segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Gilberto Malafaia - lutas e combates na AD

Gilberto Malafaia estudou no Seminário Teológico Betel, para espanto dos seus companheiros, e deixou o Ministério de Madureira por se opor a "autoridade". Ajudou a fundar o IBP (Instituto Bíblico Pentecostal) mesmo com a oposição de muitos pastores que diziam ser "pecado" estudar teologia.

Ao sair de Madureira, congregou na AD da Penha (RJ) com o pastor José Santos. Se por um lado o pastor Gilberto deixou o Ministério de Paulo Leivas Macalão por discordar da rigorosidade dos usos e costumes, por outro, ele foi congregar numa AD conhecida como "a igreja do pecado".

Ao chegar na Penha foi sentar-se no banco. Três meses depois teria o ministério de presbítero reconhecido, mais tarde foi consagrado pastor. Chegou a ser vice-presidente do pastor Santos até que em 1972, 30 membros da Igreja Metodista Wesleyana insatisfeitos com a denominação, procuraram Malafaia para estabelecer uma nova igreja em Jacarepaguá, bairro da zona oeste do Rio. A igreja se tornaria a AD em Jacarepaguá. 


Malafaia com outros líderes na CPAD: "inflexível"

A pequena congregação foi favorecida pela rápida urbanização e pelo crescimento da população de classe média na região. A colaboração de alguns políticos também ajudou. Pastor Malafaia apoiou e recebeu ajuda do antigo senador Benjamim Farah e do deputado federal pelo antigo Estado da Guanabara, mais tarde Rio de Janeiro, Lysaneas Maciel.

Aliás, Lysaneas era conhecido como ferrenho opositor da Ditadura Militar, tendo inclusive o seu mandato cassado nos anos 70 por sua forte atuação na luta pelos direitos humanos. Assim como Benedita da Silva, Maciel destoava dos demais representantes evangélicos por não seguir a linha "politicamente correta" do conservadorismo político. Um apoio realmente inusitado para a época.

Segundo o Dicionário do Movimento Pentecostal, na década de 1970, pastor Gilberto começou a se destacar nas Convenções Gerais das ADs, seja como membro da diretoria e comissões, ou como debatedor dos mais diversos temas. Ainda presidiu o Conselho Fiscal da CGADB e, conforme o relato de seu filho mais velho, Samuel, ajudou a sanear a CPAD, a qual passava por um momento de turbulência administrativa.

Turbulência na CPAD? É possível que Samuel se referisse sobre o nebuloso capítulo dos questionamentos a respeito das finanças da Casa Publicadora levantados na Convenção Geral de 1975, quando Altamires Sotero da Cunha era o diretor geral da editora. Uma comissão especial foi criada para "examinar in loco toda documentação concernente" à CPAD. Ao final das investigações constatou-se que Sotero Cunha "procedeu com RETIDÃO e HONESTIDADE".

Mas as enfáticas declarações da comissão no jornal Mensageiro da Paz sobre a lisura dos negócios da direção da editora não foram suficientes para evitar o desgaste do seu diretor-geral. Afirma-se que Gilberto pressionou pela saída de Sotero Cunha da CPAD. Na CGADB de 1977, Cunha pediu demissão após discursar sobre as realizações da empresa em sua gestão.

Segundo Silas Malafaia, seu pai era estrategicamente colocado em determinados cargos porque "ele não tinha medo de investigar". E mais: "queria vasculhar, queria buscar o que era certo e o que era verdade". Tal obstinação "assustava", pois com a sua "sede de justiça" tornava-se "inflexível". Silas ainda lembrou: "Eu vi meu pai tirar gente poderosa das Assembleias de Deus, gente muito poderosa de quem todo mundo tinha medo de tocar, o meu pai não."

Silas estaria se referindo ao conhecido empresário e diretor geral da CPAD? Somente quem testemunhou os fatos pode responder essa pergunta. Anos depois, pastor Malafaia se chocaria com o diretor de publicações da CPAD, Nemuel Kessler. O embate foi motivado por questões internas envolvendo sua esposa, a professora Albertina Malafaia. Kessler acabou demitido.

