sábado, 30 de abril de 2016

Eduardo Cunha - o assembleiano

Nunca antes na história, um assembleiano teve tanto destaque no Brasil. Como presidente da Câmara dos Deputados em Brasília, ele está diretamente na linha de sucessão da presidência da República. Em outros tempos, isso seria motivo de orgulho para os milhões de fieis das ADs espalhados pelo Brasil. Hoje, é sinal de constrangimento. 

Nos últimos meses, Eduardo Cunha tem sido um dos principais protagonistas da nossa conturbada política. Cunha começou na vida política em 1989, através de Paulo César Farias, tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello.

A queda de Collor, também resultou na saída de Cunha do cargo de presidente da Telerj, estatal de telefonia do estado do Rio de Janeiro. Tempos depois, Eduardo aproxima-se do deputado evangélico Francisco Silva, filia-se a igreja Sara Nossa Terra e trabalha como radialista na Melodia FM.

Cunha: membro da AD

Amplia consideravelmente sua fama no programa O povo merece respeito. Bom comunicador, Cunha usava de expressões evangélicas em suas críticas políticas e inventa o famoso o bordão "afinal de contas o povo merece respeito". Paralelamente cresce na vida pública, mas sempre com seu nome envolvido em polêmicas. Do PRN de Collor, vai para o PPB (atual PP) de Maluf, e deste para o PMDB de Renan Calheiros, Sarney e Michel Temer.

A mudança para a AD é mais recente. Segundo matéria do jornal O Globo a "mudança de denominação credenciou o peemedebista a buscar votos nos templo da Assembleia de Deus e a conquistar a confiança de nomes como Pastor Everaldo - que se candidatou à Presidência ano passado - e bispo Manoel Ferreira, um dos principais líderes evangélicos no Estado do Rio."

Conseguiu a prerrogativa de ser candidato oficial a deputado federal da AD de Madureira no Rio de Janeiro. Eleito anteriormente para a Câmara dos Deputados em 2002, reeleito em 2006 e 2010, em 2014, Cunha (depois do apoio da AD) conseguiu ser o terceiro mais votado do Rio, com 232,7 mil votos. Ao ser eleito presidente da Câmara, o deputado foi a AD em Madureira agradecer pela vitória.

A conquista, muito comemorada por sinal, foi sobre o petistaia Mais:http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,eduardo-cunha-e-eleito-presidente-da-camara-e-impoe-derrota-ao-pt,1628050Leiais:http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,eduardo-cunha-e-eleito-presidente-da-camara-e-impoe-derrota-ao-pt,1628050 Arlindo Chinaglia. O televangelista Silas Malafaia saudou a eleição de Cunha como "vitória espetacular" e humilhante sobre o "governo e o PT". Seria para muitos, a derrota dos "esquerdopatas".

Mas as denuncias de contas na Suíça, o uso de igrejas para recebimento de propinas e outras coisas mais, gerou um mal-estar difícil de disfarçar entre os apoiadores de Cunha. Os políticos crentes, que antes eram (ou ainda são) apresentados como solução e "benção" para o país, agora são parte do problema ou o problema em si.

Contudo, o que se percebe, é que há furor e ousadia para se denunciar os pecados alheios, mas não os dos "nossos escolhidos". Uma moral seletiva como a da nossa decadente imprensa? Como disse Jesus: "Como poderás advertir a teu irmão dizendo: ‘Irmão! Permita que eu tire o cisco do teu olho’, se tu mesmo nem sequer notas o tronco que repousa no teu olho? Hipócrita! Retira, antes de tudo, a trave do teu olho e, só assim, verás com nitidez para tirar o cisco que está no olho de teu irmão." (Lucas 6:42).

Olhando a foto que acompanha essa postagem é de se perguntar: onde vamos parar? Mas nos dirão sempre com ar cerimonioso e circunspecto: "olhe só para Jesus". Sim, eis o segredo da sobrevivência na selva de interesses próprios que dominam nosso clero.

Fontes:

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994.

Jornal O Globo, 23 de agosto de 2015, p.3.

