terça-feira, 24 de novembro de 2015

A AD em Teresina - a fragmentação da história

É notório que os principais ministérios das ADs no Norte e Nordeste do Brasil possuem uma história de cisões e turbulências. No Ceará na década de 1960, Luiz Bezerra da Costa "arrancou" para a congregação de Bela Vista (e para si) a autonomia depois de um período de desavenças ferrenhas. 

Em Pernambuco, nos anos 80, a AD em Abreu e Lima conseguiu sua independência tornando-se ministério autônomo. Na Paraíba, a região de Campina Grande também se distingue da AD estadual, e na Bahia já se formaram duas convenções. Idêntico caso há no Amazonas e no Pará berço da denominação do país.

As rupturas ocorridas resultaram das tensões e lutas pelo poder eclesiástico, pois debaixo da "unção divina" os abnegados obreiros refletiram o estilo coronelista da sociedade patriarcal. Com o tempo e o crescimento das igrejas, as cisões institucionais passaram a alavancar projetos próprios ou familiares de poder.


AD em Teresina: uma igreja fragmentada

Com tantas divisões na região, a AD em Teresina não passou incólume. Após a jubilação do seu patriarca pastor Paulo Belisário de Carvalho em 1995, a igreja não teve paz nas sucessões seguintes. Nesses 20 anos, a igreja da capital piauiense passou por alguns solavancos institucionais, e agora ao que tudo indica, caminha para a total fragmentação.

Em 1997, o sucessor do pastor Paulo, o escritor Raimundo de Oliveira foi obrigado a deixar o cargo devido a graves desentendimentos com o ministério local. Assumiu então o pastor José da Silva Neto. Em 2011, cumprindo o estatuto interno uma inédita eleição à presidência da igreja se realizou. O então líder da AD José Neto concorreu ganhando por margem mínima de votos o pleito. Mas o resultado não foi digerido pelo seu oponente José de Ribamar e Silva Filho, o qual sendo supervisor de um distrito, resolveu romper com o ministério local.

Com a morte do pastor José Neto em 2013, novamente a questão sucessória foi colocada em cheque. Temendo uma nova cisão, o ministério da AD em Teresina e a convenção estadual em comum acordo - e desta vez sem eleição - indicou o pastor Nestor Mesquita à presidência, realizando o antigo sonho do veterano obreiro de liderar a igreja na capital.

Com a posse do pastor Mesquita, se garantia o mínimo de estabilidade ministerial. Porém, o destacado líder, no alto dos seus 80 anos de idade estava fadado a ser apenas um líder de transição, simplesmente protelando o problema maior para os anos seguintes. 

Pensando na sucessão (e na família), Nestor resolveu preparar a igreja e o ministério para a posse do filho. Entretanto, negociações foram necessárias, e para resguardar o herdeiro, o atual presidente abriu mão da unidade administrativa da igreja. A partir de 2016, o campo eclesiástico em Teresina será fragmentado e os setores receberão autonomia. Ao filho Irã caberá o setor centro, onde atualmente está a sede.

A divisão provavelmente agradará aos setoriais, mas segundo alguns, poderá resultar em extrema competição por membros e recursos na área eclesiástica de Teresina. A prevista abertura de congregações em campos e bairros alheios possivelmente aumentará as tensões entre os setores. 

E os membros? Pelas informações disponíveis, os fieis estão perplexos testemunhando a pulverização do patrimônio histórico e espiritual construído em décadas de evangelização. Há um clima de pessimismo no ar. Ironicamente, em 2012, foi lançado o livro do pastor Raimundo Leal Neto sobre a história da AD na cidade intitulado Uma Igreja Edificada - História da Assembleia de Deus em Teresina - Piauí. Talvez em suas próximas edições, o autor tenha que mudar o nome da obra para Uma Igreja Fragmentada...

Fonte:

LEAL NETO, Raimundo. Uma Igreja Edificada - História da Assembleia de Deus em Teresina - PI. Teresina: Halley, 2012.

domingo, 15 de novembro de 2015

Os mitos e suas idiossincrasias

Alguns pastores assembleianos entraram para a história da denominação pela capacidade de administração e expansionismo dos seus ministérios. Tornaram-se mitos e referenciais de gerações de crentes pelo Brasil.

