domingo, 29 de maio de 2016

As "aves de arribação" nas Assembleia de Deus

No mês de abril de 1969, o pastor José Menezes, na época pastor da AD em Manaus escreveu em sua coluna Está Errado no Mensageiro da Paz, sobre os perigos da supremacia do poder do "pastor regional" no nordeste. Segundo o experiente obreiro, a hegemonia dos tais líderes, poderia ser para a igreja um "beco de inovações, criação de leis e estatutos imprecisos, proteção a favoritos, trazer a outros com aves de arribação." 

O dicionário Michaelis online explica que, as chamadas aves de arribação, "migram em busca de condições mais favoráveis às suas características biológicas", mas figuradamente também podem designar "forasteiros que não se demoram no país onde buscam meios de vida." Em outras palavras, são oportunistas que tiram proveito das circunstâncias, buscando seus interesses próprios.

O notável crescimento das ADs, e a formação de uma estrutura eclesiástica considerável que, davam ao pastor regional (ou presidente) singular poder e influência, traria segundo Menezes, os apadrinhamentos indesejados e os aventureiros espoliadores da fé alheia. Nada tão profético ou realista para os dias atuais.

Pastor Menezes: nada simpático com as "aves de arribação"

Mas, qual a principal característica das "aves de arribação"? Sem dúvida, é a invenção de uma identidade religiosa para fins políticos, ministeriais e mercadológicos. Algo impensável quando as ADs eram pequenas, pobres e inexpressivas, porém inevitável com o crescimento da denominação.

No caso da política, as experiências recentes são uma evidência clara do perigo das "aves de arribação". Eduardo Cunha virou manchete nos principais jornais e revistas do Brasil. Iniciou na política através do sinistro PC Farias no governo de Fernando Collor de Mello. Tornou-se evangélico através do deputado Francisco Silva (que segundo Paul Freston também criou uma identidade religiosa), e através da mídia cristã construiu uma sólida carreira pública. O ex-presidente das Câmara dos Deputados é só um exemplo. Mas, infelizmente, há muitos "Cunhas" nas igrejas.

Na área do louvor as coisas não são diferentes. O aumento das vendas dos CDs e a certeza de agendas e apresentações nas igrejas para exporem seus trabalhos, fizeram desse setor um dos mais disputados nos últimos anos. E, obviamente, as "aves de arribação" chegaram-se para tirar proveito do novo nicho de mercado. Não por acaso, as letras e ritmos estão cada vez mais rasos e heréticos do ponto de vista bíblico.

E por fim, há os pregadores, conferencistas (nacionais e internacionais), preletores e outros. Isto sem contar, os que em outros tempos, devido aos sacrifícios exigidos no ministério, jamais buscariam no ministério evangélico uma forma de ganhar a vida.

Não custa lembrar as palavras do pastor maranhense Estevam Ângelo de Souza, ao recordar os primórdios do seu ministério: "Naquele tempo, ministério era sinônimo de sacrifício." Na concepção do saudoso líder "seria vergonha um pastor morrer rico." 

Com pessimismo, o pioneiro em um longo texto escrito para o Mensageiro da Paz em janeiro de 1989, constatou: "Já vemos muitos púlpitos sem mensagem e muitas pregações sem conteúdo bíblico e espiritual. Aí estão os que exercem o ministério como meio de ganhar a vida e não de ganhar almas".

Sábias observações, mas pouco consideradas no contexto evangélico do século XXI.

Fontes:

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994.

HALO, Pekelman. Stéfano dos Anjos, do Piauí ao Maranhão, da pobreza ao reino ditoso. Artigo, em seu formato original, foi escrito em janeiro de 2006. Foi porém revisto e ampliado em virtude de sua apresentação no X Simpósio da ABHR – Assis, São Paulo.

MOTA, Elba. Modelos e limites de um estudo biográfico: a trajetória do pastor Estevam Ângelo de Souza. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.


MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro: CPAD. Ano 58, n. 1.225, jan. 1989.

MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro: CPAD. Ano 62, n. 1.267, out. 1992.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

A difícil arte de "inspirar amor"

Segundo os melhores dicionários, o verbo namorar significa: esforçar-se para conseguir o amor de; cortejar, galantear, atrair, cativar, inspirar amor a, seduzir. Namorar, portanto, é (ou deveria ser)  o primeiro passo para o casamento.

