domingo, 21 de maio de 2017

Bastidores das autonomias das ADs no RJ

Em julho de 1959, os leitores do Mensageiro da Paz, foram informados sobre uma considerável reformulação administrativa na Assembleia de Deus em São Cristóvão (RJ), promovida na gestão do pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos.

Segundo o responsável pelas novas divulgadas no jornal, o pastor Antônio Gilberto, à cúpula da AD carioca, com o objetivo de "promover maior incremento na difusão do Evangelho e, progresso geral da obra de Deus", realizou sua Assembleia Geral Ordinária, onde "deliberou outorgar autonomia a doze de suas principais congregações, transformando-as em igrejas". Ainda, conforme Gilberto, "Tudo decorreu num ambiente da maior cordialidade, espiritualidade e compreensão".

"A história oficial, seja religiosa, seja política" escreveu o saudoso poeta, jornalista e pastor Joanyr de Oliveira, é em parte "uma grande farsa". Quatro décadas depois, Alcebiades contaria em sua autobiografia o contexto das autonomias dadas as congregações de São Cristóvão. E pelo relato, não teve nada de "cordialidade" ou "espiritualidade" nas decisões.

Alcebiades e família: passagem difícil pelo RJ

Vasconcelos assumiu a AD no Rio de Janeiro em janeiro de 1958. Foi o primeiro pastor brasileiro da AD carioca em mais de três décadas da existência da igreja. Logo percebeu, já em sua nomeação à presidência, que conviveria com um presbitério forte. Experiente, sabia que em tais circunstâncias, suas ações seriam limitadas e controladas pelo ministério local.

Constatou com desagrado a total independência administrativa dos dirigentes das principais congregações da AD da Missão. Eles compravam, vendiam, compravam, assinavam documentos e tudo mais, sem pedir consentimento à sede. Paralelamente, disciplinavam, reconciliavam e batizavam sem comunicar ao pastor-presidente da igreja.

Para seu desespero, ao final do mês, os obreiros das congregações não prestavam contas na tesouraria central. Com pagamentos obrigatórios vencendo, Alcebiades pedia aos pastores Nels Nelson, Marcelino Margarida e José Pimentel de Carvalho que percorressem às congregações em busca de recursos para quitação das dívidas.

Ao tentar controlar os mandos e desmandos dos presbíteros, Vasconcelos teve que enfrentar à saída de dois obreiros objetivando dividir suas congregações. Criou-se um clima de instabilidade e os acontecimentos foram o alerta que faltava para o experiente pastor. Dedicou-se então a estudar um plano de autonomia das filiais. A emancipação seria seguida da organização de uma convenção para dar suporte as obras sociais da igreja.

Ao apresentar o plano de autonomia o ministério de dividiu: Nelson e José Pimentel foram contrários. Marcelino Margarida, Moisés Malafaia, Álvaro Cardoso e Joaquim Ferreira apoiaram o projeto. Nels Nelson consulta o sueco Samuel Nyström, e este por sua vez apoiou a proposta. Formou-se um certo consenso entre os principais pastores.

Para "surpresa" de Vasconcelos, reunido o presbitério, houve o consentimento do plano. Conta o reverendo, que nessa reunião ele "foi considerado" um "enviado de Deus" para estabelecer o projeto. Mas a alegria durou pouco. Em outra reunião de presbíteros, Alcebiades foi acusado (sem ninguém contradizer o acusador) de possuir "sentimento divisionista" e que encaminhava a igreja para a "desagregação".

Desgastado com as oposições, na última reunião de presbitério, Vasconcelos renuncia ao cargo. José Pimentel de Carvalho é eleito o novo pastor da igreja. Porém, no culto administrativo houve um grande tumulto e novas votações. Alcebiades é reconduzido ao posto e consegue aprovar as autonomias. Ao fim da confusão, quatro presbíteros saíram da reunião dispostos a dividir as congregações que lideravam.

Ao ler o Mensageiro da Paz, mal sabiam os crentes das discórdias escondidas debaixo do discurso produzido pelas fontes oficiais. Até hoje isso continua assim. Mas a internet e as redes sociais modificaram esse quadro. 

Outras polêmicas ocorreram no processo das autonomias. Fica, porém, para as próximas postagens...

Fonte:

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de julho de 1959, p. 8.

7 comentários:

  1. Nobre amigo, o mais incrível é esse pessoal atribuir à Deus está ou aquela situação. Claro, em sua vontade permissiva está tudo sob controle, mas falo de atribuir uma missão divina ao que a dureza do coração quis fazer. Outra questão é a farsa da história oficial. Vai ter gente envergonhada no Céu, se é pra lá que vão todos os que negociam sua Noiva. Por fim, como ficam arrasadas mulher e filhas diante de um quadro desta natureza. A AD não tem jeito. É muito inchaço...

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    1. Como dizia meu saudoso pai: o céu será de muitas surpresas.

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  2. Que bom meu prezado amigo, que detalhes que a história oficial nunca revelou, teu blog através de pesquisas nos trás à tona. Sempre foi assim. Ainda bem que hoje existem as redes sociais, farto documentário, pois nos leva a uma maior compreensão dos fatos. Antigamente, nas reuniões de obreiros "fechadas" se havia debates acalorados e brigas ninguém ficava sabendo, e quando eram questionados diziam: "foi tudo bem, tudo normal" mas só Deus sabia se havia sido normal mesmo. Foi o caso do jornal MP noticiar a questão das igrejas do Rio de Janeiro que se tornaram autônomas em 1959, mas a que preço isso foi feito.

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  3. A Paz.
    Observo que ate hoje nao se pos em pratica um modelo de Gestao para as ADs que nao gere transtornos .
    Acredito que uma Gestao compartilhada e uma boa opcao desde que haja altonomia nas congregacoes.

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  4. Por isso que a CGADB as coisas são resolvidas de maneira escusa, pois os exemplos ruins já vem de longa data

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  5. Sinto que é lamentável toda e qualquer tipo de politicagem dentro de ministérios.

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  6. a ads do rio são umas bagunças la todo mundo é consagrado a pastor

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