Gilberto Malafaia também foi articulador da derrota da chapa de Madureira na CGADB de 1987, no Estado da Bahia. Tornou-se ferrenho opositor do Ministério onde iniciou sua carreira eclesiástica. Posteriormente deixou de apoiar o atual presidente da Convenção Geral.

Admirador de Nelson Mandela, Gilberto Malafaia, assim como o líder sul-africano, teve uma carreira de muitas batalhas e uma vida longeva. Coincidentemente os dois faleceram aos 95 anos de idade "velhos e fartos de dias". (Jó 42.17)

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

COSTA, Jefferson Magno. Pastor Gilberto Malafaia - Homem de fé, visão e coragem. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2014.

Mensageiro da Paz, abril (nº4) de 1975.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Gilberto Malafaia - do Ministério de Madureira ao IBP

No dia 12 de janeiro de 2016, passou para a eternidade, aos 95 anos de idade, o veterano pastor Gilberto Gonçalves Malafaia. As novas gerações de crentes talvez o conheçam somente por ele ser pai do pastor Silas Malafaia da AD Vitória em Cristo (RJ). Entretanto, Gilberto Malafaia foi um dos mais destacados líderes das Assembleias de Deus no Brasil.

Nascido em Castro Alves na Bahia, ainda com 14 anos de idades mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro. Em 1939, converteu-se na AD em Madureira, na zona norte carioca. Logo após sua conversão cerca de 12 pessoas da família Malafaia aderiu a fé pentecostal. Dois de seus irmãos (Carlos e Moisés) tornaram-se pastores conhecidos no Ministério.

Ainda nesse período, Gilberto ingressou na Marinha (foi para a reserva como oficial em 1960). Constituiu família com a professora Albertina Lima Malafaia. Da união nasceram cinco filhos: Samuel, Sérgio, Suzana, Silas e Siléia.

Pastor Gilberto: um dos pioneiros no ensino teológico nas ADs

Seu longo percurso ministerial começou na AD em Madureira. No dia 04 de maio de 1958, foi ordenado presbítero por Paulo Leivas Macalão em festividade promovida no templo central do Ministério. Dois meses antes, Malafaia tomou uma atitude ousada para a época: matriculou-se no Seminário Teológico Betel. Isso num tempo em que o ensino teológico era alvo de acirrados debates nas ADs e proibido para os membros.

Chegou a dirigir uma congregação de Madureira no Rio, mas logo voltou para auxiliar na sede. Por razões não reveladas (talvez por causa dos usos e costumes na rigorosa Madureira daqueles tempos), Gilberto se desentendeu com a cúpula da igreja. Tinha um temperamento forte e independente demais para ficar calado diante de circunstâncias com as quais não concordava. Silas Malafaia comentou: "quando meu pai viu coisa errada lá, na reunião de presbitério, abriu a boca e falou! Era para ficar quietinho para ser promovido, para ser consagrado, e estava enfrentando autoridade...". 

Seria Paulo Macalão a "autoridade" enfrentada? É provável que sim. Como consequência disso a saída de Madureira foi inevitável. Refugiou-se com a família na AD da Penha, na época liderada pelo pastor José Santos. No novo ministério foi ordenado pastor em 1966 e as famílias Malafaia e Santos se uniram através do casamento de dois filhos de Gilberto (Samuel e Silas) com duas filhas de José (Elizabeth e Elizete).

Provocou controvérsias em 1962, ao fundar juntamente com o missionário estadunidense Lawrence Olson o Instituto Bíblico Pentecostal (IBP). Era algo avançado demais para a mentalidade da época, pois "era pecado estudar" na "fábrica de pastores". Líderes assembleianos não consentiam que os membros estudassem na "Escolinha do Lourenço e do Gilberto".

Mesmo com todas as dificuldades iniciais o IBP avançou e formou muitos obreiros. Vários jovens e crentes maduros na fé entravam no instituto, mesmo sob represálias com o firme propósito de aprender teologia. No IBP, pastor Malafaia fez de tudo um pouco por 30 anos. Foi professor, reitor, diretor administrativo, e com ele a família toda trabalhava ajudando.

