quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ligações perigosas - política e igreja

Em 1993, um escândalo político atingiu um grupo de parlamentares do Congresso Nacional e foi batizado pela mídia de esquema dos "Anões do Orçamento". Tudo começou quando o ex-assessor parlamentar José Carlos dos Santos, preso por tramar a morte da esposa, resolveu denunciar um esquema de manipulação de verbas da União, no qual estariam envolvidos vários congressistas, entre eles o deputado evangélico Manoel Moreira.

O caso de Moreira chamou ainda mais a atenção da mídia, quando sua ex-esposa Marinalva Soares, filha do pastor da Assembleia de Deus em Campinas (SP), Marinésio da Silva Soares, motivada por interesses pessoais, resolveu denunciar o ex-marido por montar um esquema próprio de desvios de verbas. Mais interessante ainda foi para a imprensa na época, a divulgação sensacionalista da vida política e da ascensão social da família Moreira.

Conhecido popularmente como "Mané", o deputado Moreira casou-se com Marinalva em 1973. Segundo Veja (5 de janeiro de 1994), a princípio o futuro sogro foi contra o namoro, mas cedeu aos apelos insistentes do jovem apaixonado. Quando se casaram, Manoel e Marinalva fizeram uma festa com uma lua-de-mel simples e foram morar em um apartamento de dois quartos em Campinas. "Eram modestos e pobres" conforme observação da matéria.

Moreira na revista Veja: de modesto e pobre para milhões de dólares
Se a principio Marinésio foi contra o namoro, tempos depois viu qualidades no jovem e humilde sargento da Aeronáutica, tanto é que "pavimentou a primeira eleição do genro" (Folha de SP, 20 de novembro de 1993). Eleito suplente de vereador, Manoel mostrou habilidades políticas ao conseguir com a bancada do antigo MDB um sistema de rodízio de licenças para sempre assumir o cargo na câmara. Foi chamado para ser secretário da prefeitura de Campinas, e ganhou projeção para ambições maiores.

Em 1982, conseguiu se eleger deputado estadual pelo PMDB. Descrito pela Folha como um político de "prosa fácil, raciocínio rápido e uma humildade que conquistava os colegas", Moreira tornou-se líder do governo Franco Montoro na Assembleia Legislativa. Aproximou-se do vice de Montoro, Orestes Quércia em 1986, e com a vitória do mesmo foi recompensado com indicações para a Companhia Paulista de Força e Luz.

Ainda em 1986 foi eleito deputado federal como parte do esforço das ADs em conseguir eleger um número expressivo de evangélicos para a nova constituinte. Novamente, com certeza, o apoio de Marinésio foi fundamental para mais esse passo tão importante na carreira política. Em 1988 queria ser candidato a prefeito de Campinas. Para conseguir a indicação do PMDB para o pleito, Moreira valeu-se novamente da ajuda do sogro pastor na busca de novos filiados ao partido. Conseguiram a expressiva filiação "em massa dos seguidores da Assembleia de Deus ao PMDB". Foram mais de 9.000 em um único fim de semana. Entretanto, não ganhou a eleição marcada por cenas que, segundo a Folha trafegou "entre o dramático e o pastelão". As desavenças conjugais começaram em 90, e o resultado foram as denúncias e o desabamento da carreira política de Manoel Moreira.

Nesse ponto, Moreira e Marinalva já não eram mais "modestos e pobres". Em 20 anos de casamento, segundo Veja (27 de outubro de 1993), o casal "saltou do nada para um patrimônio reluzente". A lista de bens incluía "um apartamento em Campinas, avaliado em mais de 1 milhão de dólares, duas mansões e várias empresas". Uma das mansões ficava em Brasília e a outra em Campinas, na qual residia Marinalva e ostentava uma "cinematográfica piscina coberta". Na época o valor da mansão era avaliado em 2 milhões de dólares.

Ao denunciar o esquema do ex-marido, Marinalva também deixou potencialmente exposto para exploração midiática o apoio do pai e pastor da AD em Campinas Marinésio Soares ao deputado "anão". Evidenciou-se a conjugação de ambições familiares camuflados como defesa dos interesses da instituição religiosa, e o visível enriquecimento ilícito de alguém que foi eleito para "fazer a diferença" no meio político. Ou seja, o discurso de moralidade e representatividade sempre embutidos nessas candidaturas "cristãs", revelou-se apenas um apanágio para a ascensão social de uma minoria familiar.

Para a família Soares tudo desmoronou em pouco tempo. Revelou-se num curto espaço de tempo os bastidores, riquezas, tensões e falcatruas nada "evangélicas" dos líderes e "representantes" do povo crente. E se até aqui as coisas estavam ruins; ficaram piores. Tanto para Moreira, como para Marinalva e igualmente: Marinésio.

Fontes:

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994

Acervos digitais da revista Veja e do jornal Folha de São Paulo.

