sexta-feira, 20 de junho de 2014

Daniel Berg - um "santo assembleiano"

Sua imagem - ao lado do antigo companheiro Gunnar Vingren - é praticamente onipresente em todas as comemorações e festejos das Assembleias de Deus no Brasil. Em 2011, no centenário da denominação que ajudou a fundar, seu rosto de traços nórdicos, estampou camisetas, banners, livros, xícaras, agendas, CDs e mais uma série de materiais.

Sua biografia, reeditada várias vezes, recentemente ganhou até uma versão juvenil. Sim, Daniel Berg é um mito nas ADs. É quase impossível é contar a história da denominação sem tocar no seu nome, e descrever (ainda que por vários ângulos) sua aventura de fé. Porém, muito ao contrário do que se imagina Berg o mítico missionário sueco, só começou a ser realmente de fato celebrado muito próximo à sua morte.

Berg: um "santo assembleiano" muito comercializado
A saga de Daniel Gustav Högberg, ou simplesmente Daniel Berg é conhecidíssima dos pesquisadores da história da AD. Nascido no sudoeste da Suécia, Berg emigrou para os EUA com 18 anos. De volta a sua terra natal, por influência de Lewi Pethrus tornou-se pentecostal enquanto voltava para os Estados Unidos. Já em terras estadunidenses conheceu Gunnar Vingren e, através de uma revelação se dirigiram ao Brasil, mais precisamente para a cidade de Belém do Pará, onde fundaram com mais 18 irmãos batistas a AD no Brasil.

Daniel Berg tornou-se pioneiro ao evangelizar a região de Belém e do interior do Pará. Em 1920 se casou com a jovem Sara na Suécia, retornando ao Brasil em 1921. Em 1922 o casal de missionários vai trabalhar nas ADs na região Sudeste.

Segundo Gedeon Alencar em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira - Assembleias de Deus (1911-2011), o mítico missionário desde o começo da obra pentecostal que ajudou a fundar não obteve "títulos e cargos no início e, nos anos seguintes, diversos outros suecos vão assumindo igrejas e postos na hierarquia. Para Berg, resta apenas receber uma placa em 1961. Reverenciado às vésperas da morte, mas esquecido enquanto vivo".

Mas qual seria a causa desse esquecimento? Ao que tudo indica, enquanto o trabalho ainda era incipiente na região Sudeste, sua presença e esforço era necessário, e Daniel portanto se tornava útil. Porém é fato que o mesmo não era nenhum teólogo, ou grande administrador como alguns podem pensar. Desde o início em Belém, Berg trabalhava durante o dia como operário em uma fundição para sustentar Vingren. Ou seja, já nos primórdios havia no jovem obreiro uma postura muito simples, e ele sabia das suas limitações. 

Segundo alguns, mesmo após tantos anos no Brasil nunca aprendeu a falar o português fluentemente. A audição de uma rara entrevista gravada de Berg em visita à Santa Catarina confirma isso. Soma-se a isso o fato de que Berg ter ficado por 17 anos fora do Brasil, o que contribuiu ainda mais para seu esquecimento.

Como tentativa de se fazer lembrar, o velho missionário ainda na década de 1950 lança sua biografia intitulada Enviado por Deus. Detalhe: a obra não foi editada pela CPAD, mas publicada por conta do próprio Daniel. Sinal esse inquestionável de sua aparente invisibilidade. Tanto que o antigo pioneiro, Adrião Nobre em uma carta publicada pela revista A Seara de 1957 assim se refere a situação de Berg:
Não sei como ele vive ultimamente; tive, contudo, notícias desagradáveis com relação à sua condição de vida - não tem, segundo soube, o descanso que merece, nem o conforto que lhe devemos proporcionar. Irmãos, não sejamos injustos, lembremo-nos de auxiliar o tão amado pioneiro da obra pentecostal no Brasil. 
Relatos dos crentes que chegaram a conhecer o sueco confirmam seu abandono. Berg é relembrado por chegar as igreja de ônibus, vender Bíblias, e relatar em seu português limitado o testemunho missionário. Como bem observou Alencar, os "santos assembleianos" são muito similares aos santos católicos, pois em vida "viveram na pobreza e alijados do poder, mas, depois de mortos, costumam dar muito lucro".

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.


ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.