sábado, 23 de agosto de 2014

Uma benção polêmica

Em junho de 1971, os leitores do jornal a Folha de São Paulo se depararam com um acontecimento no mínimo curioso. O paraense e funcionário civil aposentado do Ministério da Marinha, João Vieira de Melo, 64 anos, 40 de casado, 10 filhos e 32 netos, se tornou um dos mais novos milionários do Brasil ao acertar os 13 pontos da Loteria Esportiva.

Como toda pessoa contemplada com um prêmio dessa magnitude (CR$ 1.031.439), João fez seus planos. Primeiro pagaria um empréstimo de 7 mil cruzeiros feito na Caixa Econômica Federal para reforma de sua casa. Depois compraria um carro, e ainda faria um mimo para os filhos: uma casa de presente para cada um deles.

Loteria esportiva: era pecado
Mas, uma das metas do novo milionário é que gerou polêmica. Queria ele construir um novo templo para a Assembleia de Deus na cidade "para manifestar seu reconhecimento à generosidade de Deus", o qual segundo ele em entrevista à Folha "me inspirou na hora de preencher o volante da Loteca". E isso sem ter na época a chamada "Bíblia do Milhão" ou as campanhas de prosperidade.

Descrito nas duas matérias feitas sobre o caso como um "frequentador assíduo" da Assembleia de Deus, João se dirigiu à igreja com a nobre finalidade de abençoar a obra "anunciando que daria todo dinheiro necessário à construção do novo templo". Quem sabe, imaginava ele, seria um momento de grande manifestação de apreço do ministério local, ou um culto marcado por louvores pela grande "vitória" concedida por Deus a um dos seus servos.

Porém, qual foi sua decepção, quando nesse intento de doar, de construir um novo templo, o pastor da congregação Eliezer Pereira Barros "ao invés de agradecer, passou a criticá-lo severamente, ameaçando inclusive expulsá-lo da igreja." Com surpresa, ouviu o pastor (não se sabe se foi particularmente ou em público) lhe dizer que "o dinheiro oferecido é de origem criminosa. Os crentes não praticam qualquer espécie de jogo".

Aborrecido, o abençoado irmão declarou que, caso expulso da igreja, faria suas orações em casa mesmo. E a doação? Segundo ele "darei as muitas pessoas necessitadas". Pobre João! A igreja não quis ser abençoada financeiramente como ele o foi e nem tão pouco compreendeu seu gesto de liberalidade.

O caso, inusitado para a época, não deixa de trazer reflexões de como os valores se transformaram no meio assembleiano em geral. Como seria recebida atualmente uma atitude como essa do caro irmão aposentado? Seria repreendido, ou ameaçado de expulsão? Ou teria sido franqueado ao sortudo o púlpito, e aberto os microfones para testemunhar? As respostas ficam na imaginação de cada leitor...

Fontes:

acervo.folha.com.br - dias 16 e 17 de junho de 1971 - Primeiro Caderno p. 17 e 26.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Simon Lundgren - trabalho e simplicidade até o fim da vida

Celebrados pela historiografia oficial, os míticos missionários suecos são constantemente citados como os grandes heróis das Assembleias de Deus no Brasil. Mas conhecer seus últimos anos de vida ainda serve como lição para as atuais tendências de alguns líderes das ADs no Brasil.

Nesse blog já tratamos do caso de Daniel Berg, o qual no fim do seu ministério ficou praticamente abandonado e, segundo consta, passando privações materiais. Outro exemplo de esquecimento foi do missionário Charles Leonard Simon Lundgren. Sua biografia, seus feitos e pioneirismo são facilmente encontrados nos livros históricos da CPAD.

Lundgren chegou ao Brasil no ano de 1924 para atuar ao lado de Otto Nelson na cidade de Maceió (AL). Em 1925 foi auxiliar Joel Carlson em Pernambuco, e no ano seguinte, juntamente com um grupo de 12 membros organizou a AD em Santos (SP). A folha de serviços prestados pela família Ludgren é extensa, e incluí uma importante passagem pela a AD em São Cristóvão (RJ), onde substituía Samuel Nyströn em suas constantes viagens pelo país.