Teoricamente, essa bela fase juvenil deveria ser só de romantismo. Mas para muitos jovens das ADs, esse período de "inspirar amor" era acima de tudo, submeter-se a uma série de regras. Os jovens crentes do século XXI, não imaginam as dificuldades dos antigos casais para se namorar.

As ADs em Santa Catarina são um bom exemplo dos tempos de rigidez. Na década de 1950, a mocidade catarinense era submetida a diversas normas para um namoro "santo". As instruções oficiais da igreja eram impostas e divulgadas aos seus membros. Caso não fossem obedecidas, resultavam em penalizações.

Segue ao leitor algumas das recomendações aos enamorados:

1. O namoro (bem como os dias da semana) são permitidos para aqueles que pretendem se casar, caso tenham idade suficiente. Namoro só por passatempo é pecaminoso.

2. Namoros só na presença de acompanhantes.

3."Carícias" são consideradas carnais e pecaminosas.

4. Namoro com pessoas não crentes é considerado pecaminoso, e equivale a abandonar Deus.

5 Aqueles que praticam essas coisas são considerados rebeldes e, portanto, sujeitos à exclusão da igreja.

6. Nada disso proíbe uma conversa amigável entre os jovens de ambos os sexos. Existe claramente uma diferença entre conversa saudável e namoro. Conversas saudáveis ​​não precisam estar em segredo. Não precisa haver datas fixadas para uma conversa saudável.

O jovem casal de noivos Nordlund: exigência de acompanhante

Para os que acharam as regras muito rígidas é bom lembrar: não era só a igreja que estipulava normas para o namoro. A sociedade secular como um todo exigia muito respeito nesse tipo de relacionamento.

A historiadora Jeisa Rech em seu livro Memórias sobre namoros em Joinville na década de 1950, comenta sobre as exigências de discrição e posturas adequadas impostas aos jovens desse período. Segundo Rech, os namoros das chamadas "moças de família" deveriam ocorrer dentro de casa sob estrita vigilância dos pais, com dias e horários estabelecidos. Passeios só com acompanhantes, e "prazos" para os  futuros casamentos eram estipulados. Como se percebe, nada muito diferente do namoros dos crentes.

Ainda segundo a pesquisadora "Os indivíduos não podem ser analisados isoladamente; suas relações refletem o meio social em que vivem, e os perfis de comportamento masculino e feminino definem-se em função um dou outro e pelo grupo social."

Sendo assim, percebe-se que as exigências da igreja apenas refletiam as normas de conduta da sociedade conservadora da época. As ADs estavam inseridas no contexto social e condenar os antigos líderes por esse regime "talibã" é desconhecer a história social e cultural do Brasil.

Contudo, com relaxamento dos costumes a partir da década de 1960, e a urbanização crescente do país, os tradicionais hábitos familiares também aos poucos foram cedendo. E, enquanto a sociedade se abria à modernidade, as ADs temendo as transformações em curso fecharam-se ainda mais.

Com maior ou menor grau de exigências, as famílias evangélicas ainda observam certas normas para essa fase de romantismo juvenil. Mas as radicalizações são cada vez mais raras. Os excessos, porém, permanecem nas memórias dos veteranos irmãos que, conseguiram em nome do amor, vencer as severas restrições daqueles tempos. 

São histórias dentro da história. Cada um conta a sua aventura na difícil tarefa de "inspirar amor".

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

RECHE, Jeisa. Memórias sobre namoros em Joinville na década de 1950. Joinville, SC: Editora Univille, 2010.

sábado, 21 de maio de 2016

Túnel do tempo: A Música fala a Deus

Era um sobrado cinzento, no Campo de São Cristóvão, igual a muitos prédios do bairro, um edifício armado erguido entre o casario da velha praça. Mas diferente de todos, pois era a casa de Deus”. Na porta de entrada, o convite bíblico: “Jesus disse: Vinde porque tudo já está preparado”. (Lucas 14.17)

Rio de Janeiro, bairro de São Cristóvão. A Segunda Guerra Mundial havia findado na Europa, e os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira voltam ao Brasil como heróis. Na então Capital do país, o clima era de alívio e desejo de liberdade política. O fim da ditadura do Estado Novo estava próximo.

