sábado, 27 de junho de 2015

Paulo Macalão e o político "esquerdista"

Paulo Leivas Macalão foi sem dúvida um grande pioneiro nas Assembleias de Deus no Brasil. Evangelizou os subúrbios do Rio de Janeiro, expandiu e consolidou seu ministério em várias cidades e regiões do país. Tornou-se um personagem mítico ainda antes da sua morte em agosto de 1982. Quando seu nome é pronunciado, à lembrança que vem para muitos é do seu conservadorismo em relação a usos e costumes e  de suas composições e versões para o hinário das ADs, a Harpa Cristã.

Mas, há outro lado não muito explorado pela historiografia oficial: as relações do pioneiro com "gente graúda" da sociedade secular. Não é novidade que pastor Paulo era de família militar, e segundo o sociólogo Paul Freston ele "sempre cultivou vínculos" com os mesmos. Mas a foto dessa postagem revela um contato um pouco mais além do líder de Madureira com os "senhores" desse mundo.

Macalão e Café Filho: aproximação inusitada

Nela, Macalão acompanhado de sua esposa Zélia Brito Macalão, entre outros visita (ou recebe a visita), de João Augusto Fernandes Campos Café Filho, ou simplesmente Café Filho. Para quem não sabe, Café Filho assumiu a presidência da República em um momento dramático da história do país, quando Getúlio Vargas em meio a uma crise política suicidou-se em 24 de agosto de 1954. O político originário do Rio Grande do Norte havia sido eleito vice-presidente na chapa que alçou Vargas novamente à presidência do país pelo voto popular em 1950.

Não se sabe, porém, se a visita e a entrega da Bíblia ao proeminente político foram antes ou depois de sua ascensão ao cargo máximo da República brasileira. Pode ter sido o momento em que, o conhecido líder da AD em Madureira convidou Café Filho para desatar a fita simbólica na inauguração do templo sede de Madureira no dia 1º de maio de 1953. O então vice-presidente não compareceu as celebrações, mas enviou para essa honrosa tarefa o coronel Sérgio Marinho.

Há outro detalhe que não pode ser ignorado. Café Filho, ao assumir a presidência com o suicídio de Vargas, tornou-se o primeiro presidente de filiação protestante do Brasil. O político potiguar havia sido criado em uma Igreja Presbiteriana, mas ao contrário de muitos dos seus irmãos de fé, posicionava-se de forma polêmica em alguns assuntos que até hoje são considerados caros para os evangélicos.

Segundo o biógrafo de Getúlio, o jornalista Lira Neto, Café Filho chegou a vice-presidência através de uma imposição do governador Ademar de Barros ao político gaúcho, como condição para apoiá-lo no Estado de São Paulo. Lira Neto ainda informa que, o vice de Vargas era bem "avaliado pela imprensa" e considerado "como um dos melhores e mais atuantes parlamentares daquela legislatura". Entretanto seu nome não agradava aos militares pois era visto como um "político de tendências esquerdistas" e "possuía histórico suspeito pelos senhores da caserna".

O motivo? O político presbiteriano denunciara o golpe do Estado Novo 1937 (feito pelo próprio Getúlio com ajuda dos militares), e defendera o Partido Comunista do Brasil e seus parlamentares quando os mesmos tiveram seus mandatos extintos em 1948. Ainda segundo Lira Neto: "Como não bastasse, (Café Filho) era evangélico e defensor do divórcio, o que o deixava mal, com a Igreja".

"Nenhum católico poderá votar no sr. Café Filho". Essa foi a determinação da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, atendendo ao parecer da Liga Eleitoral Católica (LEC), uma organização civil-religiosa que "se arrogava o direito de vetar e aprovar candidatos". A liga, além de recomendar os eleitores católicos a não votar no deputado potiguar, ainda moveu uma grande campanha contra ele, com o objetivo claro de atingir Getúlio. 

Diante de tal quadro político-eclesiástico, a simpatia do pastor pentecostal Paulo Leivas Macalão por Café Filho, o qual era considerado persona non grata para grande parte dos militares, católicos e evangélicos é algo inusitado. E como esta possível aproximação com um político evangélico, que defendia o divórcio e os "terríveis" comunistas foi recebida por seus companheiros de ministério?

Até onde se sabe, pastor Paulo não foi excluído por isso, nem chamado de herege, ou taxado de comunista como seria nos dias de hoje. Mas suas ligações com políticos controversos lhe cobrariam um preço. Mas isso é outra história. Aguarde!

Fontes:


ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. Cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.


FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

NETO, Lira. Getúlio: Da volta pela consagração popular ao suicídio (1945-1954). São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

O desmoronar de um ministério

Pastor Marinésio da Silva Soares liderava uma igreja promissora. Inaugurou em 1978, o templo sede da AD em Campinas considerado "um dos mais belos e funcionais do Brasil". Politicamente mostrou força ao conseguir eleger seu genro, Manoel Moreira para deputado federal constituinte, e como consequência, sua família ascendia na sociedade.

Mas, a separação tumultuada da filha do então deputado Moreira se revelou um desastre para todos. As denúncias da "Musa" da CPI do Orçamento atingiu em cheio Manoel Moreira. Sua cassação seria inevitável, mas renunciou para evitar a perda dos direitos políticos. Contudo, o interesse midiático em sua inusitada carreira política promoveu uma devassa em sua vida particular, onde se viu que o humilde cabo da aeronáutica, em pouco tempo tornou-se um rico proprietário de mansões cinematográficas. A separação litigiosa igualmente recebeu destaque, pois afinal a sua "ex" agora revelava suas falcatruas nada evangélicas.

