quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A criação da Rede de Estudos Pentecostais Assembleianos

No dia 10 de fevereiro de 2017, na CPAD Megastore, na cidade do Rio de Janeiro, será lançada à revista da Rede de Estudos Pentecostais Assembleianos (REPAS).

O evento, diga-se de passagem, é um marco dentro dos esforços de aproximação entre a editora assembleiana e o mundo acadêmico. Nos últimos anos, houve um considerável aumento de pesquisas acadêmicas sobre o pentecostalismo, e as ADs como maior denominação pentecostal tem sido alvo das mais variadas teses.



Percebendo esses novos tempo, o 1º Encontro Nacional de Educadores Teológicos, promovido pelo CEC/CGADB – Conselho e Educação e Cultura da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, realizado no dia 27 de fevereiro de 2016, no Rio de Janeiro na FAECAD – Faculdade Evangélica de Tecnologia, Ciências e Biotecnologia, ventilou a criação de uma rede de estudos pentecostais para estreitar o diálogo entre à CPAD e os pesquisadores.

Nesta ocasião, sob a presidência do Pr. Douglas Roberto de Almeida Baptista (Brasília – DF) líder do CEC/CGADB, discutiu-se como seria o funcionamento da rede. Foi eleita uma comissão  para detalhar a implantação da rede, composta pelos seguintes educadores: coordenador – Pr. Claiton Ivan Pommerening (Joinville – SC); membros – Pr. Isael de Araujo (Rio de Janeiro – RJ), Pr. Eduardo Leandro Alves (João Pessoa – PB), Pr. Germano Soares (Rio de Janeiro – RJ), Pr. Fábio Henrique de Oliveira (Mossoró – RN) e Pr. Jorge Vargas (Porto Alegre – RS).

O objetivo da nova instituição, segundo seu site oficial é "de reunir pesquisas e estudiosos dos assembleianismos brasileiros vinculados à CGADB, bem como a troca de conhecimento entre estes e o acesso das pesquisas ao público leigo assembleiano".

Para alcançar essas metas, a REPAS irá promover seminários e encontros com os estudiosos das ADs e editar as principais pesquisas em publicações da CPAD e demais periódicos de estudos pentecostais. Além disso, o Centro de Estudos do Movimento Pentecostal da CPAD, estará assessorando a rede.

Ainda, conforme o site da REPAS, o Conselho de Educação e Cultura da CGADB "fará o trabalho de creditar e aprovar as pesquisas que serão publicadas, observando o princípio da liberdade acadêmica". Tal disposição da CGADB e de seu braço editorial, a CPAD, é salutar para a disseminação e aprofundamento dos estudos sobre as ADs no Brasil.

É o reconhecimento da tradicional editora ao desenvolvimento e publicações (teses e livros) sobre as ADs no Brasil. Com a multiplicação de estudos sobre as ADs, a Casa Publicadora aposta no diálogo e intercâmbio de ideias. Novos autores serão revelados pela editora e novas abordagens sobre a denominação ficarão conhecidas.

Vamos aguardar os desdobramentos e frutos da parceria. A comunidade científica e os estudiosos assembleianos e das ADs agradecem.

Para maiores informações acesse o site http://repas.com.br/site/

sábado, 21 de janeiro de 2017

Moda, minissaia e o combate ao mundanismo nas ADs

A década de 1960 do século XX, foi um tempo de grandes transformações sociais e culturais no Brasil e no mundo. Durante os anos do pós-guerra, viveu-se uma era de intenso consumismo e de liberdade, influenciando totalmente a forma das mulheres se vestirem e comportarem.

A moda deixou de seguir um padrão único, ditado pelos estilistas internacionais renomados. Passou-se então a se reproduzir modelos e roupas inspirados em pessoas comuns. O vestuário, como um veículo de comunicação, transmita agora mensagens e valores e passou a simbolizar os anseios de uma nova geração.

As Assembleias de Deus dentro desse contexto viveram um período de grandes tensões internas, pois as transformações incidiam sobre toda à sociedade, a qual a igreja estava inserida. As ADs como instituição religiosa, conservadora dos bons princípios e costumes, se viu então em constante luta contra as transformações culturais. 