Caros Amigos, setembro de 2015. p. 24-27.ital + Impresso todos os diasga @Estadao no TwitterAssine o Estadão All Digital + Impresso todos os diasSiga @Estadao no TwitterLeia Mais:http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,eduardo-cunha-e-eleito-presidente-da-camara-e-impoe-derrota-ao-pt,1628050ssine o Estadão All Digital + Impresso todos os diastter

sábado, 23 de abril de 2016

Adriano Nobre: o pioneiro da Assembleia de Deus em PE

* Por Altair Germano

É interessante como a história é passiva de manipulações e omissões, refém dos interesses pessoais ou coletivos de quem a conta. Joel Carlson não foi, como muitos afirmam, o pioneiro das Assembleias de Deus em Pernambuco. Este mérito pertence a Adriano Nobre, “um crente presbiteriano, filho de seringalistas paraenses e comandante de navio da Companhia Port of Pará” (DANIEL, 2004, p. 73). Observe o que nos narra alguns historiadores:
Adriano Nobre
Como ocorreu em tantos outros lugares do Brasil, Pernambuco também recebeu as primeiras chamas do Movimento Pentecostal graças ao espírito evangelizador e o pioneirismo que caracterizaram o trabalho da igreja em Belém do Pará. Foi graças à larga visão espiritual daquela igreja que um de seus membros, Adriano Nobre, foi enviado a Recife, em 1916, com o objetivo de testificar de Jesus e verificar as possibilidades de estabelecer um trabalho de evangelização na capital de Pernambuco. […] Em uma dessa visitas ele encontrou um crente chamado João Ribeiro da Silva, que pertencia a outra denominação. […] João Ribeiro creu na promessa pentecostal e começou a buscá-la. Dessa data em diante os cultos passaram a ser realizados na casa de João Ribeiro, à Rua Ponte Velha, 27, no bairro dos Coelhos. […] Porém, em 1917, Adriano Nobre batizou nas águas do rio Capibaribe duas pessoas, a irmã Lulu e o irmão Francisco Ramos. Foi esse o primeiro batismo de crentes da Assembléia de Deus efetuado em Pernambuco. Logo depois a irmã Lulu foi batizada com o Espírito Santo; a primeira, portanto, no Estado de Pernambuco. […] Adriano Nobre voltou ao Pará, e os poucos crentes que havia em Recife sem assistência espiritual. José Domingos, que também pertencia a Assembléia de Deus em Belém, e tinha ido trabalhar em Jaboatão, voluntariamente prestou alguma assistência ao novel rebanho, dirigindo a Escola Dominical e os cultos à noite. No princípio, em 1918, o missionário Otto Nelson, que trabalhava em Alagoas, visitou Recife e efetuou o segundo batismo nas águas. Os batizados foram as irmãs Felipa, Mariquinha e João Ribeiro, o ‘anfitrião’ da igreja que iniciava suas atividades” (CONDE, 2003, p. 141-142)
Observe que Emílio Conde reconhece o trabalho de Adriano Nobre, já como atividade da Assembléia de Deus no Estado. Em sua obra “História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil”, Silas Daniel escreve que:
Foi Adriano Nobre quem também ministrou aos pioneiros as primeiras lições de língua portuguesa, tendo se tornado depois um obreiro valoroso a serviço do Movimento Pentecostal. Ele, por exemplo, antecedeu o missionário Joel Carlson em Recife, tendo evangelizado aquele Estado de 1916 a 1918, chegando a batizar dois crentes no Rio Capibaribe, entre eles airmã Luli Ramos. Em 1933, porém, já havia algum tempo que Nobre se envolvera com novas doutrinas. (DANIEL, 2004, p. 73-74)
Silas Daniel também confirma o pioneirismo de Adriano Nobre, declarando que ele “antecedeu o missionário Joel Carlson em Recife”. Vejamos também, o que escreveu o pastor Eraldo Omena, ministro da Assembléia de Deus em Recife:
Quando tudo parecia fomentar a continuidade de uma situação mórbida e sem perspectiva de vida, os pernambucanos tiveram a felicidade de ver chegar à capital de seu Estado um servo de Deus procedente de Belém do Pará, chamado Adriano Nobre, que servia ao Senhor, como cooperador do missionário Gunnar Vingren, e pregava o evangelho às polpulações justafluviais da bacia amazônica. […] Enviado pelo missionário Gunnar Vingren, Adriano Nobre chegou a Recife, capital do Estado de Pernambuco, no ano de 1916, com o objetivo de anunciar o evangelho pleno, por ter em seu contexto a doutrina sobre os dons espirituais e as orações proferidas em grupo, também era chamado de Movimento Pentecostal. (OMENA, 1993, p. 10-11)
O pastor Omena confirma também os fatos, afirmando que Adriano Nobre foi enviado por Gunnar Vingren. Dou ênfase a isto, em virtude de haver uma tentativa de se fazer uma ligação direta da origem da Assembléia de Deus em Pernambuco com a Igreja Evangélica Filadélfia em Estocolmo, Suécia, sem passar pela Igreja em Belém do Pará.