Como resultado desse revés familiar, acusações mútuas de infidelidade foram a tônica nos jornais e revistas. Em consequência dessa "lavação de roupa suja" em público, o próprio pai a disciplinou da igreja. Na matéria da Folha de SP (18/12/1993), Marinalva teria declarado que "seu pai decidiu pela suspensão para poupá-la das pressões que vinha sofrendo dentro da igreja". E não só isso. Segundo ela, a decisão envolveria também "uma disputa pela coordenação das igrejas na região de Campinas", na qual o pastor José Wellington Bezerra da Costa estava no páreo.

É fato que, entrando em desgaste com seu eleitorado em Campinas (provavelmente por causa da separação com Marinalva), Moreira aproximou-se de José Wellington, e conseguiu apoio para sua reeleição fazendo dobradinha com Joel Freire, filho do líder da AD em São Paulo. Tal aliança se tornou problemática para Marinésio, pois começou a ser pressionado pela cúpula do Belenzinho. Segundo fontes, Manoel Moreira viabilizava recursos para trabalhos sociais do ministério paulista, e era um dos únicos obreiros a ser recebido pelo pastor Wellington sem necessidade de agendamento.


Marinalva: de Musa da CPI a pecadora

Com Moreira do outro lado da trincheira, Marinésio resolveu bancar a candidatura da filha. Confiante na fidelidade eleitoral de mais dos 20 mil membros da AD campineira, o veterano obreiro se lançou abertamente e sem nenhum pudor a caça de votos para Marinalva. Tanto que a Folha (04/10/1994) o descreveu como o seu "principal cabo eleitoral". Declarava abertamente que havia visitado "dezenas de igrejas fazendo campanha" para a filha. Acreditava que ainda desfrutava "de um grande conceito na sociedade".

Ledo engano. A "resposta" das urnas destruiu esse autoconceito de Marinésio. A filha, a quem apoiou de forma irrestrita, não conseguiu se eleger. Marinalva, mesmo com os holofotes da mídia em torno de si não conseguiu um lugar no legislativo federal. Conseguiu menos de 4 mil votos, restando a Marinésio somente apoiar o candidato Francisco Rossi ao governo do estado de São Paulo no 2º turno. Rossi chegou a visitar a AD em Campinas, mas foi derrotado pelo candidato do PSDB, Mario Covas.

Mas o que era ruim, infelizmente piorou, e muito. Meses depois, uma matéria de cunho sensacionalista de Veja (15/02/1995), revelava ao Brasil um enorme escândalo eclesiástico e político. Na matéria intitulada Marinalva a pecadora, a revista narrava para espanto de muitos, um golpe tramado contra a igreja para sanar dívidas assumidas na campanha eleitoral pela candidata "evangélica". Segundo informações levantadas, "ex-senhora" Moreira teria vendido até sua mansão com o intuito de pagar débitos milionários.

Em meio a crise, na tentativa de ajudar a filha, o veterano obreiro comunicou a igreja uma doação milionária de uma entidade evangélica americana no valor de 6,8 milhões de dólares. A doação seria através de um banco com sede na Costa Rica, e para receber o cheque (e a provável doação), era necessário remunerar primeiro os benfeitores. Esse adiantamento seria de 2 milhões de dólares em troca do cheque.

Todavia tudo se revelou um golpe. A entidade, o banco e a doação eram falsos. A única coisa verdadeira nessa história toda foi os 2 milhões de dólares que saíram dos cofres da igreja. Porém, os obreiros da igreja perceberam incoerências no processo e investigações policiais comprovaram uma série de falcatruas e de lances sórdidos para se angariar recursos de forma escusa. Com resultado, a igreja teve títulos protestados em cartório, e templos penhorados.


Congregações da AD em Campinas empenhoradas

Em meio ao vendaval de denúncias, pastor Marinésio foi afastado da direção da igreja. Se o pastor José W. Bezerra da Costa buscava ocasião para lhe tomar o campo, a oportunidade se cristalizou. Afastado da liderança, Marinésio voltou a sua região de origem, vindo a falecer em 2014 na cidade de Natal (RN), aos 84 anos. Pastor José Wellington deu posse então ao seu filho Paulo Freire da Costa no comando da igreja, onde permanece até os dias de hoje.

A triste história somente confirmou para muitos o que já se suspeitava: que as imbricadas relações entre a política partidária e famílias pastorais estavam (e estão) recheadas de interesses mesquinhos, desejos e negócios inconfessos, e de atitudes de fazer corar muitos "pecadores". Os fatos desse lamentável episódio ocorrido há 20 anos, ao que parece não serviu de alerta para que a denominação fizesse uma reflexão sobre suas práticas políticas. Na prática o que a liderança resolveu fazer de eficaz foi uma "operação borracha" no caso.

Ironicamente, Paulo Freire da Costa, o atual líder da AD em Campinas e sucessor de Marinésio, hoje acumula o cargo de pastor da AD em Campinas e de deputado federal. É de se perguntar como a igreja campineira viu mais essa empreitada política de um líder local? Ou interesses "maiores" se sobrepuseram a vontade dos membros?

Fontes:

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994

Para maiores informações basta acessar os arquivos digitais da revista Veja e do jornal Folha de São Paulo. Muitos outros detalhes lá se encontram preservados para curiosos e pesquisadores da história assembleiana e evangélica em geral.