Silas Daniel, no livro História da CGADB, informa que nos anos de 1960, "os reflexos da Revolução Sexual já atingiam as igrejas, preocupando os convencionais". O repúdio daqueles senhores, nascidos no início do século e (na maioria) de origem rural, era praticamente unânime frente às ameaças das inovações e modernidades daqueles dias.

Em sintonia com essa preocupação, na CGADB de 1968, o pastor catarinense Satyro Loureiro levantou a seguinte questão: "Qual a atitude das Assembleias de Deus no Brasil em relação às minissaias e aos cabeludos que estão tentando invadir as igrejas?”. Na continuação outro pastor reclamou que o Mensageiro da Paz publicava fotos de "moças e senhoras com vestidos curtos e cabelos com penteados fora do comum". 

Assim, o debate se desenvolveu com grande aversão daqueles senhores às modas e "extravagâncias" da época. O pastor José Pimentel de Carvalho de Curitiba, alertou que os figurinos eram criados por "pessoas sensuais e mundanas" e por isso seria necessário orientar os jovens. 

Na verdade, nessa época era comum que as senhoras "honradas" usassem um comprimento de saias 4 dedos abaixo dos joelhos. Mas quando as jovens, passaram usar saias com medidas acima do joelho, as reclamações e protestos foram intensos. 

Protestos a favor do uso da minissaia

Muitas roupas exóticas e criações diferentes dos antigos padrões foram idealizadas por estilistas internacionais, que investiram em modelos totalmente inusitados. André Courréges com as suas “Moon Girls”, roupas curtas de linha retas em cores metálicas ou fluorescentes e botas brancas e Pacco Rabane com suas estampas psicodélicas foram uma verdadeira sensação. Yves San Laurent, por sua vez buscou inspiração na moda masculina, criando o smoking feminino mostrando o reflexo e a nova posição da mulher na sociedade.

Mas o destaque da época ficou por conta da minissaia. Ela liberava joelhos e coxas à exposição pública. Lançada pela inglesa Mary Quant e o francês André Courrèges, a inspiração da nova moda vinha das ruas, que procurava estar em sintonia com as mudanças do comportamento feminino da época.

A minissaia passou a ser então, segundo os novos conceitos da moda, o símbolo do novo comportamento da mulher em relação as suas mães e avós; um rompimento com as gerações anteriores e os antigos padrões de se vestir. A peça ganhou notoriedade popular, porque mostrava o corpo das mulheres como nunca. 

Com ela às jovens reivindicavam sua sensualidade e sexualidade. Na mentalidade das mulheres significava emancipação e liberdade; na cabeça dos conservadores pura rebeldia. Síntese de liberdade para as garotas; vulgaridade, deselegância e indecência para o restante da sociedade.

Os líderes assembleianos, apenas refletiram as indignações do seu tempo. E como guardiões da moral e bons costumes combateram o novo e sedutor modismo. No entanto, o debate (usa-não usa), estava além dos muros das ADs. Paróquias católicas e os ramos do protestantismo exercitavam ferrenha oposição à criação de Quant, a ponto de haver protestos nas ruas: as mulheres reivindicando o direito de uso e outros exigindo à proibição.

Não habituados a tantas e velozes transformações, os pastores combateram o que consideravam mundanismo dentro da igreja e "apertaram" ainda mais a "doutrina". Na contramão da história secular, às ADs levantaram muralhas para se defender. E a minissaia foi eleita a grande vilã.

* Com a colaboração de Daise Daiane - Designer de moda UES-BH e consultora de imagem Senac-BH.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

História do vestuário ilustrada (Melissa Leventon)

História da moda no Brasil (João Braga e Luís André do Prado)

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Contribuições financeiras: história e atualidade

Desde que foi implantada no país, o recolhimento dos dízimos e ofertas foi uma constante nas Assembleias de Deus. Duas modalidades de contribuição financeira se consolidaram na denominação: as ofertas voluntárias e sem valor determinado, e o dízimo que é dez por cento da renda do fiel. Ambas possuem o mesmo objetivo: manutenção da obra do Senhor.

Segundo o historiador Maxwell Fajardo em sua tese de doutorado Onde a luta se travar, é no período de institucionalização da igreja, que "os apelos para a contribuição financeira aparecem vinculados à necessidade de manutenção das Igrejas e e seus instrumentos de expansão".

