quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Onde a luta se travar

Defendida em julho de 2015, a tese de doutorado Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980), do historiador e professor Maxwell Pinheiro Fajardo é uma pesquisa intensa e criteriosa sobre a maior denominação pentecostal no Brasil. Igreja onde o autor é membro e obreiro na região de Perus em São Paulo.

Partindo de algumas reflexões do período do mestrado, que versava sobre as relações entre pentecostalismo e periferia urbana, Maxweel, sob a orientação do Prof. Dr. Milton Carlos Costa da Universidade Estadual Paulista (UNESP), iniciou o desafio de pesquisar (mesmo com bibliografia escassa) e entender as razões do crescimento das ADs.

Maxwell aponta que nos círculos acadêmicos, os pentecostais começaram a ser alvo de estudos a partir da década de 60, e as teorias apontavam para o fato das igrejas pentecostais crescerem "à medida que ofereciam respostas adequadas" as necessidades de ajustamento social do migrantes, os quais, vindos das áreas rurais se confrontavam com os valores e estilo de vida das cidades em expansão.

Maxwell: pesquisador e evangelista da AD em Perus (SP)*

Ainda segundo o historiador, os trabalhos defendidos e publicados nesse período "têm em comum o fato de relacionarem o crescimento do pentecostalismo no contexto industrial urbano" à necessidade de ajustamento social das populações que chegavam às metrópoles. Mas como as ADs cresceram muito mais que outras igrejas pentecostais no mesmo período, se todas estavam sujeitas as mesmas condições sociais?

Para essa problemática, o jovem professor partiu da "hipótese de que o crescimento assembleiano no mundo urbano deve ser entendido não apenas à luz das transformações sociais externas, mas também a partir da dinâmica interna de organização da Igreja." Para isso é necessário também compreender "a forma sui generis como as Assembleias de Deus conseguiram agregar suas diferentes cisões internas em torno de uma mesma plataforma denominacional sem que isto representasse a desestruturação ou o esfacelamento da Igreja, em um processo de esgarçamento institucional não observável em qualquer outra igreja pentecostal brasileira".

Findando a pesquisa veio a banca examinadora formada pelos professores doutores Milton Carlos Costa (orientador da pesquisa), Karina Bellotti (Universidade Federal do Paraná), Dario Paulo Barrera Rivera (Universidade Metodista), Edin Sued Abumanssur (PUC-SP) e Áureo Busetto (UNESP). A defesa teve mais de 5 horas de duração, tempo em que foram respondidas as arguições da seleta banca e feitos debates sobre vários aspectos do texto. O trabalho foi aprovado por unanimidade. 

O título do trabalho teve como inspiração o refrão de um dos hinos mais conhecidos da Harpa Cristã, hinário até hoje utilizado em ADs de todo o país e expressa o espirito expansionista e militante observado na história da denominação, bem como os conflitos vivenciados em seu interior. 

O texto foi dividido em cinco capítulos: no primeiro deles é feito um panorama da história das Assembleias de Deus no Brasil, com ênfase no seu processo de fragmentação em Ministérios, chamado na pesquisa de “esgarçamento institucional”. No segundo capítulo é apresentada uma proposta de periodização da história das ADs em quatro eras, simbolizadas em cinco de seus líderes: Era Vingren (1911-1932); Era Nyström (1932-1946); Era Canuto/Macalão (1946-1980) e Era Wellington (1980 a seguir). Neste capítulo também foi feita a análise histórica do aparato institucional da denominação (Convenção Geral, Jornal, Editora, Revistas de EBD e Hinário). 

O terceiro capítulo foi dedicado ao tema da expansão da Igreja no espaço urbano. A Região Metropolitana de São Paulo foi escolhida como estudo de caso. Assim, neste capítulo é feito um levantamento histórico dos ministérios mais antigos da cidade, bem como do mapeamento da presença de suas principais igrejas na cidade. 

No quarto capítulo é analisado o processo de criação da tradição litúrgica das Assembleias de Deus (seu “culto típico”), bem como de sua hierarquia ministerial (como surgiram e se estruturam os cargos de cooperador, diácono, presbítero, evangelista e pastor). O quinto capítulo é dedicado ao imaginário assembleiano construído durante o período de maior crescimento da igreja. Neste capítulo discutimos a história social dos usos e costumes assembleianos. 