Araújo (2007, p. 156) é enfático ao afirmar que Joel Carlson e sua esposa Signe, chegaram ao Pará em 12 de janeiro de 1918, enviados pela Igreja Filadélfia de Estocolmo, Suécia, e que “depois de terem estudado o idioma e se acostumado um pouco com a cultura e os costumes do país, viajaram, em 14 de outubro, para Recife (PE), onde substituíram o pioneiro Adriano Nobre, que havia sido enviado, dois anos antes, pela AD de Belém, para iniciar a AD local.”

Omena (1993, p. 13) confirma: “[…] tendo retomado o destino, desembarcou em belém do Pará, em janeiro de 1918, de onde foi enviado pelo missionário Gunnar Vingren para Recife, 9 meses depois.”

Na obra “Diário do Pioneiro” (CPAD, 2000, 5. ed., p. 150), escrita por Ivar Vingren, sobre a vida do seu pai, o missionário Gunnar Vingren, lemos que:
No princípio do mês de abril de 1928, Vingren viajou, com a esposa, para o Recife. Haviam sido convidados pelo missionário Joel Carlson. Esse querido irmão estava trabalhando agora arduamente naquele Estado, mas quem iniciara o trabalho ali fora o irmão Adriano Nobre, que se convertera no tempo que Vingren estava no Pará. Adriano Nobre foi também um dos evangelistas pioneiros da igreja em Belém do Pará.
Parece-me que alguns líderes estaduais aqui em Pernambuco, se sentem desonrados por serem também fruto da divisão da Igreja Batista de Belém, divisão esta que resultou na criação da Assembléia de Deus naquela cidade.

Parece-me também, que estes mesmos líderes esqueceram que os primeiros crentes da Assembléia de Deus em Pernambuco eram oriundos de outra igreja evangélica, em cuja casa, a Assembléia de Deus em Pernambuco iniciou os primeiros cultos, dando continuidade a esses cultos o missionário Joel Carlson:
Em 24 de outubro de 1918, 4 dias após a chegada do missionário Joel Carlson a Recife, teve lugar na residência do irmão João Ribeiro, sita na rua Velha, nº 27, bairro da Boa Vista, nesta cidade, a primeira reunião que fincou os marcos do Movimento Pentecostal em Pernambuco, com perspectiva de extensão por todo o Estado (OMENA, 1993, p. 14)
Perceba que por “primeira reunião”, Omena está se referindo à presidida por Joel Carlson, visto que: “Os primeiros cultos foram dirigidos (por Adriano Nobre em 1916) em casas de algumas pessoas […]. João Ribeiro e Filipa Ribeiro, residentes na Rua Velha, nº 27, bairro da Boa Vista, nas proximidades da antiga Ponte Velha, que liga os bairros da Boa Vista ao de São José” (Idem, p. 11)