A história da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) mostra que a editora só foi levantada e mantida com muitas ofertas das igrejas no Brasil e do exterior, principalmente dos EUA. Mas anteriormente, os jornais Boa Semente e Som Alegre foram mantidos com ajudas financeiras avulsas.



Ainda segundo Fajardo, a obrigatoriedade dos dízimos ainda não estava definida até a década de 1950. Articulistas do Mensageiro da Paz expressavam pontos de vista diferentes sobre à clássica contribuição pentecostal. Adauto Celestino escreveu no MP que na dispensação da graça, os dízimos e ofertas "não deveriam ser impostos por lei", mas "voluntários" e dados "com alegria".

João de Oliveira, conhecido pastor das ADs em 1949, escreveu que era errado "cobrar" o dízimo, pois as contribuições deveriam ser "movimentos voluntários" do crente. Mas Celestino e Oliveira foram exceção, pois ao fim da década de 1950, o ensino sobre a obrigatoriedade dos dízimos foi "incorporado ao aparato institucional" de vez. Fajardo, identificou nesse período, a declaração de quem não contribui com seu dízimo "está roubando a Deus".

Com o advento das igrejas neopentecostais, a pregação sobre as contribuições financeiras passou de um ato de gratidão ou devolução a Deus ao de investimento (com promessa de retorno garantido). E com o tempo, a teologia da prosperidade, à princípio combatida, conseguiu adentrar nos apriscos assembleianos.

A concorrência e os projetos de expansão de muitos ministérios, fizeram que lentamente, muitos dos argumentos e métodos da teologia da prosperidade fossem adotados. Primeiro de forma sutil e depois escancaradamente. A própria pregação da obrigatoriedade do dízimo foi radicalizada. Os princípios da exegese e da hermenêutica em Malaquias 3.10 são ignorados para arrecadar mais contribuições. Implantou-se a soteorologia do dízimo.

Táticas de contribuição foram incentivadas ou inseridas: metas de arrecadação, valores iniciais para as ofertas (quem dá mil reais?), cultos de prosperidade e (para muitos o escândalo e símbolo maior da financeirização da igreja) a adoção da máquinas de cartões. Em uma igreja no norte do país, o líder, que segundo alguns "flerta com o neopentecostalismo", para bancar seus projetos, além de estimular a constante contribuição, permite arrecadações entre a celebração da ceia. Durante o ato do tomar o pão e o vinho, é arrecadado mais ofertas.

E o ímpeto de otimizar as arrecadações só cresce. Certo evangelista usa a palavra "semente" em vez de oferta. Ignora até a procedência das "sementes" em sua conta pessoal. Enquanto isso, em 1971, um pastor em Belém do Pará rejeitou uma expressiva contribuição de um crente que ganhou na loteria e ainda o ameaçou de exclusão. Os tempos mudaram mesmo...

Fontes:

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980)  - Assis, 2015.

acervo.folha.com.br - dias 16 e 17 de junho de 1971 - Primeiro Caderno p. 17 e 26.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Valéria Vilhena - feminista evangélica

* do site UOL

De berço evangélico pentecostal, Valéria Vilhena se incomodou na juventude com as restrições ao corte de cabelo, ao modo de se vestir e de se comportar impostos pela igreja. "Me vi feminista muito cedo", diz a teóloga, que é mestre em ciências da religião e doutora no programa Educação, História da Cultura e Artes, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Ao longo da vida, frequentou diferentes templos cristãos, percebeu outras restrições às mulheres e, sem encontrar o seu lugar, decidiu abandonar a igreja, mas não sua fé. Em 2015, fundou, ao lado de outras mulheres, o EIG (Evangélicas pela Igualdade de Gênero), movimento para discutir temas relacionados à violência contra a mulher e à igualdade de oportunidades nas estruturas religiosas.

Em novembro de 2016, Vilhena viu sua pesquisa virar notícia, sem crédito, em sites e nas redes sociais sob o título "40% das mulheres que sofrem violência doméstica são evangélicas". O dado está em seu livro "Uma Igreja sem voz: análise de gênero da violência doméstica entre mulheres evangélicas", estudo qualitativo feito na Casa Sofia, espaço de acolhida para vítimas localizado na zona sul de São Paulo.

Valéria Vilhena: opiniões polêmicas

Em entrevista ao UOL, Vilhena falou sobre feminismo, cultura do estupro, violência doméstica e critica políticos ligados à religião.

