sábado, 25 de julho de 2015

Costa x Costa - a luta pela AD no Ceará (3ª parte)

A Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil realizada na cidade do Recife (PE), entre os dias 19 a 25 de novembro de 1962, absolutamente não foi um concílio dos mais amenos para a denominação. Começou com duras críticas do pastor Alcebiades Vasconcelos as convenções passadas por se mostrarem "reuniões estéreis e sem objetivo claro e construtivo", passando pela ausência do líder de Madureira Paulo Leivas Macalão, insatisfeito com certos problemas tratados naquela mesma CGADB.

Na tarde do dia 20, depois do debate de vários assuntos e da resolução de impasses ministeriais, o presidente da mesa diretora da CGADB, pastor Antônio Petrolino dos Santos "levantou um clamor com todos os convencionais" em favor da AD em Fortaleza (CE), a qual apresentava "sérias dificuldades". Diante da situação de instabilidade e beligerância instaladas na terra do Padre Cícero, pode-se afirmar que o pastor Antônio Petrolino foi generoso em suas palavras.

As "sérias dificuldades" tiveram início quando o então líder da AD em Fortaleza, pastor José Teixeira Rêgo faleceu em 05 de dezembro de 1960, não concluindo ou legitimando seu processo de sucessão ministerial. Segundo o historiador da AD cearense Ruben Maciel "no calor da hora" o vice-presidente e genro Luiz Costa "chegou a assumir a direção da igreja, posição que não poderia sustentar devido à sua investidura no cargo de deputado estadual".

Porém, mesmo não assumindo a liderança da igreja, Luiz permaneceu como membro do Conselho Deliberativo "acompanhando de perto as decisões que ditariam o futuro do patrimônio do qual, possivelmente, ele se via como herdeiro imediato, e único capacitado". Contudo, não era esse o pensamento de muitos membros do ministério, desfavoráveis "à politicagem" no interior da igreja. Este grupo de homens "marcados pela herança do sertão cearense", de tradição e valores conservadores, pretendia conduzir ao poder um representante dos seus ideais.

Cohen entre obreiros no CE: "encruzilhada"

Neste contexto, o nome de Emiliano Ferreira da Costa surge como alternativa a sucessão. Dois anos antes ele havia sido enviado de Fortaleza para Itapajé, no que parece ter sido uma manobra do pastor Rêgo para afastar um possível concorrente do genro. As tensões provocadas entre grupos antagônicos no seio da igreja exigiu uma intervenção externa. O missionário Nels Nelson, presidente de honra da igreja, optou por conduzir ao cargo de pastor da AD no Ceará o experiente Armando Chaves Cohen, o qual na época gerenciava a CPAD no Rio de Janeiro.

Cohen resiste bravamente apenas um ano na liderança da AD no Ceará. Tempos depois em sua autobiografia, pastor Armando com pesar relatou que "havia boa vontade, pelo menos da minha parte e do irmão Nelson; só queríamos ser úteis e servir o Senhor". Mas reconheceu que o caso da AD alencarina era uma daquelas "encruzilhadas que dificultam a vida do obreiro". Ruben Maciel especifica que:
Longe de se concretizar como solução "divina", Armando Cohen se viu enredado num circuito de interesses políticos e de brigas antigas, que desconhecia e não tinha condições de atenuar. Sua chegada, em 20 de janeiro de 1961, apenas retardou o processo de esfacelamento irreversível da unidade denominacional. Certamente, sua indicação não agradou a ambas as alas, obrigando-as a optar por uma delas, sem que detivesse apoio incondicional.
Ainda segundo o historiador cearense, os registros dos anais da AD informam que Luiz Costa, apesar de ter perdido o co-pastorado da igreja, se esforçava para controlar Cohen que resistia as manobras. Começaram a medir forças. O ex-gerente da CPAD não apoia a candidatura de Luiz para mais uma legislatura estadual causando descontentamentos entre seus aliados. Estes por sua vez, iniciam uma campanha exigindo o afastamento do pastor Armando. A hostilidade é forte, e o clima de insegurança maior ainda. Maciel comenta que a permanência de Cohen na liderança da igreja "ao invés de neutralizar as hostilidades ministeriais, incendiou de vez a luta política pelo controle da instituição".

Dessa forma, Cohen deixa o cargo em 08 de fevereiro de 1962. Oficialmente atendendo um convite da igreja Belém do Pará. Entrega a liderança para o pastor Emiliano Ferreira da Costa, que estava em Itapajé, onde a AD cearense teve sua gênese. Ele que, anos antes havia sido remanejado de Fortaleza para o interior, agora retorna e, ao contrário de Armando Chaves Cohen, sabia muito bem com quem estava lidando.