Conforme o sociólogo Gedeon Alencar, esses pioneiros, os quais ainda na juventude foram separados ao pastorado se eternizaram nos cargos e na liderança das igrejas. Permaneceram "entronizados em suas 'cadeiras papais' nos púlpitos, inquestionáveis em suas idiossincrasias*, reverenciados por seus seguidores." E de tal forma mitificados que, suas biografias tornaram-se verdadeiros panegíricos.

Mas, como destacou Marina Correia, o que importa nas narrativas oficiais é a "santidade ministerial". Segundo a autora da obra Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder, "os pastores são escolhidos por Deus, suas palavras são ungidas pelo Espírito Santo, começaram na obra de Deus com muito sacrifício", e nessa espinhosa caminhada "Deus preparou uma igreja santa" seguindo sempre um caminho santo e sem divergências. E quando ocorre alguma divisão "foi e será sempre por vontade de Deus" completa a conhecida estudiosa das ADs.

Nesse afã perde-se o lado humano e peculiar desses homens tão marcantes. Fica então a incógnita: como falavam, agiam ou se portavam diante de situações cotidianas ou de extrema pressão? Quais as lembranças da família e dos membros mais próximos?

Contudo, algumas obras (graças a Deus) por vezes deixam escapar traços e situações que humanizam os mitos e apóstolos da história assembleiana. Caso contrário teríamos a falsa impressão que esses senhores seriam mais santos que os reis, profetas e apóstolos da Bíblia.

Vejamos então alguns casos:

O jornalista Jason Tércio descreve o físico e estilo de liderança de Paulo Macalão:

Baixo, corpulento, era um dos principais líderes da Assembléia de Deus no Brasil, tendo expandido seu trabalho evangélico com proverbial rigidez. Obreiros de seu ministério que demonstrassem personalismo e um mínimo de independência eram severamente repreendidos, às vezes punidos com transferência para outra igreja ou simplesmente excluídos. Se ele não simpatizasse com alguém ou percebesse que o crente pretendia apenas usar sua influência, Macalão o neutralizava com um gesto simples, porém bastante eficaz - cumprimentava com as pontas dos dedos. 
Considerações do escritor Jacó Rodrigues Santiago sobre o pastor mineiro José Alves Pimentel:

José Alves Pimentel, foi um grande líder das Assembleias de Deus no Brasil. Homem íntegro, de muito respeito, severo às vezes, mas era também um pastor que tinha grande amor pelas suas ovelhas. Não era chegado ao luxo e as ostentações. Mas a simplicidade era a sua principal característica. 
A mesma boca que às vezes gritava até mesmo do meio da rua: "está excluído!", também proferia: "coitadinho do irmão, vamos ajudá-lo". Sempre entusiasmado com a obra de Deus, quando algo lhe chamava a atenção, logo exclamava: "Êta ferramenta!"
Sobre José Teixeira Rêgo é Isael de Araújo que nos informa:
A descrição que José Wellington faz hoje do seu primeiro pastor é a de um homem muito enérgico, radical e franco. Um tanto ríspido. Não usava meias palavras quando queria dizer a verdade para toda a igreja ou apenas um crente. Mesmo que fosse do púlpito e em qualquer culto. Se ele achava por bem, dizia tudo.

Segundo o dicionário é a constituição individual, em virtude da qual cada indivíduo sofre diferentemente os efeitos da mesma causa. Detalhe de conduta peculiar a um indivíduo determinado. Em suma: é o jeito de ser, os cacoetes e as "neuras" que carregamos.


Fonte:

ARAÚJO, Isael de. José Wellington: Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.


CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

SANTIAGO, Jacó Rodrigues. A Assembleia de Deus no Vale do Aço 1948-2008. Ipatinga: Gráfica Tibel, 2008.

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997.   

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A construção do templo da AD em Tubarão - um marco de fé

"Assim edificamos o muro; porque o coração do povo se inclinava a trabalhar". Ne 4.6

Com esse versículo bíblico, o saudoso pastor Antonieto Grangeiro Sobrinho, um dos pioneiros do movimento pentecostal no Brasil, iniciou seu texto sobre a construção do templo da Assembleia de Deus em Tubarão (SC). Obra que exigiu um grande esforço de todos os fieis da igreja, no já distante ano de 1950.