UOL - Como você recebeu a notícia de que sua pesquisa estava em vários portais evangélicos?
Valéria Vilhena - O que eu coloquei na pesquisa é que aproximadamente 40% das mulheres atendidas na Casa Sofia, que era o meu campo de pesquisa, se declaravam evangélicas. Então, é uma amostragem de pesquisa. Isso viralizou, mas eu arriscaria que a porcentagem pode ser maior. A cada 4 minutos uma mulher agredida dá entrada no SUS [Sistema Único de Saúde]. Quantas dessas mulheres me responderiam que são evangélicas? Esse estudo a gente não tem.

UOL - Como você chegou a essa informação de que quase metade das atendidas na Casa Sofia eram evangélicas?
Vilhena - Foi na época do meu mestrado, fui escolher meu campo de pesquisa. Nas delegacias, achei que seria muito difícil angariar dados, então decidi ir para as unidades de atendimento: a Casa Eliane de Grammont [na Vila Mariana] e a Casa Sofia [no Jardim Dionísio]. Em ambas, a questão da religião e violência doméstica precisavam ser analisadas. A diferença é que a maioria das mulheres da Casa Eliane de Grammont, segundo as profissionais, se declarava Seicho-No-Ie. Então, elas pensavam: "eu estou pagando pelo meu karma". Essa "justificativa" religiosa precisava ser observada. E na Casa Sofia, na primeira visita, a assistente social falou para mim: Valéria, a gente tem mais dificuldade com as mulheres evangélicas, porque elas abandonam mais o tratamento oferecido.

UOL - Por quê?
Vilhena - Isso que eu queria entender. E aí algumas coisas o campo me mostrou, como, por exemplo, a questão do medo. Marquei uma entrevista com uma mulher evangélica e, no dia recebi um telefonema dela. "Olha, dona Valéria, eu não eu posso ir". "Mas, por quê?". "Não, porque o meu marido falou que essas coisas sempre vão para a televisão". Eu falei: "eu tenho um compromisso com a senhora, não vai ser divulgada imagem nem o nome da senhora. Mas por que a senhora contou para o seu esposo?". "Porque eu sofro violência, mas ele também é o meu pastor, ele é a voz de Deus na minha vida. Eu não vou conseguir ir". Isso foi recorrente. Elas desistiam, não iam. O medo é um ponto, mas eu acho que é muito importante falar do aconselhamento pastoral. Quando essa mulher vai procurar o seu pastor para dizer que ela está sofrendo violência, normalmente ela não recebe apoio, o pastor aconselha mais submissão, em nome de Deus: "Seja sábia, fique calada, não enfrente". A questão da interpretação, da hermenêutica da teologia, acaba fortalecendo ainda mais esse quadro de violência contra as mulheres no meio evangélico, porque a teologia que é passada é a da obediência ao marido. Normalmente, essas mulheres acabam culpando o satanás, o inimigo, o diabo, algo externo. Elas não conseguem olhar para a própria relação de violência que vivem.

UOL - Neste ano, muito se discutiu sobre a cultura do estupro. Você acha que ela ganha eco também nesses espaços de fé, nessas comunidades religiosas?
Vilhena - Acho que é importante pensar e admitir todo tipo de violência dentro das igrejas. Eu costumo falar para os evangélicos: "infelizmente, é aquele irmão bacana, que te dá 'a paz do senhor', que é o agressor, que tem potencial de ser agressor". Se a gente pensar na cultura do estupro, tenho doutrinas na igreja que são muito mais rígidas com as meninas do que com os meninos. Nós, mulheres, é que provocamos com as nossas roupas, com a nossa maquiagem, com o nosso brinco. A partir do momento em que eu reproduzo esses discursos, dou uma base doutrinária, teológica, para que as mulheres tenham um maior cuidado em se vestir para não provocar as "vítimas", que são os homens, tenho que pensar sim na cultura do estupro. Quantos pais educam as filhas diferentes dos filhos? Se há um tratamento diferente para meninos e meninas, há violências, no plural, simbólica, física, sexual. Então a gente tem que pensar sobre isso.

