sábado, 21 de janeiro de 2017

Moda, minissaia e o combate ao mundanismo nas ADs

A década de 1960 do século XX, foi um tempo de grandes transformações sociais e culturais no Brasil e no mundo. Durante os anos do pós-guerra, viveu-se uma era de intenso consumismo e de liberdade, influenciando totalmente a forma das mulheres se vestirem e comportarem.

A moda deixou de seguir um padrão único, ditado pelos estilistas internacionais renomados. Passou-se então a se reproduzir modelos e roupas inspirados em pessoas comuns. O vestuário, como um veículo de comunicação, transmita agora mensagens e valores e passou a simbolizar os anseios de uma nova geração.

As Assembleias de Deus dentro desse contexto viveram um período de grandes tensões internas, pois as transformações incidiam sobre toda à sociedade, a qual a igreja estava inserida. As ADs como instituição religiosa, conservadora dos bons princípios e costumes, se viu então em constante luta contra as transformações culturais. 

Silas Daniel, no livro História da CGADB, informa que nos anos de 1960, "os reflexos da Revolução Sexual já atingiam as igrejas, preocupando os convencionais". O repúdio daqueles senhores, nascidos no início do século e (na maioria) de origem rural, era praticamente unânime frente às ameaças das inovações e modernidades daqueles dias.

Em sintonia com essa preocupação, na CGADB de 1968, o pastor catarinense Satyro Loureiro levantou a seguinte questão: "Qual a atitude das Assembleias de Deus no Brasil em relação às minissaias e aos cabeludos que estão tentando invadir as igrejas?”. Na continuação outro pastor reclamou que o Mensageiro da Paz publicava fotos de "moças e senhoras com vestidos curtos e cabelos com penteados fora do comum". 

Assim, o debate se desenvolveu com grande aversão daqueles senhores às modas e "extravagâncias" da época. O pastor José Pimentel de Carvalho de Curitiba, alertou que os figurinos eram criados por "pessoas sensuais e mundanas" e por isso seria necessário orientar os jovens. 

Na verdade, nessa época era comum que as senhoras "honradas" usassem um comprimento de saias 4 dedos abaixo dos joelhos. Mas quando as jovens, passaram usar saias com medidas acima do joelho, as reclamações e protestos foram intensos. 

Protestos a favor do uso da minissaia

Muitas roupas exóticas e criações diferentes dos antigos padrões foram idealizadas por estilistas internacionais, que investiram em modelos totalmente inusitados. André Courréges com as suas “Moon Girls”, roupas curtas de linha retas em cores metálicas ou fluorescentes e botas brancas e Pacco Rabane com suas estampas psicodélicas foram uma verdadeira sensação. Yves San Laurent, por sua vez buscou inspiração na moda masculina, criando o smoking feminino mostrando o reflexo e a nova posição da mulher na sociedade.

Mas o destaque da época ficou por conta da minissaia. Ela liberava joelhos e coxas à exposição pública. Lançada pela inglesa Mary Quant e o francês André Courrèges, a inspiração da nova moda vinha das ruas, que procurava estar em sintonia com as mudanças do comportamento feminino da época.

A minissaia passou a ser então, segundo os novos conceitos da moda, o símbolo do novo comportamento da mulher em relação as suas mães e avós; um rompimento com as gerações anteriores e os antigos padrões de se vestir. A peça ganhou notoriedade popular, porque mostrava o corpo das mulheres como nunca. 

Com ela às jovens reivindicavam sua sensualidade e sexualidade. Na mentalidade das mulheres significava emancipação e liberdade; na cabeça dos conservadores pura rebeldia. Síntese de liberdade para as garotas; vulgaridade, deselegância e indecência para o restante da sociedade.

Os líderes assembleianos, apenas refletiram as indignações do seu tempo. E como guardiões da moral e bons costumes combateram o novo e sedutor modismo. No entanto, o debate (usa-não usa), estava além dos muros das ADs. Paróquias católicas e os ramos do protestantismo exercitavam ferrenha oposição à criação de Quant, a ponto de haver protestos nas ruas: as mulheres reivindicando o direito de uso e outros exigindo à proibição.

Não habituados a tantas e velozes transformações, os pastores combateram o que consideravam mundanismo dentro da igreja e "apertaram" ainda mais a "doutrina". Na contramão da história secular, às ADs levantaram muralhas para se defender. E a minissaia foi eleita a grande vilã.

* Com a colaboração de Daise Daiane - Designer de moda UES-BH e consultora de imagem Senac-BH.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

História do vestuário ilustrada (Melissa Leventon)

História da moda no Brasil (João Braga e Luís André do Prado)

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