sexta-feira, 28 de outubro de 2016

AD em Santos - explicações de Corrêa e as criticas de Reikdal

A edição de abril de 1997 da revista A Seara com a entrevista do pastor da AD em Santos Paulo Alves Corrêa causaria grandes polêmicas. Diante da repercussão, a CGADB promoveu durante os dias 16 e 17 de julho do mesmo ano, o 1º Simpósio Nacional de Doutrinas.

Com a presença de mais de 200 líderes de todo o país, os debates pró e contra as declarações do pastor santista se acirraram no evento. Tanto, que a defesa do líder foi considerada pelo Mensageiro da Paz (MP), o "momento de maior interesse" do encontro, pois em Santos (segundo alguns pastores) "estaria ocorrendo casos de heresias, com pretensa direção do Espírito Santo".

Corrêa, em sua defesa, contou que ao assumir a AD em Santos rogou a Deus "algo novo para renovação dos cultos, porque eram frios". Percebeu algo diferente acontecendo quando, ao orar, as pessoas caíam sem que ele notasse. Seria, segundo ele, a resposta à oração, à "nova unção".

Mensageiro da Paz: artigo de Alfredo Reikdal
Contou ainda, que obreiros do próprio ministério criticaram as manifestações atribuindo-as ao demônio. O próprio pai, o veterano João Corrêa ficou contrariado com o que viu, mas também teria sido alcançado pela "nova unção", caindo e orando por três pessoas "com os mesmos resultados". 

Paulo afirmou, não tocar nas pessoas para que caíssem, não soprar sobre elas e muito menos ser seguidor de Benny Hinn. Refutou ser adepto de modismos provenientes da América do Norte. Em suma: havia muitas distorções nas informações sobre o que estava acontecendo em Santos. Porém ficou claro na matéria do Mensageiro, que ele não convenceu a todos no simpósio.

O debate não ficaria na matéria sobre o evento da Convenção Geral. Na mesma edição do MP, Corrêa seria veementemente refutado por um dos mais proeminentes líderes das ADs no Brasil: Alfredo Reikdal (1910-2010), antigo pastor do Ministério do Ipiranga em São Paulo.

Reikdal, não poupou críticas à "nova unção" e muito menos as declarações do pastor santista sobre o "ranço das tradições". Confessou ter ficado "chocado e angustiado por muitas noites" com a entrevista publicada na A Seara. Censurou àquilo que ele chamou de "movimentos estranhos, inovações e artificialismos" introduzidas dentro das ADs por "alguns obreiros". 

O veterano ainda considerou ofensivo a expressão "ranço da tradição" usada pelo seu colega de Santos. Para ele, o termo afrontava os pioneiros que através de muitos sacríficos e lutas ergueram as ADs no Brasil. Ranço, segundo o octogenário obreiro, apoiando-se no sentido etimológico da palavra, seria o mesmo que dizer que os desbravadores pentecostais eram "velharia... bafo malcheiroso". 

Não por acaso, Alfredo Reikdal em 1999, desligou-se da convenção regional presidida por Paulo Corrêa para fundar a Convenção dos Ministros Ortodoxos das Assembleias de Deus do Estado de São Paulo (Comoespo). 

Mas as controvérsias se estenderiam ainda mais alguns anos e chegariam a um ponto máximo de questionamentos do ministério do pastor Paulo Alves Corrêa, o sucessor do respeitado João Alves Corrêa.

Fontes: 

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Mensageiro da Paz, ano LXVII - nº 1326/setembro de 1997, p. 3 e 7.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

AD em Santos - a entrevista do pastor Paulo Corrêa

Há quase duas décadas, o líder da AD em Santos (SP), pastor Paulo Alves Corrêa tem se envolvido em polêmicas. Tudo começou com declarações dadas por ele à revista A Seara - edição de abril de 1997.

Intitulada "Creio na nova unção" - Líder da AD na Baixada Santista desenvolve estilo ministerial que inclui o "cair no Espírito" e defende tese da prosperidade para o crente, à entrevista, como se verá adiante em outra postagem, causou acirrados debates entres os pastores assembleianos.

Paulo A. Corrêa: entrevista polêmica em 1997

Porém, é bom registrar, que na mesma edição, Corrêa também abordou temáticas relevantes sobre às ADs. Juventude, missões, evangelismo e crescimento da igreja foram assuntos tratados de forma muito coerente.