As "sérias dificuldades" se agravariam cada vez mais de agora em diante. Além da sucessão pastoral, outros fatores se revelariam alvo das discórdias. Mais um capítulo de turbulência seria escrito na história da AD no Ceará. Nels Nelson morreu infelizmente sem ter visto a pacificação, a qual ainda estaria longe de ocorrer...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

COHEN, Armando Chaves. Minha Vida: autobiografia de Armando Chaves Cohen, 1985 [S.l.: s.n.]

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRANKLIN, Ruben Maciel. A Chama Pentecostal chega à Terra da Luz: Breve História das Assembleias de Deus no Estado do Ceará 1914-2014. Pindamonhangaba: IBAD, 2014.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Costa x Costa - a luta pela AD no Ceará (2ª parte)

A morte do pastor José Teixeira Rêgo precipitou a sucessão que, em tese, deveria ser conduzida e controlada por ele mesmo. Sem a presença e autoridade conciliadora, a igreja testemunhou uma verdadeira guerra de interesses e luta pelo poder político-eclesiástico no Ceará.

De um lado, o representante do pentecostalismo moderno e urbano, o deputado estadual, advogado, pastor e genro do "apóstolo de Ceará", Luiz Bezerra da Costa. Do outro, o pastor Emiliano Ferreira da Costa, que não contava com um currículo secular tão expressivo como seu opositor, mas era o representante legítimo do pentecostalismo rural. No centro da disputa, o controle da igreja, e ao que tudo indica outras coisas mais.

O jovem Costa: pastor e deputado

Segundo o historiador Ruben Maciel, a própria perpetuação do mítico "apóstolo do Ceará", pastor José Teixeira Rego no comando da igreja já era alvo de contestações. Nos últimos anos antes da sua morte, o veterano obreiro preparava a sucessão, e claramente o nome do seu genro Luiz Costa despontava como seu herdeiro ministerial.

Luiz tinha uma carreira secular e profissional muito ativa na comunidade de Fortaleza. No período, em que eram raras as investidas de crentes na seara política, o jovem Costa construiu sua base eleitoral junto à igreja. E isso sem dúvida com o consentimento do sogro, que provavelmente via nesse apoio uma forma de trazer recursos e projeção social para a denominação.

Se ainda hoje as relações política e igreja trazem verdadeiros "calafrios" para muitos crentes, é de se imaginar como a igreja de Fortaleza viu essa proximidade há mais de 50 anos. E pode-se refletir, como a igreja também observou a ascensão ministerial de Luiz Costa, a qual diga-se de passagem foi rápida para os padrões da época. Maciel relata o teor de uma carta remetida por um adversário de Luiz, contestando a ordenação do jovem deputado, o qual "Sem condições de ser indicado por uma convenção plenária, foi graciosamente ordenado evangelista, em 1960, de modo inesperado...". Essa separação teria sido feita oportunamente durante uma visita do missionário sueco Nels Nelson a Fortaleza.

Ainda segundo o historiador da AD cearense, comentava-se sobre a "formação de um movimento subversivo que reivindicava o adiantamento da aposentadoria de José Teixeira Rêgo, alegando sua velhice e seus problemas de saúde". Logicamente que o grupo ligado ao pastor Teixeira Rego, também sustentava todo um discurso de defesa e legitimidade das ações do seu líder, mas fica evidente em todo o contexto as tensões dentro da comunidade pentecostal.

Talvez por isso, pastor Emiliano Ferreira tenho sido transferido nessa época de Bela Vista, que era a principal congregação do campo, para a região de Itapajé. Com histórico identificado com a ala mais tradicional da igreja, sendo líder em potencial - provavelmente uma das principais vozes contra a "modernidade" representada por Luiz Costa - Emiliano tenha sido visto como ameaça aos planos sucessórios e familiares do então pastor-presidente da AD cearense.

Refletindo sobre todo esse contexto de tensões e diferenças, Ruben Maciel observou:
Nos últimos anos da década de 1950, a pólvora estava despejada nas salas de reuniões, nos templos e, talvez, pelos campos do interior pertencentes à denominação. O "estilo cearense" erigiu lideranças fortes e autônomas e heterogêneas. Faltava apenas um evento para acender a chama. No dia 5 de dezembro de 1960, antes de ordenar seu genro à direção geral da instituição, José Teixeira Rêgo faleceu em um acidente automobilístico.
Na periodização do jovem historiador, a morte do "apóstolo do Ceará" foi o fim dos anos de "comunhão" da AD alencarina. O que viria a seguir, seria a oposição acirrada de parte do ministério as pretensões do Dr. Luiz Costa de assumir a igreja de Fortaleza. E um nome entre todos se destacaria: Emiliano F. da Costa.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


FRANKLIN, Ruben Maciel. A Chama Pentecostal chega à Terra da LuzBreve História das Assembleias de Deus no Estado do Ceará 1914-2014. Pindamonhangaba: IBAD, 2014.

sábado, 11 de julho de 2015

Costa x Costa - a luta pela AD no Ceará (1ª parte)

Na década de 1960, a AD no Ceará passou por uma crise sucessória traumática e de desdobramentos catastróficos para a unidade da igreja. Polarizando a forte disputa pelo controle do rebanho, dois líderes regionais de destaque: Emiliano Ferreira da Costa e Luiz Bezerra da Costa, que para ironia da história assinavam com o mesmo sobrenome, mas estavam em trincheiras opostas na luta pelo controle da AD cearense.

