sábado, 18 de fevereiro de 2017

CRISTIANISMO E CRIMINALIDADE: a adesão de bandidos ao universo cristão pentecostal.

* Por Douglas Fidalgo

No segundo semestre de 2015, Lucas Medrado (membro da AD ministério do Belém – SP) defendeu sua dissertação de mestrado no curso de Ciências da Religião na Universidade Metodista São Paulo. Devido a grande relevância de sua pesquisa no ano de 2016, sua dissertação se transformou em um excelente livro publicado pela Fonte editorial, com o título de CRISTIANISMO E CRIMINALIDADE: a adesão de bandidos ao universo cristão pentecostal. Mesmo ainda muito jovem, Lucas se destaca pela coerência e firmeza com que trata tanto das suas pregações nos mais diferentes púlpitos por onde passa, quanto o complexo universo acadêmico das pesquisas etnográficas, principalmente do mundo pentecostal.




Nesta postagem queremos fazer uma breve apresentação dessa pesquisa/obra que julgamos de grande relevância para aqueles que têm desejo de compreender o grande e polissêmico campo do pentecostalismo brasileiro, em especial o assembleiano. O autor buscou pesquisar uma igreja pentecostal da periferia da zona sul de São Paulo, que a época se chamava de Assembleia de Deus Fortificada em Cristo - ADFEC (atualmente essa igreja não existe mais com esse nome), uma igreja autônoma, porém muito peculiar. Em meio ao grande número de igrejas pentecostais localizadas nas periferias das grandes cidades do país, o que essa pesquisa traz de diferente? Assim, como apresentado no título da obra, Lucas buscou pesquisar as possíveis relações existentes entre o bandidismo e pentecostalismo brasileiro. Ou seja, a igreja em questão era mantida com recurso provenientes do mundo da criminalidade. Alguém pode estar se indagando neste momento, como isso é possível? Gedeon Alencar, ainda na apresentação do livro já nos diz:

Os pentecostalismos, para frustação interna e externa, são também uma expressão cultural de seu tempo como qualquer outra. Nem pior nem melhor que qualquer outra – apesar de sua membresia negar e as pesquisas ainda não terem percebido. Abrasilerados, aculturados e se assemelhando aos demais, o pentecostalismo se tornou uma manifestação da cultura tupiniquim brasileira. (MEDRADO, 2016, p. 18)

Certo é que, o pensamento a respeito da periferia é carregado de preconceitos e concepções no mínimo errada da realidade ali vivida. Entretanto não podemos negar que os que ali vivem, são obrigados, concordando ou não (que é o caso da grande maioria), a viver porta a porta com a ilegalidade e o bandidismo, correndo risco de morte ao se opor abertamente. Mas assim, como Lampião no cangaço o bandido em muitos lugares de vulnerabilidade “é o agente que tem voz de comando, liderança e respeito. Ele é um ser temido” (2016, p. 22). Em meio a este contexto, poderia o pentecostalismo transitar de forma autônoma e isonômica a criminalidade? Acredito que não! E Lucas comprova que à medida que o pentecostalismo tende se firmar neste espaço, ele tem que abrir “certa concessão” a fim de poder transitar no mesmo sem maiores problemas. Como afirma o sociólogo estadunidense Peter L. Berger “a sociedade é, portanto, não só resultado da cultura, mas uma condição necessária dela. A sociedade estrutura, distribui e coordena as atividades do mundo desenvolvidas pelo homens”(BERGER, 1985, p. 21). E o pentecostalismo não pode fugir disso.

Dito isto, voltemos à obra em questão. Com um texto bem acessível ao leitor e sem aquele academicismo maçante, Lucas se insere ao mundo dessa igreja ao longo de seis meses na tentava de compreender de que forma o pentecostalismo e bandidismo podem conviver em um mesmo espaço, sendo ambos (pelo menos no discurso) diametralmente tão distantes um do outro. Dividida em três capítulos, a obra no primeiro busca explicar a ação do pentecostalismo na periferia (neste caso na favela Jardim São Jorge), fazendo uma descrição tanto do bairro, quanto da ADFEC. O autor mostra que a ADFC é um pentecostalismo assembleiano de tipo autônomo (ALENCAR, 2013), que tem a permissão do próprio chefe do tráfico para realizar seus cultos na sede da Associação Comunitária do Jardim São Jorge e Adjacentes, conhecida como “A Sedinha”. A igreja passa a dividir o espaço com as outras atividades que a associação promovia para a comunidade, que iam desde aulas para alfabetização e informática, até bailes funks na frente da sedinha.