Nesse contexto de agitações nacionais e internacionais, a equipe da Revista da Semana, uma das principais publicações da época descreveu o culto na Assembleia de Deus em São Cristóvão no distante mês de julho de 1945. 

Intitulada de A Música fala a Deus, aos leitores cariocas é descrito um dos cultos da igreja pioneira do movimento pentecostal na capital federal. Além de inédita para as novas gerações de crentes, a matéria é importantíssima para se relembrar o antigo templo de São Cristóvão, a composição social dos seus membros e os principais momentos de um culto assembleiano há 70 anos.

AD em São Cristóvão (RJ) década de 1940
Fora do salão de cultos havia a frenética agitação de carros, bondes e ônibus, “a luta dos homens”, porém dentro do simples templo “a paz do Senhor”. Não havia naquela casa de oração “requintes de arte ou florões de luxo”, as “paredes eram nuas” e despojadas de beleza. “Tudo é singelo e natural” sem a “grandiosidade opressora” das antigas catedrais. Longe de querer apresentar ostentação, os templos eram simples como a fé dos crentes.

Os jornalistas adentram o recinto guiados por Emílio Conde. Ao avistar o púlpito, observam curiosos uma orquestra “heterogênea” composta por pessoas de várias idades, que com seus instrumentos musicais executavam hinos de louvor a Deus. Cânticos e hinos se ouviam na congregação atenta a tudo o que se passava no culto. Contudo, uma surpresa estava reservada aos visitantes...

“Em frente ao coro o maestro, um jovem de cor, de 20 anos de idade se tanto, dirigia a orquestra e os músicos.” Admirados observam: “Regia como Stokowski negro.”- Referência a Leopold Stokowski maestro dos EUA conhecido por reger sem batuta. A comparação é notável, pois indica a promoção que o pentecostalismo deu às pessoas humildes em funções chaves na igreja. Algo que somente na década de 1960 os sociólogos começaram a pesquisar com afinco.

A música realmente ganha destaque como um todo. Constataram os ilustres visitantes que “Assembleia de Deus ensina a palavra de Deus através da música e leva a Deus os pedidos dos homens pela letra de hinos e salmos”. Muito mais que simples parte do programa, os hinos (juntamente com a palavra) eram a própria pregação, oração e adoração a Deus.

A postura dos membros também é digna de apreciação: “Não se nota na igreja um vestuário que destoe da simplicidade do ambiente”. Com sua composição social basicamente de classe média ou operários, segundo os editores, não havia integrantes da religião “comodista e sedentária”. A Assembleia de Deus não era somente uma igreja de pobres, mas de simplicidade e temor de Deus. Um exemplo de bom senso para os dias atuais.

No dia da visita, pastor Cícero Canuto de Lima ministrava no culto. Diferente de outras denominações evangélicas, nada o diferenciava dos membros no vestir. Na prédica “não havia retórica”, mas se expressava “na linguagem simples da gente do povo, justamente para se fazer bem compreendido por aqueles que o ouviam”. Era uma mensagem serena sem exageros ou “arroubos de oratória”, mas que cativava os ouvintes.


Terminada a pregação, levanta-se um irmão “magro, alto, faces enrugadas” com uma “velha Bíblia de capa preta abraçada carinhosamente ao peito”. Naquele momento, ao olhar para o alto, o rosto enrugado se ilumina e um discreto sorriso lhe é possível observar. A voz daquele crente então se eleva numa “súplica comovente e ardorosa”. O clamor enche o tempo e todos o escutam atentamente. “Um sopro de beatitude invade a igreja”, e um silêncio comovente toma o ambiente.


Naqueles momentos de sacro silêncio, só se ouve - primeiro timidamente e depois com mais força e vigor - “as notas solenes e pesadas da música do órgão. É Emílio Conde que toca o instrumento com maestria e sentimento, enquanto permanece a contemplação silenciosa dos fiéis. A notas emanadas do órgão é “como uma música chegada do céu”. Há uma ordem no culto, onde a reflexão e a reverência não destoam de o verdadeiro mover de Deus entre seu povo.

Porém, a ordem do pastor, todos começam a entoar um louvor empolgante. Acompanhando o coral e a orquestra, a igreja exalta a Deus. “Todos cantam no templo, moços e velhos, negros e brancos, na confraternização solidária da crença.” Esse é o verdadeiro Evangelho de Cristo: a união da humanidade na fé e no amor cristão.

