sábado, 27 de agosto de 2016

Minhas memórias

O ano de 1986, foi um ano inesquecível e agitado: Plano Cruzado, Copa do Mundo no México e eleições para a Assembleia Nacional Constituinte. Hegemonia do PMDB na política nacional. Também era, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o Ano Internacional da Paz.

Neste ano, no dia 31 de agosto, tomei minha decisão de servir a Cristo na Assembleia de Deus (AD). Minha conversão se deu na pequena congregação do bairro Espinheiros em Itajaí. Visitava meus tios e avós, que há anos congregavam na AD e sempre evangelizavam à família. Contava com apenas 14 anos. Era um adolescente despertando para a vida.

Voltando a minha cidade natal, Joinville, comecei a frequentar a AD no bairro Costa e Silva. A congregação se reunia em um diminuto templo de madeira situado em cima de um pequeno morro, muito próxima à Igreja Católica.

Congregação do Costa e Silva na década de 1980

A igreja, na época, era liderada pelo pastor Satyro Loureiro. Satyro, aos 64 anos presidia a AD joinvilense pela segunda vez (a primeira entre 1953-57). Baixo, roliço, voz rouca, o veterano obreiro era um dos principais pastores da AD no Brasil. Suas mensagens, carregavam o peso das suas incontáveis experiências ministeriais. 

A AD ainda era muito conservadora em usos e costumes. Mas já estava vivenciando transformações. Nas congregações a doutrina era rígida, mas na sede havia uma elite social e teológica aspirando mudanças. Não demorou muito e as tensões cresceram, até que um grupo saiu da denominação para abrir seu próprio trabalho. Não precisa dizer que foram tachados de "rebeldes" e "mundanos".

Nacionalmente, as ADs mergulhavam de corpo e alma na política partidária. A justificativa: defender a liberdade de culto e a pregação do evangelho. Havia ainda o temor do perigo comunista a rondar a nação. Eleger irmãos escolhidos por Deus e pela igreja, era necessário para garantir nossos direitos na nova constituição.

Minha formação básica como assembleiano foi na Escola Bíblica Dominical (EBD). Ainda lembro da primeira lição que falava sobre o livro de Gênesis, escrita pelo pastor Geziel Gomes. Lia o Mensageiro da Paz com avidez, pois queria aprender. Nomes como Antônio Gilberto, Geremias do Couto, Elienai Cabral, Miguel Vaz, Claudionor de Andrade, Nemuel Kessler, Abraão de Almeida entre outros, logo se tornariam familiares.

Acompanhei alguns estudos bíblicos na sede. Obreiros e irmãos participantes anotavam as referências bíblicas em cadernos e apostilas. Os congressos de jovens eram antecedidos por grandes expectativas de avivamento.

O espaço do púlpito tinha uma espécie de cerca isolando os obreiros da congregação. Usava-se a sineta para administrar os cultos, e o presbitério ainda possuía força sendo consultado para questões administrativas.

Uma das lembranças mais marcantes, eram as visitas ao templo sede aos sábados para o culto de doutrina. Membros disciplinados ou excluídos tinham seus nomes lidos com o motivo do desligamento exposto publicamente.

Já se passaram três décadas. Muita coisa mudou, e nem poderia ser diferente. Não penso que os dias passados eram melhores, e nem que dias atuais são esplêndidos. Mas uma coisa é certa: as ADs absorveram muito dos valores seculares e dos modismos de outras denominações chamadas de neopentecostais. O pragmatismo religioso impera em muitos ministérios.

A visão de ministério, ao meu ver, também mudou. O nepotismo, que era exceção virou regra. Uma nova geração de obreiros, que vê a denominação como simples meio de vida e status social se apoderou dos cargos e das igrejas, trazendo incontáveis desvios morais e espirituais.

Lembro-me, que certa vez li no Mensageiro da Paz de 1989, um texto do saudoso pastor Estevam Ângelo de Souza do Maranhão. No artigo, ele previa como seria a AD no futuro. Pesava ele na balança os prós e contras do crescimento e como a igreja estaria caso se mantivesse fiel ou absorvesse a cultura secular. 

Quem sabe será tema de uma futura postagem...

sábado, 20 de agosto de 2016

Os crentes de Goiânia - duplo pioneirismo

Em outubro de 1933 começava à construção de Goiânia, futura capital de Goiás. Era o início da Marcha para o Oeste, plano do governo Vargas (1930-1945) para a colonização e povoamento da região Centro-Oeste do país. Segundo o jornalista Hélio Rocha, no jornal O Popular, esses acontecimentos fizeram parte de uma verdadeira "saga" iniciada em uma manhã "molhada de chuva e lavada de sol".