Declarou que "a principal causa de não crescermos é a divisão entre nós". Comparou a denominação a uma "concha de retalhos" e expôs a fragilidade da CGADB ao afirmar "a nossa Convenção Geral determina e ninguém cumpre".

Mas a declaração: "Creio na nova unção. Um dia orei por algumas pessoas e elas começaram a cair. Hoje imponho minhas mãos e as pessoas caem", ganhou uma indesejada repercussão no meio das ADs. A tal ponto das outras questões serem esquecidas por seus futuros acusadores. 

Outra assertiva, posteriormente muito atacada por parte de um veterano obreiro das ADs, foi o desejo manisfestado de que a igreja crescesse e "que os pastores não estivessem atrelados ao ranço da tradição". Mais à frente volta a repetir: "A igreja não cresce porque tem o ranço da tradição". 

Afirmou não se considerar neopentecostal, "mas alguém que dá vazão ao mover do Espírito". Ao ser perguntado se convidaria Benny Hinn para pregar em sua igreja, o pastor santista disse considerar Hinn "um servo de Deus com experiências práticas da ação milagrosa do Espírito Santo". 

Mencionou o milagre, presenciado por ele pessoalmente, em que o famoso evangelista orou por uma criança deficiente e o osso da perna dela cresceu instantaneamente. "Por isso, entre a teoria e a prática, escolho a prática" - considerou. Mais à frente, ao ser perguntado sobre a personalidade evangélica de destaque no exterior, Paulo citou justamente Benny Hinn. 

Hinn, nessa época, já era questionado por seus ensinamentos e profecias duvidosas. Mas ignorando todas as polêmicas, Corrêa declarou que o convidaria "simplesmente porque ele é um homem de Deus". 

Todas essas declarações caíram como uma bomba no meio das ADs. Tanto que meses depois, o pastor santista teve que se defender em um tenso encontro de líderes. Ainda não se tinha certeza, mas as respostas de Corrêa na entrevista, apontavam para as tendências litúrgicas e doutrinárias que levariam a AD em Santos em poucos anos à decadência. 

Fontes:

A Seara , ano 40, n. 5, abr. de 1997. págs.7-9.

Meus agradecimentos à equipe do Centro de Estudos do Movimento Pentecostais (Cemp), pela preciosa ajuda na pesquisa para esse texto.

sábado, 15 de outubro de 2016

Medo: antigos e novos receios nas ADs

Houve um tempo, em que os temores dos pastores assembleianos eram somente de natureza externa. As lutas eram as perseguições movidas por fanáticos religiosos. A intolerância, as vezes vinha do clero e dos fieis da Igreja Católica, mas os pentecostais também eram censurados e difamados pelos evangélicos de denominações históricas.

Veio posteriormente as lutas internas e o perigo das heresias surgiram. Afinal, nossos pioneiros desejavam à pureza doutrinária. Na história das ADs, um grupo de crentes calvinistas na década de 1930 foram desligados da denominação e fundaram a Igreja de Cristo.

Tempos depois, como a vinda dos missionários norte-americanos, o grande medo foi a criação dos institutos bíblicos. As tais "fábricas de pastores" seria para muitos veteranos obreiros, um grande mal para as ADs. Foi contra a vontade dos caciques assembleianos e correndo o risco de serem expulsos da AD, que o casal Lemos implantou o IBAD em Pindamonhangaba (SP).

A vaidade e o mundanismo também rendeu grandes preocupações e debates. Os líderes, zelosos pelos bons costumes combateram modas, penteados, jóias, broches e enfeites. Outro ponto de polêmicas foi a mídia audiovisual (rádio e televisão). Pastores se orgulhavam em informar nas convenções, que em sua gestão os membros haviam se desfeito do aparelho de TV.

Antigos e novos medos nas ADs

Com o advento das igrejas neopentecostais entre as década de 1970/80, o Mensageiro da Paz dedicou algumas matérias combatendo a teologia da prosperidade, maldição hereditária, G12 entre outras aberrações e modismos teológicos.

A lista poderia ainda contar com as questões políticas. O medo do comunismo e de ter suas portas fechadas, rondou as ADs. Poderia se incluir, o receio de uma velhice no esquecimento, abandono e sem proventos. Quantos pastores passaram (ou passam) por essa situação.

Muitos desse medos já foram superados ou esquecidos. Vez por outra, nas eleições o receio do comunismo é ressuscitado. A importância do ensino teológico é consensual. Quanto aos modismos teológicos, pelo que se percebe, em nome do "progresso" da obra vários deles são adaptados ou aceitos para a alegria de muitos e tristeza de outros.

