terça-feira, 29 de março de 2016

José Bezerra da Silva, o injustiçado

José Bezerra da Silva, um dos principais pastores da AD no nordeste brasileiro, nasceu na pequena cidade de Timbaúba na região da Zona da Mata de Pernambuco. Segundo Isael de Araújo, Bezerra era um "exímio alfaiate", e converteu-se em 1930, sendo separado ao diaconato em 1933, e a pastor em 1936. Assumiu a AD em Recife em 1937, sucedendo o mítico missionário Joel Carlson que voltava à Suécia para um período de descanso.

Na condição de primeiro líder nativo da AD no Estado foi vice-presidente da CGADB em 1938. Presidiu em 1940 a Semana Bíblica, onde as liderança das ADs deliberavam sobre assuntos administrativos da denominação. Atou também como 2º secretário desses encontros em 1943 e 1947.


Na sua gestão na AD em Pernambuco, pastor Bezerra "desenvolveu fortemente a ação social na igreja". Trabalho que até hoje é referencial na região. Não descuidou do evangelismo, formando a Campanha Evangelizadora no bairro Casa Amarela. Tal ação motivou posteriormente em cada congregação de Pernambuco campanhas semelhantes. Criou também em sua gestão o trabalho do Círculo de Oração feminino em 1942, que logo se espalhou pelo Brasil afora. Depois incentivou a criação do círculo de oração infantil.

Depois de 13 anos de pastorado e diversas realizações, o líder pernambucano teve dificuldades no ministério. Moisés Germano em sua tese informa que "um problema conjugal fora do seu casamento" seria a "causa do seu ostracismo" na história da AD local. Mesmo com tantas realizações, abordar o pastorado de Bezerra "é um dos temas mais complexos" por falta de registros nos anais da denominação. Pouco se fala em sua administração. Há um determinado e intencional silêncio sobre suas ações à frente do rebanho.

Germano comenta, que o sucessor de José Bezerra, o pastor Manoel Messias, o qual liderou a AD em Recife entre 1953 a 1955, possui "grandes relatos a respeito da sua administração". No entanto, nada diz sobre Bezerra." Contudo, "é muito comum ouvir-se dos pioneiros, menção sobre o nome de Bezerra." A memória popular resiste assim ao "esquecimento" institucional.

Segundo relatos da época (reproduzidos por Araújo), a saída do pastor recifense foi marcada por vários tumultos, acusações e outros fatores que desagregaram o rebanho. Para complicar, muitos membros importantes saíram, e profecias condenatórias eram proferidas na igreja contra o pastor. Toda essa situação culminou com o afastamento e o processo de banimento da história do antigo líder.

Moisés Germano em defesa do injustiçado pastor comenta que "...entendemos que o fato de ele não ter observado alguma ordenança da Igreja, não desmerece os seus treze anos de trabalho, que contribuíram para o andamento da Igreja." As obras do antigo líder testemunham sobre sua profícua gestão.

Mas, não é só a memória do pastor José Bezerra da Silva que é tratada assim. Outros líderes e suas famílias passam pelo mesmo drama da amnésia religiosa. Caso esse mesmo procedimento fosse feito pelos escritores da Bíblia, a rica história do rei Davi seria desconhecida da humanidade atualmente. É de se pensar...


Fontes:

ANDRADE, Moisés Germano de. "Uma história social" da Assembleia de Deus: a conversão religiosa como forma de ressocializar pessoas oriundas da criminalidade. Dissertação (Mestrado) - Universidade católica de Pernambuco. Pró-reitoria Acadêmica. Curso de Mestrado em Ciências da religião, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

SANTOS, Roberto José. (Org.). Assembleia de Deus em Abreu e Lima - 80 Anos: síntese histórica. Abreu e Lima: FLAMAR, 2008.  

sábado, 19 de março de 2016

Os 85 anos da AD em Itajaí - os primeiros dias

Meses depois de iniciar o trabalho da Assembleia de Deus em Itajaí no dia 15 de março de 1931, André Bernardino da Silva enviou seu testemunho ao Mensageiro da Paz (1ª quinzena de dezembro de 1931, p.5). Registrou o pioneiro, que antes todos em "seu torrão natal" lhe eram carinhosos, mas depois da sua conversão as coisas haviam mudado. A aceitação por parte de alguns familiares visivelmente  já não era a mesma.