Essa relação público-privado só é possível, pois é legitimado pelo líder da criminalidade local, indivíduo que através da intimidação e medo se impõe a qualquer decisão comunitária. Como afirma o autor “o local se tornou mais do que um ambiente social, é um símbolo explícito das relações de poder no que tange o espaço e a ‘política’ dos criminosos, pentecostais e moradores. É, enfim, um palco de ações e relações humanas, sociais e religiosas” (MEDRADO, 2016, p. 39-40). Dessa forma fica muito claro a todos que os bandidos não só respaldavam a igreja em questão, mas mantinham a mesma com o dinheiro proveniente de suas relações ilícitas. Contando com um público em sua maioria de jovem, a ADFEC, na fala de seu pastor a missão da igreja é de resgatar o máximo possível deles ou da criminalidade, ou mesmo de uma eventual entrada nessa “vida”. Um ponto reafirmado algumas vezes por Lucas em sua pesquisa, é que mesmo tendo um discurso contrário a essas práticas o pastor da ADFEC acabava em suas pregações “não despertando nos criminosos a rejeição pelos seus equívocos” (2016, p. 54). Uma vez que se opor veementemente aos mesmos caracterizava não apenas um risco a permanecia da igreja na sedinha, como mesmo risco a vida do pastor.

No segundo capítulo ele trabalha a questão dos espaços de interações entre bandidos e ex-bandidos, pois mesmo muitos dos jovens envolvidos na criminalidade não apontarem para uma possível “transformação” de conduta, sua participação e interação aos cultos da ADFEC ocorriam sem qualquer tipo de julgamento moral dessa relação social entre pentecostalismo e bandidismo. O autor então passa a falar de um jovem que havia se envolvido com a criminalidade na região, chegando a se tornar um gerente do tráfico, mas que se converteu na ADFEC, passando a exercer um papel importante na igreja. Lembremos que essa relação de proximidade e interação não se restringi ao pentecostalismo somente, pois tanto moradores e até mesmo agentes públicos (em meio a corrupção) se relacionam com a criminalidade em um verdadeiro “toma lá dá cá”, que vai desde o medo, até algum tipo de favorecimento ilícito. Como afirma Lucas: - “as redes construídas entre os bandidos, ex-bandidos e a ADFEC no Jardim São Jorge explicitam um fato importante, que as relações de poder e a interatividade de conivências são comuns entre os grupos” (2016, p. 74). Outra relação levantada na pesquisa foi a vida do ex-bandido, uma vez que “nas quebradas do crime bandido não pode brincar com Deus” (2016, p. 91) situação que pode significar a “pena de morte” do ex-criminoso.

O “ex-bandido” é uma reconstrução da identidade do sujeito na comunidade, não há como se fingir de convertido, nem perante os irmãos da igreja nem perante os líderes do crime, pois ambos respeitam muito a mudança decorrente da entrada na igreja. (MEDRADO, 2016, p. 92)

O processo de conversão leva aos mesmos a uma “reelaboração da sua visão de mundo” (2016, p. 97), sendo possível pela receptividade oferecida pela igreja e a ausência de um julgamento moral das práticas outrora cometidas pelo “Ex”. Ressaltemos que no mundo pentecostal, principalmente o assembleiano é muito comum encontrarmos muitos ex-bandidos que hoje se tornaram pastores e pregadores, os quais ocupam importantes púlpitos pelo Brasil a fora. E os mesmo, muitas vezes são uma “ponte” para que outros bandidos se aproximem da igreja e se “convertam ao pentecostalismo” (2016, p. 108-109).

Na última parte Lucas se atém a falar sobre as ambiguidades que a relação pentecostalismo e criminalidade produzem. Principalmente no que tange a questão da procedência do dinheiro ofertado à igreja (tivemos na mídia dias atrás um renomado pastor assembleiano que foi levado pela PF, para dar explicações de uma “suposta oferta” que ele havia recebido e um investigado da operação Lava Jato; esse mesmo pastor em seu programa semanal mostra o extrato bancário a fim de mostrar que não tem relação com o investigado, mas a questão central se dá pela procedência do dinheiro em questão), uma vez que se não abertamente, mas indiretamente todos sabiam que muitas das ofertas estavam relacionadas diretamente com ações criminosas. Será que muito poderiam estar pensando que uma vez dentro do “gazofilácio” a oferta se santifica, mesmo oriunda do crime, ou de operações ilícitas? Vale a reflexão!

Enfim, enquanto existir igreja perto dos becos existirá afinidades, um não excluirá o outro, o “sagrado” e o “profano” se coadunam e as ambiguidades são perceptíveis. Nesse contexto, o que existe é uma ponte curta e bem flexível nos extremos, entre o “mundo” do crime e do “mundo” pentecostal, oposto que se ligam numa dialética profunda e concisa na existência dos cidadãos e suas redes sociais. (MEDRADO, 2016, p. 121)

Sendo esse tema muito controverso e, assim, concordemos ou não com a sua existência, a realidade é que a obra de Lucas Medrado explora um tipo de pentecostalismo, entre eles o assembleiano, real e presente a nossa realidade, mas que muitas vezes é negado em nome de uma moralidade pseudo-bíblica de negação de sua existência em nosso meio. Não estou aqui afirmando que o mesmo seja moral, entretanto afirmando que negando ou não, ele é parte integrante das igrejas, principalmente as que se localizam nas periferias das grandes cidades brasileiras. E a obra em questão mostra através da epistemologia empregada pelo autor que o pentecostalismo/assembleiano dispõe de novos atores e de novas cosmovisões provindas desses espaços que são sinônimos de ausência e carência de bens básicos da vida material das pessoas. Sua leitura é fundamental para que a discussão e mesmo o interesse em novas pesquisas sobre o assunto abundem, nos diferentes meios, sejam acadêmicos ou não, a fim de termos uma percepção mais próxima da nossa realidade vivida.