De todas as partes do Brasil vieram trabalhadores para erguer a cidade; edificando novas avenidas e palácios governamentais. Entre eles, estava um operário carioca, negro, de família numerosa e crente em Cristo, de nome Antônio Moreira.

Moreira, convertido na Assembleia de Deus em Madureira (RJ), era diácono da igreja e nas atividades laborais iniciou o trabalho de evangelização na futura capital de Goiás. Reunido com outros crentes do Rio, Antônio alugou uma casa na localidade do bairro de Botafogo para realizar os cultos da AD em Goiânia. Com o crescimento da igreja, Macalão designou o próprio Moreira para liderar a nova congregação. 

Crentes da AD em Goiás na década de 1930

Se, espiritualmente a obra desenvolvia-se, no plano material as coisas andavam mal na região. Entre os anos de 1934 a 1936, várias greves e paralisações ocorreram devido a falta de pagamento aos operários. Registros da época, contam que mais de 4 mil trabalhadores sofriam com a falta de recursos.

Da parte do governo de Goiás, os recursos financeiros eram parcos e a arrecadação insuficiente. Sem dinheiro para o salário dos trabalhadores, a administração estadual concedia autorizações para compra no comércio local. Mas, muitos comerciantes cobravam ágio para não perderem seus lucros devido a demora de ressarcimento do estado. 

Dificuldades de transporte dos materiais de construção e de abastecimento agravavam as dificuldades na heroica edificação da nova capital. Aliás, Goiás era nessa época, o antepenúltimo estado no ranking brasileiro de competição. Assim, o governo Vargas teve que intervir financeiramente para que o projeto não se inviabilizasse por falta de recursos.

Não por acaso, Costa ao falar dos pioneiros de Goiânia afirmou que eles "se dedicaram a uma missão de extraordinários sacrifícios". Entre eles, os primeiros pentecostais, em si, já imbuídos do sentido de urgência, sacrífico e amor pela evangelização.

Talvez por isso, com todo esse contexto em mente, Zélia Brito Macalão escreveu ao Mensageiro da Paz, informando que Antônio Moreira no princípio da obra pentecostal "lutou com bastante tribulações", mas em todas as provas ele compreendeu a importância de "obedecer aos Espírito Santo e tomar o rumo ao oeste".

Realmente, o modesto Moreira e os primeiros crentes de Goiânia, lançaram os fundamentos de uma igreja que conta atualmente com mais de 600 mil membros, ou seja, mais de 50% dos pentecostais em Goiás. Foram duplamente pioneiros em uma épica saga de desbravamento.

Fontes:

Hélio Rocha - O penoso desafio de 24 de outubro - O Popular - ano 77, nº 22.574 - Goiânia, sexta-feira, 23 de outubro de 2015, p.7.

Mensageiro da Paz, ano X, nº19, 1ª quinzena de outubro de 1940. Rio de Janeiro: CPAD.

http://www.oestegoiano.com.br/noticias/religiao/historia-quando-a-igreja-assembleia-de-deus-chega-a-goias

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Irmão Tavares - pioneiro da AD na Lapa (SP)

* Por Izadil Tavares de Castro


José Tavares de Castro gostava de ser conhecido como “irmão Tavares”. Nasceu no Estado de Alagoas, numa localidade chamada Barra do Canhoto, Alagoas, em 1910. De família católica tradicional, criou-se nos ditames daquela religião, mantendo-a até à idade adulta, quando já não se importava, de modo efetivo, com a vida espiritual. Era um católico por tradição familiar. Mudando-se de sua cidade natal, para Maceió; no ano de 1934, veio a conhecer o evangelho na Assembleia de Deus, onde decidiu tornar-se um discípulo de Jesus Cristo. 

O irmão Tavares manteve em toda a sua vida cristã um amor indescritível pela Palavra de Deus, e pela oração; não dispensava os Estudos Bíblicos, nem a Escola Dominical em sua igreja. Tornou-se um evangelista, levando a mensagem do evangelho por onde andasse. Costumava ter sempre consigo uma edição do Novo Testamento e Salmos, hoje relíquia com um dos seus netos. Ficou viúvo e pai de uma filhinha. 

Entre 1938 e 1940, mudou-se para a capital paulistana, indo residir no bairro da Lapa. Ali, casou-se em segundas núpcias com a irmã Zilda Sepúlveda de Castro, uma crente presbiteriana que estava a meio caminho do pentecostalismo. 