Todavia, André afirmou: "desde que dei o primeiro passo para Cristo, só tenho recebido bençãos." Relembra ele à cura divina de uma grave enfermidade e que na cidade portuária "o Senhor está continuando sua obra... salvando pecadores e batizando no Espírito Santo."

Quando relatou seu testemunho, a igreja de Itajaí tinha apenas alguns meses de existência. Começou como a grande maioria das ADs no Brasil: com cultos domésticos e muito fervor. Pelas informações contidas no Mensageiro da Paz, (1ª quinzena de agosto de 1931, p.6) pode-se imaginar o impacto que a doutrina pentecostal provocou naqueles dias. Bernardino testemunha que o batismo no Espírito Santo causava "grande despertamento entre o povo incrédulo" para "ouvirem os crentes falarem línguas estranhas."


AD em Itajaí: fervor e perseguição
Realmente, deve ter sido um espanto para os populares, que uma comunidade formada por pessoas simples, e em grande parte negras, moradoras de um reduto de ex-escravos, vivesse manifestações de uma religiosidade considerada estranha. Mais exótico ainda era a localização igreja. A AD catarinense teve sua gênese entre os becos do Quilombo e do Inferninho. A família de João Santana, que doou o terreno para construção do primeiro templo era negra.

Lá, naquele local periférico da cidade, os primeiros crentes construíram o salão de cultos e em regime de mutirão abriram uma rua no beco do Quilombo para dar acesso ao terreno dos Santanas. A nova via foi denominada de "Rua Pentecostal", e Bernardino testemunha ao Mensageiro de "multidões" que corriam "para ver a alegria do povo de Deus".

As conversões aumentaram e não tardou a vir as perseguições. Logo no começo, André desentendeu-se com o padre da região. As hostilidades então aumentaram e chegaram ao ponto extremo, quando o sacerdote católico levantou uma multidão para acabar com o culto dos crentes. Entre paus e pedras, os crentes viram o templo ser invadido e Bernardino por mãos de duas imãs foi escondido dentro de um baú debaixo de uma mesa.

Não fosse a sagacidade de uma vizinha em despistar os perseguidores, André sofreria muito. As notícias sobre a perseguição chagaram ao Rio, de onde partiu Gunnar Vingren e Samuel Hedlund para Santa Catarina com a finalidade de averiguar a situação. Reforçaram a fé dos crentes, realizaram um batismo e partiram com a situação apaziguada.

Assim foram os primeiros dias da AD em Santa Catarina. Dinâmicos, intensos e sofridos. Uma igreja de periferia, mas com uma fé e um líder de grande ousadia. Lindos e heroicos dias. Tempos para se rememorar...

Fontes:

ADAMI, Saulo; SILVA, Osmar José da. André Bernardino da Silva: pioneiro da Assembleia de Deus em Santa Catarina. Blumenau: Nova Letra, 2011.

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

LOUREIRO, Satyro (et al.). 1931-1981 50 anos: o jubileu de ouro das Assembleias de Deus em Santa Catarina e sudoeste do Paraná. Itajaí: Maracolor, 1981.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de agosto de 1931.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de dezembro de 1931.

sábado, 12 de março de 2016

Os 85 anos da AD em Itajaí - o pioneiro

Há 85 anos, nascia em Itajaí a Assembleia de Deus em Santa Catarina. A obra, pioneira do movimento pentecostal no estado, seria fundada por um jovem de vida atribulada, que aportou na cidade litorânea para tornar-se um destemido desbravador do evangelho em terras catarinenses.

Nascido no distrito de Ilhota (interior de Itajaí), André Bernardino da Silva foi fruto do relacionamento extraconjugal de Bernardino José da Silva, dono de uma extensa área de terra, com uma jovem empregada. Sua mãe, após seu nascimento, convenientemente foi afastada da família com a criança e mudou-se para Niterói (RJ). 


