sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Assembleias de Deus e a polêmica do divórcio

Circula pela internet as novas determinações da Convenção Nacional da Assembleia de Deus - Ministério de Madureira (CONAMAD) sobre o divórcio. Considerando o histórico das ADs sobre o assunto, as resoluções tomadas dão uma enorme abertura para que membros e líderes do ministério fundado por Paulo Leivas Macalão possam livremente se divorciar.

Se antes o divórcio só era permitido em casos de infidelidade conjugal, no documento a separação é consentida devido a "abuso físico e/ou psicológico" e "abandono emocional e espiritual do relacionamento" tornando assim "insuportável a conivência matrimonial, se tornando imperiosa a dissolução do matrimônio". Pastores e membros estão liberados para novos casamentos. Um ponto chama a atenção no texto: "Nenhum membro, ministro ou dirigente da Conamad, poderá ser afastado de sua função em decorrência do divórcio ou nova nupcia". 

Instituído no Brasil em 1977, a lei do divórcio causou polêmicas a acalorados debates na sociedade brasileira de forte influência católica. A lei, vista como um avanço do Direito em um Estado Laico permitia a dissolução de uma instituição, que do ponto de vista religioso era seria indissolúvel: o casamento.

O primeiro debate convencional sobre o tema foi na CGADB realizada na cidade de Belo Horizonte em 1981. Segundo o escritor Silas Daniel, a questão do divórcio foi o "debate mais concorrido da Convenção". Discutido exaustivamente pelos pastores, ao que tudo indica não houve consenso. Um convencional (o qual não é revelado o nome) defendeu o divórcio para membros e obreiros da igreja. Por sua vez, pastor Luiz Fontes discordou alegando que o obreiro não deveria se casar novamente após o divórcio.

A resolução convencional publicada no Mensageiro da Paz em maio daquele ano foi que o divórcio só seria consentido para casos de "infidelidade conjugal devidamente comprovada", admitindo-se novo matrimônio. Porém a resolução destaca que isso só seria possível "esgotados todos os recursos para reconciliação". Também foi determinado que, caso o obreiro viesse a contrair novas núpcias enquanto o ex-cônjuge estivesse vivo, o mesmo perderia sua "condição ministerial". Todavia, o ministro poderia em tal situação recorrer da medida.

Documentos de 1991 e 2015: abertura para o divórcio
Em 1995, quando o assunto novamente voltou à baila na CGADB, foram acrescentados além do adultério, os casos de crimes hediondos como motivos para o divórcio. Tráfico e consumo de drogas, terrorismo, homicídio qualificado ou doloso (quando a intenção de matar) e desvios sexuais seriam fortes justificativas para dissolução do casamento.

Em 1989 e em 1991, o Ministério de Madureira divulgou orientações semelhantes da CGADB de 1981. Sempre procurando mostrar rigidez e seriedade em torno de um assunto tão controverso, o documento de 1991 é enfático em esclarecer que "A partir desta data" - 09 de abril de 1991 - "nenhum membro na condição de divorciado poderá ser consagrado ou exercer qualquer cargo ministerial".

Assim a liberação do divórcio por parte da CONAMAD causou surpresa? Talvez. É de conhecimento público que um dos seus principais líderes está em processo de dissolução do seu casamento. As novas regras, ao que parece são feitas sob medida para membros da cúpula ministerial. O termo "abandono emocional e espiritual do relacionamento" utilizado no documento é elástico e permite uma infinidade de interpretações para uma variedade de situações.

Mas como a história possui suas ironias, vale lembrar que no concorrido debate de 1981, Paulo Leivas Macalão em sua derradeira Convenção Geral foi enfaticamente contra o divórcio. Leu inclusive o texto de I Coríntios 7. 10-11 para deixar claro seu ponto de vista:
Aos casados dou este mandamento, não eu, mas o Senhor: Que a esposa não se separe do seu marido. Mas, se o fizer, que permaneça sem se casar ou, então, reconcilie-se com o seu marido. E o marido não se divorcie da sua mulher.
Paulo Macalão com essa decisão dos seus supostos discípulos - como se diz popularmente - deve estar se revirando no túmulo...

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Mensageiro da Paz, maio de 1981, p.6.

Colaboração do pastor ANDRÉ SILVA ex-ministro do Evangelho pela CONAMAD. Historiador e pesquisador da História do Ministério de Madureira. Autor do livro História da Assembleia de Deus em Bangu. Colaborador com o material histórico da Bíblia do Centenário das Assembleias de Deus e livro histórico do Cinquentenário da CONEMAD-RJ, ambos lançados pela Editora Betel.

domingo, 6 de setembro de 2015

AD em Madureira e seu conservadorismo

*Por André Silva

Quando o assunto é usos e costumes, uma igreja é lembrada por seu passado de extremo rigor no assunto: a Assembleia de Deus do Ministério de Madureira. Conhecida por ser uma igreja de oração, sinais e prodígios e de crescimento vertiginoso, Madureira também era famosa pela exclusão de membros, e a cobrança exacerbada dos usos e costumes tidos por muito tempo como doutrina primaz.