Subitamente, pastor Cícero direciona os músicos e a congregação que toquem e cantem o hino “Às Armas”. Enquanto cantam o hino, a imagem que se tem é de um batalhão. “São soldados de Deus preparados para a luta, que cantam seu hino de combate.” Com entusiasmo e postura militar louvam e se preparam para a batalha cujo principal objetivo é resgatar “as ovelhas desgarradas”; “prontos para a luta árdua da evangelização. ”

Essa era a Assembleia de Deus em São Cristóvão em 1945. Igreja mãe de muitas outras Assembleias de Deus espalhadas pelo Brasil e na época referencial para o movimento pentecostal no país. O quanto dela ainda restou?



Fonte: Revista da Semana. Rio de Janeiro, ano XLVI - nº 28 - 14/07/1945. pág.11-17, 50.


* Texto originalmente publicado no Mensageiro da Paz de fevereiro de 2016.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Política, uma visão cristão - Geremias Couto

O livro Visão Cristã sobre - Política, é um ensaio de autoria do pastor Geremias Couto sobre a participação dos crentes na política. Logo em sua introdução, o autor avisa que seu objetivo não é "enaltecer a política como meio de redenção, nem fornecer um passaporte puro e simples de integridade aos políticos." Mas refletir, biblicamente, sobre um tema tão mal compreendido entre os evangélicos em geral. 

Afinal, deve o cristão atuar na política? Reconhece o escritor, que o quadro atual não é muito animador. Candidatos em tempos de eleição apresentam-se como defensores dos valores cristãos, mas tão logo eleitos, abandonam o discurso para se dedicar a "negócios escusos, visando a satisfação de seus interesses pessoais."

Com tantas decepções, a atitudes de muitos crentes é de alienação e apatia aos assuntos vinculados ao tema. Com clareza e objetividade, o jornalista aborda o conceito de política e o equívoco do ensino da suposta dicotomia entre o sagrado e o profano, o que leva muitos crentes a ver a vida pública com desprezo.

Visão Cristã sobre a política: leitura obrigatória

Em sua explanação, pastor Geremias explica que a "vida cristão é uma só, sem dicotomias, sem estar seccionada, para ser vivida em qualquer dimensão em que estivermos". Ou seja, o cristão em todas as circunstâncias da vida e profissões deve cumprir a missão de ser "sal da terra e luz do mundo" (Mateus 5.13-14). Incluindo a política.

Citando os exemplos do holandês Abraham Kuyper (1837-1920) e do inglês William Wilberforce (1759-1833), Couto descreve como um cristão pode estar presente na vida pública contribuindo para a justiça social sem abrir mão dos seus princípios ou aderindo ao fisiologismo tão em voga nos meios políticos.

Mas para que isso aconteça, é necessário a observação de alguns critérios. Primeiro: o preparo para lidar com as diversas questões políticas e sociais enfrentadas na atuação pública. Em uma sociedade heterogênea e complexa como a brasileira, a ampla visão de mundo e a capacidade para dialogar com as diferentes vertentes políticas são condições mais que necessárias para o bom êxito da atuação parlamentar.

Segundo: a finalidade da política deve ser servir ao povo e não simplesmente a interesses específicos. Em outras palavras, o político evangélico não deve ser apenas um "despachante de luxo" das igrejas ao qual está ligado. Terceiro: o púlpito ou o culto não deve servir de palanque eleitoral. O templo é local de adoração a Deus e não um espaço para comícios contrariando à legislação eleitoral.

Como ex-membro do Conselho Político da CGADB, toca também em um dos pontos nevrálgicos da questão política atual: a candidatura de pastores a cargos eletivos. "Creio firmemente que pastores não devem candidatar-se, a não ser que, conscientes da chamada de Deus para a vida pública, se licenciem do pastorado." - afirma o autor.

Para fundamentar essa ideia, cita Abraham Kuyper, que ao disputar cargos públicos na Holanda, licenciou-se do cargo de pastor da Igreja Reformada Holandesa. Aliás, a orientação de afastar-se das funções pastorais é algo previsto na resolução aprovada na Assembleia Geral Ordinária da CGDAD em Belo Horizonte (MG). Resolução solenemente ignorada por muitos obreiros, inclusive pelo pastor Paulo Freire da Costa, líder da AD em Campinas e filho do presidente da convenção.

