sábado, 21 de fevereiro de 2015

Benjamim Matias - um obreiro do interior da Amazônia

Nascido no dia 30 de setembro de 1914, filho de um pernambucano e de uma alagoana que migraram para o Amazonas no início do século XX, Benjamim Matias Fernandes viu a Assembleia de Deus (a primeira no interior do Amazonas) nascer na casa de seus pais em 1925, na pequena localidade chamada Autaz Mirim. Pertenceu à primeira geração de obreiros da Assembleia de Deus no Amazonas. 

Ainda muito tenro, aos 11 anos de idade em 1925, Benjamim teve um experiência fundamental para sua futura vida de pastor e evangelista. Enquanto ralava mandioca na casa de farinha foi batizado com o Espírito Santo enquanto orava. Em 1938, iniciou sua carreira ministerial como auxiliar na igreja que viu surgir em sua simples casa em Autaz Mirim. Em 1946, já casado e com dois filhos pequenos foi ordenado evangelista em Manaus durante a escola bíblica com a presença do missionário Nels Nelson.

Pastor Benjamim Matias : pioneiro no interior do Amazonas

Por conta desse evento, o novo evangelista foi enviado ao campo de Sena Madureira, no Acre onde permaneceu até 1949, ali sendo ordenado ao ministério pastoral. Segundo seu neto, pastor Gedeão Menezes, o avô "certa vez, ao pastorear essa região, veio sozinho em uma canoa, remando e singrando os rios amazônicos até chegar a Manaus. Sua saga ao fazer esta viagem solitária e destemida durou 52 dias". Ainda segundo Gedeão, o pioneiro fez todo esse trajeto sozinho "com seu remo e com seu Deus. Comendo peixe salgado, com pirão feito com a farinha que levava e água do rio." Exausto da jornada "ao fim do dia, ele colocava a canoa pra cima do beiradão, armava sua rede em uma árvore alta. Dormia um pouco até as cinco horas da manhã quando prosseguia a viagem".

Do Acre, o missionário Nels Nelson o enviou para Boa Vista-Roraima. Assumiu o trabalho em janeiro de 1950 em substituição ao pastor Quirino Pereira Péres com um grande desafio. Segundo o próprio pastor Matias em relato ao Mensageiro da Paz (1ª quinzena de julho de 1952) "... um dos maiores problemas que tínhamos e o mais difícil, era a construção de um templo...". Conforme Isael de Araújo o jovem obreiro recebeu em Boa Vista "como patrimônio, uma casa coberta de palha de ananjá, paredes de taipa e chão batido". Diante dessa situação, a igreja foi incentivada a construir a sua casa de oração de alvenaria com capacidade para abrigar todos os crentes da localidade.

Benjamim (3º à direita): 50 anos de dedicação ao evangelismo
Foram muitos os obstáculos para se efetivar a construção, e a carência material era tão grande que Benjamim relatou: "...os nossos recursos são somente a fé em Deus e a boa vontade de glorificar Seu excelso nome". Essa disposição da igreja se revelou no belo trabalho dos membros, os quais transportavam os tijolos nas costas, "da olaria do bairro Calunga até a Av. Cecília Brasil, sempre à noite, nos dias em que não havia cultos, no horário das 19:00 às 22 horas hs". Apesar de todas as dificuldades, no Mensageiro da Paz, o empenhado obreiro constatou sobre a construção do templo: "para nossa alegria o vemos bem encaminhado para solução definitiva, pois os fieis servos do Senhor têm trabalhado com alegria nessa obra..."

Quando a construção ainda estava na altura da cobertura, em 1952, uma permuta com pastor Joviniano Lobato (sogro do pastor Túlio Barros Ferreira), o qual pastoreava a AD em Porto Velho (RO) levou-o para um novo desafio. Após quase três anos em Porto Velho, regressou ao Amazonas, para pastorear o Campo de Paraná do Barroso, onde permaneceu por 17 anos. De lá, pastoreou vários campos no Amazonas até retornar a Manaus para auxiliar o pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos. Porém, em 1978, sentindo arder na alma o desejo de enfrentar mais uma vez o desafio no interior amazonense, solicita ao pastor Alcebíades para retornar ao seu antigo campo de trabalho. Ainda presidiu dois campos, sendo o último, no município de Iranduba, onde encerrou suas atividades, sendo jubilado na Convenção Estadual de 1988, após longos anos de exitoso e fecundo trabalho. 

Durante todo esse tempo contou com o auxílio de sua esposa, fiel companheira, mulher de vida piedosa e de oração, chamava-se Maria de Oliveira Fernandes a qual mesmo apesar de suas limitações e enfermidades na criação de seus filhos, realizava cultos domésticos e os ensinava no caminho da firmeza e da fé. Com 8 rebentos e em meio a muitas necessidades, todos os seus filhos concluíram cursos superiores, destacando-se em várias áreas de conhecimento. Um de seus filhos foi deputado federal por três legislaturas e prefeito de Manaus. Outro foi deputado estadual e vereador. Sua filha mais velha foi Juíza do Trabalho. E os demais também se destacaram em carreira jurídica, área social e médica.

Foram muitos anos de evangelização percorrendo quilômetros a pé ou de barco. Locais onde a falta de recursos e a carência fazem do obreiro um verdadeiro e abnegado herói. Ainda segundo Gedeão, seu avô "era um estudioso da Bíblia. Tinha uma mensagem simples, segura, e com firmeza doutrinária". Sua fala mansa e direta revelava um obreiro típico do interior, acostumado às vicissitudes da vida ribeirinha. Pastoreou igrejas em locais que muitos ainda hoje não teriam coragem para enfrentar. 