Para maiores informações basta acessar os arquivos digitais.

sábado, 4 de abril de 2015

Pastor Marinésio - o começo do fim

Brasil, início dos anos 90. As Assembleias de Deus no Brasil viviam dias alvissareiros. Desde meados da década de 1980, a denominação se descobriu como grande força política do país. Da marginalização social e religiosa para o Congresso Nacional e a Constituinte. Seus líderes estavam eufóricos e seus membros orgulhosos pelo sucesso nas urnas. Foram 13 deputados federais eleitos em 1986, evidenciando a força política da denominação.

Porém, o mundo não é perfeito, o clima de ufanismo aos poucos foi se desvanecendo, e aqueles que um dia surgiram como promessa de regeneração política do país tornaram-se fonte de constantes preocupações e vergonha para os crentes comprometidos com o evangelho.

Uma das histórias mais emblemáticas de todo esse processo de desencanto com o mundo da política, ocorreu na cidade de Campinas (SP), onde as ADs se viram diante de um escândalo de proporções nacionais. Um caso que revelou a promiscuidade das relações entre a liderança eclesiástica e a política partidária, situações que ainda permanecem nas estruturas do poder assembleiano.

Durante os anos de 1972 até 1995, a AD em Campinas - ligada ao Ministério do Belenzinho (SP) - esteve sob a responsabilidade do pastor Marinésio Soares da Silva. Filho mais novo de uma prole de onze rebentos de um lavrador pobre, Marinésio nasceu no interior da Paraíba. Convertido ao evangelho tornou-se obreiro e pastoreou igrejas da AD por muitos estados, até que em 1972 deixou a igreja da Lapa em São Paulo para assumir o rebanho em Campinas.

Templo da AD em Campinas: crise nos anos 90
Com 600 membros e poucas congregações a igreja era promissora. Sendo um centro industrial, com perspectivas de crescimento, Campinas entre a década de 1970/80 viu praticamente sua população dobrar. Com estratégias evangelísticas e boa gestão administrativa, pastor Marinésio aproveitou o boom de crescimento da cidade e fez paralelamente a denominação se expandir.

Dois anos após assumir o campo, pastor Marinésio conseguiu a autonomia administrativa da igreja, a qual apenas uma congregação ligada a AD do Belenzinho (SP), na época pastoreada por Cícero Canuto de Lima. De estilo conservador e autoritário, se adaptou aos novos tempos, sobreviveu as mudanças na denominação, e se tornou um dos obreiros mais influentes no Belenzinho.

Em 1978, num sinal de inequívoco de crescimento e riqueza, a igreja inaugurou seu novo templo sede com capacidade para mais de três mil pessoas. Considerado "um dos mais belos e funcionais do Brasil" (MP novembro de 1978), sua inauguração foi um momento apoteótico. Com a presença de destacadas lideranças civis e eclesiásticas, as quatro portas principais da nova casa de oração foram abertas por pastores de ministério expressivo dentro das ADs. Cicero Canuto de Lima pelo Ministério do Belém (SP), João Batista da Silva de Natal (RN), José Bezerra da Silva (RJ) e o missionário Eurico Bergstén representando a missão sueca.

Segundo ainda a matéria do Mensageiro da Paz, a igreja em Campinas desfrutava de "elevado conceito" na cidade, fato comprovado pela doação do terreno feito pela prefeitura e o nome da rua onde se encontrava o templo ter sido batizada de Cícero Canuto de Lima. Mais que homenagens inocentes, as ações do poder local lideradas por Orestes Quércia revelava as íntimas ligações do líder da AD com a política local.

Quando as ADs se organizaram para lançar candidatos próprios a Assembleia Nacional Constituinte em 1986, pastor Marinésio optou por fazer algo que se tornou corriqueiro nas ADs: buscou um nome muito próximo ou alguém da própria família para "representar" a igreja. No seu caso, o veterano pastor apoiou o genro Manoel Moreira, casado com sua filha Marinalva. A eleição de Moreira foi um sucesso, aumentando ainda mais o prestígio do líder assembleiano.

Tudo parecia estar dando certo. A igreja era próspera, o genro deputado constituinte, e pastor Marinésio tinha influência política no Ministério, com a família bem colocada na sociedade. Como bem observou o sociólogo Paul Freston, a trajetória da família Soares no ministério assembleiano simboliza de forma cabal a metáfora da "escada rolante" do pastorado, ou seja, a gradativa ascensão social dos membros da casta sacerdotal.

Porém, as ambições desmedidas, e o jogo de interesses mesquinhos e mundanos fizeram que o "elevado conceito" da igreja virasse pó. No ano de 1993, políticos brasileiros foram atingidos por uma série de denúncias. Um escândalo de desvio de verbas do orçamento da União levou a formação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), a qual investigou 37 parlamentares, entre eles Manoel Moreira.

O grupo de congressistas que foi investigado, com alguns cassados e outros inocentados, ficou conhecido na imprensa como os "anões do orçamento" (devido à baixa estatura dos mesmos). Moreira passaria ileso das acusações, até que para sua desgraça Marinalva (agora sua ex-esposa) veio a público denunciar as armações do deputado evangélico e ex-marido. Começou nesse ponto o princípio do fim para o ministério de Marinésio da Silva Soares...

Fontes:

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, novembro de 1988.


http://confradesp.blogspot.com.br/2014/07/parte-para-eternidade-o-pastor.html