E por fim, o escritor relaciona a espiritualidade com a cidadania e a vida social do cristão. O exercício da cidadania se dá em todas as ações do crente. Nas escolas, associação de moradores, sindicatos e empresas, o crente deve participar ativamente para promoção do evangelho e da justiça social.

Visão Cristã sobre - Política, é leitura obrigatória para líderes e membros desejosos de aprofundar o debates sobre o atual modus operandi da escolha de candidatos oficiais, e as práticas dos nossos intitulados "representantes". Fica a dica...

Fonte:

COUTO, Geremias. Visão Cristã sobre - Política. Campina Grande: Visão Cristã, 2016.

Para adquirir a obra acesse o site visaocrista.org.br/produto/visao-crista-sobre-politica-geremias-couto/

terça-feira, 10 de maio de 2016

Pastor num lê bíblia errado não!

*Por Gedeon Alencar

Um senhor entre quarenta e cinquenta anos senta ao meu lado com o jornal do metrô. Poucos minutos depois, me oferece o jornal:

 — “Quer o jornal? Eu num sei ler não. Pego apenas para ver as fotos!”.

Depois do choque inicial, pergunto: 

— Se não sabe ler como o senhor pega ônibus? Ele me responde confiantemente: 

— “Pelas cor”! — Como assim “pelas cor”? Você sabe exatamente qual a cor do ônibus que vai para seu trabalho ou para sua casa?

Ele, então, me explica que não pega ônibus, pois, mora ao lado do trabalho. Somente esse quando precisa ir ao Jabaquara.

Eu não conseguia acreditar que estava diante de um cidadão com o Metrô News nas mãos, andando de ônibus na maior cidade do país, mas analfabeto. Continuamos a conversa. Com seu palavreado típico e original, não demorou muito para eu descobrir que era cearense (como eu) e crente pentecostal (idem). 


Veio para São Paulo há mais de vinte anos e nunca voltou para visitar a família. Nunca gostou da cidade, pois sempre viveu na roça. Saiu da zona rural direto para São Paulo. Chegou um dia pela manhã e, depois do almoço, começou a andar nas ruas da periferia onde moravam seus parentes, e encontrou uma empresa contratando zelador. No dia seguinte já estava trabalhando. Nunca foi ao Centro, não conhece absolutamente nada além de sua casa, trabalho e estação do Metrô Jabaquara, onde vem receber ou entregar alguma encomenda do seu patrão. 

Fora da casa e trabalho, também vai à igreja. Tudo isso foi “bença de Deus”, pois trabalha ao lado de casa e tem um patrão “que é bom demais, um pai”. Seu patrão confia muito nele, já que fica com as chaves da empresa, até da sala do chefe. É o primeiro a chegar e o último a sair; chega cedinho para fazer um cafezinho para o patrão; ganha presentes e gosta tanto do trabalho e o patrão gosta tanto dele que todos esses anos nunca tirou férias; seu chefe e a empresa não querem ficar sem ele, por isso “paga as férias direitinho”. “Não é uma bença?”, ele arremata. 

Quando descubro que é crente, pergunto: — Como você é crente e vai para a igreja e não lê sua Bíblia? Ao que me responde convicto: — Não preciso ler não, macho. O pastor lá na igreja lê a Bíblia pra gente! — Mas seu pastor pode tá lendo a Bíblia errado.... — ele não me deixa terminar a frase, interrompe e dá um tapa no meu ombro. “Tá doido é, pastor num lê Bíblia errado não, macho!”. 

Aviso aos leitores: esse cabra da peste, cearense, pentecostal, tem razão. Concordo com ele. Émile Durkheim também concorda. No clássico Formas Elementares da Vida Religiosa, ele conceitua religião como comunidade moral. Aliás, a primeira e principal produtora de valores morais. Mais: valores corretos. Esse crente corrobora a tese durkeimiana: a igreja, ou mais especificamente, sua igreja é uma comunidade moral. E verdadeira. 

Esse indivíduo é digno de confiança — seu patrão que o diga. Marxistas e, até weberianos como eu, podem interpretar esse “fato social” de modo diferente, mas não podem negar que a construção da confiança entre esses indivíduos — patrão, empregado e também pastor — se deu por causa de sua moralidade religiosa. “Foi uma bença de Deus esse emprego, meu amigo. Por isso, eu não posso enganar meu patrão. Deus tá vendo!”. Mas o que me interessa fundamentalmente nessa história é sua relação de confiança com a leitura bíblica de seu pastor. 

