quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Usos e Costumes nas ADs

Usos e costumes nas Assembleias de Deus. Eis um assunto controverso e polêmico. Acreditou-se por muito tempo na preservação dos costumes por longo período. Segundo Isael de Araújo no Dicionário do Movimento Pentecostal os "usos e costumes estiveram profundamente arraigados à própria imagem que os pentecostais faziam de si mesmos". Para o autor "os usos e costumes formam [ou formavam] a identidade estética" dos pentecostais brasileiros.

As novas gerações de assembleianos desconhecem praticamente a lista de restrições dadas e cobradas dos crentes antigos. Alguns até fantasiam a igreja antiga como uma comunidade mais "santa", onde servir a Deus "era melhor". Mas antigamente as coisas eram melhores? Não há uma resposta exata. Cada geração de crentes experimenta coisas boas e ruins, vantagens e desvantagens em seu tempo. Mas vale lembrar que, a sociedade em si também era mais conservadora e despojada de luxos e consumismo. Ou seja, muitos dos costumes foram herdados da própria sociedade na qual estava inserida a igreja, e conservados na instituição enquanto o "mundo" exterior se transformava.

Crentes de Madureira em 1953: usos e costumes em alta

Memórias das Assembleias de Deus selecionou alguns relatos sobre os costumes antigos. Lógico que os usos e costumes dependiam da região e ministério no qual o crente estava localizado. Mas vamos a uma pequena amostra das "doutrinas ferozes" como dizia o pastor Epaminondas.

Ela [a igreja] exigia, por exemplo que os homens usassem chapéu e as mulheres usassem meia. Eles colocavam um porteiro na porta: 'Dá licença, irmã'. Se a irmã não tivesse meia, podia voltar (...) Isso criou muito embaraço para a igreja". (Pastor Ducler de Oliveira em entrevista a Ricardo Mariano) 
A Assembleia de Deus do Brás, por exemplo, na época tinham uma doutrina rigorosa. Tinham que usar chapéu, usar gravata. A mulher não podia andar de sapato aberto, tinha que usar fechado, manga no braço até embaixo... (Kalil Luta membro da AD do Belezinho e político em entrevista a Ricardo Mariano) 
Algumas características  acentuadas do Ministério de Madureira que divergiam das igrejas da Missão é que eles iam longe demais na questão de usos e costumes bem mais do que a Missão. Eles faziam restrições até absurdas como, por exemplo, não tomar banho de sabonete para não ficar cheirando perfume, que isso era vaidade, desodorante nem pensar. Você não podia usar roupa que tivesse qualquer traço vermelho ou gravata vermelha também. Era absurdo, porque estava brincando com o sangue de Jesus. (Pastor Valter Brunelli em entrevista a Ricardo Mariano)
Se algum crente bebesse guaraná ou qualquer outro refrigerante, eu o excluía. Para mim, as mulheres deveriam andar com as mangas dos vestidos fechadas até o punho, e as saias bem abaixo dos joelhos. Os cabelos até podiam ser trançados, mas sem qualquer enfeite. Sapatos, só de salto baixo, e não podiam usar cinto. Os homens deviam vir ao culto de terno e gravata(Epaminondas José das Neves em entrevista ao jornal O Assembleiano - out/nov de 1991) 

Ainda segundo o pastor Epaminondas, um dia na cidade paranaense de Ibiporã encontrou os pastores Artur Montanha, Satyro Loureiro e João Ungur tomando refrigerante num bar. Ficou escandalizado e pensou "Esses catarinas não são crentes, não têm doutrina".

Segundo depoimento de crentes do Rio de Janeiro, Paulo Macalão não permitia os membros de Madureira tomar refrigerante. Quando havia algum aniversário ou confraternização, os irmãos saboreavam suco de caju.

Por enquanto é só. Em outra postagem mais casos serão relembrados. Em determinados locais do Brasil alguns costumes prevalecem. E as polêmicas em torno deles também...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.


MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

domingo, 16 de agosto de 2015

Memorial da AD em Bangu - Ministério de Madureira

* Por André Silva

A primeira igreja construída pelo pastor Paulo Leivas Macalão, a qual deu origem ao maior Movimento Pentecostal – o Ministério de Madureira – ainda existe como patrimônio histórico das Assembleias de Deus. E foi com o intuito de preservar a memória do grande homem de Deus, pastor Paulo Leivas Macalão, que o pastor André Silva, na época membro da Igreja em Bangu teve à ideia de instalar no primeiro templo das Assembleias de Deus do Sudeste Brasileiro um memorial histórico. 

André Silva, pesquisador nesta área, esmerou-se na reconstituição da história, realizando a montagem do salão de exposição, contando com a ajuda de vários irmãos que doaram materiais a serem expostos. Como parte do esforço para construir o espaço do memorial, a Assembleia de Deus em Bangu restaurou o edifício e mobilhou a área com exposições do teor da história. 

AD em Bangu restaurada: espaço do memorial

No acervo especial, mais de 300 fotos entre os quais Bíblias, jornais, arquivos antigos e vários objetos históricos. Outro aspecto lembrado é que o templo antigo é o berço do Ministério de Madureira, o qual hoje possui mais de 3.000 templos espalhados pelo Brasil. Desde a sua restauração e reinauguração no dia 3 de setembro de 2006, o Memorial das Assembleias de Deus passou a ser um local de interatividade do público, com fotos e materiais dos pioneiros do Ministério de Madureira. A sala conta com um programa de áudio; narrando os principais fatos que marcaram a História. 

Desde quando o trabalho de evangelização iniciou-se em Bangu no 1º de agosto de 1926, com crescimento vertiginoso, o pastor Paulo Macalão já pensava em construir um templo próprio, e assim lançou mão à obra para alcançar este ideal. Foi adquirido então o terreno como resposta de Deus às orações de Paulo, que comprou com muitos esforços, que o lote em Bangu na rua Ribeiro de Andrade pelo valor de três contos e duzentos mil réis.


Pastor André: idealizador do memorial da AD em Madureira

Para erguer o templo, apresentaram-se então os voluntários: pedreiros, carpinteiros, serventes e voluntários. Até o próprio Paulo assentava tijolos, estimulando os demais. O irmão Paulo também empenhou uma quantia de dinheiro deixada de herança por sua mãe, contribuindo para os primeiro materiais necessários para a obra. Em pouco tempo o dinheiro e os recursos haviam cessado, necessitando-se ainda do madeiramento para a conclusão do telhado. 

Certo dia, um irmão se aproximou do pastor Paulo e lhe ofereceu uma oferta de quinhentos mil réis, dizendo que era para comprar uma gravata: era a quantia que ele tinha pedido a Deus. Paulo Macalão comprou então uma gravata baratíssima e empregou quase todo o dinheiro no madeiramento do telhado.

Gazofilácio doado pela irmã Belinha uma das pioneiras em Bangu e Madureira ao pastor Macalão como forma de angariar recursos para a obra

No dia 1º de janeiro de 1933, que Paulo Leivas Macalão inaugurou o primeiro templo das Assembleias de Deus do Sudeste Brasileiro, tendo a alegria de ter entre os presentes seu velho pai, o general João Maria Macalão, que havia atendido ao seu convite, e também sua irmã Maria Macalão. A inauguração do templo foi um acontecimento festivo e marcante, pois era o primeiro templo a ser construído de alvenaria no então Distrito Federal. Marcando presença do pastor da Assembleia de Deus em São Cristóvão (RJ), Samuel Nyströn, cuja palavra se fez ouvir na ocasião. O jovem pastor não se continha de tanta felicidade, quando seu pai, o general, apertando-lhe a mão, disse: “Parabéns meu filho!” Paulo chorou de grande emoção. 