Naquele bairro, juntamente com outros irmãos como o pastor Constantino de Presbiteres, a irmã Isaltina Leite Banks, Antônio Lara e outros, o evangelista Tavares dedicou-se à abertura de um salão de cultos, na Rua John Harrisson, 45. 

O trabalho foi dirigido pelo casal de missionários americanos, Stalter e Luiza, os quais, retornando para os Estados Unidos, confiaram os trabalhos da nova igreja a Constantino e a José Tavares. Mais tarde, a igreja na Lapa passou às mãos do Ministério do Belém, um vasto campo em São Paulo, com sede na Rua Alcântara Machado 616, no Belenzinho. Aquela sede hoje está na Rua Conselheiro Cotegipe, 273. 

Assim, entre os anos 1945 e 1950, estava plantada a semente do grande trabalho assembleiano nas regiões oeste e norte, como em Vila Míriam, Vila Palmeiras e outros locais. 

Naquele salão, da Rua John Harrison, a igreja se reunia em cultos de oração e era grandemente perseguida pelos incrédulos, que jogavam pedras na porta de aço baixada. Havia próximo ao Largo da Lapa um ponto de carroceiros. 

Num dos cultos realizados ao ar livre, um carroceiro jogou o seu animal sobre a roda de crentes, mas o cavalo estancou no lugar em que estava, embora o homem o espancasse, até que um policial apareceu e o prendeu. Muitas almas foram resgatadas naqueles trabalhos! A igreja era extremamente simples, mas atuante. 

Alguns anos mais tarde, o pastor Daniel Tavares Beltrão, que à época pastoreava a igreja, iniciou a construção de um belo templo, inaugurado em agosto de 1954, na Rua Felix Guilhen, 227, vindo pastoreá-la o pastor João Alves Correa. Nesse local, a igreja lapeana funcionou por muitas décadas. A igreja, que está hoje em outro endereço, num enorme e moderno templo, é sede do setor. 

O irmão Tavares (gostava de ser chamado assim, porque nunca se apegou a títulos ou posições) deu início a um trabalho em Vila Carolina, na residência do casal Salomão e Rosinha. Aquele trabalho foi dirigido pelo pastor José Miguel (Zuza). Daquela pequena sala nasceu a grande igreja hoje instalada naquela região. Da casa de Salomão, a igreja crescente passou a se reunir num salão em Vila Palmeiras, próximo ao Largo do Jacó. 

José Tavares, que era funcionário público federal, pôde dedicar tempo ao evangelismo que tanto amava. Levou a mensagem salvadora às favelas da Barra Funda, onde ganhou grande número de almas para Cristo. Era homem de fé; mas não abandonava a oração e as boas obras; sempre atendendo aos crentes carentes de muitas coisas, principalmente de alimentos. Ele e a esposa levavam pessoalmente o socorro aos necessitados, quando não havia a facilidade de veículo próprio. Muita coisa era feita a pé! 

O irmão Tavares permaneceu firme em sua trajetória, vendo a obra de Deus expandir-se velozmente. Viu a grande igreja - que ajudara a implantar – com bandas de música, orquestras, corais, eficazmente dirigidos por maestros competentes como o pastor Arnaldo dos Reis Coelho, Eufrásio Nunes da Silva, entre outros, também de saudosa memória. 

O irmão Tavares criou os oito filhos nos caminhos do Senhor, sem descuidar da oração e estudo da Bíblia, com sua esposa e toda a família ao redor da mesa, no café da manhã. Partiu para a eternidade em maio de 1982, deixando um inesquecível e nome honrado de servo do Senhor.

* Izadil Tavares de Castro é pai de Carlos Alberto, Luís Roberto, Eneida Cristina e Camila. Mora em São Paulo. Consagrado ao Santo Ministério da Palavra, na Igreja Assembleia de Deus Bereana, em São Paulo. Foi membro atuante em "Os Gideões Internacionais" e na ADHONEP - Associação dos Homens de Negócio do Evangelho Pleno.É, pela graça de Deus, pregador do Evangelho de Cristo. É professor, autor e coordenador de material didático para a área de vestibulares e de concursos públicos; atua na área de aulas particulares para acompanhamento de vestibulandos e concursandos aos cargos públicos e escritor com livros publicados.

domingo, 7 de agosto de 2016

Mulheres pregadoras - Ester Ungur

Letônia, leste europeu, início do século XX. No dia 30 de março de 1911, nascia na capital Riga, João Ungur. De origem luterana, a família do pequeno Ungur foi tocada pelo avivamento pentecostal naquele país. Orientados por uma profecia, seus familiares e muitos outros letos vieram ao Brasil, estabelecendo-se em Varpa (SP).