A tese, embora não seja o primeiro trabalho acadêmico sobre a história das ADs, é a primeira pesquisa de doutorado específica sobre a denominação na área de História. Agora, depois tantos trabalhos, Maxwell poderá curtir um pouco mais a esposa Hetiene e o filho Théo. O rebento nasceu durante o processo de pesquisa e agora mais um enorme desafio o pesquisador possui: o de ser pai.

* Foto de Alex Fajardo irmão do Maxwell e seu grande incentivador

Tese disponível no link abaixo:

http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/cathedra/14-10-2015/000851874.pdf

domingo, 18 de outubro de 2015

Geremias do Couto - testemunha ocular da História

Parafraseando o slogan de um extinto noticiário televisivo, Geremias do Couto é "testemunha ocular da história". Seus artigos no conhecidíssimo blog Uma Voz Que Não Se Cala são de uma repercussão enorme nas redes sociais. Afinal, pastor Couto analisa e critica um mundo, o qual conhece como poucos: o establishment assembleiano.

Nascido em berço evangélico, seu pai Joaquim do Couto foi pastor da Assembleia de Deus em Teresópolis por mais de 40 anos. Ainda moço ingressou no Instituto Bíblico de Pindamonhangaba e começou a atuar na igreja dirigida por seu genitor. Colaborou na Cruzada Bernhard Johnson e em 1977 começou a trabalhar na CPAD, de onde saiu para o campo missionário nos EUA.

De retorno ao Brasil em 1982, volta a trabalhar na CPAD, onde atuou como chefe do Departamento de Jornalismo e gerente de Publicações. Participou intensamente de projetos internos da publicadora e da cobertura jornalística de algumas Convenções Gerais. Essa condição de jornalista da CPAD, o fez observador privilegiado dos bastidores do poder, principalmente as Convenções mais disputadas entre os Ministérios da Missão e Madureira nos anos 80.

 Geremias com o missionário Nels Taranger: memórias a contar

Saiu da Casa Publicadora em 1996, mas continuou escrevendo lições para EBD, e participando de conferências e simpósios. Mas o imbróglio sobre a publicação da Bíblia Dake por parte editora assembleiana, e seu posicionamento contrário com postagens questionadoras sobre o papel das instituições conflitantes (CPAD e Conselho de Doutrina), o fizeram tomar a decisão de não participar da Décima Oitava Conferência da EBD em Americana - SP. Era a ruptura anunciada publicamente.

Posteriormente renunciou ao Conselho Político da CGADB. Em carta dirigida ao presidente da Convenção e divulgada em seu blog declarou: "percebo que o Conselho Político perdeu o foco", não via ele estímulo para a participação cidadã consciente e "de transformação social em todos os segmentos da sociedade." No documento, divulga que a resolução aprovada na Assembleia Geral Ordinária em Belo Horizonte (MG), recomendava que "ministros titulares" não deveriam "se candidatarem a cargos eletivos". Resoluções que foram solenemente ignoradas por alguns ministros, inclusive o pastor Paulo Freire da Costa, líder da AD em Campinas e filho do próprio presidente da CGADB.

Nesse mesmo período de questionamentos e renúncia, pastor Couto trabalhou intensamente entre 2007 a 2009, no Projeto Minha Esperança coordenando em São Paulo os trabalhos de grande alcance evangelístico. Organizou ainda em maio de 2010, o Festival Esperança em BH a presença e pregações de Franklin Graham.

Ainda em seu blog, Geremias lançou a proposta da Terceira Via à presidência da CGADB, já desgastada com a polarização entre José Wellington e Samuel Câmara. Repercutiu e respondeu a polêmica entre dois celebrados teólogos sobre a questão "Cristo é 100% Deus e 100% Homem".

Ultimamente causou surpresa para muitos ao se declarar calvinista convicto. Com fortes argumentos teológicos e históricos defendeu sua tese, e foi alvo de contestações. Recebeu até uma indireta: "melhor sair da Assembleia de Deus" relembrando os anos de 1930, quando um grupo deixou a denominação por questões doutrinárias envolvendo a doutrina da predestinação. 

Em 2014, candidatou-se a vaga da Câmara Federal pelo Partido da República (PR). Fez uma campanha simples e modesta, procurando sempre ser coerente com suas posições político-eclesiásticas. Num país onde os recursos financeiros são mais que decisivos na busca por votos, obteve 3.529 votos em 69 dos 93 municípios. Segundo ele próprio, saiu "das urnas de cabeça erguida".