Depois da solidificação da Assembleia de Deus em Bangu, o pastor Macalão veio a organizar seu casamento. Com isto surgiu sobre a cerimônia algumas preocupações: as irmãs idosas da igreja de São Cristóvão achavam que a cerimônia deveria ser nesse bairro, pois elas queriam muito bem aos irmãos Paulo e Zélia, e achavam a distância longe. E as irmãs da igreja de Bangu desejavam que a cerimônia fosse realizada ali, pois o motivo apresentado era o mesmo. Foi aí que o missionário Samuel Nyström, com sua esposa Lina, os padrinhos, deram a sentença: “Façam a cerimônia aqui, pois vocês vão trabalhar e viver aqui. Procurem agradar às suas ovelhas!” 

Bicicleta utilizada pelo pioneiro e pastor Manoel Francisco para evangelização

Assim, em 17 de janeiro de 1934, às 15 horas, na presença dos irmãos de Bangu e de alguns de São Cristóvão, foram impetradas as bênçãos pelo ministrante Samuel Nyström. Foram servidos laranjada com alguns docinhos. O casal foi morar então em dois cômodos pequenos, construídos anexos ao templo. Mobiliados com os velhos móveis deixados de herança pelo general. Não tinham cozinha, o que os obrigou a comer de marmita durante 5 anos e oito meses. A irmã Zélia zelava pelo templo, que ostentava um púlpito bem encerado, e foi cooperadora como 1.ª secretária da igreja em Bangu.

O pastor Paulo Macalão veio então organizar a Assembleia de Deus em Madureira. Com isso a sede dos trabalhos sob sua liderança foi transferida para Madureira. E o antigo templo da Assembleia de Deus em Bangu foi dirigida pelos seguintes obreiros: Manoel Francisco da Silva, Antonio Alves dos Santos, Jácomo Guide da Veiga, Florêncio Luiz Pereira, José Cecílio da Costa, Manoel de Souza Santos, Miguel Pastor, Etelvino Antonio da Silva, Maurício Celestino da Silva, Pedro de Souza Neves e Ades Antonio dos Santos. 

O último culto no templo da Rua Ribeiro de Andrade, foi na vigília de despedida no dia 31 de dezembro de 1977, aonde após todos os irmãos se concentraram às 5 horas do dia 1° de janeiro do ano de 1978, em frente ao novo templo na Avenida de Santa Cruz, nº 3.411.

Memorial das Assembleias de Deus de Madureira Rua Ribeiro de Andrade, nº 65 – Guilherme da Silveira – Bangu Rio de Janeiro – RJ

ANDRÉ SILVA foi ministro do Evangelho pela CONAMAD. Historiador e pesquisador da História do Ministério de Madureira. Autor do livro História da Assembleia de Deus em Bangu. Colaborador com o material histórico da Bíblia do Centenário das Assembleias de Deus e livro histórico do Cinquentenário da CONEMAD-RJ, ambos lançados pela Editora Betel.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Costa x Costa - a luta pela AD no Ceará (final)

Em meio a crise eclesiástica e sucessória, Emiliano Ferreira da Costa assume a presidência da AD em Fortaleza no dia 07 de fevereiro de 1962, substituindo o pastor Armando Chaves Cohen. Com a volta de Emiliano para a capital, a crise se aprofunda e chama a atenção da imprensa local.

O jornal a Gazeta em 30 de janeiro de 1962, portanto dias antes da posse de Emiliano, publicou uma matéria afirmando que a "política partidária penetrou na Igreja Evangélica Assembleia de Deus, subindo os púlpitos e sacudindo sua tranquilidade". Segundo o periódico a "política braba" com "métodos e processos" seculares havia irrompido no meio dos crentes. O clima de uma verdadeira guerra.

Outro fator agravou a disputa pela AD cearense. Conforme o historiador Ruben Maciel, "nessa época, as ADs estavam sob uma forte influência do capital oriundo das missões norte-americanas, recebendo donativos (medicamentos, alimentos, roupas) para serem distribuídos entre a população carente". Assumir a liderança da igreja, seria a oportunidade de administrar os recursos. Para Maciel "a disputa pela liderança da igreja, iniciada em 1960, tinha relação direta com a posse desses donativos e controle sobre a distribuição".

