalho tão controverso. Pelo que se percebe, não houve negociações, debates ou abertura para pontos de vista contrários. A simples imposição a "nova visão" por parte do pastor de plantão, é uma prática de vários líderes da AD. Câmara não é o único nesse tipo de atitude, pois muitos dos chamados "conservadores" são idênticos nessa postura. Em suma, ou o membro e obreiro "está dentro da visão" do "ungido", ou está sumariamente desligado, desprestigiado e excluído do obra.

Aliás, esse modelo de liderança - episcopal, familiar, coronelista e anacrônico - só é democrático na convocação para que os membros contribuam e se doem em trabalhos voluntários, e façam um esforço máximo em prol de projetos vistos como prioritários para os próprios pastores. Não foi só em Manaus que a liderança forjou um projeto visto como alheio aos anseios populares. Em muitas outras localidades atitudes semelhantes acontecem. É a falta de sintonia e identificação das lideranças com os crentes. Não é sem motivos que a AD se encontra cada mais fragmentada.

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

http://ceadtam.com.br/?var=historia (acesso 26/04/2014)