Mas, contraditoriamente, alguns receios rondam a liderança assembleiana. Hoje, a denominação orgulhosamente exibe pessoas de várias classes sociais em seu meio. E entre esse fieis, há um tipo de ovelha, que ultimamente têm tirado o sono de muitos pastores.

Membros de destacada condição social e profissional, estão provocando reviravoltas em muitas igrejas. Ao questionar a aplicação dos recursos financeiros, os nobres irmãos que, por serem profissionais abalizados e independentes causam receios profundos nas convenções.

Em Santa Catarina, a diretoria de uma AD no sul do estado estava em apuros com uma situação dessas. No litoral algo semelhante ocorreu com alterações no estatuto. No Rio de Janeiro, dentro de uma AD de Madureira, mudanças ocorreram por conta da insatisfação dos membros. Soma-se a isso à força das redes sociais. Algo que era antigamente era segredo, hoje é espalhado ao vento com o surgimento da internet.

Novos tempos, novos medos. E assim caminha as ADs no Brasil.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Raimundo Ferreira de Oliveira

Na intimidade familiar e entre os amigos ele era conhecido carinhosamente como "Dico". Nas Assembleias de Deus seu nome e sobrenome era conhecido e reverenciado como grande pregador, ensinador, escritor e líder. 

Raimundo Ferreira de Oliveira, nasceu em José de Freitas, cidade próxima a Teresina (PI) em 1949, e passou à infância no município de Igarapé Grande no Maranhão. Voltou a Teresina na adolescência para estudar e congregou no templo sede da AD junto ao pastor Paulo Belisário de Carvalho.

Inteligente e dinâmico, Oliveira chegou à liderança dos jovens e atuou também na área do louvor. Seu pendor para as letras se revelou cedo, pois nessa época já era conhecido pela excelência dos seus textos. Moço ainda, realizou diversas cruzadas evangelísticas no Piauí. Separado para o ministério foi enviado a pastorear igrejas no interior do estado. Voltou à capital para dirigir a congregação do bairro Buenos Aires por apenas seis meses.

Pastor Raimundo Ferreira de Oliveira

Corria o ano de 1979, quando o missionário Bernard Johnson convidou o jovem pastor para trabalhar na recém fundada Escola de Educação Teológica da Assembleia de Deus (EETAD) em Campinas (SP). Trabalhou por muitos anos na instituição escrevendo livros usados para a formação de obreiros em todo país. Consta, que Oliveira rejeitou em 1980 um convite do pastor Paulo Belisário para voltar à terra natal por conta dos seus compromissos com a EETAD.

Posteriormente, foi para o Rio de Janeiro atuar na CPAD. Na editora exerceu vários cargos, publicou livros de sua autoria e foi comentarista da revistas da Escola Dominical para jovens e adultos. Destacou-se nacionalmente como eloquente pregador e ensinador da Palavra de Deus.

A década de 1990, parecia promissora para o escritor. Recebeu o convite para dirigir a Assembleia de Deus Betesda em Fortaleza (CE) do pastor Ricardo Gondim. Após dois anos na capital cearense, Raimundo cedeu aos apelos do pastor Belisário e voltou a Teresina para fundar o Instituto Bíblico Pentecostal (IBPT). Tempos depois assumiu a vice-presidência da AD em Teresina. Seria o princípio do fim para o seu ministério.

Em 1993, o veterano líder Paulo Belisário modicou o estatuto da igreja para controlar sua própria sucessão. A mudança estatutária esvaziou o poder da convenção estadual (da qual foi presidente por muitos anos) sobre a principal igreja piauiense.

O escritor Leal Neto afirma em seu livro sobre a história da AD em Teresina, que "acalorados debates" se deram em torno do tema. Tudo indica, que a manobra regimental trouxe graves desacordos ministeriais e Belisário impôs o nome de Raimundo de Oliveira como seu sucessor. Assim, no dia 09 de junho de 1995, o respeitado pastor e escritor assumiu como 11º presidente da AD em Teresina.

Porém, seu tempo à frente da igreja seria curto. No início de 1997, as diferenças entre Raimundo e o ministério local se agravaram. Leal Neto registra esse triste momento através de uma metáfora: "nuvens sombrias pairaram e se abateram sobre o horizonte de Teresina". O clima de beligerância reinava na capital.

