domingo, 27 de dezembro de 2015

AD em Teresina - "Fim da História?"

Confirmado! A AD em Teresina iniciará 2016, ano da comemoração dos seus 80 anos, com sua unidade administrativa fragmentada. Conforme adiantado por este blog, a decisão foi aprovada em Assembleia Geral da igreja no dia 25 de novembro, e validada na Convenção de Ministros da AD no Estado do Piaui entre os dias 09 a 12 de dezembro. Segundo a página oficial da AD teresinense no Facebook, na Convenção entre "as várias propostas aprovadas destacamos a criação de 30 novos campos eclesiásticos no Município de Teresina.

Diante de tantos impasses ocorridos nos últimos anos, a decisão do ministério talvez tenha sido o melhor caminho para evitar futuros desgastes. Desde a jubilação do antigo patriarca pastor Paulo Belisário de Carvalho, a igreja da "Cidade Verde" passou por conturbados momentos. Dentro desse contexto de turbulências, pastor Mesquita negociou a autonomia dos setores.

Antiga fachada da AD em Teresina: autonomias confirmadas em 2016

Ao abrir mão da centralidade administrativa, pastor Nestor Mesquita levantou discussões sobre o atual modelo de gestão de grande parte dos ministérios assembleianos. Seria a autonomia das congregações ou setores boa ou ruim para as ADs?

Em sua biografia, o pastor José Wellington Bezerra da Costa, líder do Ministério do Belenzinho (SP) e presidente da CGADB, explica que o modelo administração de "campos eclesiásticos", onde as congregações permanecem ligadas a uma sede é vantajoso por ser um padrão de "crescimento sustentável". Nesse conceito as congregações maiores ajudam as menores a se desenvolverem.

José Wellington critica "o sistema administrativo de conceder autonomia a uma pequena congregação de 40 ou 50 membros". Para ele, as ADs no Rio de Janeiro ao adotar esse princípio produziu "milhares de igrejas autônomas" com vários pastores-presidentes que permanecem "patinando para o resto da vida, porque o que seus membros contribuem mal dá para o pastor comer".

Contudo, tal sistema administrativo é questionado por muitos líderes e estudiosos das ADs. Um dos maiores críticos é o pastor pastor Geremias do Couto, que se declara "a favor da derrubada de impérios." Segundo o conhecido jornalista: "Bom seria que isso acontecesse em todo o Brasil. Mais igrejas autônomas, menos poder concentrado e mais proclamação do Evangelho."

A crítica é pertinente. Ministérios como Belenzinho, Madureira entre outros, tornaram-se realmente verdadeiros "impérios" com todas as características que o termo representa. Ao contrário do líder da CGADB, pastor Geremias considerou o caso do Rio de Janeiro benéfico para a denominação, pois no Rio "as emancipações dadas por Alcebíades Vasconcelos, em 1959, quando pastor em São Cristóvão, foram a chave para o crescimento das igrejas na capital fluminense."

Historicamente, a formação de grandes ministérios não era o desejo dos pioneiros. Para o historiador Moab César de Imperatriz (MA) "os missionários fundadores da AD no Brasil não desejavam criar grandes impérios religiosos sob o domínio de uma oligarquia". O estudioso afirma que os suecos "desejavam igrejas independentes e se esforçaram muito para concretizar seus ideais, tanto que foram 'expulsos' e esquecidos por muito tempo".

Mas, controvérsias à parte, os membros da AD em Teresina estão assistindo algumas mudanças a contragosto. Não é para menos. Chamados sempre a colaborar nos projetos da liderança (em mutirões e principalmente nas contribuições financeiras), assistem agora sem consulta prévia, ao que parece ser o "fim da história" da AD local.

* Com a colaboração de Geremias do Couto e Moab César Carvalho Costa

Fontes:


ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.


LEAL NETO, Raimundo. Uma Igreja Edificada - História da Assembleia de Deus em Teresina - PI. Teresina: Halley, 2012.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Manoel de Mello - entre a AD e O Brasil para Cristo

"Um homem aparentemente comum, baixo, quase gordo e de voz potente" com a capacidade de reunir cerca de 30 mil pessoas na cidade de São Paulo, sendo "a maioria delas doente, à procura de lenitivo para seus males físicos". Assim a Folha da Manhã descreveu o missionário Manoel de Mello da Silva (1929 - 1990) fundador e líder da Igreja O Brasil para Cristo (BPC) em seus dias de glória nos 50.