Casal Lundgren: trabalho e simplicidade até o fim da vida

Da cidade do Rio de Janeiro, Lundgren retorna para São Paulo, mas desta vez para a capital. Da pauliceia segue para o interior a abre trabalhos em Jundaí, Campinas, Nova Odessa, Rio Claro, São Carlos, Marília e Varpa. Em 1942 assume a AD em Curitiba e ali prossegue o trabalho de evangelização do interior paranaense. Ainda na igreja curitibana, o missionário organizou uma banda de música maior, desenvolveu corais de adultos e jovens, e devido ao crescimento da igreja, um novo templo foi inaugurado em sua gestão no dia 28 de maio de 1948.

Em 1955, o veterano missionário passa a liderança da igreja curitibana para o pastor Bruno Skolimowski. Jubilado em 1963, Simon Lundgren dedica-se ao ministério do ensino da Palavra por todo o Brasil. É interessante observar que, na época da sua aposentadoria, muitas igrejas por onde ele passou já eram prósperas, mas foi somente em 1977 que a AD em Curitiba ofereceu ao casal sueco um apartamento para viver o resto dos seus dias.

Com a construção do novo templo sede da AD na capital paranaense, foi cedido um dos apartamentos da igreja para moradia ao veterano casal. Essa informação é importante, para se perceber como era o padrão de vida de um dos um dos últimos missionários suecos no Brasil. Nada de grandes fortunas, benesses ou status. Como bem observou o sociólogo Paul Freston os escandinavos eram modestos em suas aspirações sociais. E assim Lundgren permaneceu até o fim da vida.

Alguns irmãos, ainda lembram-se de Lundgren já alquebrado pela idade avançada, e das raras oportunidades que ele recebia na sede da AD em Curitiba para ministrar. Faleceu aos 91 anos de idade, quando num domingo, após o almoço, ele sentou-se numa poltrona para descansar e dali seu espírito partiu para a eternidade. Segundo o jornal O Assembleiano o dia da sua morte, parece que foi "escolhida a propósito para um grande missionário - Era o dia 12 de agosto de 1990 - Dia Nacional de Missões".

Fontes:

ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


O Assembleiano - Jornal Informativo da Assembleia de Deus em Joinville. edição: 162 outubro de 1990.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Agnello, o simples

Simplicidade. Eis uma virtude muito louvada, mas pouco desejada ou praticada. Segundo os melhores dicionários, simplicidade é ser (ou algo) desprovido de complicação, ou sofisticação. Ao falecer no dia 23 de setembro de 1990, o pastor Agnello José da Costa foi descrito pelo jornal O Assembleiano como um homem simples.

Para quem não sabe, Agnello foi um pastor da Assembleia de Deus em Santa Catarina. Liderou poucas e pequenas igrejas nas cidades do Estado, entre elas Mafra, São Bento do Sul e Canoinhas. Porém, como informou a extinto jornal "pastorear não era o seu forte". Percebendo essa característica, a Convenção Estadual "resolveu separá-lo exclusivamente para realizar trabalhos de ensino nas igrejas".


Agnello em pé ao centro com obreiros da AD catarinense
Sapateiro de profissão, Agnello tinha uma oficina na antiga rua do Norte, atual e movimentada João Colin em Joinville. Encontrou o Carpinteiro de Nazaré ainda nos anos 50 no antigo templo sede da AD na cidade. Logo após sua conversão, o recém-convertido sapateiro, desejou ardentemente descer às águas batismais em um dia de culto noturno. O pastor Satyro Loureiro, que na época pastoreava a AD, teve que batizá-lo naquela mesma noite no tanque interno da igreja.

Consta que sua leitura era somente a Bíblia, as revistas da Escola Bíblica Dominical, O Mensageiro da Paz e O Obreiro, da CPAD. Porém, depois de sua morte se descobriu para surpresa de muitos, que Agnello possuía uma pequena biblioteca em sua casa. Assim, mesmo sem grandes recursos literários, e sem ser um grande e eloquente pregador, o pastor sapateiro - segundo detalhou o periódico - pregava sermões que "nunca duravam menos de três quartos de hora, e não obedeciam à homilética, mas tinham a marca da profundidade espiritual, de uma vida de comunhão com Deus".