* Mestre em Ciências da Religião na área de concentração em Ciências Sociais e Religião, na Universidade Metodista de São Paulo. Pós-graduado em Filosofia Contemporânea e História na Universidade Metodista de São Paulo (2013), em Educação para o Ensino Superior pela UNIP (2012) e História e Teologia do Protestantismo no Brasil pela FTBSP (2011). Graduado em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (2007). Além de possuir significativa vivência no magistério das redes particular e pública do Estado de São Paulo, lecionando ao longo dos anos disciplinas como Sociologia, História, Filosofia e Geografia para os níveis Fundamental II e Médio. Também atuou como professor auxiliar no curso de Ciências Sociais - EaD e professor presencial nos cursos de Gestão e Administração da Universidade Metodista de São Paulo.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

BERGER, Peter, O Dossel Sagrado: elementos para uma sociologia da religião, São Paulo: Paulus, 1985.

MEDRADO, Lucas, CRISTIANISMO E CRIMINALIDADE: a adesão de bandidos ao universo cristão pentecostal. São Paulo: Fonte Editorial, 2016.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Frida - um olhar de gênero

No distante janeiro de 1941, os leitores do Mensageiro da Paz, foram informados através do pastor Samuel Nyström sobre o precoce falecimento, aos 49 anos, da missionária sueca Frida Strandberg, viúva de Gunnar Vingren, um dos fundadores das Assembleias de Deus no Brasil.

Nyström, em seu texto, enaltece as virtudes da missionária. Segundo ele, Frida era talentosa, criativa, dedicada e carismática. Como ninguém "sabia cativar os que a ouviam" - destacou. Mas, em meio a tantos elogios, Samuel fez uma ressalva: "A sua impetuosidade, algumas vezes, levou-a além do que era prudente e útil...".


Eufemismos, que estudos recentes sobre a história das ADs revelam ter sido na verdade, uma grande batalha e disputa pelo poder dentro da denominação. Frida, não se contentou em ser simplesmente uma esposa "bela, recatada e do lar" ou assumir destacado papel de assistente social.


Valéria Vilhena: tese polêmica sobre Frida

Ela foi e queria ser muito mais do que isso. E por essa razão, atraiu sobre si a indignação e o repúdio de homens não preparados para ver (e aguentar) a ascensão de uma mulher líder, atuante e com capacidade de argumentar teologicamente contra eles.

Defendida recentemente, a tese de doutorado de Valéria Vilhena intitulada Um olhar de gênero sobre a trajetória de vida de Frida Maria Strandberg (1891 -1940), é uma importante contribuição para entender quem foi a esposa de Gunnar Vingren e as razões do seu esquecimento durante décadas na história das ADs.


Ultimamente, Valéria têm se tornado conhecida em suas posições polêmicas e por questionar à igualdade de oportunidades e à violência contra as mulheres nas estruturas religiosas. Ou seja, não reza pela cartilha do politicamente correto do mundo evangélico em geral. Sua tese é de uma militante feminista cristã; ainda que para muitos isso seja extremamente contraditório.

Por esse motivo esclarece a autora: "Um dos objetivos deste texto é avaliar, à luz da perspectiva de gênero, a trajetória de Frida, e a pressão que sobre ela foi feita num contexto de dominação masculina que atingiu as demais mulheres assembleianas". A instituição que permitiu a jovem missionária se destacar em meio a tantos líderes, hoje mitificados pela história oficial, também anulou sua vida e ministério.

Com excelente bibliografia e, principalmente, com acesso as cartas trocadas entre os missionários suecos, Vilhena discorre sobre a ascensão e o planejado esquecimento de Frida, um "símbolo da resistência ao sentimento de obsessão de dominação de pastores suecos e pentecostais".


Não é muita leitura fácil para os que estão habituados às hagiografias dos missionários escandinavos. Nas cartas exploradas para a tese, transparece toda a humanidade desse senhores, vultos da ADs e mitos da igreja. Mas é necessário mergulhar nessa face desconhecida da história e compreender, que a história dos mitos assembleianos é carregada de dramas e paixões terrenas.

Para Valéria, Frida não é uma santa, mas sim um ser humano, uma mulher lutando por seu espaço na igreja dentro de um forte contexto social contrário. Como reconheceu seu maior algoz, ela possuía uma "impetuosidade" desafiante para os pastores da época e um desejo enorme de cumprir sua missão no Brasil.


Fontes:

VILHENA, Valéria Cristina.Um olhar de Gênero Sobre a Trajetória de Vida de Frida Maria Strandberg (1891 -1940). Tese (Doutorado em Educação, Artes e História Cultural) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2016.


Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de janeiro de 1941.