Quem é o pastor de uma pessoa nessa camada social?(1) Alguém do seu mesmo nível social, escolaridade e, invariavelmente, morando no mesmo espaço geográfico. Portanto, longe da categoria de “consumidor” e “produtor de bens simbólicos”. Não há um abismo social e teológico entre ambos. Nesse caso, uma liderança carismática que é legitimada por seus seguidores; há uma relação intrínseca de confiança recíproca nessa comunidade moral. Todos se conhecem, pois, inclusive, moram perto uns dos outros. Há, efetivamente, uma “coesão social” (novamente Durkheim). As relações fraternas, empregatícias, religiosas e institucionais estão imbricadas. E funcionam. 

A leitura bíblica — “correta” — que seu pastor faz é exatamente a que ele faria se fosse capaz de ler. Eles têm os mesmos valores, agem baseados nos mesmos princípios, já que culturalmente estão no mesmo barco. Diferente de grupos religiosos onde seus líderes “estão no mesmo barco, mas em camarotes diferentes”. Por isso, recorrendo mais uma vez a Durkheim: “Não existe religião alguma que seja falsa. Todas elas respondem, de formas diferentes, a condições dadas da existência humana”. Portanto, sua religião é verdadeira, ela lhe dá “sentido” e isso lhe é suficiente e necessário; é o “sentido” que ele precisa. 

Foi essa sensação que tive olhando para aquele falastrão ao meu lado. Feliz da vida pelo emprego, crente convicto na atuação do divino e tranquilo na sua relação com seu pastor. Nenhuma pretensão dialética na relação da senzala com a casa grande; nenhuma tensão teológica na epistemologia pastoral para uma leitura bíblica contextualizada. Não esperava e nem achava necessário nenhuma mudança: “Tá bom do jeito que está!”, disse quando tentei convencê-lo da necessidade de saber ler numa cidade grande como São Paulo. Me olha sorrindo, parece com pena de mim. Se ele tivesse lido Foucault me diria que o micropoder ... deixa para lá. 

Alienação? De quê? 

Esse cearense-pentecostal-analfabeto é, segundo a teoria marxista, um primor de alienação, ou seja, “não tem domínio da realidade”. Igualmente a qualquer um de nós — meus leitores alfabetizados, pós-graduados, modernos — quando falamos com um farmacêutico, médico, meteorologista ou cientista nuclear. Quem é de outra “casta científica”, sabe que o primeiro problema é a linguagem técnica. Alguém que não é farmacêutico sabe decifrar uma bula de remédio? A escrita é cifrada, as frases truncadas, cheias de palavrões indecifráveis. De uma complexidade infame, proposital. E essa droga ainda tem efeitos colaterais. Entendendo ou não a bula (ainda correndo o risco de que o farmacêutico não tenha entendido os rabiscos do médico) tomamos o remédio com base na confiança com relação ao médico, farmacêutico e o laboratório. Idem ao entrar em um avião, comprar um aparelho eletrônico ou entregar nosso dinheiro a um banco. Ou deitar na cadeira de um dentista, abrir a boca e deixar ele fazer um canal. Nesse caso, o único domínio que temos é o do pagamento. Poderia exemplificar com outros profissionais, mas é suficiente. 

Por que nós, escolarizados, modernos e alfabetizados, podemos — e não temos outra opção — confiar cegamente em dentistas, cientistas, aparelhos eletrônicos, e meu amigo cearense-pentecostal-analfabeto não pode confiar na leitura bíblica de seu pastor? Alienado? Ele? 

Eu tenho inveja da tua vida, macho! Nota (1) Não uso a categoria classe, uma redução marxista de categoria econômica. Camada, um conceito weberiano, tem uma abrangência para além das afinidades econômicas, sendo uma condição social-cultural.

Referência: DURKHEIM, E. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. São Paulo: Paulinas, 1989. 

