quinta-feira, 24 de julho de 2014

Com muito amor - Marguerite Kolenda

John Peter Kolenda e sua esposa Marguerite trabalharam por muitos anos na obra pentecostal nos Estados Unidos, Brasil e na Alemanha pós-guerra. A família Kolenda chegou ao Brasil em 1939, e após passar pelo Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, estabeleceram-se no Estado de Santa Catarina.

Ao chegar em Santa Catarina, a Assembleia de Deus ainda era um trabalho incipiente. Kolenda, juntamente com outros missionários norte-americanos como Virgil Smith e Orlando Boyer, organizou a denominação no Estado, impulsionando a construção de templos e a evangelização. Para conseguir apoio financeiro dos EUA, JP enviava constantes relatórios com muitas fotografias e filmagens dos trabalhos realizados em terras catarinenses.

Porém, com o passar do tempo sua liderança foi sendo contestada pelos obreiros nacionais. Quando se observa a história das ADs, percebe-se que JP não sofreu somente oposição dos obreiros em nível nacional. No âmbito estadual, o veterano missionário também encontrou barreiras para seus projetos; principalmente o de fundar um instituto bíblico no Estado. Um dos elementos para as resistências era o sentimento nacionalista dos líderes catarinas.

Kolenda deixou o Brasil no início dos anos 50. Rumou para a Alemanha para um novo desafio: o de reerguer a obra pentecostal em um país ainda traumatizado pela 2ª Guerra Mundial. Muitos anos depois, já aposentado e residindo nos EUA, JP Kolenda veio a falecer no dia 19 de junho de 1984. 

Muitas foram às homenagens, e em gratidão sua esposa Marguerite (ou Margarida como era chamada no Brasil) enviou uma linda carta para a AD em Joinville, na época liderada pelo pastor Satyro Loureiro. Publicada no Jornal Informativo da AD, a missiva foi endereçada "Aos pastores em Santa Catarina e demais irmãos no Brasil".

Não deixa de ser uma ironia da história que, ao escrever a carta, a senhora Kolenda observa que seu esposo em sua morte foi homenageado e considerado como um verdadeiro "brasileiro". A coroa de flores e as mensagens de condolências foram para ela prova disso. Essa manifestação dos pastores catarinenses, muitos dos quais trabalharam com o missionário, foi talvez o derradeiro pedido de desculpas à família Kolenda. Assim escreveu Marguerite Kolenda:

Casal Kolenda: seis década de união e trabalho na obra
Nove pastores de Estado de Santa Catarina enviaram uma coroa muito bonita. Para mim foi tão preciosa, como foram as mitas cartas e cartões de condolências. 
Agora mais do que nunca, compreendo que meu esposo era realmente um "brasileiro". Quando li todas estas cartas e diversas expressões de apreço, pude sentir que os irmãos brasileiros verdadeiramente o consideravam como um deles. Queriam horá-lo pelo que realizou no Brasil.
Infelizmente, não tenho os endereços dos muitos remetentes de telegramas e coroas que tanto embelezaram o funeral do meu esposo
Estou morando num lar de velhos mantido pela igreja. Aqui temos muitos velhos como eu, com 88 anos, alguns mais jovens e outros mais velhos. Cada um tem um apartamento todo equipado e moderno. O atendimento é perfeito. Temos reuniões de oração. É um bom lugar para morar até Jesus vir.
Meu coração transbordou de gratidão a Deus por ter me concedido o privilégio de conviver com ele em santo matrimônio durante 61 anos e meio. Foi uma vida feliz e sei que o senhor está comigo e me guardará até que Ele me chame. 
Com muito amor
Marguerite 

Fontes:

ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Jornal Informativo da Assembleia de Deus em Joinville. edição: 162 outubro de 1984.


