sábado, 31 de janeiro de 2015

Paulo Fidelis - pioneirismo no rádio em Pernambuco

Não é novidade entre os estudiosos das Assembleias de Deus a difícil relação da denominação com os meios de comunicação eletrônicos, principalmente o rádio e a televisão. Segundo o sociólogo Gedeon Alencar, as ADs por priorizarem a mídia escrita, principalmente o Mensageiro da Paz, e optarem por "uma tradicionalização receosa de toda e qualquer alteração e novidade", a denominação resistiu em aceitar o rádio como meio de evangelização, ou permitir que seus membros possuíssem um aparelho em casa.

Visto como "mundano" por possuir programações de entretenimento consideradas não apropriadas para os crentes, os debates sobre seu uso começaram na CGADB do ano de 1937 e se estenderam pelo menos até o final da década de 60, sempre com opiniões controversas entre seus líderes.

Em meio a essas polêmicas foi o missionário estadunidense Nels Lawrence Olson que começou em 1947 o primeiro programa de rádio dentro das Assembleias de Deus. Com a experiência adquirida nos EUA, Olson iniciou as transmissões direto dos cultos no templo da AD em Lavras (MG). Mesmo com grande repercussão e forte impacto evangelístico, o missionário sofreu forte oposição e críticas. Dentro da mentalidade assembleiana "ouvir rádio era pecado". Não foram poucos os crentes disciplinados e excluídos por terem ou ouvirem a perigosa "caixa mágica de som".

Fidelis: pioneirismo no rádio e ameaça de expulsão
Alexander Fajardo em seu mestrado - A atuação dos evangélicos no rádio brasileiro: origem e expansão - trata com muita propriedade em um dos capítulos da tese, a relação conflituosa das ADs com o rádio e aponta o pioneirismo do pernambucano Paulo Fidelis, o qual em 1966, na localidade de Jaboatão dos Guararapes (região metropolitana do Recife)na Rádio Veneza começou um programa chamado O Semeador, o qual na década de 80 foi rebatizado como Ide e anunciai.

Segundo Fajardo, o "pastor de Fidelis foi contra o rádio para pregação, o apresentador não foi excluído da Igreja, entretanto houve boicote contra seu programa". Numa típica reação denominacional da época, "os membros da Igreja eram orientados a não ouvir o programa". Porém, na firme convicção de estar realizando a Vontade Divina, Fidelis continuou com seu projeto evangelístico.

Passou por diversas emissoras, resistiu aos preconceitos e ameaças de expulsão e ainda hoje continua na sua missão evangelizadora. Conforme o relato de Fajardo, o veterano radialista atualmente auxiliado uma funcionária devido à avançada da idade, desloca para o estúdio uma vez por semana "onde grava os programas da semana toda".

A história desse pioneirismo local, é um exemplo do clima da época sobre o tema da radiodifusão. Iniciativas como a de Paulo Fidelis, fora do apoio institucional são consideradas "avulsas" e de pessoas que viam no sistema radiofônico não uma ameaça, mas um aliado a evangelização das massas.

Gradualmente, conforme os debates sobre o uso do rádio  avançaram, logo as ADs se viram em outra polêmica: a televisão, a qual igualmente gerou suas exclusões e fortes oposições da liderança, mas também com o passar do tempo teve seus pioneiros, e boas histórias para contar da Assembleias de Deus.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.


DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Alexander. A atuação dos evangélicos no rádio brasileiro: origem e expansão. São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, Dissertação de Mestrado, 2011.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Samuel Câmara - quebrando paradigmas

Nesses últimos anos, e nas últimas Convenções Gerais das Assembleias de Deus no Brasil, dois líderes têm polarizado os debates. De um lado José Wellington Bezerra da Costa pastor presidente do Ministério do Belém em São Paulo. Do outro, Samuel Câmara, líder da Assembleia de Deus, ou Igreja-Mãe em Belém do Pará.

Câmara: liderança precoce
Sempre no centro das polêmicas, Samuel Câmara é notícia pela sua aguerrida oposição ao atual presidente da CGADB. Mas em 1988, quando se tornou pastor da igreja em Manaus, sua ascensão chamou a atenção de muitos assembleianos pelo Brasil afora. Afinal não era todo dia, que um jovem de 31 anos assumia uma importante igreja. E ainda por cima sucedendo um veterano como o finado pastor Alcebíades Pereira Vasconcelos. Para muitos, desde então, o jovem Câmara já havia quebrado alguns paradigmas na conservadora Assembleia de Deus.

Nascido em 1957 na cidade de Cruzeiro do Sul (Acre), Samuel foi criado em um humilde lar evangélico. Com 14 anos já dirigia uma congregação da AD em Manaus. O então pastor da igreja Alcebíades via no adolescente um futuro promissor, e passou a investir no precoce talento ministerial. Essa atitude de Vasconcelos chamou a atenção do colunista do periódico joinvilense "O Assembleiano" (junho/julho de 1988), presbítero José Martins de Oliveira.

Oliveira, filho de pioneiros assembleianos na cidade de Tubarão (SC) era muito crítico da rigidez ministerial das ADs. Principalmente, a Convenção de Santa Catarina, a qual era notória pelas poucas oportunidades dadas aos jovens no ministério. Nesse contexto, o articulista destacou o fato de Alcebíades observar num moço "que não era seu filho - vocação para o ministério". E mais: "Assumiu os custeios de estudo do jovem Samuel Câmara" no Ibad, e o separou a evangelista e pastor sendo o mesmo ainda solteiro, permitindo que durante esse período "o jovem ministro concluísse três faculdades". Observava ainda o colunista que "mais tarde transformou o jovem pastor em vice-presidente da igreja que pastoreava. Simplesmente nobre".

Sim, causava surpresa um líder como Alcebíades investir em um moço tão tenro e precoce. Espanto maior (e isso está explícito no texto) foi a atitude da igreja que "empossou o discípulo fiel da presidência, em substituição ao velho herói, abonando a visão do pastor promovido à glória..."

Naquele momento - na visão do colunista - Samuel Câmara era um líder que reunia não somente as qualificações intelectuais, mas também o preparo teológico de um reconhecido instituto bíblico (antigamente chamado fábrica de pastores). Em uma igreja onde ainda havia muitas resistências ao estudo secular e teológico, o feito de Samuel era um exemplo muito atrativo aos que desejavam novos rumos para a denominação. 

Era um perfil desejado por muitos. Sendo jovem, carismático e promovendo mudanças significativas na igreja, Câmara quebrava paradigmas. Tudo isso dentro de um contexto assembleiano, que o sociólogo Gedeão Alencar chama de "tradicionalização", ou seja, a denominação durante muitos anos busca nas suas tradições forças para se diferenciar, e legitimar diante da sociedade e dos grupos concorrentes. Fica por isso engessada. Samuel seria então um renovo diante da rigidez assembleiana.

Alcebíades morreu exercendo a presidência da CGADB em maio de 1988. Foi sucedido por José Wellington, o qual, para o bem ou para o mal ainda permanece no cargo. Ironia que, atualmente Samuel Câmara tente ocupar o cargo que pertenceu ao seu mentor e líder de 28 anos atrás. Não seria outro paradigma a quebrar?

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

O Assembleiano - junho/julho de 1988.