É provável ainda, que o interesse no desconhecimento da história completa por parte de alguns, seja decorrente do fato de que o pioneiro das Assembleias de Deus em Pernambuco, Adriano Nobre, tenha posteriormente seguido “novas doutrinas”, vindo inclusive a ser afastado e não mais aceito na Convenção Geral das Asembleias de Deus no Brasil, conforme registra Daniel (2004, p. 74):
No texto, Nobre pedia a sua readmissão ao ministério. […] Depois de largamente debatida a questão, ’em um ambiente quase unanimemente contrário a readmissão de Adriano Nobre, ficou resolvido que não devemos fechar a porta das Assembleias de Deus a quem quer que seja, desde que os que querem voltar se mostrem arrependidos e renunciem a todos os erros passados’. […] A tal retratação nunca foi publicada. Adriano Nobre permaneceu desligado das Assembléias de Deus.
É amados, a história da Assembléia de Deus em Pernambuco, embora digna de todos os seus méritos, não é tão romântica quanto parece. Não é tão perfeita como se deseja apresentar. Não está isenta dos problemas que outras igrejas vivenciaram e vivenciam. O próprio Joel Carlson pensou em desistir do trabalho em Pernambuco:
O povo não demonstrava interesse pela Palavra de Deus. Um ou outro se convertia, mas não era o bastante para animar os missionários. Joel Carlson, nessa época, visitou a Paraíba e o Rio Grande do Norte, verificando que nesses lugares se convertiam muitas pessoas. Ficou tão entusiasmado com o que vira, que desejou mudar-se para um daqueles Estados. Ao retornar a Recife e comunicar a resolução a João Ribeiro, este o aconselhou, dizendo: "Não faça isso! Jesus fará uma grande obra também em Recife" (ARAÚJO, 2007, p. 156). Ver também CONDE (2003, p. 142-143).
Num recente artigo do Jornal Mensageiro da Paz (Órgão Oficial das Assembleias de Deus no Brasil), número 1.492, setembro de 2009, p. 27, assinado pelo pastor Isael Araújo, nos é informado que:
Em 1907 o despertamento pentecostal alcançou crentes metodistas e batistas em Estocolmo, a capital sueca. em 1909, mediante a situação em que muitos crentes batistas estavam se afastando de suas igrejas por aceitarem o batismo com o Espírito Santo, o comerciante batista Albert Engzell mobiliou um salão em sua residência, na Rua Uppsala 11, em Estocolmo, para servir como local de pregação. O grupo de crentes que começou a se reunir nesse local, chamado salão filadélfia, organizou-se, em 1910, como Sétima Igreja Batista de Estocolmo, tendo como pregador E. W. Olsson, da Escola Missionária de Örebro, que era totalmente a favor do despertamento pentecostal. E. W. Olsson, pouco tempo depois, desejou regressar a Örebro, a fim de dar prosseguimento a seus estudos. Assim, a igreja, que contava com 70 membros, considerou a necessidade de um pregador cheio do poder de Deus e com seriedade para continuar o trabalho. A escolha recaiu sobre Lewi Pethrus, que ainda servia como pregador na Igreja Batista de Lidköping. ele recebeu o convite em 14 de setembro de 1910, e assumiu o trabalho da igreja no ano seguinte, em 8 de janeiro de 1911, aos 26 anos de idade. No fim de 1913, a Convenção Batista Sueca expulsou ostensivamente Pethrus e toda a sua congregação, porque eles praticavam a ceia aberta. As reais causas de sua expulsão, porém, foram a teologia e a liturgia pentecostal. Surge então, a Filadefiakirkan (Igreja Filadélfia).
Lendo o texto acima, percebemos que assim como aconteceu no Brasil, com as Assembleias de Deus. a Igreja Filadélfia (que enviou o missionário Joel Carlson) nasceu dos problemas surgidos pela aceitação da mensagem pentecostal por parte de crentes e igrejas batistas, que culminaram com a sua expulsão. do ponto de vista batista, tais crentes e igrejas eram “rebeldes” e “hereges”.

Depois de todos esses fatos aqui narrados, concluímos afirmando que na Igreja de Jesus, há um só tronco legítimo, ele mesmo. O que sobra, são ramos. Somos todos ramos, meros ramos, misericordiosamente ramos, graciosamente ramos.