A AD em Tubarão estava em atividade desde 1938, e se constituía em ponto estratégico de evangelização da região sul de Santa Catarina. Segundo o depoimento do pioneiro ao Mensageiro da Paz, a comunidade assembleiana sentia falta de um espaço adequado para a celebração dos seus cultos, mas "a princípio parecia impossível conseguirmos construí-lo, faltava-nos coragem para iniciar a obra". O motivo para tal descrença era a falta de recursos financeiros. 

Mesmo com pouco dinheiro em caixa, os alicerces do templo foram lançados, mas a expectativa de construção seria de no mínimo três anos. No dia 06 de março de 1950, aproveitando o horário de verão, corajosamente "os irmãos lançaram-se à obra, trabalhando das cinco da manhã as 8 da noite, incluindo o pastor da igreja". Naquele tempo, entre tantas atribuições, um pastor tinha que "pegar no pesado" também. A postura era outra, o sentido de missão e sacrifício pela causa era maior. 


Inauguração do templo da AD em Tubarão: desafio de fé

Também conhecida como "Cidade Azul", Tubarão contava naquela época com aproximadamente 55 mil habitantes. A igreja, além de pequena, era composta em sua maioria por pessoas simples e pobres. Como se percebe, a pregação ufanista da teologia da prosperidade ainda não era nem de longe conhecida ou pregada. Os crentes daquela época estavam longe das quimeras vendidas e propagadas por alguns "televangelistas" modernos.

Ao invés disso, o que se lê é o reconhecimento das agruras e da falta de recursos. Portanto, a participação efetiva dos membros e do próprio pastor da igreja na obra era mais que necessária. E o milagre surgia na medida em que o sonho dos fieis tomava forma. Um templo erguido naqueles dias, mesmo com todas as dificuldades era a realização e orgulho de toda igreja.

Por essa razão, transparecendo grande contentamento, Antonieto informou: 
O que aconteceu depois foi maravilhoso: O Senhor despertou o Seu povo, enquanto uns oravam pelo trabalho da construção os que podiam auxiliavam e os outros contribuíam liberalmente, porque todos trabalhavam para a causa de Cristo e para honra do nosso Deus.
Com o grande envolvimento de todos os membros, as expectativas sobre o tempo de trabalho foram superadas, e os três anos vencidos em pouco menos de 8 meses. No dia 28 de outubro do mesmo ano, a nova casa de oração estava pronta para ser inaugurada.

Alegremente, o pioneiro relata que naquele dia a pacata cidade "teve um movimento e vibração diferentes; vagões lotados de crentes chegavam à estação; caminhões e outros veículos vinham de várias direções trazendo o povo que vinha assistir à dedicação da casa". Pode-se imaginar a agitação e o entusiamo do povo pentecostal naquele grandioso dia. Afinal o sonhado templo era agora uma realidade.

Antes da inauguração, a multidão reunida na praça participou de um culto evangelístico. Depois seguiu em desfile "cantando, até o templo, onde o trânsito ficou interrompido, por causa da massa de povo." Contando com a presença de várias autoridades, pastor Grangeiro após breve saudação entregou a direção ao missionário JP Kolenda que cortou a fita simbólica "declarando aberto o templo", pregou e fez a dedicação do templo.

Na sequência, as autoridades observaram em suas prédicas, as ações da denominação na cidade e "a união e a alegria do povo de Deus", e todos apreciaram uma belo recital foi feito por duas meninas. A alegre festividade durou até o dia 29, quando novamente foi realizada uma nova reunião na praça e à noite outro culto no novo templo.

Para concluir, pastor Antonieto Grangeiro informa que "nos dois cultos que se realizaram, nove pessoas aceitaram a Jesus por seu Salvador". Foi a coroação dos esforços dos antigos crentes de Tubarão. Uma história memorável de pioneirismo com muitas e importantes lições para os nossos dias.

Fonte:

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de janeiro de 1951, p.7.