POMMERENING, Claiton Ivan (Org). Entre flores e espinhos: o Espírito em movimento na Assembleia de Deus. Joinville: Refidim, 2013.

domingo, 13 de julho de 2014

Assembleias de Deus - Patrimônio Cultural

Por ser uma igreja centenária, as Assembleias de Deus no Brasil também já possuem algumas gerações de crentes dentro de si. São aquelas famílias tradicionais, que junto com outros pioneiros fizeram a história da denominação. E não só isso. As ADs também têm seu patrimônio cultural.

Segundo a Constituição de 1988, em seu artigo 216, patrimônio cultural no Brasil é definido como "...os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira..." São exemplos de patrimônio cultural secular as manifestações artísticas ou folclóricas, construções, culinária, diversões, religião e indumentária de um povo. Tudo aquilo que dá sentido ou referência a uma comunidade pode ser considerado patrimônio cultural. 

 AD Madureira: construído para ser um patrimônio
Seguindo esse raciocínio, um exemplo de patrimônio cultural das ADs é a Harpa Cristã. Fazer adaptações e mudanças nela, ainda hoje se constitui um trabalho árduo. Tentativas de modificações ou reformas na década de 1990 no tradicional hinário naufragaram devido às resistências do povo. Há uma relação sentimental e espiritual de muitos crentes com a Harpa Cristã. Certos hinos como o 15 (Conversão), 169 (Hó Jesus me ama!) e outros mais estão marcados nas memórias de muitos assembleianos. O antigo hinário também é a expressão da teologia dos pioneiros. É um simples livro com cânticos, mas em meio a toda suposta modernidade das ADs, ele ainda dá sentido e identidade ao povo.

É irônico que, tempos atrás, por conta dos direitos de publicação, a CPAD e o Ministério de Madureira travaram uma batalha na justiça secular por causa do hinário. Mesmo sendo evidente que a questão era de forte teor financeiro, não deixou de ser relevante o aspecto paradoxal do caso. A Harpa Cristã, a mesma que durante décadas uniu os ministérios, também os dividiu em determinado momento. Felizmente um acordo selou a paz entre Ministérios divergentes.

Outro exemplo é a tradicional saudação a "Paz do Senhor". Consagrada e oficializada na CGADB ainda nos anos 40, a breve alocução, é de norte a sul do país utilizada para identificação dos irmãos entre si. Os mais antigos devem lembrar que não saudar outro irmão com a "Paz do Senhor", poderia significar fraqueza ou desvio da fé. Outras igrejas poderiam até ter outra saudação, mas os assembleianos era (bem firme e com bastante clareza) a "Paz do Senhor".

A lista poderia ser acrescentada com os antigos templos. Porém, em meio ao seu crescimento, e com objetivos de propor melhorias e conforto aos seus membros, as lideranças de muitas ADs acharam por bem demoli-los. E foi ai, mesmo com boas intenções, e por falta de consciência histórica, que muito do patrimônio material e cultural da igreja se perdeu. Um dos casos mais emblemáticos que se tem notícia é da demolição do antigo templo da AD em Belém do Pará.

Por outro lado, a AD em Madureira (RJ) construiu seu templo sede para ser um monumento. Desde o lançamento da pedra fundamental, até sua inauguração no dia 1º de maio de 1953, a obra já se destinava a grandiosidade. A construção, a qual consumiu enormes somas de dinheiro e esforços, era (ou é) em si, a representação do passado, presente e futuro do ministério fundado por Paulo Leivas Macalão. Suas linhas arquitetônicas e seus lindos vitrais, propositalmente possuem a meta de deslumbrar os vistantes e frequentadores. É o retrato do seu líder Paulo Macalão: arrojado e conservador ao mesmo tempo.

Breve em outras postagens esse tema será novamente abordado. Mas sempre é bom refletir sobre nossas referências históricas e culturais. A lista pode ser aumentada, com a inclusão da CPAD ou da EBD. É um tema abrangente e interessante para se pensar a identidade do povo assembleiano. Identidade essa cada vez mais difusa.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.


ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.