Pioneiro da AD em Santa Catarina

Aos 10 anos de idade, Bernardino voltou à sua terra natal para conviver com seus irmãos por parte de pai, filhos da união de Bernardino José com sua falecida esposa e do seu segundo casamento. Com uma família numerosa, as brigas entre os irmãos eram constantes. Por ter sido criado longe da casa paterna e nascido de um relacionamento ilegítimo, o menino “André sempre levava a pior”. Como solução para os conflitos familiares, o pai resolveu matriculá-lo na Escola de Marinheiros em Florianópolis. 

Mas de nada adiantou a solução para o garoto rebelde. Da Escola de Marinheiros, André fugiu para o Rio de Janeiro. Internado no Colégio Marista de Niterói pela mãe, o catarina envolveu-se intensamente na vida boêmia no Rio e adoeceu gravemente. Nessa condição, conseguiu abrigo no navio-albergue Boa Vista, ancorado no porto do Rio de Janeiro. 

Um amigo marinheiro entrou em contato com uma senhora crente, que vendo a triste situação do jovem, orou por ele. Certo dia, o próprio pastor da solidária irmã apareceu para visitar o enfermo. Era Gunnar Vingren e sua esposa Frida acompanhados do missionário Daniel Berg e de Paulo Leivas Macalão. Diante do precário estado de saúde de André, os visitantes oraram por ele e a cura foi instantaneamente. 

Num gesto de solidariedade retiraram Bernadino do local e o abrigaram na igreja. Como era comum naqueles dias, o discipulado do novo convertido foi rápido, e André começou a cooperar na igreja do Rio de Janeiro. Talentoso músico, logo começou a colaborar na igreja de São Cristóvão, onde na convivência com os pioneiros pentecostais forjou seus conhecimentos básicos para o trabalho de evangelista que iria realizar.

Após meses no Rio, pregando e auxiliando na área musical, voltou a sua terra natal para evangelizá-la. Seu retorno a Santa Catarina ocorreu em março de 1931. Todos já sabiam que o filho rebelde voltava agora como herege “que havia abandonado o catolicismo”. A presença do ex-boêmio com sua "nova religião" trouxe muita curiosidade para todos.

Na casa de uma tia com a presença de duas primas, André iniciou a divulgação da mensagem pentecostal. Posteriormente, uma anciã ofereceu sua humilde casa para o primeiro culto oficial da AD em Santa Catarina no dia 15 de março de 1931. A primeira mensagem pregada foi em Marcos capítulo 16, e logo ocorreram as primeiras conversões.

Assim começava a AD catarinense. Seus primeiros dias seriam marcados pelas intensas perseguições aos crentes, e pelo dinamismo de André Bernardino em abrir novas frentes de trabalho. Capítulos de uma interessante história que o leitor acompanhará nesse blog.

Fontes:

ADAMI, Saulo; SILVA, Osmar José da. André Bernardino da Silva: pioneiro da Assembleia de Deus em Santa Catarina. Blumenau: Nova Letra, 2011.


ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

LOUREIRO, Satyro (et al.). 1931-1981 50 anos: o jubileu de ouro das Assembleias de Deus em Santa Catarina e sudoeste do Paraná. Itajaí: Maracolor, 1981.

sábado, 5 de março de 2016

José Cecílio da Costa - pioneiro de Madureira em MG e RJ

* Por André Silva

José Cecílio da Costa, um dos pioneiros do Ministério de Madureira nasceu em Santa Quitéria (MG), em 16/01/1899. Filho de José Cecílio da Costa e Maria das Dores Costa converteu-se na Igreja Batista em Belo Horizonte (MG), no dia 19 de dezembro de 1914. Foi batizado nas águas em 19/12/1914 e migrou para a Assembleia de Deus em 1927. No dia 29/12/1931 era batizado no Espírito Santo. 

Foi separado para o ministério em 8 de março de 1933, e meses depois fundou a AD na pequena cidade de Além Paraíba (MG) no dia 25/04/1933. Em 1935 abriu a AD na localidade vizinha de Porto Novo (MG). Em 1938, foi separado a pastor e transferido para Juiz de Fora em 2 de agosto. 