*Gedeon Freire de Alencar - Doutor em Ciências da Religião pela PUC/SP, Mestre em Ciências da Religião pela UMESP, Graduado em Filosofia e membro da Igreja Betesta de São Paulo/SP

Texto publicado originalmente na Novos Diálogos 

sábado, 7 de maio de 2016

Matheus Iensen e irmãos Falavinha - do interior do Paraná para o Brasil

Há mais de 50 anos, surgia no interior do Paraná, um dos mais bem sucedidos e memoráveis ministérios de louvor dentro das Assembleias de Deus e da comunidade evangélica em geral: Matheus Iensen e irmãos Falavinha.

Tudo teve início, quando o jovem Iensen comprou seu acordeon de 48 baixos na cidade de Faxinal no interior do Paraná e formou dupla com sua esposa Mercedes Falavinha Iensen. Cantavam principalmente os hinos "Seguindo Jesus" e "Dia glorioso". Ao mudar-se para Marilândia do Sul juntou-se ao casal a cunhada Raquel Falavinha.

O repertório agradou, e logo os cantores sacros eram presença constante e obrigatória nas festividades nas igrejas da região. A "agenda de compromissos era intensa e concorrida". Com o tempo, os irmãos Enéias e José Falavinha uniram-se às irmãs para as primeiras gravações.

Iensen e irmãos Falavinha: ministério profícuo no louvor

Com o sucesso, o desejo de gravar se concretizou com a produção de dois compactos duplos. Além do vocal composto por Matheus e as irmãs Falavinha, acompanharam no instrumental o pastor Antônio de Castro (bandolin), Enoque Falavinha (violão), maestro Antônio Veriano (violão), e o próprio Iensen no acordeon.

Sem acesso a modernos recursos técnicos, a gravação foi improvisada num salão nos fundos do templo da Assembleia de Deus em Apucarana (PR). De posse de um simples gravador Philips de 50 ciclos, o grupo registrou suas belas canções. Com tudo pronto e muita ansiedade, Matheus Iensen viajou para São Paulo e levou o tape para a fábrica Continental.

Porém, a falta de experiência adiou momentaneamente a alegria dos nobres cantores. As gravações das matrizes na Continental eram feitas em 60 ciclos. Como as gravações do Philips eram em 50 rotações, as vozes ficaram fora de rotação e pareciam de crianças. Ao reunir os familiares e amigos para a audição a "decepção foi geral." - segundo seus biógrafos.

Apesar da tristeza, Iensen orientado por um diretor da empresa, refez as gravações em um aparelho cedido pela própria Continental. A perseverança rendeu seus frutos, pois os simples compactos tiveram notável aceitação entres os crentes. Em pouco tempo, o ministério de Matheus Iensen e irmãos Falavinha ganhou impulso e reconhecimento.

Com mais experiência e cuidado outras gravações vieram. Memoráveis canções como "Oração de mãe", "Saudação", "Mais que milionário", "O peregrino", "Gozo real", "Hora de partir" entre outras. Em 1967, na tarde de encerramento da 8ª Conferência Mundial Pentecostal realizada no Rio de Janeiro.

Paralelamente, Matheus Iensen aventurou-se com êxito no rádio apresentando em 1964 o programa "Musical Evangélico" na cidade de Apucarana. O sucesso foi enorme, e com transferência das suas atividades para Curitiba em 1966, o programa alcançou "fantástica audiência".

A conjugação do sucesso radiofônico com as apresentações nas igrejas, tornou os assembleianos paranaenses um fenômeno de vendas. Segundo matéria da revista A Seara, Iensen (formando duetos e quartetos com os Falavinha) vendeu mais de 30 mil discos na década de 1960.

Assim, os louvores da família do Paraná tornaram-se conhecidos, executados e cantados em milhares de lares e igrejas pelo Brasil. As letras dos hinos; simples, mas com forte mensagem evangelística e a identificação do povo com os cantores, fez de Matheus Iensen e irmãos Falavinha uma referência na área do louvor evangélico que atravessa gerações.

As ações de Matheus como empresário de mídia cristã e a carreira política também repercutiram muito. Mas são interessantes e polêmicas histórias para outras postagens. 

Hoje, Iensen e sua esposa Mercedes (e os demais Falavinha) desfrutam do merecido descanso em sua velhice. Ficou o legado musical, não muito lembrado atualmente.

Fontes:

CARVALHO, Roberto de. IENSEN, Andréa. Matheus Iensen: minha vida, minha história. Curitiba, 2001.

A Seara, nº 83, março de 1970. Rio de Janeiro: CPAD.