Em São Paulo, Ungur filia-se à Igreja Batista e posteriormente à Assembleia de Deus (AD). Visitando Santa Catarina ajuda na evangelização da nascente denominação pentecostal e tempos depois fixa-se no ponto mais alto da geografia catarinense, na pequena e fria cidade de Urubici.

Nessa época, João Ungur mora entre os estados de Santa Catarina e São Paulo. Em 1942 é integrado na convenção catarinense. Ainda nessa fase nascem em Urubici suas duas filhas: Ester (17/08/1938), e Dulci Rute (18/01/1943).

Ungur liderou diversas igrejas em Santa Catarina. Enfrentou várias lutas e polêmicas, terminando seu ministério na AD em Florianópolis. Entre tantas mudanças, percalços e incompreensões, viu sua filha mais velha, incentivada por ele mesmo, se destacar nas pregações.

Ester começou tocando bandolim aos 11, e aos 15 era professora classe infantil da Escola Bíblica Dominical. Quando o pai pastoreou a igreja em Mafra, ela trabalhou nas Casas Pernambucanas para ajudar nos rendimentos domésticos. Era um tempo que, dependendo da igreja, o salário mal dava para a subsistência da família pastoral.

Ester, a mãe Milda, pastor Ungur e Dulci

Ainda em Mafra, a primogênita dos Ungur começou a desenvolver peças teatrais, jograis e apresentações. Certa feita, ao ministrar estudos bíblicos na cidade de Francisco Beltrão no sudoeste do Paraná, pastor João sentiu-se mal, e Ester, que conhecia muito bem o assunto, continuou a preleção. 

Tomou gosto, e com o aval do pai, começou a pregar e ensinar. Não se intimidava em ministrar o Plano Divino Através dos Séculos e o lendário estudo do Coração. Pregou ainda em vários congressos de jovens em Santa Catarina e no Brasil. 

Em toda a trajetória desenvolvida pela filha, o pai a incentivava, mesmo com algumas opiniões contrárias ao fato da primogênita (e mulher) estar pregando. Talvez, por que visse no estilo direto e cheio de autoridade dela (além dos olhos azuis), uma continuação do seu próprio ministério.

Ester, liderou também a juventude da AD em Florianópolis, e foi regente do Coral Esperança e Vozes de Sião. Sob sua organização ocorreu o segundo congresso de jovens em Santa Catarina, na capital no dia 01 de março de 1968. O fato de organizar o evento, revela o quanto o pai confiava na gestão da filha.

Mesmo com a jubilação de João Ungur, e a morte deste em 1971, Ester continuou seu ministério de pregadora e ensinadora da Palavra de Deus. Sempre dedicada a nobre missão de evangelizar. Tanto ela como a irmã nunca se casaram. Afirmam que tal decisão foi em obediência a Deus, pois muito antes de nascerem foram apresentadas ao Senhor.

Ao ser perguntada se concorda com o pastorado feminino, Ester aceita a resolução da CGADB de 1930: mulheres pastoras, só onde não existam homens com capacidade para exercer o ministério. 

Interessante: apesar de sua atuação ferir a histórica decisão que tinha como alvo limitar o ministério de Frida Vingren, a jovem Ungur na prática fazia o contrário. Exercia um ministério de pregação, ensino e liderança notável na região.

Em 1998, uma ao ser sorteada no GMHU, presenteou Ester com uma viagem ao Amazonas junto com o pastor Cesino Bernardino. Em 2001, ganhou uma viagem à Alemanha. Na visita conseguiu contatos para ir até à Letônia, terra natal do pai. Sentiu-se em casa, pois podia falar e cantar alegremente na língua do seu genitor. Parecia uma leta de verdade.

Atualmente, ela e a irmã Dulci moram num modesto apartamento de 90 metros quadrados em Barreiros, São José (SC). Residência esta comparada através de uma herança dos avós, mais alguns recursos economizados durante muito tempo. O imóvel, simples e sem luxo, é um museu onde livros, revistas e jornais antigos estão cuidadosamente guardados pelas irmãs Ungur. Um grande quadro do pai, presente da igreja em Florianópolis em 1965, se destaca em meio a tantas recordações da família pastoral.

Lá, sobrevive a memória dos Ungur. Resiste ao tempo através das relíquias e, por intermédio de Ester, nas igrejas e congregações das AD no século XXI.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Entrevista com as irmãs Ungur no dia 28 de julho de 2016.