Hoje, pastor Geremias atende a vários convites para ministrar pelo Brasil. Trabalha muito para lançar livros teológicos necessários à Igreja atual. Dono de uma memória privilegiada pensa em registrar suas recordações em livro. Revelaria "histórias" interessantes e omitidas das narrativas oficiais. Como "testemunha ocular da história" deverá dar a sua versão sobre muitos pontos polêmicos e até obscuros da historiografia assembleiana.

Os historiadores da AD e do pentecostalismo serão eternamente gratos...

Fontes:

geremiasdocouto.blogspot.com.br 

www.teologiapentecostal.com

sábado, 3 de outubro de 2015

A memorável apresentação do Coral e Orquestra Avivamento

A II Convenção Regional das Assembleias de Deus do Distrito Federal ocorrida entre os dias 17 a 21 de julho de 1966, foi sem dúvida memorável. Fruto de um acordo entre os líderes dos Ministérios representados na "Capital da Esperança", o conclave procurava de alguma forma unir os trabalhos das ADs no centro político do país.

Para presidir a Mesa Diretora foi eleito Paulo Leivas Macalão tendo o pastor Armando Chaves Cohen como vice. Segundo matéria do Mensageiro da Paz, assuntos "do maior interesse" das ADs em Brasília "estiveram em pauta". Entre eles a Conferência Mundial Pentecostal, a qual seria realizada na cidade do Rio de Janeiro em 1967.

Para abrilhantar o evento, Paulo Macalão trouxe do Rio de Janeiro, o Coral e Orquestra Avivamento. Antes de se apresentar na igreja, o coral e a orquestra juntamente com alguns obreiros compareceu na extinta TV Nacional no domingo dia 17, onde "apresentou vários hinos de louvor a Deus" regido sempre com muita competência pelo maestro Zênio de Alencar, o qual foi um dos pioneiros em unir em apresentações corais e orquestras.

O Coral e Orquestra Avivamento, segundo o historiador da AD em Madureira André Silva foi formado em 18 de agosto de 1934, por iniciativa do próprio pastor Macalão. Detalha ainda o escritor que "naquela época, o pastor Paulo com seu violino e uma pequena orquestra formada por 2 violas (irmã Amélia Florêncio e Antonio Alves dos Santos) 1 trombone (irmão Balbino) e 1 bombardino (irmão Manoel Moraes), deu o nome do Grupo Musical Avivamento e depois de algum tempo para Conjunto Musical Avivamento. Provavelmente por isso, o notável apreço do líder de Madureira por esse grupo.

Maestro Zênio e Coral Avivamento: apresentação na TV

Três anos antes o Conjunto Musical lançou seu primeiro disco compacto intitulado "Vozes do Avivamento" através do selo Alvorada Espiritual. O jornal Correio da Manhã ao anunciar o lançamento do LP na igreja da AD em Madureira destacou que "Trata-se de um empreendimento digno de nossa simpatia e incentivo e desejamos aos organizadores da nova marca pleno êxito."

A apresentação memorável do grupo na emissora ficou a cargo do pastor e poeta Joanyr de Oliveira, e conforme as informações do Mensageiro da Paz "As pessoas que assistiam do auditório se comoveram com a mensagem de evangelização apresentada por intermédio da música e houve lágrimas". Vale lembrar que o grupo, além de executar hinos sacros tinha também em seu repertório músicas mais populares.

Aproveitando o momento de enlevo espiritual, Joanyr convidou a todos (auditório e telespectadores) para o culto que seria realizado à noite na igreja. Cerca de 50 pessoas atenderam o convite, e "algumas aceitaram Jesus como Salvador". O resultado da apresentação foi que "milhares de pessoas tomaram conhecimento do trabalho das Assembleias de Deus, através desse programa".

Interessante foi o fato de que ainda na década de 1960, a televisão ainda ser objeto de repúdio da esmagadora maioria dos líderes e membros da AD. Mesmo sendo considerado ainda um aparelho temerário para os crentes, é notável o senso de oportunidade evangelística das lideranças em Brasília. Por essa razão a apresentação do Grupo Musical Avivamento fez história.

Fontes:

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de setembro de 1966.

Correio da Manhã, 13 de outubro de 1963, 4º caderno, p.6. Acervo Digital da Biblioteca Nacional. http://bndigital.bn.br/hemeroteca-digital

Colaborações de André Silva (RJ) e maestro Jessé Sadoc (RJ)