Em 1996, aos 82 anos descansou das lutas e fadigas desta vida cumprindo o que o apóstolo Paulo escreveu em 2ª Timóteo 4:7 "Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé". Hoje sua história e ministério ficou para as gerações presentes e vindouras.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MENSAGEIRO DA PAZ. 1º quinzena de julho de 1952. Rio de Janeiro: CPAD.

Informações cedidas gentilmente pelo pastor Gedeão Grangeiro Fernandes de Menezes, neto do pastor Benjamim Matias e presidente da CEADTAM e IEADTAM com liderança destacada em 245 igrejas na cidade de Manaus e em todos os municípios do Amazonas e, também, nos estados do Pará, Roraima, Tocantins, Mato Grosso do Sul e Argentina Bolivia.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A polêmica do calvinismo na Assembleia de Deus

As recentes discussões na internet de pastores assembleianos sobre a teologia arminiana e calvinista, têm gerado algumas polêmicas, principalmente após o conhecido pastor e escritor Geremias do Couto posicionar-se como "calvinista convicto".

Porém, na década de 1930, as Assembleias de Deus já haviam se deparado com essa problemática. Segundo consta em sua história, no ano de 1932, Manoel Hygino de Souza, pastor da AD em Mossoró (RN) aderiu a "predestinação calvinista", sendo acompanhado por Ursulino Costa. Tempos depois, seu irmão Luiz Hygino também se incorporou ao grupo. A Convenção Geral chegou a enviar uma comissão de obreiros para tratar do caso, mas sem sucesso, pois Manoel Hygino afirmou manter integralmente seu ponto de vista teológico. Segundo a história oficial, uma vez excluídos, os "rebeldes" iniciaram em Mossoró a Assembleia de Cristo (atualmente Igreja de Cristo).

Entretanto, outra é a versão apresentada para o desentendimento dos obreiros por um site da Igreja de Cristo. Segundo os membros do grupo dissidente teria sido uma "divergência doutrinária" entre Gunnar Vingren e Samuel Nyströn a respeito da salvação, o real motivo desencadeador das discussões soteriológicas. Em continuação se afirma que, a CGADB em Natal (RN) em 1930 foi o "primeiro passo histórico, que evidenciou a divergência doutrinária existente". Divergência essa comprovada pelo fato de Vingren no Rio de Janeiro criar o jornal Som Alegre e o hinário Saltério Pentecostal.

Contornados os problemas entre Vingren e Nyströn - segundo essa versão - as contradições teológicas ainda continuaram no Mensageiro da Paz com textos que, ora defendiam a segurança da salvação através da fé, ora colocavam em dúvida essa mesma salvação. Um exemplo citado é um texto do missionário Nils Kastberg, onde o mesmo dá a entender que a salvação estaria condicionada ao dízimo. Hinos também são citados como fonte de confusão doutrinárias, causando "um grande choque entre os irmãos que pediram uma explicação".


Manoel Hygino: calvinismo e exclusão
Temerosos de errar na doutrina da "segurança e salvação eterna do crente genuíno", os irmãos elegeram Manoel Hygino como mediador, o qual em carta enviada ao missionário Kastberg, sugere uma convenção para tratar do assunto. Mas a resposta, além de demorada foi negativa. Na missiva Nils Kastberg, teria escrito que estava "de acordo com os ensinos da salvação condicional, e quem estivesse aborrecido que saíssem para onde quisessem...”

Como não poderia deixar de ser "diante desse impasse, e por não ter outra alternativa, todos os líderes acima mencionados, devolveram voluntariamente suas credenciais de Obreiros, à liderança da Assembleia de Deus, respectivamente de Pastores, Presbíteros e Evangelistas". No dia 13 de dezembro de 1932, o grupo dissidente fundou a Assembleia de Cristo em Mossoró.

Toda essa história evidentemente se choca com os relatos oficiais da CPAD. A versão, um tanto inusitada dessa questão foi dada pelo pastor João Vivente de Queiroz, o qual foi pastor da Igreja de Cristo em Fortaleza de 1946 a 1997. O depoimento coletado por David Marroque Teixeira foi publicado no Boletim Informativo da Região Oeste-RN., nº 09 de fevereiro de 1985.

Segundo os estudiosos das ADs no Brasil, a CGADB de 1930 tratou principalmente da questão do ministério feminino, o qual foi o grande desentendimento entre Vingren, Nyströn e os obreiros brasileiros. Mas é certo que Gunnar no Rio de Janeiro estava dando outros rumos para a igreja carioca, fato esse que estava desagradando os demais líderes da AD.

Mas também é fato que muitos dos primeiros crentes da AD tinham origem em igrejas evangélicas tradicionais como a Presbiteriana, conhecida por defender a doutrina calvinista. Manoel Hygino, além de ser pioneiro na região norte e nordeste era também muito próximo a Gunnar Vingren no início do seu ministério, e como os outros líderes era experiente na liderança ministerial. Sua adesão ao calvinismo causou surpresas.

Agora, após sete décadas da questão calvinista na AD, o tema ressurge com força nas redes sociais e blogs. O assunto talvez nunca tenha desaparecido, mas simplesmente abafado pelos principais pastores e expoentes das ADs. Em tempos de internet, aquilo que no passado era "tratado e resolvido", agora é fonte de debates abertos entre os estudiosos dos temas soteriológicos. Um bom debate com certeza.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


www.genibau.com.br/principal/nossa_historia_nacional.htm