“Eu sou a videira verdadeira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15.5)


Pastor Altair Germano é casado com Elizabeth, pai de Alvaro e Paulo, é mestre em Teologia com Especialização em Ministério pelo Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste (STPN), especialista em Educação Cristã pelo Seminário Presbiteriano do Norte (SPN), especialista em Psicopedadogia e licenciado em Pedagogia pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (FUNESO), escritor, conferencista, Vice-Presidente do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), missionário na Itália pela IEADALPE em Porto Mantovano, Lombardia, Italy.


Blog do Pr. Altair Germano (http://www.altairgermano.net/2008/10/adriano-nobre-pioneiro-das-assembleias.html)


Fontes:

- A memória do Saudoso Missionário Joel Carlson. Antonio Torres Galvão. TIPOGRAFIA OSÉIAS LIMA
– Diário do Pioneiro Gunnar Vingren. Ivar Vingren. CPAD.
– Dicionário do Movimento Pentecostal. Isael de Araújo. CPAD.
– História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Silas Daniel. CPAD.
– História das Assembléias de Deus no Brasil. Emílio Conde. CPAD.
– Mensageiro da Paz, ano 79, número 1.492, setembro de 2009, Isael de Araújo.
– Síntese Histórica da Assembléia de Deus em Abreu e Lima. Roberto José dos Santos, Altair Germano da Silva, Dário José de Souza e Esdras Cabral de Melo. FLAMAR
– Síntese Histórica da Assembléia de Deus em Pernambuco. Eraldo Omena. GRÁFICA FIGUEIRA E LEAL.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

José Menezes - Está Errado

José Menezes (1896 - 1972) foi um dos pioneiros das ADs no Norte e Nordeste do Brasil. Liderou várias igrejas, convivendo com os missionários suecos e os pastores mais antigos da denominação. Produziu muito também na área literária. Entre 1960 a 1973 comentou as Lições Bíblicas da Escola Dominical (CPAD), e escreveu muitos artigos doutrinários para o Mensageiro da Paz.

Em um desses artigos publicado na sugestiva coluna intitulada Está Errado no MP (1ª quinzena de abril de 1969), Menezes faz fortes criticas aos chamados "pastores regionais". Os "pastores regionais", segundo o jornalista Geremias Couto era uma expressão muito comum, principalmente no Nordeste, para designar os líderes que supervisionavam as igrejas de um estado ou região. No passado, os mais conhecidos obreiros a desempenhar essa função foram José Teixeira Rêgo do (CE), e Estevam Ângelo de Souza (MA). Atualmente, em Pernambuco, Ailton José Alves lidera dessa forma.


Pastor Menezes: críticas ao pastor regional
Pastor José Menezes, até reconhece os benefícios desse "método de trabalho", desde que o líder regional trabalhasse "em perfeita cooperação com outros pastores, tudo fazendo para ajudá-los para engrandecimento do reino de Deus". Porém, tudo deveria ser "feito sem pretensões de mando e senhorio" e com "espírito de humildade". Adverte o veterano obreiro, que de forma alguma a posição de destaque poderia conferir aos eminentes líderes a "chave de hierarquia pastoral". "Fora disso está errado e muito errado." - sentenciou ele.

A seguir, o veterano obreiro relata sobre as ameaças que pairavam sobre as ADs quando o "pastor regional" começava a ter as "pretensões de mando e senhorio".
Porém, há entre nós, grande perigo, a tendência maligna de alguns julgarem no direito ao título antibíblico de "pastor regional", por querer superar seus colegas, e até desprezá-los, exercendo sobre eles autoridade que a Bíblia confere a todos por igual, sem a etiqueta de mando. Mat. 18.18; João 20.23. Isto está errado e muito errado. 
Em certo Estado, em uma Convenção Estadual, um desses "pastores regionais" cassou a palavra a um colega que defendia uma tese justa, só porque a referida tese não conferia com a pretensão de estabelecer estatutos absurdos que ele desejava impor à SUA REGIÃO; pois, tal pretensão se concretizasse  feriria frontalmente a liberdade e igualdade de todos. Tal proceder está errado e muito errado.
Na continuação do texto, Menezes considera que no reino de Deus os valores são diferentes dos esposados pelo mundo. Ou seja, ao invés de mandar, o obreiro de posição deveria servir. Apela para o sublime exemplo de Jesus que não "veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos". Marcos 10:45.