Em Juiz de Fora permaneceu até o ano de 1945, quando entregou o trabalho para o pastor Ludovico Pedro. De Minas Gerais, José Cecílio foi para o Rio de Janeiro onde dirigiu as ADs em Bangu e Marechal Hermes. Liderou ainda as igrejas de Barra do Piraí (RJ) e Macaé (RJ).

No dia 21 de setembro de 1948, o irmão Cecílio chegou em Campos (RJ) acompanhado da esposa irmã Romualda, por ordem do pastor Paulo Leivas Macalão. Nesse campo trabalhou para o Senhor e muitas almas foram ganhas e portas abertas para o Evangelho. 

Igreja em Juiz de Fora em 1939

Seu desafio maior foi a construção do templo da igreja cuja obra estava embargada. Foi com esse bom propósito que ele se lançou à luta. E Deus lhe deu a vitória. A edificação do templo foi concluída, e este inaugurado em dezembro de 1955 com a presença de centenas de pessoas.

José Cecílio também foi um dos pastores colaboradores na fundação da Convenção Nacional dos Ministros Evangélicos da Assembleia de Deus de Madureira e Igrejas Filiadas, que elegeram em 2 de maio de 1958, o pastor Paulo Leivas Macalão pastor geral do Ministério de Madureira. Hoje conhecida pela sigla CONAMAD.

Inauguração do templo da AD em Campos em 1955

José Cecílio da Costa foi chamado a estar com o Senhor no dia 14 de agosto de 1963. Seu corpo foi levado para o templo para as despedidas e honras finais. Abnegado, combatível e incansável na obra de Deus, deixou o seu posto só no momento em que o Senhor Jesus o chamou. Deixou na memória de todo o campo evangélico de Campos um belo testemunho. Era muito amado por todo o ministério e a Igreja, inclusive cultivou boas amizades em Campos (com o Prefeito da cidade e componentes do gabinete do mesmo, no comércio, pastores das igrejas denominacionais).

Às 15 horas e 30 minutos, iniciou-se a cerimônia no templo dirigiria pelo irmão vice-presidente, evangelista Cássio de Souza, que em seguida passou a direção ao pastor Enoque Alberto da Silva, da Igreja de Cabo Frio que oportunizou o uso da palavra aos visitantes e amigos. Falaram o Dr. João Barcelos Martins, prefeito de Campos, pastor Oséias da Igreja Batista, professor Gentil de Castro Faria da 3º Igreja Batista, professor Benjamim Cezar da Igreja Presbiteriana e José Cláudio Cruz da Assembléia de Deus em Itaperuna.

Após as cerimônias de praxe, às 17 horas partiu o féretro para o cemitério do Caju com o acompanhamento de umas 800 pessoas. No cemitério ainda fez uso da palavra o professor Rafael Zambrott diretor do Colégio Batista Fluminense local; estavam ao lado, o prefeito Dr. Barcelos e o jornalista Latour Arureira. Em seguida, após o toque de clarim pelo diácono Antonio Machado, o corpo baixou à sepultura.

Também estiveram presentes os pastores, João Pacheco dos Santos, João José de Souza, evangelista Nelson de Souza Nogueira, evangelista Antonio Benedito Teixeira de Natividade Carangola e todo o Ministério da Igreja.

Nas igreja em que José Cecílio pastoreou, o Senhor o abençoou ricamente ganhando muitas almas para o Senhor e deixando uma boa impressão. O querido pastor Cecílio, deixou viúva a irmã Romualda, o filho Israel Paixão da Costa (pastor do Ministério de Madureira), nora Aclaraide e uma netinha Mery Lúcia.

FONTES:

CONDE, Emílio, História das Assembleias de Deus no Brasil, CPAD, 5ª Edição, 2006, páginas 218, 219

Atas da AD Madureira – Acesso com o consentimento do Pr. Atayde Ataliba (secretário da igreja)

Dados fornecidos pelo CEMP - Centro de Estudos do Movimento Pentecostal

* Historiador e pesquisador da História do Ministério de Madureira. Autor do livro História da Assembleia de Deus em Bangu. Autor do Memorial das Assembleias de Deus do Ministério de Madureira. Colaborador com o material histórico da Bíblia do Centenário das Assembleias de Deus e livro histórico do Cinquentenário da CONEMAD-RJ, ambos lançados pela Editora Betel.