UOL - Vocês são convidadas por igrejas a discutir esses assuntos?
Vilhena - Muito difícil, raro. É interessante que no fórum muitos líderes vieram nos dar apoio: "Vamos marcar um evento na nossa igreja, vamos convidá-las". Isso nunca aconteceu. O acolhimento por parte dos evangélicos dessa tal ideologia de gênero acabou prejudicando ainda mais o nosso trabalho, porque ninguém pensou, quando retirasse gênero da educação, que estariam retirando também o debate sobre as violências físicas, emocionais ou simbólicas contra as mulheres, inclusive dentro da igreja.

UOL - Qual é o papel da mulher hoje nas igrejas evangélicas?
Vilhena - Quando encontramos pastoras, estão em igrejas pentecostais e neopentecostais pequenas ou fundadas por elas. Muitas mulheres da Assembleia de Deus e da Igreja Quadrangular nem conhecem suas fundadoras ou cofundadoras. Não percebem que, no início da história dessas igrejas, os homens decidiram que as mulheres dali para a frente ficariam fora. Posso dizer que a maioria dos evangélicos não têm mulheres à frente dos trabalhos. Elas são bem-vindas para serem mulheres de oração, de intercessão, para arrumar a igreja, para levar toalhinha, para cuidar da limpeza da igreja e para fazer visitas. Elas estão nos espaços de serviços, não de liderança da igreja.

UOL - Há espaço na igreja para feministas evangélicas?
Vilhena - De uns dois anos para cá, tive a feliz notícia de que havia um grupo de feministas cristãs, que tinham um blog, página no Facebook. São meninas lindas, jovens, feministas, que estão sempre atentas às pregações e discutindo as questões de gênero. Elas não têm interesse em deixar de serem cristãs, são mulheres e meninas feministas que trabalham pela igualdade de gênero e de oportunidades também na igreja. Há uma pluralidade religiosa entre as feministas cristãs e eu acho isso muito legítimo, muito bacana. A questão não é ficar discutindo: pode ser feminista e pode ser cristã? Elas não discutem isso, elas vivem o feminismo.

UOL - E como elas são recebidas nas igrejas?
Vilhena - Acho que é sempre de forma tensa. Hoje não frequento nenhuma igreja, não sou mais "igrejeira", e fico muito feliz que elas estejam conseguindo, que não fizeram o que eu fiz, de ter me afastado. O que precisa ser entendido é que gênero e religião combinam. O que não combina é a violência. A religião é mais resistente a mudanças, mas, como qualquer cultura, não é estática e dura, é dinâmica, está em movimento. Eu fui criada em uma igreja em que era pecado cortar cabelo, se depilar, usar maquiagem, calça comprida. Me vi feminista muito cedo dentro da igreja e hoje, por essas questões não serem mais consideradas pecado, muitas mulheres já se acham muito modernas, mas outras percebem que o sufocamento ainda é grande.

UOL - A bancada evangélica no Congresso se posiciona contra a conquista de alguns direitos, como casamento gay, o aborto, defende a Escola Sem Partido. Como você vê esse movimento?
Vilhena - Vejo com muita tristeza, como um profundo retrocesso. Dou aula para professores da rede pública na formação continuada e costumo falar: "se na sua religião é pecado se dar ao amor, ao afeto homo, não se dê esse prazer; se na sua religião é pecado o aborto, não cometa aborto". "Na sua religião" é seu foro íntimo, é seu sistema de fé, fé não pode ser imposta a toda uma sociedade. Agora, pautar políticas públicas baseadas na minha fé dentro de um Estado laico é, no mínimo, um grande retrocesso. Eu penso até ser ilegal. Combater a violência doméstica é aliviar o SUS, do ponto de vista econômico e de saúde pública. A violência doméstica traz prejuízo para toda a sociedade. Daí eu pauto isso sob o meu sistema de crenças? Não posso. Quando a bancada evangélica sai pregando nos púlpitos que está lá para representar a vontade de Deus ou para proteger o único modelo de família, está pautando, na realidade, homofobia, racismo, sexismo e as violências que são perpetradas por conta dessas questões, que também são de gênero.

Nota do editor: mesmo que você leitor não concorde com todas as opiniões da estudiosa Valéria Vilhena, contudo, é recomendável o debate sobre o papel feminino nas igrejas e a atuação política dos congressistas evangélicos.

Fonte:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/01/06/quando-a-igreja-nao-discute-genero-ela-nega-direitos-humanos-diz-evangelica-feminista.htm