Após usar o magno padrão de conduta de Cristo, o articulista vai direto ao ponto:
Eis ai meus veneráveis colegas, a verdadeira bitola da real grandeza que os servos de Deus devem buscar, para saber honrar e servir uns aos outros, lavar os pés... usar a humildade e nunca pensar em ser chefe, mandão, monopolizar direito torto para humilhar quem quer que seja. Isto está errado e muito errado.
Para ele, o objetivo dos "pastores regionais" era "empunhar o cetro da distinção" e "exercer o império do mando." Isso seria ainda um "beco de inovações, criação de leis e estatutos imprecisos, proteção a favoritos, trazer a outros com aves de arribação." (oportunistas)

Mais de quatro décadas se passaram, e as observações do pastor Menezes ainda continuam atuais. No Nordeste os pastores regionais hoje são mais raros. No Sul e Sudeste o cargo de pastor-presidente ganhou força com o crescimento dos ministérios assembleianos. E com o tempo, as problemáticas e as críticas descritas pelo saudoso líder só ampliaram-se em outras regiões do Brasil. 

Ao final do texto, o apelo do pioneiro foi para que as pretensões humanas fossem deixadas de lado e o Espírito Santo dirigisse a igreja. Fora disso tudo estava "errado e muito errado...".

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de abril de 1969. Rio de Janeiro: CPAD, p.2.

sábado, 16 de abril de 2016

Pastor-presidente - críticas ao modelo

Como já foi observado na postagem anterior, a nomenclatura "pastor-presidente" começou a ser usada dentro das ADs por volta de 1959. Em 1950, Paulo Leivas Macalão é denominado "pastor geral" do campo eclesiástico de Madureira.

Dados da época confirmam esse título. A edição de setembro de 1955 da revista Subúrbios em revista relata que "o trabalho sob a jurisdição do Pastor Paulo Leivas Macalão, está constituído por um ministério de 37 pastores, 170 presbíteros, 60 evangelistas e mais de 1.200 diáconos e auxiliares de trabalhos." Além do Rio de Janeiro, 0 ministério de Madureira já estava presente em São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Paraná e Espírito Santo; com um número estimado de 50 mil membros em comunhão.

Macalão, centralizador e precavido, percebendo as tensões latentes em decorrência da notável expansão da obra, resolveu em 1958 criar a Convenção Nacional de Madureira, assegurando unidade ao trabalho diante da visível fragmentação ocorrida em outros ministérios. Porém, as ações do carismático líder carioca foram alvo de contestação dentro das ADs.

Alcebiades Pereira Vasconcelos, que na época liderava a AD em São Cristóvão (RJ), e havia enfrentado oposições do presbitério local antes de dar autonomia as suas congregações, criticou nas páginas do Mensageiro da Paz (1ª quinzena de novembro de 1959), as tendências centralizadoras e oligárquicas da denominação.

 Alcebiades: critícas ao modelo hierárquico das ADs

No artigo Algo com respeito ao governo eclesiástico, Vasconcelos denuncia o sistema hierárquico criado nas igrejas chamando-o de "pequeno sinédrio". Para o "escaldado" pastor, o modelo adotado nas ADs desconfigurava "a feição bíblico-congregacional da igreja, de governar-se a sim mesma através do consenso cristão do voto unânime ou pelo menos da maioria dos seus membros."

Após criticar o presbitério (em sua biografia ele fala dos muitos embates com esse grupo de obreiros), e o distanciamento do sistema congregacional,  Alcebíades aponta sobre o perigo da criação dos cargos de "pastores-presidentes". Conforme arremata o veterano obreiro "criado e estabelecido a inovação de pastores-presidentes, começou a surgir em alguns setores outro grau da nossa avultada hierarquia - o de pastores gerais (pastores de pastores)".