Por esse motivo, era respeitado como ensinador em Santa Catarina. Na verdade, seus sermões longos, diretos e de aplicação prática, em muito agradavam os crentes mais humildes. Ao término de cada ensinamento, o velho pastor concluía com um enfático amém. Eram muitos durante a mensagem, perdia-se a conta de tantos. Quando chegava em uma congregação, o período de oração era encurtado para que a reunião não fosse além da hora prevista para terminar.

Agnello era de certa forma folclórico. Representante legítimo de uma era, e de tempos de aprofundados estudos bíblicos e de muita simplicidade, ou seja, de pouca sofisticação ou glamour. Havia no simples obreiro uma grande identificação com o povo. Identificação essa que, na atualidade, se perdeu na vida de muitos líderes eclesiásticos. Faleceu de câncer no Hospital Betesda no Distrito de Pirabeiraba em Joinville aos 75 anos.

Fonte:

Texto adaptado do jornal O ASSEMBLEIANO. Joinville, ano IV, p. 11. novembro de 1990.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Emidio Grangeiro, o esquecido

Na construção da historiografia, são vários os personagens que, por um motivo ou outro, ficam esquecidos. Uns de forma intencional. Outros talvez por descuido das novas gerações, as quais possuem a sensação de viver "numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem", como bem observou o historiador Eric Hobsbawm.

Um desses personagens é a pessoa do saudoso pastor Emidio Saraiva Grangeiro. Nascido no Ceará no dia 6 de maio de 1906, na localidade de Junco de São Pedro do Cariri, município de Várzea Alegre, Grangeiro início seu ministério no seu Estado natal, primeiro como presbítero. Em 11 de setembro de 1937 foi autorizado a trabalhar como evangelista, na cidade de Fortaleza. Em 21 de julho de 1943, na mesma igreja, foi ordenado pastor.

Emidio Grangeiro: morreu pobre e esquecido
Ainda no Ceará, pastoreou as igrejas de Riacho Verde, Afonso Pena, Serra de Donana, no município de Iguaçu, e Itapajé, onde construiu o 1º templo daquela cidade após três décadas da presença do pentecostalismo na região. Mas antes disso, pastor Emídio resolveu realizar o 1º culto na sede do município, pois havia em Itapajé em um dos seus bairros uma congregação da AD, mas o centro da cidade era carente de um local fixo para reuniões.

O culto foi marcado para o dia 25 de junho de 1946. Pastor Grangeiro, juntamente com alguns obreiros realizaram a reunião evangélica sob fortes ameaças de apedrejamento. Caso não fosse a intervenção de pessoas não crentes (um até com arma de fogo em punho), não conseguiriam seu nobre intento. 

Após esse incidente, Emídio alugou uma casa no centro da cidade e ali começou os cultos até a edificação de um templo próprio para a igreja. É notório ainda, que outros templos e obras foram realizados durante seu pastorado na região, mesmo em condições sociais e financeiras precárias.

Mais tarde, Emidio deixa a clima semiárido do nordeste e segue para Santa Catarina, onde serviu como pastor em Caçador (1952), Laguna onde construiu o 1º templo na cidade, inaugurado em 11 de junho de 1955. Pastoreou ainda em Tubarão (1961) e São Francisco do Sul. 

Pastor Emídio foi líder num tempo de muitas dificuldades ministeriais no território catarinense. Enfrentou algumas situações desagradáveis, teve que ser remanejado, sofreu injustiças. Por um período até ficou sem igreja para trabalhar, dependendo de ajuda de outros campos eclesiásticos para suprir sua renda.

Trabalhou também ao lado de seu irmão, Antonieto Grangeiro Sobrinho, o qual foi pastor em algumas cidades catarinenses. Ao ser jubilado pelo Ministério de Santa Catarina, recolheu-se à cidade de Joinville. Segundo o jornal O Assembleiano, pastor Emidio "viveu o resto de seus dias, pobre e esquecido pelos colegas". Um fim melancólico para alguém que tanto trabalhou na obra pentecostal. Morreu no dia 19 de junho de 1990 aos 84 anos.

Fontes:

O ASSEMBLEIANO. Joinville, ano IV, p. 11. novembro de 1990.

www.assembleiadedeusemitapaje.org