Natural de Água Preta, cidade da Zona da Mata pernambucana, região conhecida pelas revoltas e guerras do período imperial e, como aponta o hino municipal, "Altiva por ter ilustres filhos", entre eles o mítico missionário pentecostal líder da BPC, considerado pelo estudioso Paul Freston "a sensação religiosa dos anos 50 e 60."

Criado na conservadora AD e membro de uma família de nove irmãos, Manoel se tornou menino-pregador em sua terra natal. Com sete anos de idade ao ouvir uma desconhecida profetizar que "ele edificaria o maior templo evangélico do mundo", convenceu-se de sua predestinação ao sucesso. A lembrança dessa mensagem talvez tenha sido o grande impulso para superar os obstáculos que ainda estariam por vir.

Manoel de Mello: sensação religiosa do anos 50 e 60

Em 1947, como milhares de nordestinos na esperança de uma vida melhor e próspera, mudou-se para São Paulo onde trabalhou na construção civil chegando a ser mestre-de-obras. No campo religioso atuou como diácono na AD paulista que na época era liderada por outro nordestino: Cícero Canuto de Lima. Cícero estava na cidade havia um ano e liderava com rigidez a igreja. O veterano obreiro era um dos representantes máximos do que o sociólogo Gedeon Alencar denominou de tradicionalização assembleiana. Ou seja, eram "contra 'fábricas de pastores' (seminários), o uso do Rádio e TV", e mais: "zelosos da doutrina; conservadores da tradição, preservadores do poder. De seu próprio poder."

Dessa forma, o personalismo do recém chegado pernambucano sob a tutela de Cícero não poderia ir longe. Sobre a saída do fundador da BPC da AD, Freston afirmou que Mello "sentia-se limitado pela metodologia assembleiana". A revista Veja em matéria dos anos 80, fala do desentendimento do missionário com a "hierarquia da denominação quando resolveu ampliar sua autonomia de voo".

Muitos anos depois, em entrevista à Folha de SP, Cícero afirmou ele mesmo ter expulsado Manoel de Mello da AD. Na visão do patriarca, Mello (e Davi Miranda) estavam apenas "comercializando e abusando da fé de milhares de crentes, sem a mínima consideração e sem o mínimo respeito para com Deus." A declaração do pastor do Belenzinho feita décadas depois da ruptura, dá ideia do incômodo sofrido pela concorrência das novas vertentes pentecostais surgidas no período.

Nesse contexto, o presidente do Ministério do Belém apenas procedeu como a grande maioria dos líderes das ADs da época. Qualquer sinal de independência por parte de algum subordinado era tratada como rebeldia e o "aventureiro" era sumariamente excluído. As argumentações de Cícero refletiam as convicções teológicas dos pioneiros. Não era a oração em si que curava, mas a fé em Deus, por esse motivo Manoel de Mello não teve a aceitação devida e foi expulso.

Com a saída da AD, Mello aderiu a Cruzada Nacional de Evangelização. Trabalhou com os norte-americanos fundadores da Cruzada, e com o seu testemunho de cura de uma grave enfermidade aliado ao seu talento para pregação, seu ministério literalmente explodiu. "Enquanto o país vencia 50 anos em cinco, um operário nordestino em São Paulo sintetizava o espírito nacionalista e populista, construindo um império religioso autônomo jamais visto até então no Brasil." analisa Paul Freston.

Em pouco tempo, com ousadia, polêmicas e sempre chamando a atenção de políticos, líderes religiosos e da imprensa, Manoel de Mello marcou o mundo evangélico e pentecostal da sua época. Diga-se de passagem em nada se diferenciando de outros destacados pastores, bispos e "apóstolos" da atualidade. Assunto para as próximas postagens.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

*Arquivos digitais da Folha de São Paulo

- Folha da Manhã: quarta-feira, 02 de abril de 1958 - assuntos gerais, p.9.
- Folha de São Paulo: segunda-feira, 18 de janeiro de 1982 - religião, p.15

Veja acervo digital: 07 de outubro de 1981, p.58.