Há diversas informações de fatos que marcaram o período de extremismo, onde o conceito do pastor Paulo Leivas Macalão a respeito de usos e costumes era lei. Conservador, Macalão colocou de forma oficial as regras para manter inalterados os costumes nas Assembleias de Deus.

O Ministério de Madureira se manteve conservador na área de usos e costumes, tendo por longo tempo regras rígidas para os membros. As mulheres eram proibidas de usar cabelos soltos e de cortá-los. Saias curtas, decotes, pinturas, roupas justas, maquiagem e jóias também eram condenadas. os membros não podiam usar adereços, no máximo a aliança de noivado ou casamento. Aos homens era proibido o uso de barba ou cabelos longos, bem como o uso de bermudas e de lazeres como ir à praia, cinema, futebol e teatro.

AD Madureira: Extremismo em usos e costumes
A televisão era terminantemente proibida. O pastor Paulo Leivas Macalão declarou certa vez:
Desde as minhas visitas a outros países, tenho notado que os melhores programas são os imorais, esses aparelhos têm trazido uma contribuição negativa para a vida da igreja, tanto no aspecto espiritual com também no aspecto físico de cada crente, eu não possuo nem desejo possuir televisão em minha casa, todo cuidado devemos ter para que os crentes permaneçam afastados desse meio de comunicação.
A Igreja em Madureira, além dos usos e costumes tradicionais assembleianos, também designou o uso de meias grossa e manga longa para as mulheres. Aos homens era determinado o uso do chapéu e terno. Era proibido bater palmas nos cultos e ao adentrar no culto de membros (alusão ao antigo culto de doutrina), o mesmo deveria apresentar o cartão de membro, o qual era extremamente valorizado, e só participavam da Santa Ceia os crentes em comunhão.

Macalão em entrevista ao Mensageiro da Paz (novembro de 1979), o declarou: "o mundo, portanto evolui para o pecado. A igreja deve evoluir para a santidade". Assim, o rigor das proibições eram vistos como uma busca pela “santidade” pessoal perante a sociedade, dentro dos padrões exigidos pelas Assembleias de Deus.

Tal rigor levou os principais ministérios da AD do Rio de Janeiro na década de 1960, a passar por atritos entre sua lideranças. O Ministério de Madureira e de São Cristóvão rivalizavam devido a questão dos usos e costumes. Madureira afirmava que era a igreja original brasileira, enquanto tachava de liberal a Assembleia de Deus em São Cristóvão - denominada respectivamente de “Igreja da Missão” – assim as igrejas fundadas e lideradas pelos suecos.

A Assembleia de Deus de Madureira passou a não aceitar os membros de São Cristóvão e considerava aquelas igrejas como “desviadas”. Macalão pregava em Madureira aos brados que os crentes da Assembleia de Deus da “Missão” não estavam em santidade como deveriam, porque lá eles não andavam como “os verdadeiros crentes das Assembleias de Deus”. “Eles estão andando como mundanos” enfatizava ele.

Já o pastor Túlio Barros Ferreira (líder de São Cristóvão) sempre defendia a sua posição: “Eu diria que a Assembleia de Deus em São Cristóvão é a igreja original. Ela deu realmente origem a todas as igrejas das Assembleias de Deus do Rio de Janeiro”.

Para amenizar os conflitos foram realizados nos dias 31 de janeiro e 14 de fevereiro de 1971 dois cultos de confraternização, respectivamente, na Assembleia de Deus de Madureira e na Assembleia de Deus em São Cristóvão.

Em Madureira, no início do culto, o pastor Paulo Macalão passou a direção do trabalho ao pastor Túlio Barros Ferreira, que pregou a mensagem oficial da noite, falando dos esforços ininterruptos que o inimigo de nossas almas, Satanás, tem empregado para tentar dividir as Assembleias de Deus no Brasil; mostrou que o Leão da Tribo de Judá, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, interferira em favor do seu povo, fazendo brotar nos corações o espírito conciliatório, e envergonhando o inimigo. 

O pastor Túlio Barros salientou que não existe mais a Assembléia de Deus do Ministério de Madureira e a Assembleia de Deus do Ministério de São Cristóvão, e sim uma só igreja. Nesta atmosfera saturada pelo Espírito Santo, o culto foi encerrado.

Semelhantemente, o Espírito de Deus pairava entre as centenas de irmãos que se reuniram na Assembleia de Deus em São Cristóvão, no culto de retribuição à visita feita a Madureira. Nesse culto ficou patente que a única finalidade das Assembleias de Deus no Brasil é arrancar as almas das garras de Satanás, para fazerem parte de um Reino que tem sua sede no Céu, onde não há divisões.