Alcebiades Vasconcelos reconhece que alguns líderes eram chamados de "pastor geral" em reconhecimento e gratidão ao trabalho feito em uma determinada região; "agora, porém, não mais por motivo de gratidão, mas por decreto, por força estatutária, já há alguns na Assembleia de Deus, pelo menos um pastor-geral com caráter nacional. O que vemos nisso senão que estamos a um passo só de um papado pentecostal brasileiro?" Irônico, Alcebiades ainda complementa: "Daí à infalibilidade , é apenas um salto, e talvez não muito grande, porque os profetas estão ai mesmo para proclamarem a inovação!".

Assim, através das observações do antigo líder da AD em São Cristóvão percebe-se que, a construção do episcopado assembleiano não foi feito sem ressalvas e previsões pessimistas. Além de se distanciar do sistema congregacional, a consequência desse novo modelo gerava uma elite eclesiástica com muitos poderes sobre à igreja. A vitaliciedade dos "bispos" assembleianos seria apenas um efeito colateral. Macalão fez escola...

PS: o texto do evangelista e blogueiro Daladier Santos também é muito apropriado para as reflexões sobre o tema. Acesse http://www.daladierlima.com/uma-analise-sobre-vitaliciedade

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.


 Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de novembro de 1959. Rio de Janeiro: CPAD, p.2.

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A construção do pastor-presidente

Pastor-presidente é o modelo de liderança mais conhecido dentro das ADs. Para muitos, tem-se a impressão que a igreja já nasceu sob essa forma de administração eclesiástica, sendo a titulação totalmente bíblica e "natural".

Mas, ao contrário disso, o cargo de pastor-presidente é uma construção a posteriori do nascimento do movimento pentecostal no Brasil. A consolidação desta função tão respeitada (e temível para alguns), tem relação com o sistema de governo adotado pela igreja em sua fase de expansão. 

As ADs nasceram congregacionais. Seus fundadores, segundo Freston "guardavam zelosamente a autonomia da congregação local." Mas a nacionalização da obra em 1930, e seu crescimento, mais a ascensão dos obreiros nativos mudaram esse panorama.

Paulo Macalão: Pastor Geral em 1950

Gedeon Alencar afirma, que a "militância arminiana e congregacional de uma irmandade simples, voluntariosa e profundamente marcada por fenômenos pentecostais dá espaço a um modelo institucional centralizado e regrado pelas Igrejas-Sede e seus grupos de poder...". Surge então os Ministérios, que se expandem de forma significativa.

Segundo essa lógica, Marina Corrêa observa que "...com a criação dos ministérios ADs, com tendências congregacionais, além do modelo episcopal passaram a mesclar com o presbiteriano." Mas gradativamente, o sistema gerou a formação de verdadeiros clãs, onde os "pastores assumiram uma postura mais voltada para o patriarcalismo, com sistema administrativo episcopal e, atualmente, a figura do pastor-presidente tem representatividade semelhante ao do bispo regional dos católicos."

Em 1950, no Mensageiro da Paz (2ª quinzena de abril) Paulo Leivas Macalão já é chamado de "pastor geral" do campo de Madureira. A nomenclatura de pastor-presidente aparece ainda no fim daquela década (1959), para referir-se ao líder da AD em São Cristóvão (RJ), e torna-se um padrão para outros ministérios.

Com o significativo aumento dos poderes desse líderes, as disputas por campos eclesiásticos não tardou, sendo as Convenções Gerais o principal palco dos debates e tensões entre os "santos homens de Deus". Criou-se até o termo de "jurisdição eclesiástica" para delimitar a atuação dos Ministérios capitaneados pelos notáveis líderes.

Porém, tal acúmulo de poderes não era o desejo dos suecos, e muito menos de alguns obreiros brasileiros. Mesmo depois de consolidada a figura do pastor-presidente e a influência dos seus Ministérios, algumas críticas despontavam, pois o evidente abuso de poder e supremacia de alguns, configurava-se numa anomalia no mundo pentecostal.

É que o veremos nas próximas postagens....

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.