AD Ministério Bela Vista: autonomia nos anos 60

Para complicar, contra Luiz Costa se levanta outro oponente, o político assembleiano e ex-vereador Bezaliel Teixeira, o qual, interessado nas eleições de 1962, começa a disputar com Costa os votos dos evangélicos. Os donativos entram no centro da disputa como importante moeda eleitoral. Acusações sobre o uso incorreto dos donativos são levantadas. Sem apoio do ministério, e enfrentando forte oposição, Luiz não se reelege. Volta-se então para reassumir a AD em Bela Vista, anunciando sua autonomia em 18 de fevereiro de 1963.

A partir desse momento, o que se vê é uma animosidade ferrenha, onde o estilo coronelista de resolução de conflitos se impõe com veemência. Na edição de 28 de fevereiro de 1963, o jornal O POVO publica uma matéria reveladora do clima de beligerância instalado na época entre os líderes:

Esteve, ontem à tarde na redação de O POVO, uma comissão de diversos membros da Igreja Evangélica Assembléia de Deus. Veio protestar contra arbitrariedades policiais de que foi vítima o pastor Emiliano Ferreira da Costa, presidente do Templo daquela congregação religiosa, e, ao mesmo tempo, solicitar providências de quem de direito. (...) O ex-deputado Luiz Bezerra da Costa, que até bem pouco tempo fôra o dirigente daquele Templo religioso, inconformado com a sua expulsão da Assembléia de Deus, por motivos que não nos foram revelados, achou por bem invadir e ocupar o prédio do Templo, expulsando dali a família do pastor Emiliano (...)
Disseram-nos que a esposa do pastor Emiliano foi espancada, encontrando-se ela ainda enferma (...) houve tiros, borrachadas e outra manifestações de violência. Até metralhadoras estiveram em cena. Ocuparam a casa, que ainda hoje permanece em poder do grupo chefiado pelo Sr. Luiz Bezerra, que continua a contar com a proteção da polícia (...)

Em março de 1964, o Mensageiro da Paz publica a nota de exclusão de Luiz Bezerra da Costa. A difícil situação seria discutida nas Convenções Nacionais de 1964 e 1966, tentando sempre uma saída pacífica para os conflitos. Em Curitiba (CGADB - 1964), Luiz Costa foi proibido de entrar na reunião convencional. Houve discordâncias entre obreiros e debates acalorados sobre o caso. Em 1966, um acordo foi assinado pelas partes envolvidas no conflito. A solução foi aceitar que a congregação de Bela Vista se filiasse a Convenção do Pará.

A paz foi selada, mas os ressentimentos ficaram. O sociólogo Gedeon Alencar, cujo pai fazia parte do ministério na época, relembra que o pastor Emiliano preservava em seu gabinete uma espécie de dossiê contra Luiz. Referia-se ao genro do saudoso Teixeira Rêgo sempre como "Doutor Luiz" ao invés de "Pastor"; forma sutil de não reconhecer-lhe o ministério.

Os anos passaram, os ânimos se acalmaram e os dois Ministérios prosseguiram em sua expansão. Os dois líderes até trocaram cortesias, ou civilizadamente se suportaram. Emiliano Ferreira da Costa faleceu em 1985, e Luiz Bezerra da Costa em 1993. Deixaram suas marcas nas instituições que lideraram e fizeram história nas ADs cearenses. Uma história de sacrifícios, pioneirismo, paixões e lutas. Uma história de homens mortais e não de seres angelicais. Sempre é bom lembrar esse detalhe.


Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

COHEN, Armando Chaves. Minha Vida: autobiografia de Armando Chaves Cohen, 1985 [S.l.: s.n.]

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRANKLIN, Ruben Maciel. A Chama Pentecostal chega à Terra da Luz: Breve História das Assembleias de Deus no Estado do Ceará 1914-2014. Pindamonhangaba: IBAD, 2014.