Em 1971, na Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, realizado em Niterói (RJ) - Na sessão convencional da manhã, do dia 20/01, os convencionais apreciaram as pazes dos pastores Túlio Barros e Paulo Macalão, que antes com o desentendimento não se saudavam nem com a “ Paz do Senhor”.

Nota do editor do blog: nessa questão da saudação qualquer semelhança com alguma região do Brasil é mera coincidência...

ANDRÉ SILVA foi ministro do Evangelho pela CONAMAD. Historiador e pesquisador da História do Ministério de Madureira. Autor do livro História da Assembleia de Deus em Bangu. Colaborador com o material histórico da Bíblia do Centenário das Assembleias de Deus e livro histórico do Cinquentenário da CONEMAD-RJ, ambos lançados pela Editora Betel.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Usos e Costumes - um pouco mais da história

Sobre a origem dos usos e costumes dentro das Assembleias de Deus as opiniões são divergentes. Alguns creditam sua gênese somente aos missionários pioneiros. Outros aos obreiros brasileiros, os quais refletiam nos ensinamentos seus conceitos de santidade apoiados na cultura da época.

Silas Daniel no História da CGADB, ao comentar sobre a polêmica resolução do presbitério da AD em São Cristóvão sobre o assunto, aponta Gunnar Vingern e Otto Nelson como "os missionários suecos mais rígidos em termos de vestimentas".

Membros da AD Florianópolis: "vestes santas"
Outros autores apontam os próprios pastores nativos, que perpetuaram certos costumes influenciados pela tradição católica. Altair Germano em seu blog cita Robson Calvalcanti, o qual em seu livro A Igreja, o país e o mundo: desafios a uma fé engajada comenta "sobre questões culturais, e de forma mais específica, sobre a maneira das mulheres 'Assembleianas' se vestirem":
Por que as mulheres da Assembleia de Deus no Brasil se vestem assim, quando em outros países do mundo, até mesmo da América Latina, não o fazem? É um costume da Assembleia de Deus no Brasil. Aí, você vai descobrir que essa denominação não começa no sul, mas no norte e no Nordeste, na zona rural. Converteram-se pessoas que vinham da Igreja Católica, da religião popular. E quem viveu no interior do Nordeste, nos anos de 40-60, percebe que a beata católica tinha como características não se pintar, usar cabelos longos presos e roupas longas. Tal costume, então, dessa denominação é, na verdade, uma absorção da cultura católica popular, que depois se tornou doutrina.
Para o pastor e teólogo Jesiel Padilha foram os líderes nativos e não os escandinavos os responsáveis por tamanha rigidez. Segundo o escritor as "exigências de comportamento das mulheres em relação a cabelo, roupas, sapatos foram intensificados por esses líderes". 

Não só isso, a "cartilha do que poderia ser usado, ou não, onde o crente poderia circular ou se poderia participar ou frequentar algum recinto seria o tema principal das plenárias convencionais".

Pastor Jesiel no seu livro biográfico Carlos Padilha: combati o bom combate traz algumas pérolas sobre as questões de usos e costumes nas ADs:
Na década de 1960 era inadmissível uma filha de um Pastor brasileiro, mesmo que tivesse dez anos cortar o cabelo. Se isso ocorresse a contraventora era disciplinada e impedida de participar dos conjuntos vocais e outras atividades. A franja era chamada de chifre do bode, inclusive na década de oitenta era comentado em cultos de doutrina corriqueiramente. (p.26)
A bateria era o bicho papão para muitos pastores. A resistência dos presidentes contra a bateria foi muito mais forte. Só na década de 90 é que foi liberada. Muitos pastores diziam que a bateria era o trono de Satanás e nela o camarada pintava e bordava balançando o corpo freneticamente e batendo em todas as direções. Diziam até que a pessoa estava endemoninhada. (p.91)
Ainda segundo o pastor Padilha na década de 1960 se presenciou "a onda do sectarismo religioso e do radicalismo, onde tudo era pecado - assistir televisão, cuspir, beber Coca-Cola, usar tênis e jeans e outras proibições esdrúxulas". Ironicamente, o autor chama esse período de "onda do talibã religioso" nas igrejas pentecostais.

Após tantas controvérsias sobre o tema, muitos membros das ADs ainda observam os usos e costumes deixados pelos pioneiros. Alguns praticam parcialmente, enquanto outros abandonaram completamente as antigas normas. A denominação com certeza em diversos lugares não superou o tema e nem abandonou seus antigos princípios. 

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

PADILHA, Jesiel. Carlos Padilha: combati o bom combate. Duque de Caxias, RJ: CLER - Centro de Literatura Evangélica Renascer, 2015.

http://www.altairgermano.net/2009/04/usos-e-costumes-assembleianos.html