Segundo o autor de Uma Igreja Edificada, "Não sabemos como, nem de onde elas vieram, mas o que é certo é que elas surgiram e se tornaram cada vez mais espessas". Contudo, é fato que as tais "nuvens sombrias", se formaram antes mesmo do pastor Oliveira tomar posse. É possível, que além dos descontentamentos internos, influências externas ajudaram no aprofundamento da incontornável crise eclesiástica.

Sendo chamada para solucionar os conflitos, a CGADB passou o problema para a União dos Ministros das Assembleias de Deus do Nordeste (UMADENE). Os principais líderes da AD na região se reuniram na capital do Piauí para resolver os impasses. A solução encontrada foi a troca entre os pastores de Teresina e Parnaíba. 

Abatido e derrotado, Raimundo de Oliveira ficou pouco tempo em Parnaíba. Com a saúde abalada pediu licença das atividades pastorais. Dedicou-se à escrita e publicação de obras pela CPAD e pela editora Hosanas. Transferiu-se para São Luís (MA), onde viveu seus últimos anos de vida e ministério. 

Morreu neste domingo dia 09 de outubro de 2016, aos 67 anos de idade. Uma grande perda para as Assembleias de Deus no Brasil. Permanecerá vivo através das suas obras.

Fontes:


ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

LEAL NETO, Raimundo. Uma Igreja Edificada - História da Assembleia de Deus em Teresina - PI. Teresina: Halley, 2012.

sábado, 8 de outubro de 2016

AD em Santos - a decadência de uma igreja

A histórica cidade de Santos (SP) contava com apenas 135 mil habitantes, quando em 1924, pentecostais vindos do Recife (PE) iniciaram o trabalho de evangelização no bairro de Ponta da Praia. Ainda no mesmo ano, percebendo a oportunidade de crescimento do núcleo de fieis, o missionário sueco Daniel Berg desembarcou no município para oficialmente fundar a Assembleia de Deus.

Desde então, destacados obreiros das ADs lideraram a igreja: Daniel Berg, Jahn Sörheim, Bruno Skolimowski, Clímaco Bueno Aza e Francisco Gonzaga da Silva entre outros serviram na direção do rebanho pentecostal santista.

O mais longevo líder, João Alves Corrêa, permaneceu por três décadas na direção da igreja. Durante esse tempo, pastor João presidiu a Convenção Geral por três vezes (1966-68, 1968-71, 1971-73), o Conselho Administrativo da CPAD (1994) e o Conselho de Doutrina da CGADB (1995). Ao entregar a presidência da AD santista em 1999 ao seu filho Paulo Alves Corrêa, a igreja contava com centenas de congregações e milhares de membros espalhados pela região.

Posse do pastor João Alves Corrêa na AD em Santos (1962)

Sem sombra de dúvidas, a denominação espelhava o crescimento das ADs no Brasil. Com um sólido patrimônio, uma história respeitável e uma liderança conceituada, parecia que a sucessão seria tranquila e que a solidez da instituição passada de pai para filho seria inabalável. Parecia.

Por que na década seguinte, estranhos acontecimentos envolveram a igreja e a liderança. Como resultado disso, milhares de membros abandonaram a AD santista, conhecida como "a pioneira" do estado de São Paulo. Ministérios concorrentes das ADs abriram filiais na cidade com enorme êxito.

Só como exemplo, a AD do Ministério do Belenzinho em pouco mais de uma década de trabalho na cidade, liderada pelo pastor Jesiel Padilha, abriu 168 congregações e arregimentou mais de 6 mil membros. O próprio vice-presidente da AD santista, o pastor Antônio Carlos, liderou um êxodo de 3 mil crentes para fundar a Igreja Assembleia de Deus Vida Nova.

Com toda essa debandada de membros, a queda das contribuições também se tornou um drama. Complicações financeiras, judiciais e trabalhistas se avolumaram. A AD em Santos - a pioneira - hoje, é uma denominação fragilizada em todos os aspectos.

Mas o que teria acontecido para tamanha sangria? A resposta mais óbvia está na adesão do seu líder ao chamado "avivamento" de Boston (EUA), marcado por fenômenos e manifestações ditas "espirituais" que colocaram em xeque a credibilidade da instituição e dos seus ministros.

Na próxima postagem, um pouco dessa história recente das ADs será exposta. Como nada acontece de uma hora para outra, o leitor perceberá que, anos antes, contestações e polêmicas envolvendo a AD santista eram alvo de discussões acaloradas no ministério.

Não deixe de acompanhar os próximos lances da história assembleiana no litoral paulista.

Fonte:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.