Porém outros desafios ainda o aguardavam. Na década de 1970, pastor Gilberto iniciaria um novo trabalho da AD no Rio, e na CGADB enfrentaria o Ministério onde iniciou sua trajetória como obreiro. Na CPAD também teria seus embates. Assuntos para a próxima postagem.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

COSTA, Jefferson Magno. Pastor Gilberto Malafaia - Homem de fé, visão e coragem. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2014.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Carlos Padilha - combati o bom combate...

*Por Jesiel Padilha 

O pastor Carlos Padilha de Siqueira nasceu no dia 24 de outubro de 1925 na cidade de Monte Alto no Estado de São Paulo. Oriundo de família presbiteriana, nasceu no berço cristão protestante. Sua mãe era membro da Igreja Presbiteriana. Uma mulher devotada a Deus e dedicada à família que criou nove filhos.

Seu caráter foi forjado nos serviços agropecuários e na frequência a Escola Dominical da Igreja Presbiteriana, durante sua adolescência e juventude. Aos dezenove anos, porém teve uma experiência espiritual muito forte com Deus e a partir dai se apaixonou pela pregação do evangelho e ensino da Palavra de Deus.

Iniciou seu Ministério Eclesiástico ainda solteiro. Com 20 anos de idade já pregava o evangelho e com 21 anos dirigia pontos de pregação nos distritos ainda não alcançados pelo evangelho. Naquele período conviveu com a trágica II Guerra Mundial e com a transição da República Velha para o Estado Novo no Brasil.

Carlos Padilha - combati o bom combate...

Casou-se com a irmã Benedita Ricardo de Siqueira aos 25 anos e desta união floresceu 10 filhos, dois in memoriam. Logo em seguida foi separado a diácono e um ano depois a presbítero. Concluiu o ensino fundamental e o curso em teologia com o professor Orlando Boyer, articulista da CPAD na ocasião.

Aos 30 anos, foi ordenado ao santo ministério pastoral pelas mãos do pastor Cícero Canuto de Lima pioneiro nacional das Assembleias de Deus no Nordeste, São Paulo e Mato Grosso. Liderou as igrejas de Lupércio, Pompeia e Assis, onde como pastor-presidente começou do zero a Assembleia de Deus em dezenas de cidades ainda não alcançadas pela Assembleia de Deus. Enviou o primeiro missionário do Brasil para o Paraguai sustentado por Assis em 1960.

Pastoreou a Região Oeste do estado de São Paulo. Pastoreou Corumbá (MS), onde fundou emissora radiofônica, Associação Beneficente e Escola de Ensino Fundamental. Fundou em 1983 a Convenção Estadual (COMADEMS) daquele Estado e foi seu presidente no primeiro mandato.

Pastoreou pela segunda vez a igreja em Presidente Prudente de 1985 a 2005. Foi membro relator e presidente em diversos Conselhos da CGADB desde 1979. Em 2004 assumiu o Conselho Vitalício da CPAD até 2014. Em Prudente fundou várias associações beneficentes, inclusive educacionais e de recuperação para dependentes químicos.

Foi fundador da CONFRADESP em 1983 e seu vice-presidente por vinte e nove anos. Fundou a Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Japão de língua portuguesa . Fundou também o SETEQUE, seminário teológico que formou mais de 6 mil alunos e validou mais de 500 diplomas pelo MEC.

Recebeu os títulos de Cidadão Corumbaense, Assisense, Prudentino e muitos outros títulos de cidades vizinhas. Pastoreou a igreja de Presidente Prudente pela terceira vez de 2011 a 2014. Construiu ao longo do seu ministério mais de duzentos templo da Assembleia de Deus.

Deixou oito filhos, vinte e nove netos e dezenas de bisnetos. Quatro filhos e um neto são pastores presidentes em igrejas em São Paulo. Dezenas de netos são pastores, evangelistas e missionários. Deixou quatro filhas que são esposas de pastores e evangelizadoras. Partiu para a eternidade em 14 de abril de 2014.