Primeiro uma breve biografia dos protagonistas: Emiliano nasceu em 1917 em Natal (RN), em um lar presbiteriano. Em 1932 esteve pela primeira vez no Ceará para trabalhar na construção de rodovias (BR-116 e BR-222), retornando em 1944, e fixando residência em Caracanga (Itaitinga). Filia-se a AD após seu regresso ao Ceará, sendo batizado em águas pelo pastor José Teixeira Rego em 1945. Consta ainda, que Emiliano ao se transferir para Fortaleza começou a auxiliar o pastor José dirigindo a igreja de Bela Vista até o ano de 1958. De Bela Vista seguiu para a cidade de Itapajé, local onde se iniciou a AD cearense.

Luiz nasceu em 1927 em Lacerda, município de Quixeramobim (CE). Em 1943, ainda na adolescência converteu-se na AD em Fortaleza. De família de comerciantes, o jovem Costa avançou nos estudos, formou-se em Direito e ingressou na política sendo eleito deputado estadual por três mandatos. Nessa posição de destaque controlava nomeações de autarquias estaduais, e mantinha negócios imobiliários. Paralelamente, participava com afinco das atividades da igreja. Nesse tempo contraiu núpcias com a única filha (adotiva) do pastor líder da AD em Fortaleza. Sendo separado para o ministério, auxiliou o sogro na AD central e (como Emiliano) dirigiu a congregação de Bela Vista.

Emiliano e Luiz: líderes rivais no Ceará

Em comum entre os dois ministros, além de assinarem com o mesmo sobrenome (Costa), está o fato de terem trabalhado juntos na igreja matriz em Fortaleza com o pastor José Teixeira Rego, e de fazerem parte do mesmo ministério durante muitos anos. Coincidentemente lideraram a mesma igreja (Bela Vista), que era na época uma das principais congregações da AD na capital.

Porém eram de origens sociais diferentes. Emiliano era homem de profissão humilde e segundo notas biográficas foi ao Ceará por inspiração divina (uma visão), e teve uma ascensão ministerial moderada. Começou como auxiliar em 1945, foi separado a presbítero em 1953, e em 1958 pastor. Já Luiz, como se observou, conquistou formação universitária, cargos políticos e uma boa visibilidade social para a época. Sua carreira ministerial, ao contrário do colega Emiliano, foi mais rápida: de presbítero em 1956, Luiz Costa passou rapidamente a evangelista e a pastor. Em 1960, já era vice do seu sogro na AD central e dirigia a congregação de Bela Vista na capital, sucedendo ao seu futuro rival no comando da igreja.

Eram conhecidos e se conheciam no ministério. Duas lideranças que segundo o historiador Ruben Maciel representavam dois tipos de pentecostalismo: o rural (Emiliano), e o urbano (Luiz). Dois obreiros que conviveram longamente com o chamado "apóstolo do Ceará" José Teixeira Rego, mas que desenvolveram um antagonismo que jamais foi superado, e se manifestou ferozmente com a morte do líder da AD no Ceará.

Durante 30 anos, José Teixeira Rego liderou a igreja no Ceará. Quando assumiu o rebanho assembleiano, a denominação era incipiente, perseguida e sectária. Ao morrer, a igreja já era a maior denominação evangélica na região, com uma membresia diversificada, e consequentemente com maiores recursos financeiros, porém com um grupo ainda muito apegado a tradição dos pioneiros. Para Maciel, pastor Teixeira Rego aglutinava essas tendências, conciliava as tensões e sua morte abriu "um vácuo quase que intransponível".

Com o desaparecimento em 1960, do líder mediador, a polarização foi inevitável. Debaixo das asas do pioneiro, Emiliano e Luiz conviveram e construíram suas carreiras ministeriais. Luiz, mais do isso: com o apoio explícito do sogro ingressara na política e se preparava para a sucessão do mesmo, cuja saúde já estava fragilizada. O jovem deputado e pastor Luiz Costa, talvez não contasse para seu infortúnio com a relutante oposição de outro Costa.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


FRANKLIN, Ruben Maciel. A Chama Pentecostal chega à Terra da LuzBreve História das Assembleias de Deus no Estado do Ceará 1914-2014. Pindamonhangaba: IBAD, 2014.