Pastor Presidente da Assembleia de Deus em Santos - Ministério do Belém. Pedagogo pela UNOESTE e Teólogo pela UFRR, Militar Federal RR1, 2º Tesoureiro da CONFRADESP, membro Conselho Educação CGADB, ex-vereaodr em Presidente Prudente, ex-secretário Parlamentar Congresso Nacional.

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Alfredo Reikdal - "assembleiano ortodoxo e sectário"

Alfredo Reikdal (1915-2010) liderou por 67 anos a Assembleia de Deus - Ministério do Ipiranga em São Paulo. Um verdadeiro recorde nacional e mundial (segundo sua biografia oficial). Construiu também uma trajetória ministerial interessante.

Reikdal nasceu no dia 14 de junho de 1915 em Tietê, município de São José dos Pinhais (PR). Converteu-se em 1929, aos 14 anos de idade quando a AD em Curitiba dava seus primeiros passos. Tempos depois entrou para a família do fundador da igreja, o pioneiro Bruno Skolimowski, ao casar com Tereza, a filha mais velha do pioneiro em 1935. 

Pelas mãos do sogro ingressou no ministério sendo consagrado pastor em 1939. Segundo Isael de Araújo, o jovem Alfredo tornava-se assim "o primeiro pastor das Assembleias de Deus no Estado do Paraná." Hoje seria visto como mais um caso de nepotismo, mas na época foi compreendido como necessidade de obreiros qualificados. O certo é que o missionário Bruno "não hesitou em consagrá-lo a pastor." 

Reikdal nas bodas de ouro do casal Skolimowski

Skolimowski ao chegar em São Paulo para liderar a AD no Belenzinho, também não hesitou em chamar Alfredo em 1942 para auxiliá-lo. Designado para assumir a AD no bairro do Ipiranga teve como missão superar uma grave crise ministerial. Em meio a sentimentos de rivalidade e oposição, Reikdal liderou interinamente a congregação com "amplos e irrestritos poderes administrativos". Tomou posse em julho de 1943. Agradou tanto que foi confirmado no cargo onde permaneceu por mais de seis décadas.

O início no Ipiranga foi de muitas dificuldades. A falta de trasportes na época, fazia a família pastoral percorrer vários quilômetros a pé para atender o trabalho. Mas a obra cresceu, ganhou autonomia, e várias igrejas foram abertas na cidade de São Paulo, no interior do estado e nas regiões de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás, e Distrito Federal. 

Defendeu institutos bíblicos nas ADs quando estes eram ainda chamados de "fábricas de pastores". Chorou certa vez ao ser impedido de defender os "temíveis" seminários na Convenção Geral. Rigoroso, não franqueava o púlpito a pregadores e cantores itinerantes. Criou em 1955, o Departamento de Assistência e Cultura", e 1956 abriu uma escola primária e curso de alfabetização para adultos. Projetos arrojados para a época. 

Bem sucedido e ousado no ministério, contudo Alfredo Reikdal não teve igual êxito na vida política partidária. Concorreu sem sucesso a deputado estadual em 1970 e 72, 78, 82, 86 e 90. Disputou o cargo de vereador nas eleições municipais em São Paulo em 1976 e 1989, mas não foi eleito. Ao aventurar-se nessa seara, não somente como membro, mas também como pastor foi chamado de "herege" e "excomungado por muitos."

Declarava-se um "assembleiano ortodoxo e sectário". Reprovava movimentos ecumênicos e muito menos inovações no meio assembleiano. Chegou a fundar a Convenção dos Ministros Ortodoxos da Assembleia de Deus no Estado de São Paulo e Outros (COMOESPO) por discordar dos rumos da COMADESP; entidade a qual era ligado.

Ao morrer em 2010, seu vice-presidente no Ipiranga assumiu o cargo. Ironicamente, Reikdal recebeu do sogro a igreja, mas não perpetuou a família no controle dela. Considerava-se "assembleiano ortodoxo e sectário", porém militou na política partidária quando isso ainda era um tabu nas ADs. Realmente uma personalidade paradoxal.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. 

COHEN, Eliezer. E Deus confirmou os seus passos: biografia do pastor Alfredo Reikdal. São Paulo: s/e, 2006.